quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

cinco livros breves & estranhos para se ler numa tarde

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Indiquei cinco livros para o Nexo:

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Carmen, Prosper Mérimée — Publicada em 1845, esta novela são duas histórias, uma dentro da outra. A que ocupa o miolo do livro (narrada por dom José, um ex-militar de carreira promissora, que desce ao inferno por conta da sua paixão por Carmen) é a que se tornou famosa em filmes, musicais da Broadway, séries de tevê, quadrinhos, comercial de lingerie, canecas, chaveiros, camisetas e na ópera de Bizet. A outra, que serve de moldura à primeira, é narrada por um arqueólogo francês, culto e algo pedante, que erra pela Andaluzia. É na relação entre as duas histórias, entre essas duas vozes, que está o trunfo das 80 páginas estranhas e geniais de Carmen. Dom José se deixará levar pelo mundo fascinante e perigoso da cigana e pagará o preço. A uma distância segura, o outro narrador, anônimo, apenas escutará a história e desfrutará, burguesamente, sem se arriscar, das aventuras do outro. Bom momento: quando dom José sugere que Carmen e ele abandonem a Espanha para “viver honestamente no Novo Mundo”. Carmen ri e diz que “não fomos feitos para plantar couves”.

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La casa de cartón, Martín Adán — Depois de se encontrarem no balcão do bar Cordano, no centro de Lima, em abril de 1960, Allen Ginsberg dedicou um poema a Martín Adán. Em “Para um velho poeta no Peru”, escreveu: “Enquanto minha sombra visitava Lima/ e seu fantasma estava morrendo em Lima”. Desde 1928, quando publicou La casa de cartón, com apenas 28 anos, o fantasma de Adán morre e nasce todos os dias nos malecones da capital peruana. Junto com o argentino Macedonio Fernández, é o mais destemido dos modernistas latino-americanos. La casa de cartón é e não é um romance, parece mais um poema em prosa. Sem trama nem desenlace, formado por 39 fragmentos que se relacionam de forma surpreendente, o livro narra as aventuras de um jovem de 15 anos durante suas férias escolares. Destaque para o trecho em que o narrador faz uma lista com as descrições de seus cinco primeiros amores, que começa com “meu primeiro amor tinha 12 anos e as unhas negras” e termina com uma garota “que cheirava a cachorro molhado, roupa íntima e pão quente”, “uma garota suja com quem pequei quase na noite, quase no mar”.

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Autobiography of red, Anne Carson — Outro livro estranho, em versos, e que a autora canadense chama de romance. Nele, Carson reconta o mito de Gerião, o gigante vermelho morto por Hércules nos Doze Trabalhos. De olho num modelo clássico (um poema escrito pelo grego Estesícoro no século 5 a.C), Carson transforma Gerião num personagem contemporâneo, e o que lemos é a sua autobiografia. Publicado em 1998, o livro acompanha sua infância e adolescência. Gerião é um jovem sensível, que gosta de ler e anda com uma máquina fotográfica a tiracolo. Foi abusado pelo irmão mais velho e é apaixonado por Hércules, que a autora descreve como uma espécie de beatnik alucinado, dirigindo pelas estradas da América do Sul, continente que no livro “brilha feito um abacate”. Entre vulcões, lava e sentimentos profundos, Carson cria uma história de amor como nenhuma outra. Os capítulos finais, passados entre Buenos Aires e Lima, são os mais bonitos.

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Cosmos, Witold Gombrowicz — Este livro é um bom presente. Mas só pode ser dado a alguém capaz de entender a solidão cósmica. Afinal, a vida quer dizer algo ou não faz sentido nenhum? “Vou contar-lhes uma outra aventura ainda mais estranha...”, Gombrowicz abre assim sua novela. Os exames escolares se aproximam e, depois de uma briga familiar jamais explicada, o estudante narrador busca abrigo no campo. Junto com um amigo, se hospedam numa pensão. Vagueiam pelos arredores e, de repente, encontram um pássaro enforcado num arame preso a um galho. Quem o enforcou e por quê? Qual teria sido o motivo? As respostas estarão nas manchas que parecem formar constelações no teto do quarto? A aleatoriedade do universo e a juventude são os temas aqui. Juventude, aliás, grande tema do autor polonês. “Sempre tive inclinações a buscar na juventude, na própria ou na alheia, um refúgio frente aos ‘valores’, ou melhor, frente à cultura”, escreveu. Contra a maturidade presunçosa, o “bom gosto” vazio e a retidão orgulhosa de si, Cosmos faz uma defesa furiosa do imperfeito, do inesperado, do caos e da impossibilidade de entender.

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Noturno indiano, Antonio Tabucchi — Em menos de 80 páginas, uma obra-prima. As frases aqui fazem com que seja possível ouvir os silêncios entre elas. Um narrador procura um amigo desaparecido na Índia — e nenhum tema pode ser melhor do que pessoas que desaparecem. Publicado em 1984 e travestido de narrativa de viagem, este livro é sobre uma longa noite insone. Na verdade, são 12 noites, uma para cada capítulo. Conversas desconexas, hotéis e mais hotéis, guias de turismo, ônibus e trens nas madrugadas, o peso dos sonhos. Como numa história de detetive em miniatura, contada elegantemente em voz baixa, o narrador segue pistas, vai de Bombaim a Madras, de Mangalore a Goa. Sobre Tabucchi, Enrique Vila-Matas escreveu: “admiro nele sua imaginação e também sua capacidade para investigar a realidade e terminar chegando a uma realidade paralela, mais profunda, essa realidade que às vezes acompanha a realidade visível”. A impressão é que por trás do texto há um outro, a que não temos acesso.
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domingo, 25 de novembro de 2018

cartões-postais

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Schneider Carpeggiani sobre Sebastopol, no Suplemento Pernambuco:

Tal qual Sísifo, os personagens dos 3 contos a compor Sebastopol (Alfaguara), de Emilio Fraia, tentam levar o rochedo da vida até o alto da montanha, para depois vê-lo rolar precipício abaixo. Se vivências concretas não fazem sentido, a sobrevivência se ganha a partir de um processo de ficcionalização compulsório, do encontro com possíveis “duplos” e da evocação de fantasmas. Sebastopol é uma obra sobre a criação de artifícios. A sobrevivência como exercício atrelado à criação de artifícios.

Faz todo o sentido, assim, que a cidade russa que nomeia o livro apareça não como acidente geográfico propriamente dito, e, sim, como um fajuto cartão-postal – mas um cartão-postal daqueles que enviamos para nós mesmos, por falta de destinatário ou de viagens reais.

O importante é recriar e assim ir seguindo.

No primeiro conto, uma garota reconta o acidente que sofreu ao tentar ser a esportista mais jovem a escalar o Everest – “porque escalar dá sentido à sua vida, e é disso que no fundo as pessoas precisam, Lena, eu sempre me digo isso, as pessoas precisam acreditar em alguma coisa”, lembra a narradora, Lena, de um conselho ouvido de uma amiga sobre o banal da sua motivação esportiva. O trauma da escalada, no entanto, é ressignificado quando ela assiste ao vídeo de uma artista gringa que parece contar a história da sua tragédia com a precisão do avesso do avesso típica dos espelhos, mas ainda assim sua história. No segundo, o dono de uma pousada decadente no meio do nada procura um hóspede desaparecido, mas o procura sabidamente em vão pelo fundo de uma piscina cheia de lodo que já viveu dias melhores – lembremos que piscinas são o “cartão-postal” das águas, mais um lembrete da coleção de artifícios que o livro se propõe a compilar. No último dos contos, a frustração dos primeiros anos no mercado de trabalho leva uma garota a se aproximar de um diretor de teatro, que divide seu tempo entre espetáculos que jamais irão para frente e o tesão em stalkear desconhecidos pelas ruas, colando neles suas fantasias escapistas. Cada uma dessas ficções recebeu o nome de um mês do ano, começando pelo fim, "Dezembro", passando pela metade, "Maio", e encerrando por algo como um "lugar-nenhum", "Agosto" – o mês que persistimos em acreditar como o dos maus presságios, talvez pela falta de uma definição melhor diante de sua localização "perdida" na divisão precária dos calendários.

