sábado, 8 de novembro de 2014

o braço não é o braço

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"Se não viria a falar muito do braço é porque logo, quase rápido demais, conseguiu expulsá-lo de seu espírito — exceto pela manhã, ao despertar, quando ainda o buscaria, mas nunca por mais de um segundo. Canhoto à força, ele se adaptou sem fazer fita: tendo se forçado com êxito a escrever com a mão restante — e, já que estava nisso, também a desenhar, coisa que nunca fizera com a direita —, renunciou sem dó a certas práticas agora inacessíveis, como descascar uma banana ou amarrar os cadarços. [...]

Anthime teve de renunciar também, quando queria refletir, esperar, dar-se ares ou mostrar-se preocupado, às posturas clássicas consistindo em cruzar os braços ou juntar as mãos atrás das costas. No começo, porém, continuou a esboçá-las instintivamente, lembrando apenas no último instante que os reforços não chegariam a tempo. Mas, uma vez convicto de sua condição de maneta, Anthime nem por isso capitulou, fazendo uso da manga direita vazia como de um braço imaginário, enrolando-a no braço esquerdo, sobre o peito, ou apanhando-a pelo punho, às costas, e segurando-a com firmeza. E, por mais convicto que estivesse, quando se espreguiçava maquinalmente, na hora de despertar, ele estirava também, em espírito, o membro desaparecido — gesto atestado por um movimento discreto do ombro direito. Em seguida, uma vez abertos os olhos, uma vez constatado que haveria pouca coisa a fazer no dia, não era raro que ele voltasse a dormir, depois de eventualmente se masturbar — o que, com a mão esquerda, foi um problema logo resolvido.

Falta frequente do que fazer, portanto, que Anthime, na medida do possível, tentou vencer, treinando-se para folhear o jornal com uma só mão e até embaralhar as cartas antes de começar uma partida de paciência. Conseguindo finalmente prender seus trunfos com o queixo, ele precisaria de um pouco mais de tempo para se arriscar a jogar manilha em silêncio no Círculo Republicano, na companhia de outros estropiados de retorno do front como ele — todos igualmente preferindo não evocar jamais o que tinham visto por lá. É bem verdade que Anthime jogava mais devagar que os aleijados e os pernetas, mas menos que as vítimas do gás, que não dispunham de cartas em braile. No fim, como os outros se oferecessem para ajudá-lo e aproveitassem para olhar seu jogo, Anthime acabou por se aborrecer e deixou de lado as reuniões do Círculo.

[...] Ao cabo de alguns meses, com efeito, sentiu renascer um braço direito imaginário, mas de ares tão reais quanto o esquerdo. A existência desse braço, e mesmo sua autonomia, foi se manifestando mais e mais por conta de diversas manifestações dolorosas e lancinantes, ardências, contrações, cãibras e comichões — Anthime sendo obrigado a se conter no último instante para não começar a se coçar —, sem falar da velha dor no punho. A impressão de realidade era intensa e detalhada, chegando mesmo à percepção do anel de sinete pesando sobre o dedo mínimo, ao passo que as dores se agravavam ao sabor das circunstâncias: ataques de banzo ou mudanças de tempo, sobretudo quando estava úmido e frio, à maneira do que acontece com os artríticos.

Esse braço ausente, volta e meia mais presente que o outro, insistente, vigilante, zombeteiro feito a má consciência, Anthime julgava ser capaz de fazê-lo produzir movimentos voluntários, executando gestos derrisórios ou decisivos que ninguém mais podia ver: tinha a plena certeza de poder se apoiar num móvel, apertar o punho, controlar os diversos dedos, chegando mesmo a tentar atender o telefone ou esboçar um gesto de adeus — agitando ou julgando agitar a mão direita por ocasião de uma despedida e ganhando fama de pouco afetivo aos olhos de quem o visitava.

[...] Anthime deu consigo no consultório do clínico Monteil, explicando as coisas, indicando com a mão esquerda a ausência do braço direito como quem designa uma testemunha muda, um cúmplice meio constrangido por estar ali — enquanto Monteil, ar compenetrado, escutava-o e olhava pela janela, diante da qual, ainda e sempre, nada passava. Tendo Anthime exposto seu caso, Monteil fez silêncio por um instante e depois se defendeu com um breve discurso. Acontece muito, discorreu ele, há muitos relatos a respeito. É a velha história do membro fantasma. Às vezes acontece que persistam a consciência e a percepção de uma parte do corpo perdida, para então desaparecer, alguns meses depois. Mas acontece também — e parecia ser esse o caso de Anthime — que a presença desse membro assombre a organização do corpo muito tempo depois da perda.