Sebastopol é o primeiro livro solo de Fraia, que já havia feito O verão do Chibo (em parceria com Vanessa Barbara), e a graphic novel Campo em branco (com DW Ritbatski). Em sua nova estreia, mostra-se exímio na criação de uma atmosfera de mistério que toma as rédeas da atenção do leitor. O mistério do qual falamos não necessariamente implica resolução de algum caso ou de um grande segredo a ser revelado. Os mistérios aqui são os fios soltos e desconectados, que insistimos em amarrar diante de fatos que nada teriam de especiais por si só. É que precisamos criar uma mística qualquer, para lidar com o banal de corpos que se quebram, de memórias que acreditamos apenas como nossas de tão intensas e do súbito de pessoas que entram na nossa vida e, puf!, se vão.

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Igor Zahir, na revista Bravo!:

Em 2014, quando eu era um jovem jornalista perambulando pelos bares underground de São Paulo, achava que era aquele clima melancólico das noites no Centro que me fazia lembrar de situações (nem sempre agradáveis) que me levaram até ali. Hoje, ainda jornalista, — mas não tão jovem — , me dividindo entre uma cidade de 26 mil habitantes em cima de uma serra e a famosa Caruaru que fica ao lado, a mesma sensação ainda bate com frequência desconfortante. Certos arrependimentos de atitudes do passado; a vontade de ter feito diferente. Memórias que não podem ser desfeitas ou apagadas, e que desenharam meu destino desde a capital paulista, passando pelo período sabático, até o retorno para minha terra natal.

Ao ler Sebastopol, livro que marca a estreia solo de Emilio Fraia (coautor do romance O verão do Chibo, com Vanessa Barbara, e da graphic novel Campo em branco, com DW Ribatski), percebi que os personagens dele passam pela mesma coisa. Cada um em estágio diferente, com sua história pessoal, nos três contos narrados na obra.

No primeiro conto, "Dezembro", Lena almeja se tornar a mais jovem brasileira a “alcançar o cume dos montes mais altos de cada um dos sete continentes”, mas sofre um acidente no Everest. Tendo que lidar com as consequências (físicas e mentais) daquele trauma, ela tenta refazer sua vida. Até que, anos depois, ela dá de cara com um vídeo que reativa todas aquelas cenas, desde muito antes do acidente, até o fatídico dia. Como recomeçar após ter tantas lembranças dolorosas novamente latentes na cabeça?

No segundo conto, "Maio", Nilo é o proprietário de uma pousada rural caindo aos pedaços entre a fértil vegetação da fazenda ao lado; mas a pacata rotina do anfitrião perde o sossego quando um hóspede desaparece após discutir com sua esposa. Passado e presente da vida de ambos se entrelaçam para dar algum sentido ao enredo.

Em "Agosto", o último conto, Nadia deixa o emprego frustrante num museu para ser aprendiz de um dramaturgo aparentemente fracassado. Juntos, eles vão escrever uma peça sobre o pintor Bogdan Trúnov na cidade russa de Sebastopol. Paralelo a isso, Nadia cria uma outra história e faz seus próprios julgamentos sobre sua jornada e a vida de Klaus, o dramaturgo que enxerga possíveis protagonistas em garotos sarados duvidosos.

Nadia é, evidentemente, um retrato de muitas pessoas da sua geração. Vários pontos provocam uma identificação, como a crise existencial num emprego que não tem perspectiva de carreira; a necessidade de fazer algo que tenha um propósito, mesmo que para isso vá ganhar bem menos financeiramente no trabalho com um artista decadente; o escapismo por vezes tão inevitável pra quem vive — ou se refugia — na selva de pedras. Como uma ode à Sampa de Caetano, que fala sobre a dura poesia concreta das esquinas. “E quem vem de outro sonho feliz de cidade, aprende depressa a chamar-te de realidade”.

Entretanto, vale ressaltar o que foi falado no início: os contos de Sebastopol poderiam se passar em qualquer lugar. Na metrópole que cheira a capitalismo. Na zona rural de uma casa em ruínas. Na própria cidade russa que inspirou o nome ao autor. É um livro sobre os traumas da trajetória humana, e como eles influenciam no nosso presente e futuro. Sobre o passado que todos adoraríamos não ter vivido, e como precisamos lidar com ele (muitas vezes com humor e sarcasmo) para dar conta do destino sem entrar em paranoia. E isso, definitivamente, acontece com qualquer pessoa, nos mais diversos cenários do mundo.
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quarta-feira, 14 de novembro de 2018

a lua de sebastopol

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Na Folha de S.Paulo, texto da Fernanda Torres:

Os três contos de Sebastopol, livro de Emilio Fraia lançado pela Alfaguara, contam histórias distintas, unidas, estranhamente, pela mesma sensação de hiato; a promessa de uma vida plena, que se torna insólita, vaga e melancólica. A escaladora que, antes da queda, atinge o topo do mundo; o proprietário rural arruinado que sonhou construir Xangrilá; o diretor de vanguarda que se conformou com o ostracismo; personagens que transitam num limbo chamado presente, cujo passado não lhes pertence mais e o futuro sequer chega a ser ambicionado.

Com uma narrativa impressionista, formada por grandes vazios e fragmentos falhos de memória, Sebastopol traduz a sensação de desencanto, de que algo se perdeu no caminho.

A data do acidente da atleta, mesma da primeira passeata de 2013, dá a pista de que a insidiosa escrita de Fraia aborda, sim, nosso fracasso recente.. Existe uma ligação curiosa entre essa pequena joia literária e O Primeiro Homem, superprodução hollywoodiana sobre a vida de Neil Armstrong, o primeiro astronauta a pisar na Lua.

Assisti ao filme no dia da votação do segundo turno. Exausta da angústia eleitoral, sentei-me na sala de cinema para esquecer. Achei que veria mais uma trama ufanista sobre o triunfo americano, no estilo de Apollo 13 e do superficialíssimo Perdido em Marte. Mas não.

O Primeiro Homem é tão casmurro quanto Sebastopol. Um filme intimista, composto de closes claustrofóbicos e grandes paisagens espaciais.

 Armstrong também vive o seu limbo. Lacônico, o piloto nem se esforça para traduzir em palavras a dor pela perda da filha e o peso da missão impossível imposta pelo destino.

Não há nem gritos nem choros, nem fucks nem fights. A mudez do herói, sua obstinação de engenheiro, a dor de pai -- bem como a solidão da esposa Penélope --, a espera do eterno retorno de Ulisses; tudo se ancora numa atuação sem dós de peito ou ambições de Oscar, vício frequente no cinema americano. O olhar abismado de Gosling para o horizonte curvo da Terra é o mesmo de Claire Foy diante da loucura da vizinha viúva. Seja no espaço sideral ou na vila militar, na cozinha de casa ou na clausura do módulo lunar, o desespero é sempre contido, seco, abafado.

No auge da Guerra Fria e com o mundo em convulsão, o astro da corrida espacial crava a sua pegada na lua graças à capacidade de manter a frieza diante do medo e da morte. A autocontenção é o seu trunfo.

O Primeiro Homem narra a história de um luto. O caráter científico, metódico, americano do herói, transforma em êxito o funeral. O mesmo não ocorre com os brasileiros de Sebastopol. Não há ciência ou método que lhes reparem as perdas, não há sociedade ou cultura capaz de dar ordem ao caos.

Saí do cinema com o novo presidente eleito, sob gritos e rojões de vitória.

Respeito a alegria dos que votaram na crença da retidão e da ética. Temo os meios, mas compreendo o alívio e a raiva. Foi uma escolha consciente, embora envolta em irracionalidade.

Espero que o país se acalme. Que a serenidade de Armstrong sirva de exemplo aos eleitos. Que a sensatez e a moderação que Moro viu em Messias guiem, como que por um milagre do Deus tão presente nessa eleição, a turba atiçada pelo ressentimento, pelo ódio e pelas paixões.

É isso ou a desorientação terminal dos anti-heróis de Sebastopol.
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quarta-feira, 7 de novembro de 2018

uma história esquisita em que não acontece nada

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Na Quatro cinco um deste mês, texto da Marcella Franco:









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Um No mapa, a cidade de Sebastopol se equilibra na ponta de uma península, abraçada pela Ucrânia, Rússia e Crimeia. Tem pouco mais de 300 mil habitantes, e já foi foco de disputa entre soviéticos e alemães nos anos 1940. Agora, Sebastopol dá nome à terceira publicação do escritor paulistano Emilio Fraia, que, pela primeira vez, assina um livro sozinho.

São três partes, com histórias aparentemente independentes e nomeadas com meses do ano. Lena, uma alpinista que sofre um acidente na descida de sua escalada ao Everest, em meados de 2012, é quem abre Sebastopol com “Dezembro”, narrando em primeira pessoa sua relação com o videomaker italiano Gino.

Por ter superado a amputação das pernas, depois de quinze cirurgias e um longo período sem conseguir se olhar no espelho, a atleta se transforma em uma palestrante de sucesso, o que ajuda, de certo modo, a aplacar seu isolamento social – Lena é uma mulher solitária, com poucos amigos, e uma mãe com câncer terminal.

Esta existência segregada parece ser o principal motivo que a leva a entregar não só ela própria, mas também suas valiosas memórias, aos cuidados de Gino, que ganha o poder de usá-las como bem entender. “Fiz o que as pessoas fazem o tempo todo. Contar as histórias, recontá-las, congelá-las, dar sentido a elas”, confessa a si mesma.

Chega “Maio”, e com ele vem Nilo, dono de um sítio onde funcionava uma pousada agora desativada. A exemplo de outros desavisados, o peruano Adán e sua mulher vão parar na propriedade, e, depois do pernoite improvisado, ela parte e ele permanece, estabelecendo uma relação com Nilo. Enquanto de um mal se sabe a história -- em uma tentativa de esquecer o passado, já há anos Nilo escondeu todas as fotografias em uma caixa no porão --, do outro se descobrem nós primitivos que envolvem exílios, sacrifícios e mortes.

É só quando desaparece que Adán, finalmente, ganha acesso às profundezas do amigo -- mas aí já é tarde demais. Enquanto esvazia a água da piscina logo na abertura do conto, o empregado Walter “sacode a cabeça e diz que aquilo não faz o menor sentido”.

“Agosto” é o conto e o mês de Klaus, um diretor de teatro que convida a jovem Nadia para criar uma peça que fala da vida de um famoso pintor russo, morador de uma cidade vizinha a Sebastopol, e que gostava de retratar soldados. A certa altura, enquanto planejam o roteiro do espetáculo, Nadia questiona o autor sobre a decisão de escrever sobre aquela figura.

“Você gosta das pinturas desse cara (...), mas é apenas uma história esquisita em que não acontece nada”, argumenta, enquanto Klaus responde que, no fundo, todas as histórias são esquisitas e também nada acontece. E esta reflexão, sobre o tênue limiar entre a banalidade e o relevante, permeia Sebastopol da primeira à última página, colocando o leitor na posição de advogado da importância dos relatos dos outros e da própria biografia.

Embora até apresentem reviravoltas, os contos de Fraia seguem sempre sem grandes sobressaltos, cultivando uma atmosfera ansiosa, que serve perfeitamente à ideia de envolver, mas sem que para isso sejam necessários quaisquer artifícios exceto o pleno domínio da linguagem e do manejo dos deslocamentos no tempo, bem como de uma cuidadosa narrativa descritiva.

Ao relatar sua vida pregressa, o peruano Adán traça um paralelo entre o papel das ondas como o elemento que serve para sacodir o mar e as tragédias, que vêm para sacodir a vida. Hábil como seu criador, o personagem sabe conduzir mais de uma trama ao mesmo tempo, e, como talvez Fraia também imagine, Adán pensa que “as histórias correm paralelas, sem nunca se encontrar”.

Contudo, ao menos em Sebastopol, as vidas se resvalam, sim, ainda que de modo sutil e quase misterioso. A intersecção pode estar na renúncia do self à qual todos os protagonistas se submetem, ou nas montanhas da escaladora Lena, que, segundo Nilo, são a tentativa humana de estar mais perto dos deuses, algo parecido com o que fazem o teatro e a pintura quando ousam retratar a guerra. Esteja onde estiver o cruzamento, sorte do leitor que se dispuser a galgar o universo de Fraia e tirar sua própria conclusão.
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domingo, 4 de novembro de 2018

nitidez impressionista

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Três leituras de Sebastopol:

“São três narrativas longas que se podem definir pelo paradoxo da ‘nitidez impressionista’: a lembrança fragmentada de um acidente terrível numa escalada do Everest, a busca de um desaparecido numa fazenda decadente e o projeto de uma peça de teatro malograda que une um velho diretor e uma jovem são histórias em que a notação realista precisa serve a um inacabamento de essência; o laço final de sentido sempre nos assombra e sempre nos escapa. Mais ou menos como o Brasil.”

Cristovão Tezza, na Folha

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"São três meses, três contos, três lugares, três ou mais personagens à deriva, três ou mais histórias que precisam ser contadas, três ou mais tempos que se confundem, iluminam-se e perdem-se. ‘Dezembro’ circula entre dois tempos que só na aparência são separados: antes e depois do acidente. A narradora lê a própria história numa história alheia e, para compreender o que há de verdade e de mentira no que vê e naquilo de que lembra, revisita o passado. Se tudo que recordamos, porém, é nublado, como saber qual tempo veio antes, que história foi de fato vivida?. ‘Maio’ insinua uma história, a de Nilo, e em seguida a troca por outra, a de Adán, para, no final, conciliá-las na idêntica tragédia, na idêntica paródia de desfecho incerto e derrota iminente. ‘Agosto’ é costurado pela voz de uma narradora que escreve uma história, participa da escrita de outra e, finalmente, tem que dar conta da vida que vive. Nenhuma escrita ou reescrita a resume e o futuro, tal qual o presente, é um tempo em suspensão. Sebastopol, nome do livro, é uma cidade no mapa, um porto feio, uma miragem, o lugar que deveria nos orientar, mas que não sabemos bem onde fica e qual relação temos ele. É assim com os personagens deste livro. Prosseguem em seus universos íntimos, que aos poucos se desagregam; miram o ponto a que querem chegar, mas, como todo destino, ele é esfumaçado e a memória não oferece maior proteção. Um belo livro, de escrita cuidada e construção delicada."

Julio Pimentel Pinto, Paisagens da crítica

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"A narradora de 'Agosto', último conto deste Sebastopol, está ajudando um diretor decadente a montar uma peça de teatro. Explicando o contexto de existência de Trúnov, pintor russo e objeto da peça, Klaus diz a ela que Sebastopol é um porto no Mar Negro, que por sua vez é como se fosse o ralo do mundo. Olhando numa espécie de quadro geral, talvez seja a melhor imagem para definir o novo livro de Emilio Fraia: escrever os ralos do mundo. Misturando realidade e ficção enquanto recorre a uma narrativa que acolhe, envolve e aperta, porém sem nunca deixar o leitor de fato ir, Emilio Fraia construiu em Sebastopol uma série de fotogramas literários. Como numa filmagem de velocidades distintas, os focos vão se alternando em fluxos nada aleatórios que amplificam zonas de desconforto. A impressão é que Sebastopol dialoga com as frestas. Sejam os travestis do Arouche ou os xerpas nos acampamentos nevados, esquadrinhar o mundo invisível a partir de protagonistas lacônicos é um trunfo. Aqui, ação quase sempre dá lugar à lentidão de personagens maleáveis que se potencializam no contexto em que estão inseridos. Lena, narradora de 'Dezembro', perdeu as pernas num acidente. Sua história se sobrepõe a um vídeo que revela mais do que deveria. Nilo, em 'Maio', está buscando Adán numa piscina no centro-oeste brasileiro. Desaparecido, o estrangeiro assume controle da história e eclipsa a dureza esperada no habitual homens-duros-fazendo-tarefas-duras. Por fim, a Nadia de 'Agosto' embarca numa jornada de autoconhecimento pelas fronteiras de São Paulo. Variando de intensidade, estas três histórias se cruzam no limite da experiência – física e intelectual – daquilo que é ser humano, quase como Fraia puxando o leitor e dizendo: não se preocupe, a coleira está comigo, eles não vão muito longe. Diante da impossibilidade de ajudar quem está condenado a somente existir, resta passear pelas páginas e aproveitar – ainda se fazem bons livros."

Mateus Baldi, Resenha de bolso
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sábado, 3 de novembro de 2018

dormir por anos, acordar de repente

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No Estado, texto da Maria Fernanda Rodrigues + quatro perguntas:







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Um livro de personagens em situações difíceis, de forasteiros, de gente deslocada e de terras estrangeiras e estranhas. Assim Emilio Fraia define Sebastopol, seu terceiro livro – e o primeiro que escreve sozinho – com lançamento nesta terça, 23.