Em seguida, o doutor desdobrou classicamente esse discurso, lançando mão de precisões estatísticas (para oito em cada dez pessoas, o membro superior direito é o mais hábil), de anedotas históricas (tendo perdido o braço direito em Santa Cruz de Tenerife e sentido, na sequência, as mesmas dores que Anthime, o almirante Nelson via nelas uma prova da existência da alma), de pilhérias medíocres (é no dedo anular da mão esquerda que se costuma instalar a aliança, que só pode ser tirada com a mão direita: grave problema para o maneta infiel), de comparações paralisantes (certas vítimas de amputação do pênis relataram ereções e ejaculações fantasmáticas), de franqueza clínica (a origem dessas dores é tão misteriosa quanto o fenômeno em si mesmo) e de perspectivas meio tranquilizadoras (isso vai passar sozinho, em geral diminui com o tempo), meio inquietantes (mas isso pode bem durar uns vinte e cinco anos, é coisa que já se viu)."

Trecho de 14, do Jean Echenoz (tradução Samuel Titan Jr.)
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quinta-feira, 6 de novembro de 2014

um barão

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Fiz uma nota de apresentação (quarta capa) para As surpreendentes aventuras do Barão de Munchausen, que a Cosac Naify lança este mês.

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Nunca houve aventuras como as do Barão de Munchausen. São também as mais incríveis narrativas de viagem de que se tem notícia.

Munchausen nasceu em 1720, foi tenente, capitão de cavalaria, serviu num regimento russo e lutou em duas guerras turcas – além de ter carregado sua imaginação por Cairo, Londres, Gibraltar, pelo Ceilão, África, e uma infinidade de lugares, incluindo a Lua e o centro da Terra.

Depois de doze anos de serviço militar, aposentou-se. Nas recepções em sua casa em Hanover, na Baixa Saxônia alemã, gostava de entreter os amigos com suas histórias. Entre os ouvintes, estava o bibliotecário Rudolf Erich Raspe (1736-94), a quem se atribui a autoria de parte dos relatos do Barão. Mas Munchausen, o personagem, se tornou maior.

Esta edição traz as histórias escritas por Raspe (parte delas saíram pela primeira vez numa revista chamada Manual para pessoas divertidas) e, inéditas no Brasil, outras dezessete, de autoria variada, que foram sendo publicadas ao longo dos anos. Com ilustrações de Rafael Coutinho, que dão à jornada contornos ainda mais fabulosos, este livro é uma espécie de jogo de tabuleiro ou videogame, a cada capítulo uma nova fase, com seus desafios, ironias, palácios voadores e, do fundo do mar, um navio içado com a ajuda de um balão. Absolutamente imperdível, cavalheiros.
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domingo, 12 de outubro de 2014

não é um nariz

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Três perguntas para Fernanda Torres — parte de entrevista que fiz com a atriz/escritora para a Revista Trip que chega às bancas esta semana.

Num texto de Sete anos, você conta a saga que foi a filmagem de Kuarup, dirigido pelo Ruy Guerra, no Parque Nacional do Xingu, no Mato Grosso, em 1988. Você narra o inferno que são os filmes de locação, projetos que parecem ameaçados por todos os lados, o tempo todo. E para o escritor, quais são as ameaças? Acho que são psíquicas, ligadas à autoestima, torturas mais sofisticadas. Com o ator a coisa é mais na pele; é se maquiar, gravar, ter que estar bem, disposta – e é desesperador! O negócio da escrita é um problema com a complexidade da consciência. Uma vez uma modelo me falou: “o duro de ser modelo é que uma atriz pode estar mal num papel ou em outro, mas a modelo precisa ter um nariz específico, um sorriso; são coisas que não dá para mudar”. Para o escritor é ainda pior. Não é um nariz, é a consciência. Não há o que se possa fazer se o escritor tem uma consciência superficial.