Fraia estreou na literatura em 2008 com O Verão do Chibo, escrito com Vanessa Barbara. Pouco depois, em 2012, ele figurou na Granta – Os 20 Melhores Jovens Autores Brasileiros. Um ano mais tarde, lançou Campo em Branco, graphic novel assinada com DW Ribatski.

Sebastopol traz três contos independentes, mas com temas em comum. "Dezembro" é narrado por Lena, que queria se tornar a mais jovem mulher brasileira a “alcançar o cume dos montes mais altos de cada um dos sete continentes”, ela nos conta. Algo, claro, dá errado. "Maio" é narrado em terceira pessoa e retrata o encontro e o desencontro entre Nilo, dono de uma pousada desativada, e Adán, que pede abrigo no local. "Agosto" volta a ser narrado por uma mulher, Nadia, que deixa o emprego num museu para ajudar um dramaturgo decadente a escrever uma peça sobre um pintor russo enquanto ela mesma tenta escrever uma história.

São personagens às voltas com traumas, tentando dar conta da vida, recordando histórias que preferiam esquecer – que preferiam não ter vivido. Dor física e psíquica, o não dito, o que não está mais lá. “Este é um dos grandes temas: lidar com o invisível. O Roberto Piva dizia, citando o Lorca, que ele era um pulso ferido sondando as coisas do outro lado. Acho uma boa definição para a literatura”, diz Fraia.

Outra questão, comenta o autor, tem a ver com o jeito que contamos as histórias das nossas vidas – para nós mesmos e para os outros. “E como estas histórias tomam o lugar do acontecido, fazendo com que as fronteiras entre o que aconteceu e o que se conta fiquem borradas e, no limite, desapareçam.”

E há também, ressalta, uma desfiguração do tempo nas histórias. “Porque o trauma é uma espécie de tempo que não passa. Não existe um antes e depois. Há um clima melancólico, de falta de esperança, de histórias interrompidas e deixadas pelo caminho. Alguns episódios são apenas aludidos, e os personagens parecem ter dormido por anos e acordado de repente. Algo meio história de terror ou de uma aventura que não se realiza”, comenta.

Sebastopol, o título do livro, remete à maior cidade da Crimeia, palco de um dos mais sangrentos episódios da Guerra da Crimeia no século 19 e anexada à Rússia em 2014, que aparece como um postal no terceiro conto. É um nome estranho que combina com o livro, diz Fraia, que cita ainda obra de Tolstoi. “Contos de Sebastopol narra três momentos distintos desta guerra. Tolstoi esteve lá, viu tudo de perto. Uma história de gente mutilada e de resistência e, de certa forma, isso tem a ver com o livro – e com um sentimento que estamos experimentando agora no Brasil.”

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Como surgiram os contos do livro? O livro surgiu de uma vontade de escrever histórias que funcionassem por si só, cada uma com seu universo, mas que ao mesmo tempo quando colocadas lado a lado pudessem estar conectadas por relações sutis, por um andamento comum. Como se para além da voz da narração de cada um dos contos houvesse uma outra subjetividade, difusa, pairando sobre tudo, e isso criasse um efeito. Uma sensação de diferença (afinal, as histórias são independentes), mas também de proximidade (temas que voltam, um tom comum). Queria que o leitor chegasse ao final e pudesse repassar as histórias em busca destes pontos de contato. Por exemplo: no livro, há sempre alguém que conta, imagina, recorda. E a história contada, imaginada, inventada toma a frente e acaba funcionando como uma espécie de comentário à história principal -- e ao livro também. São histórias simples que começam a ficar complexas.

Por que Sebastopol? É um nome estranho, que combina com o livro. Eu nunca fui a esta cidade, nunca estive na Rússia -- também nunca fui ao Everest, que é onde se passa parte da primeira história. Sebastopol aparece como uma cidade num mapa, uma representação, como um lugar num daqueles jogos de tabuleiro tipo War. As montanhas do Everest surgem quase como um cenário de isopor e papelão. Tudo bastante artificial. Tem algo de irônico nessa escolha também, há muitos livros com nomes de cidades, Berlim, do Joseph Roth, Austerlitz, do Sebald, Budapeste, do Chico Buarque. Sebastopol é uma cidade portuária do Mar Negro, a maior da península da Crimeia. É uma cidade meio híbrida, ucraniana, que em 2014 foi anexada à Rússia. Foi palco na metade do século dezenove de um dos episódios mais sangrentos da Guerra da Crimeia. O primeiro livro do Tolstói, Contos de Sebastopol, narra três momentos desta guerra. O Tolstói esteve lá, viu tudo de perto. É uma história de gente mutilada, de resistência e, de certa forma, isso tem a ver com o livro -- e com um sentimento que estamos experimentando agora no Brasil.

Gino dizia que o que o interessava em suas filmagens era encontrar maneiras novas de mostrar o de sempre. Isso diz respeito também à literatura? Sim, mas a narradora está apaixonada por Gino, então qualquer frase que ele diga soa como algo muito sério e verdadeiro. Ele é uma figura meio pedante, dono de uma produtora, com aspirações artísticas. E a narradora está presa a este cara. Então acho que é verdade e mentira que precisamos encontrar maneiras novas de mostrar o de sempre. Penso nisso também como uma reflexão sobre algumas verdades que volta e meia surgem: é preciso escrever sem muitos advérbios, adjetivos são ruins, não se pode escrever de maneira bonita, é preciso encontrar maneiras novas de contar o de sempre. Tudo verdade. Tudo mentira.

Nadia diz que as pessoas contam sempre as mesmas histórias, mesmo quando tentam contar outras histórias. Adán, que contamos e repetimos as histórias porque temos medo delas, porque este é o nosso pedido de ajuda. Você concorda? Que história é essa que você está tentando contar? Nadia é a personagem mais jovem do livro. Ela está ajudando um diretor de teatro mais velho e meio decadente a escrever uma peça de teatro e ao mesmo tempo tentando escrever uma história dela e, finalmente, precisando dar conta da própria vida -- ela terminou um namoro, isso só se insinua na trama, mas ao mesmo tempo parece estar em tudo o que ela faz. No outro conto, Adán conta a Nilo sua história, seu passado como motorista de táxi em Lima, sua relação com o pai e com o filho. É uma história que ele não gosta de lembrar, mas parece que precisa contar e lembrar. Acho que uma possível questão do livro pode ter a ver com o jeito que contamos as histórias das nossas vidas -- para nós mesmos e para os outros. E como estas histórias tomam o lugar do acontecido, fazendo com que as fronteiras entre o que aconteceu e o que se conta fiquem borradas e, no limite, desapareçam.
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segunda-feira, 29 de outubro de 2018

velhos esqueletos

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Texto na revista Época da semana











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Na parte da cidade aonde não podíamos ir, descobriram o esqueleto do governador Geraldo Alckmin.

Isso foi o que ouvimos falar, o que se espalhou. Nenhum de nós pisava na zona proibida. Éramos muitos, e todos os dias, se corrêssemos feito almas penadas pela avenida dos Índios Mortos, chegávamos na hora da distribuição de comida e água.

Depois da guerra que se seguiu ao Dia da Revolução, o chamado Dia da Revolução, fomos divididos. O satélite de gerenciamento de batalhas cruza o céu. A guerra se arrasta há anos. Há um sentimento de que está emperrada, esgotada. Alguns acreditam que a guerra acabou, só decidiram nos manter ligados a ela através dos informes que não param de chegar. Outros, os Homens do Esgoto, falam baixo, pelos cantos, que a guerra na verdade nunca existiu, a não ser para nós, que ficamos presos aqui.

Na parte proibida, os que encontraram o esqueleto disseram que parecia ter sido mastigado. Clandestinamente, contrabandearam um osso, um osso do tornozelo do governador Geraldo Alckmin. Passamos de mão em mão. Era de um branco tão branco, uma cor que não existia; tínhamos certeza de que se tornaria escuro em minutos, porque os nossos dedos tremiam, eram sujos e mansos, como o rio Real, no interior do Piauí, forte Estado da Nação Soberana – repetir todos os dias, com a mão em riste na altura do peito.

O que nos contaram, a informação que nos foi levada nas sombras, é que havia um grupo que foi dizimado. Dele, fazia parte o governador Geraldo Alckmin. Pessoas que outrora tomavam banhos longuíssimos nas banheiras de louça chinesa de suas casas antigas do bairro alto. Homens que seguiam as regras. Sorrateiros, não havia nada fora das regras. Mas, nós ouvimos falar, as regras haviam sido também inventadas por eles. Quando tudo veio à tona, a raiva cresceu. Foi canalizada pela Nova Ordem, que prometeu louvar Deus e a Nação acima de todas as coisas, reestabelecer a ordem e, principalmente, atirar para matar.

É por isso que estamos aqui agora, de um lado para o outro, pela avenida dos Índios Mortos, atrás de água e comida. Ainda não entendemos muito bem. O governador Geraldo Alckmin – dizem os que viram seu esqueleto –, ele não esteve do nosso lado. Nem quando mais precisamos. Ficou em silêncio. Ele poderia nos salvar? Enxergaria o rio da história o governador Geraldo Alckmin? Não sabemos. No fim, acabou como um montículo de ossos à beira do caminho. Ele e seu grupo. Acabaremos todos, é verdade. Mas poderia ter sido diferente? Os Homens do Esgoto, contempladores do fogo e das estrelas, repetem em surdina: acabaremos todos.

Espirais de tempestades, oceanos brilhantes, caldeiras vulcânicas, fótons, mésons. Olhamos as nuvens se formando, partículas carregadas. Examinamos nosso kit de mapas. As emoções mudaram. Nossa visão está mudando neste exato momento, e projetamos nosso fracasso e desespero. Será que projetamos nosso desespero de agora na madrugada infinita?

Esta noite, dormiremos abraçados ao esqueleto do governador Geraldo Alckmin. Nos sonhos, receberemos sua alma. Ela é doce e vem trazer a notícia de que na América Latina mais um general maquina um golpe. Quando acordarmos, um de nós tomará nas mãos uma pedra e com ela quebrará o osso do tornozelo do governador Geraldo Alckmin. O osso será espatifado. Ficará apenas o pó branco grudado na terra suja. Estávamos em busca de comida, vamos dizer. Dentro do osso, pode haver alguma coisa, afinal. Água, talvez. Mas não haverá nada.

Viramos as chaves. Fazemos a contagem regressiva. No alto-falante, uma voz diz: Agora vocês estão em modo de disparo. Ficamos esperando. Nenhuma outra ordem é dada. Acabamos cansados. Sob a pele da treva, nada cresce, dizem as vozes sorrateiras, todas elas, esta noite, penduradas no esqueleto do governador Geraldo Alckmin.
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quinta-feira, 25 de outubro de 2018

tempo que não passa

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Na Folha de S.Paulo, texto do João Perassolo:







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“Percebi que Klaus era uma pessoa sozinha. Ele não tinha dinheiro nem amigos e não podia contar com muita gente. Dizia que um dia ainda seria morto por um michê. Falava que, como eu gostava de escrever, então agora eu teria uma missão: a de escrever o seu obituário quando ele morresse”, relata Nadia, a certa altura do conto “Agosto”.

Ela é uma das personagens levemente tristes de Sebastopol, livro de contos de Emilio Fraia que será lançado nesta terça (23), na livraria Tapera Taperá, em São Paulo.

Nadia é uma arte-educadora que acaba de pedir demissão do museu no qual trabalhava para se dedicar ao teatro e à sua paixão por escrever; Klaus, um diretor de teatro sessentão com “um aspecto de penúria geral”, informa o narrador da história. No decorrer das páginas, o encontro dos dois vai gerar uma peça de teatro sobre um pintor que retratava os soldados da batalha de Sebastopol, na Rússia, em situações melancólicas: nos intervalos dos combates e em momentos de ócio.

“O livro tem uma leve melancolia, um humor trágico, embora não seja dramático. É como o riso que você dá em situações tristes”, compara Fraia. Para o escritor, Sebastopol é sobre “como contamos as nossas histórias para a gente e para os outros”.

Nos três contos que compõem o terceiro livro do paulistano — sua estreia solo após o romance O verão do Chibo, em coautoria com Vanessa Barbara, e da graphic novel Campo em branco, em colaboração com DW Ribatski —, a narrativa está sempre associada a tragédias pessoais dos personagens.

No primeiro conto, “Dezembro”, uma jovem escaladora tenta reconstruir a vida após perder as pernas na descida do monte Everest.

No segundo, “Maio”, o proprietário de uma pousada decadente à beira da estrada vê seu negócio ameaçado pela próspera plantação de eucaliptos situada na propriedade vizinha. No último, “Agosto”, a peça de teatro de Nadia e Klaus é repleta de atuações ruins e acaba sendo um fracasso de público.

O autor usa o conceito de trauma para descrever os personagens do livro, que ruminam sobre como suas atitudes passadas os trouxeram até um presente relativamente morto, não promissor. “É um tempo que não passa, não existe antes e depois”, afirma Fraia.

Há também mais um elemento que interliga as histórias: o andamento.

O narrador parece ser o mesmo em todos os contos, imprimindo um ritmo comum a três narrativas completamente diferentes. As frases são sóbrias e quase sempre curtas, sem malabarismos de sintaxe ou vocabulário complicado; os diálogos estão inseridos no texto, e não destacados por aspas, emprestando fluidez à leitura.

Fraia, eleito um dos melhores jovens autores brasileiros pela revista Granta, em 2012, conta que a ideia para Sebastopol surgiu há dez anos, mas que só colocou as palavras no papel nos últimos dois. O período de escrita coincidiu com o cenário de crise política e econômica no Brasil, mas, apesar disso, ele diz que inserir o “real” de forma direta nas suas histórias não estava necessariamente nos planos. Ele vê sua literatura “não como um espelho, mas sim como um comentário” do mundo lá fora.
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quarta-feira, 24 de outubro de 2018

histórias dentro de histórias

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Embora apresentem enredos totalmente distintos, os três contos que constituem Sebastopol, de Emilio Fraia, estabelecem um sentido de unidade através da maneira como são estruturados. Em seu primeiro livro solo (Fraia já publicou o romance O verão do Chibo, escrito com Vanessa Barbara, e a HQ Campo em branco, ilustrada por DW Ribatski), o autor paulistano articula sua escrita a partir de níveis e desníveis, alternando linhas narrativas e temporais, de modo que a forma breve adquira o aspecto e a densidade do romance.

É uma técnica que demanda domínio e criatividade, e Fraia se sai muito bem, por trabalhar em duas frentes: a manutenção permanente da tensão e a mecânica do mistério. Seus textos guardam segredos que, diante de um andamento compassado, de frases precisas e bem ordenadas, surgem com alto poder de surpresa, em função de estarem em camadas profundas, feito histórias que se encontram dentro de histórias.

O primeiro conto, “Dezembro”, é narrado por Lena, uma alpinista cujo projeto era ser a brasileira mais jovem a chegar ao topo dos montes mais altos do planeta, até se acidentar na subida do Everest. Anos depois, ela se depara com um vídeo exibido numa exposição que parece contar sua história, e é arremessada de volta ao passado. Um período que envolve não apenas seus dias de escalada, mas toda uma construção afetiva e identitária que parecia apagada.

A tessitura se conforma no entrelaçamento de fios de memórias, que vão conduzir a personagem a repassar momentos que não tem certeza se viveu ou se foram sacados involuntariamente do filme, no trânsito por um terreno movediço que pode resultar em (auto)descobertas dolorosas ou conceder uma ilusão reconfortante.

Fraia lança mão de uma ambiguidade que ativa possibilidades discursivas, movimentos de fala nos quais seus narradores avançam por caminhos que, supostamente, parecem sem saída, mas que são acessos secretos para desvendar suas relações interpessoais e com o próprio mundo. Não é raro também servirem para introduzir e acompanhar outros agentes da trama, saindo do que era considerado o eixo central para, adiante, retomar esse mesmo ponto e redirecioná-lo.

É o caso de “Maio”, o segundo conto, ambientado numa decadente pousada rural, na qual Nilo, o dono, e um empregado esvaziam uma piscina à procura de um cadáver. À medida que a narrativa recua, sabe-se que um casal se hospedou ali faz pouco tempo. Que a mulher foi embora e o homem ficou, até sumir.

O enigma é posto, a princípio, como um elemento de conjunção entre presente e passado, para, aos poucos, tomar as rédeas do texto e transformar a história inicial, que deveria se desenhar nos desdobramentos do caso, na contemplação desse homem desaparecido, suas escolhas, uma biografia quase acidental.

O autor traz esse mesmo mecanismo para o último conto, “Agosto”, no qual uma aprendiz e um fracassado diretor de teatro se unem para escrever uma peça passada durante o cerco à cidade russa de Sebastopol, nos anos 1800, tendo como protagonista o pintor Bogdan Trúnov. Três linhas narrativas se cruzam: a história em curso, a biografia de Trúnov e os acontecimentos da peça. Embora seja o conto mais fechado em si, é aquele que ilustra o conceito do livro de se engendrar por meio de uma multiplicidade de segmentos que se confluem quando uma experiência decisiva muda a visão de mundo de um personagem.

Dos argumentos usados para depreciar o conto, há aquele de que o gênero não tem a mesma força do romance. Sebastopol desmonta esse equívoco, ao dar forma a narrativas que conseguem oferecer um intenso grau de imersão e alcançar a propriedade magnética inerentes às grandes obras romanescas.
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segunda-feira, 8 de outubro de 2018

este mês

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Lançamento em São Paulo, dia 23 de outubro, a partir das 19h30.
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sábado, 29 de setembro de 2018

eu direi as palavras mais terríveis esta noite

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"Esse é tempo de partido,/ tempo de homens partidos./ Em vão percorremos volumes,/ viajamos e nos colorimos./ A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua./ Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos./ As leis não bastam. Os lírios não nascem/ da lei. Meu nome é tumulto, e escreve-se/ na pedra./ Visito os fatos, não te encontro./ Onde te ocultas, precária síntese,/ penhor de meu sono, luz/ dormindo acesa na varanda?/ Miúdas certezas de empréstimos, nenhum beijo/ sobe ao ombro para contar-me/ a cidade dos homens completos./ Calo-me, espero, decifro./ As coisas talvez melhorem./ São tão fortes as coisas!/ Mas eu não sou as coisas e me revolto./ Tenho palavras em mim buscando canal,/ são roucas e duras,/ irritadas, enérgicas,/ comprimidas há tanto tempo,/ perderam o sentido, apenas querem explodir./ Esse é tempo de divisas,/ tempo de gente cortada./ De mãos viajando sem braços,/ obscenos gestos avulsos./ Mudou-se a rua da infância./ E o vestido vermelho/ vermelho/ cobre a nudez do amor,/ ao relento, no vale./ Símbolos obscuros se multiplicam./ Guerra, verdade, flores?/ Dos laboratórios platônicos mobilizados/ vem um sopro que cresta as faces/ e dissipa, na praia, as palavras./ A escuridão estende-se mas não elimina/ o sucedâneo da estrela nas mãos./ Certas partes de nós como brilham! São unhas,/ anéis, pérolas, cigarros, lanternas,/ são partes mais íntimas,/ e pulsação, o ofego,/ e o ar da noite é o estritamente necessário/ para continuar, e continuamos." 

"Nosso Tempo", Drummond, A rosa do povo, 1945

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"Eu direi as palavras mais terríveis esta noite/ enquanto os ponteiros se dissolvem/ contra o meu poder/ contra o meu amor/ no sobressalto da minha mente/ meus olhos dançam/ no alto da Lapa os mosquitos me sufocam/ que me importa saber se as mulheres são/ férteis se Deus caiu no mar se/ Kierkegaard pede socorro numa montanha/ da Dinamarca?/ os telefones gritam/ isoladas criaturas caem no nada/ os órgãos de carne falam morte/ morte doce carnaval de rua do/ fim do mundo/ eu não quero elegias mas sim os lírios/ de ferro dos recintos/ há uma epopéia nas roupas penduradas contra/ o céu cinza/ e os luminosos me fitam do espaço alucinado/ quantos lindos garotos eu não vi sob esta luz?/ eu urrava meio louco meio estarrado meio fendido/ narcóticos santos ó gato azul da minha mente!/ eu não posso deter nunca mais meus Delírios/ Oh Antonin Artaud/ Oh Garcia Lorca/ com seus olhos de aborto reduzidos/ a retratos/ almas/ almas/ como icebergs/ como velas/ como manequins mecânicos/ e o clímax fraudulento dos sanduíches almoços/ sorvetes controles ansiedades/ eu preciso cortar os cabelos da minha alma/ eu preciso tomar colheradas de/ Morte Absoluta/ eu não enxergo mais nada/ meu crânio diz que estou embriagado/ suplícios genuflexões neuroses/ psicanalistas espetando meu pobre/ esqueleto em férias/ eu apertava uma árvore contra meu peito/ como se fosse um anjo/ meus amores começam crescer/ passam cadillacs sem sangue os helicópteros/ mugem/ minha alma minha canção bolsos abertos/ da minha mente/ eu sou uma alucinação na ponta de teus olhos."

"Meteoro", Roberto Piva, Paranoia, 1963
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quarta-feira, 12 de setembro de 2018

conto russo

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Livro novo, em outubro, capa da Elaine Ramos.
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sábado, 8 de setembro de 2018

um, dois, três

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Jeff WallPicture for Women, 1979
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domingo, 19 de agosto de 2018

porque algo nos passou

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Uma mulher está
deitada
na rede lendo um livro
na verdade, os olhos dela
pairam em algum lugar
à frente, acima, fora do livro

ela estava lendo até
bem pouco tempo atrás e
agora provavelmente
reflete
sobre o que leu,
isso acontece com frequência,
eu digo, estamos lendo
e então desviamos os olhos
para além da página,
porque algo nos passou

ou porque lembramos
de algo que aconteceu
conosco,
ou nos comparamos
à heroína e pensamos
no ar misterioso
do personagem que pegou
o trem para Girona,
ou no porquê de o homem que
atravessa as piscinas
ter aceitado mais um drinque

mas o que a impressionava
não era por exemplo
que alguém fosse morto
mas que no momento da morte
estivesse tentando
acender um cigarro
e que este cigarro
lhe escapasse por entre os dedos
e que a última coisa
no mundo
em que estivesse pensando
fosse na morte

é por isso que
de tempos em tempos nós vamos
e ela desvia para fora do livro
a comparação entre
o rosto
e a cara de uma estátua
que dorme de olhos fechados
debaixo da chuva
é mesmo uma coisa maluca,
ela diz, e agora quer
ir até o fim.

Poema sobre livro para o "Livro Livro", da Feira Plana,
organizado pela Bia Bittencourt, 2017
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terça-feira, 10 de julho de 2018

repetir & repetir

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"Viemos ao mundo para repetir o que aqueles que nos antecederam também repetiram. Houve avanços técnicos, pretensamente importantes, mas no quesito humano continuamos idênticos, com os mesmos defeitos e problemas. Imitamos, sem saber, o que aqueles que nos precederam tentaram fazer. São apenas tentativas e bem poucas realizações, as quais, ainda por cima, quando ocorrem são sempre de segunda linha.

Fala-se de novas gerações, a cada dez ou quinze anos, mas quando se analisam essas gerações, que à primeira vista parecem diferentes, vemos que apenas repetem que é urgente e necessário suprimir a precedente e, por via das dúvidas, também a que precedeu a precedente, que em sua época, aliás, tentou apagar a que por sua vez a precedia. É estranho, nenhuma geração quer se colocar às margens do Grande Caminho, mas apenas no centro ocupado pela anterior. Devem pensar que fora disso não há nada, e pensar assim os leva a imitar e a repetir a aventura daqueles que no início desprezavam. E assim por diante, não há uma só geração que tenha se situado à margem, que tenha dito: isso não é pra nós, fiquem aí. Os jovens chegam e logo, da noite para o dia, desaparecem sigilosamente, já velhos. Quando fogem do mundo, se afundam, e afundam as próprias lembranças, e morrem, ou morrem e afundam suas lembranças, já mortos desde que nasceram. Nisso não há exceção à regra, nisso todos se imitam. Como diz um epitáfio numa tumba do cemitério da Cornualha: 'Vamos todos morrer?/ Todos vamos morrer./ Todos morrer vamos./ Morrer vamos todos'."

 Enrique Vila-Matas, Mac e seu contratempo, 2017
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quarta-feira, 11 de abril de 2018

quando ganhou a bolsa guggenheim

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Quando ganhou a bolsa Guggenheim
para escrever O romance luminoso
Mario Levrero começou escrevendo
"O diário da bolsa"
para não escrever O romance luminoso
Isso é falar da morte?
Um diário de quinhentas páginas
datado com dia e hora
te leva pela mão através das linhas do caderno
de um homem que não queria narrar
só queria nos dar minuto a minuto
o ritmo obsessivo de uma rotina
o estribilho que encerra um poema
de quinhentas páginas
Escuta?
Diário, autobiografia, blog, narrativa em primeira pessoa
ou como se queira chamar este caderno êxtimo
que a morte do autor transformou em livro.
É um romance? O protagonista é
igual ao narrador que é igual ao autor que é igual
a um homem cheio de manias como qualquer outro?
Tomar pouco banho comer mal não escrever não escrever
que a narrativa não conte
que a poesia conte sem contar
("não querer saber de nada disso", Lacan chamou este
bastião da neurose).
O que ilumina o livro levreriano é
a luz que através de uma radiografia
desperta a intimidade do esqueleto
um hieróglifo que os médicos fingem ler
para depois fingir que sabem
falar da morte.

O diário da bolsa tinha o romance luminoso
dentro desdenhoso imperturbável
esse boneco humano que suporta
os rigores da literatura nos obriga
a por em dia nossos próprios hábitos
se ele não toma banho temos que checar
quando nós tomamos banho
se ele ama pudoradamente temos que revisar
as exíguas consequências de nossos próprios amores
porque não vale inventar
novelar não vale
anuncia o anagrama de carne e osso
o que trago comigo nu para vocês
é um cadáver aberto em quinhentas páginas
e sua autópsia indica um final:
M.L. morreu em 30 de agosto de 2004
e logo depois foi publicado
um livro escrito por ele para depois
Isso é falar da morte?

A pergunta me deprime.
O que tenho a ver com a vida de Levrero
por que tenho que me perguntar se ele sabia
que estava escrevendo um livro póstumo.
E Perlongher? E Viel? E Alejandra?
Vallejo liquidou o assunto logo de cara
"César Vallejo morreu", escreveu
e não era nenhuma piada de humor negro
nem um exercício vanguardista
para desmascarar o mal
a banalidade do tempo.
Falava Vallejo da morte?
Já não sei.

Conclusão: entre a dor e a alegria
de estar viva
escrever poesia para mim
é dar e receber uma promessa
de sobrevivência
há risco mas também há
um verso que se encavala no outro
se vão de mãos dadas contam algo?
Não sei mas te garanto
que com toda a alma querem seguir contando
para que amanhã se me sobrar tempo
eu possa passar a limpo o meu caderno
e te escrever por exemplo um ensaio chamado
O romance da poesia
Será que isso é falar da morte?
Você saberá...

"Quando ganhou a bolsa Guggenheim", Tamara Kamenszain, 2011
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segunda-feira, 19 de março de 2018

uma explosão de energia passageira

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"Do lado de fora, uma coruja piou.
Tive consciência do odor que vinha do nosso terno: linho, suor, cevada.
Eu tinha pensado em não voltar aqui.
Assim pensou o sr. Lincoln.
No entanto, aqui estou.
Um último olhar.
E se acocorou diante da caixa de doente.
Seu rostinho de novo. As mãozinhas. Aqui estão. Para sempre. Assim mesmo. Nenhum sorriso. Nunca mais. A boca formando uma linha estreita. Ele não parece estar dormindo. Dormia de boca aberta e seu rosto exibia muitas expressões quando sonhava, além de às vezes murmurar palavras sem nexo.
Então ocorreu algo notável: o sr. Lincoln tentou fazer com que a forma doente se levantasse. Silenciou sua mente e a abriu para o que quer que existisse e ele não conhecesse pudesse fazer a forma doente se levantar.
Sentindo-se um tolo, não acreditando de fato que tal coisa fosse mesmo…
Seja como for, é um mundo complexo, e tudo pode acontecer.
Contemplou a forma doente. Concentrando-se num dedo da mão, esperando pelo menor…
Por favor por favor por favor.
Mas nada.
Isso é superstição.
Não adianta.
(Meu senhor, trate de recobrar o bom senso.)
Errei ao vê-lo como algo fixo e estável, acreditando que o teria para sempre. Ele nunca foi fixo nem estável, e sim uma explosão de energia passageira, temporária. Eu deveria ter sabido disso. Ele não tinha uma aparência ao nascer, outra aos quatro anos, mais uma aos sete, e mudou inteiramente aos nove? Nunca permaneceu o mesmo, mudava de um instante para o outro.
Veio do nada. Tomou forma, foi amado, sempre destinado a voltar ao nada.
Só não pensei que seria tão cedo.
Ou que iria antes de nós. 
Dois seres passageiros e temporários desenvolveram sentimentos mútuos.
Dois rolos de fumaça se mesclaram.
Acreditei na solidez dele, e agora devo pagar.
Não sou estável, Mary não é estável, mesmo os prédios e monumentos não são estáveis, como não é a cidade e o mundo inteiro. Tudo se altera, está se alterando neste momento.
(Sente-se mais consolado?)
Não.
(Está na hora.
De ir.)
Fiquei tão distraído com a intensidade das reflexões do sr. Lincoln que me esqueci totalmente do meu propósito.
Mas então me lembrei.
Fique, pensei. É imperativo que o senhor fique. Diga a Manders que volte sozinho. Sente‑se no chão, fique confortável e vamos fazer o menino entrar no senhor. Quem sabe que efeito positivo pode resultar deste encontro que os dois desejam tão ardentemente?
Forneci então as imagens mentais mais precisas que pude gerar sobre a permanência dele: sentado; contente por sentar; sentado com conforto, encontrando a paz ao permanecer ali etc. etc. 
Hora de ir.
Pensou o sr. Lincoln.
Erguendo-se ligeiramente, como que se preparando para partir.
Enquanto ele aprendia a andar, eu me abaixava, o punha no colo e secava suas lágrimas com beijos. Quando ninguém estava brincando com ele, eu chegava com uma maçã e a cortava. Para nós dois. 
Isso resolvia tudo.
Isso e seu jeito natural.
Logo ele começava a dar ordens e liderar.
E agora vou abandoná-lo, sem quem o ajude, neste lugar horrível?
(Você está se iludindo. Ele não está ao alcance de sua ajuda. O velho sr. Grasse em Sangamon visitou o túmulo de sua mulher por quarenta dias seguidos. No início pareceu admirável, mas não demorou fazíamos piadas sobre ele, e sua loja foi à falência.)
Por isso, está resolvido:
Resolvido: precisamos, agora precisamos…
(Obrigue-se a pensar sobre essas coisas, por mais duras que sejam, pois elas o levarão a fazer o que você sabe ser o certo. Olhe.
Olhe para baixo.
Para ele.
Para aquilo.
De que se trata? Pergunte‑se com sinceridade.
É ele?)
Não é.
(É o quê?)
Isto é o que o carregava de um lado para outro. A essência (o que era carregado, o que amávamos) se foi. Embora isto fosse parte daquilo que amávamos (amávamos a aparência dele, a combinação da centelha e do portador, assim como seu jeito de caminhar, pular, rir e fazer palhaçadas), isto, isto aqui, é a parte menor daquele mecanismo tão amado. Sem a centelha, isto, isto que jaz aqui, é meramente…
(Pense. Vá em frente. Permita-se pensar aquela palavra.)
Prefiro não.
(É verdade. Vai ajudar.)
Não preciso pronunciá-la, senti-la, agir sob o efeito dela.
(Não é correto fazer disto um fetiche.)
Vou embora, estou indo, não preciso ser mais convencido.
(Mesmo assim, fale, para ser sincero. Pronuncie a palavra que está crescendo dentro de você.)
Ah, meu pequeno companheiro.
(Sem aquela centelha. O que jaz aqui é apenas…
Diga.)
Carne.
Uma infeliz…
Uma conclusão muito infeliz.
Tentei de novo, esforçando-me ao máximo:
Fique, supliquei. Ele não está fora do alcance de sua ajuda. Não mesmo. O senhor ainda pode lhe fazer um grande bem. Na verdade, pode ajudá-lo mais agora do que jamais pôde fazê-lo naquele lugar anterior.
Porque a eternidade dele se encontra em jogo, meu senhor. Se ele permanecer, o sofrimento que o possuirá será muito além do que o senhor é capaz de imaginar.
Portanto, demore-se um pouco mais, não saia correndo, fique sentado por alguns minutos, ponha‑se à vontade, dê tempo ao tempo, acomode-se e sinta-se contente.
Suplico que faça isso.
Pensei que isso ajudaria. Não ajuda. Não preciso voltar a ver isto. Quando precisar ver meu Willie, o farei no coração. Como é o certo. Lá ele ainda está intacto, completo. Se eu pudesse conversar com ele, sei que Willie aprovaria; ele me diria que está certo que eu vá e não volte mais. Era um espírito tão nobre! O coração dele amava a bondade acima de tudo.
Sendo assim, está bem, meu garoto querido. Você sempre soube a coisa certa a fazer. E me encorajaria a fazê‑lo. Pois vou fazer agora. Embora me seja penoso. Todas as dádivas são temporárias. Abandono esta a contragosto. E agradeço por tê-la recebido. A Deus. Ou ao mundo. A quem me tenha dado tal dádiva, agradeço humildemente, e rezo para que eu haja me comportado bem com ele e que, ao seguir em frente, eu continue fazendo a coisa certa.
Amor, amor, eu sei o que você é."

Lincoln no limbo, George Saunders, 2017, trad. Jorio Dauster
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terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

os fatos luminosos, ao serem narrados

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"Caedmon, o primeiro poeta da língua inglesa cujo nome é conhecido por nós, aprendeu a arte de cantar durante um sonho. Segundo a Historia ecclesiastica de Beda, ele era um vaqueiro analfabeto que não sabia cantar. Quando, durante essa ou aquela alegre festa, ficava decidido que todos deveriam, se revezando, apresentar uma canção, Caedmon se afastava constrangido, alegando que tinha de cuidar dos animais. Certa noite, alguém tenta lhe passar uma harpa, depois do jantar, mas Caedmon foge para o curral. Lá, no meio dos ungulados, começa a cochilar e é visitado por uma misteriosa figura, provavelmente Deus. 'Você deve cantar para mim', Deus diz. 'Eu não sei', diz Caedmon, talvez não com essas palavras. 'Por isso é que estou dormindo no curral, em vez de estar bebendo hidromel com meus amigos ao redor da fogueira.' No entanto, Deus (ou um anjo ou um demônio -- o texto é vago) insiste em pedir uma canção. 'E o que eu deveria cantar?', pergunta Caedmon, que imagino se achar desesperado, suando frio durante o pesadelo. 'Cante o começo das coisas criadas', o visitante instrui. Então, Caedmon abre a boca e, para seu próprio espanto, deslumbrantes versos em louvor a Deus são emitidos.

Caedmon acorda como poeta e por fim se torna monge. Mas o poema que ele cantou ao acordar, segundo Beda, não era tão bom quanto o que cantara no sonho, 'pois as canções, mesmo que nunca sejam muito bem feitas, não podem ser passadas de uma língua para outra, palavra por palavra, sem que percam algo de sua graça e valor'. Se isso é verdade no tocante à tradução no mundo desperto, duplamente é verdade na tradução de um sonho. O poema real que Caedmon traz de volta para a comunidade humana é necessariamente um mero eco do primeiro.

Allen Grossman, cuja leitura de Caedmon estou pirateando aqui, extrai dessa história (da qual há muitas versões) uma lição severa: a poesia surge do desejo de ir além do finito e histórico -- do mundo humano da violência e das diferenças -- para alcançar o transcendente ou divino. Você é levado a escrever um poema, sente-se intimidado a cantar, por causa desse impulso transcendente. Mas, tão logo passa do impulso para o poema real, a canção do infinito é comprometida pela finitude dos termos. Num sonho, seus versos podem anular o tempo, suas palavras podem se livrar da história do uso que elas têm, você pode representar o que é irrepresentável (por exemplo, a criação da própria representação), mas quando acorda, quando volta para junto de seus amigos ao redor da fogueira, encontra-se de novo no mundo humano, com sua lógica e sua lei inflexíveis."

Ben Lerner, O ódio pela poesia, 2016

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Brett Weston, Broken window, San Francisco, 1937

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"Eu tinha razão: a tarefa era e é impossível. Há coisas que não podem ser narradas. Todo este livro é o testemunho de um grande fracasso. O sistema de criar um entorno para cada acontecimento luminoso que eu queria narrar me levou por caminhos bastante escuros e tenebrosos. Vivi no processo inumeráveis catarses, recuperei grande quantidade de fragmentos meus que tinham sido enterrados no inconsciente, pude chorar um pouco do que eu deveria ter chorado muito tempo atrás, e foi sem dúvida uma experiência notável. Ler o que escrevi continua sendo, para mim, comovente e terapêutico. Mas os fatos luminosos, ao serem narrados, deixam de ser luminosos, decepcionam, soam triviais. Não são acessíveis à literatura ou, pelo menos, à minha literatura. Acho, com certeza, que a única luz que se encontrará nestas páginas será a que o leitor lhes emprestar."

Mario Levrero, "Prefácio histórico ao romance luminoso", 2002
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sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

a orquestra de auschwitz

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Art Spiegelman sobre a orquestra de Auschwitz, em Maus:

"A memória é fugidia. E eu estava ciente disto na época, que era parte do problema e parte do processo. [...] Era óbvio, quando eu fazia a checagem, que a memória de meu pai, Vladek, não fechava com tudo que eu lia. Sabia que em algum momento teria que dizer isto. Houve um período em que foi complicado. E, como geralmente acontece, as coisas mais complicadas levam às soluções mais profundas. Então, perguntei a Vladek especificamente sobre as orquestras em Auschwitz para a cena na página 214. Eu estava tentando descobrir onde ficaria a supressão: será que eu corrijo erros com base na autoridade de outros? Ou ignoro a autoridade de outros e fico estritamente com a memória de Vladek como se fosse um correlato objetivo que podia ser desenhado? É uma questão básica. Fiquei me debatendo com ela por um tempo. Em termos de registro histórico seguro -- ou seja, com várias testemunhas independentes --, minha tendência era triangular o fato e permitir que a memória dele fosse agrupada à memória maior. Mas se havia alguma espécie de razão íntima para ele lembrar de forma errônea -- por ser algo que ele disse especificamente que viu, ou por conta da relevância e peso que aquilo parecia ter na conversa -- eu seguia a versão dele e tentava fazer uma correção visível, quando necessário. Quando mais se aproximava da história dele em particular, menos eu interferia. Mas pensei que deveria haver pelo menos um lugar no livro onde aquele processo ficasse explícito. E a orquestra de Auschwitz é tão bem documentada quanto qualquer outra coisa de Auschwitz. Muitos dos músicos sobreviveram, escreveram suas memórias. Os nazistas tiraram fotos da orquestra. Há tantas descrições de que aquilo aconteceu que eu sabia que não estava caindo no Céu dos negacionistas do Holocausto: "Ah, ele está inventando tudo, espalhando a mentira!" Então, quando questionei Vladek sobre a orquestra e ele não lembrava, pensei: "Ok, vai ser aqui!" Na metade de cima da página 214, aparece a orquestra tocando, os prisioneiros sendo conduzidos em frente a ela, eu faço a pergunta a ele, meu pai para a pensar e diz: "Orquestra? Só lembro de marchar, não de orquestra. Guardas acompanhava nós do portão até oficina. Como podia ter orquestra ali?"




O mais importante aqui era permitir que Vladek dissesse isso -- porque na realidade ele provavelmente não passava pelo portão principal de Auschwitz quando ia trabalhar na oficina. Ele passava por um dos portões laterais, de serviço, e presume-se que não passava marchando pelas orquestras. Ele pode nem ter visto nem ouvido quando entrou no campo pela primeira vez, já que foi trazido num caminhão com outros, não num dos carregamentos de trem. É bem possível que a orquestra não existisse para ele, e não quero negar. Só quero insistir que ela existia, mesmo que ele questione como ela poderia ter existido. Aí eu digo: "Mas está bem documentado". E ele diz: "Não. Só ouvia era as guardas gritando." Que seja, então. Mas da forma como está desenhado é um diálogo visual complexo, pois, A: eu podia ter deixado a coisa toda de fora. B: eu podia apenas fazer ele dizer, na cena no presente, que não lembra de orquestra alguma e não mostrar nada. Mas ao invés disso, enquanto cartunista, optei por C: mostro a orquestra, então faço Vladek dizer que não se lembra dela. Então faço a orquestra ser apagada pelas pessoas marchando, pois é disso que ele lembra. E, enfim -- eu "venço" a discussão, já que fui eu que a armei -- mostro pedacinhos do violoncelo e as silhuetas dos músicos por trás da marcha para insistir que eles existiram. E para arrematar este interlóquio, por conta da minha necessidade compulsiva de fazer coisinhas formais que ninguém vai notar, o pedacinho da parede encoberto pela marcha de prisioneiros vira uma partitura."


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