Seu romance, Fim, teve ótima recepção crítica, recebeu elogios do Roberto Schwarz, você foi convidada para a Flip. Quando consegue esse tipo de espaço ou uma crítica é boa, você pensa: "isso acontece porque sou uma atriz conhecida"? Como acha que seu prestígio influencia essa dinâmica? Isso te incomoda? Acho que é justamente o contrário. Uma atriz que escreve suscita enorme desconfiança. O fato de ser conhecida me ajudou a divulgar o livro, isso, sem dúvida, mas é como no teatro, ou no cinema, você pode ter um astro de Hollywood, mas se o filme não funcionar, o público não aparece. Eu me sinto muito despreparada para o mundo das letras. É como se voltasse ao início de carreira às vésperas de completar 50 anos. Eu desconfio de mim, da minha capacidade como escritora. Eu me vejo como um ser promissor, mas não sei se jamais vou conseguir dizer para mim mesma que sou uma escritora. Talvez eu nem queira me assumir assim para não perder a liberdade de poder escrever quando sentir necessidade, vontade, inspiração. A vida toda alternei trabalhos em teatro, cinema e TV porque sempre acreditei que um veículo reinventa você para o outro. A literatura entrou nessa roda agora. As crônicas me obrigam a ter uma prática diária, que um escritor tem que ter. Eu levei 48 anos para chegar ao romance, é um livro que nasceu da minha descoberta da morte, do tempo, das frustrações da vida.

Na última Flip, o Andrew Solomon falou que embora a depressão "não seja um fenômeno recente", a sociedade atual está "vivenciando mais depressão do que antigamente, ou seja, estamos diagnosticando mais a depressão". Você já teve depressão? Já tomou remédios? Hoje, os laboratórios farmacêuticos medicam qualquer melancolia. Até o luto foi incluído na lista de doenças passíveis de serem tratadas. Há um exagero no uso de antidepressivos. O Antônio Damásio diz que a tristeza é um alerta, uma arma que a natureza criou para chamar a atenção para um problema que precisa ser encarado. É como a síndrome dos que não sentem dor. Sem dor, você pode sofrer um corte profundo e não perceber. Ele acredita que uma sociedade que deseja evitar a tristeza é uma sociedade doente. Nunca tomei nada com efeito cumulativo. Desses remédios que você toma e só dali a três semanas vai saber no que deu. No máximo, um S.O.S. para um dia difícil. Desconfio da ciranda que trata dos efeitos colaterais dos remédios, mas não do paciente em si. O médico pergunta sobre o resultado da droga, muda para outra, ou indica uma terceira para ser tomada junto com a primeira. Depois de um tempo, o paciente passa a sofrer de dependência, de causas que não são mais a angústia, mas a própria medicação. Acho que os interesses comerciais transformaram a depressão em lucro, e a população está servindo de cobaia. Por outro lado, a vida moderna é tão artificial para o homem, que, muitas vezes, é preciso interromper o funil da ansiedade, para que o sujeito possa levantar a cabeça e andar. Os antidepressivos ajudam muita gente, mas não podem servir de muleta ou vício. Penso que o paciente deve estar atento para se livrar do remédio assim que puder suportar a dor de ser o que é.
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domingo, 14 de setembro de 2014

às vezes eles voltam

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Escrevi sobre o centenário do Bioy Casares na Folha Ilustríssima da semana.

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Bioy e Silvina, setembro de 1979

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Se city tour fosse uma modalidade da crítica, o capítulo portenho poderia começar assim: "A Calle Jorge Luis Borges é imensa, cheia de plátanos e atravessa Palermo. No coração do bairro, que de subúrbio e orilla passou a centro e lugar da moda, está a Plaza Cortázar. Dela saem ruas repletas de bares, restaurantes, lojas de roupa, cafés, livrarias, onde se puede vivenciar la movida joven nocturna y diurna. A Calle Adolfo Bioy Casares é breve, quieta, uma leve descida. Começa e termina num canto da Plaza San Martín de Tours, na Recoleta. Atrás das árvores, fica praticamente invisível".

Nascido em 15 de setembro de 1914, Bioy Casares é essa espécie de fantasma entre seus pares. Suas aparições são sutis, seu estilo é transparente, sem estridência, e sua obra parece estar sempre à sombra. Durante toda a vida, o autor de A Invenção de Morel (1940) foi vinculado a Borges, seu amigo e parceiro literário, com quem escreveu livros, fez traduções e organizou antologias. Ironicamente, essa mística da discrição (e do apagamento) o acompanhou até em seu centenário, obliterado por um outro, o de Julio Cortázar. Na Feira do Livro de Buenos Aires, em maio deste ano, a quantidade de homenagens e lançamentos em torno de Cortázar impressionava. A Bioy restou a exibição de um vídeo triste com trechos de sua obra dramatizados de forma triste numa sala triste em que só podiam entrar três pessoas, evidentemente tristes, por vez.

Diante de tais particularidades e contingências, os caça-fantasmas literários têm tido trabalho dobrado para tirar o autor daquele limbo para onde vão os escritores após a morte. "Ele está em suspenso, esperando ser redescoberto e que lhe façam justiça", diz um entusiasta de sua obra, o escritor argentino Rodrigo Fresán, por telefone, de sua casa em Barcelona. "É preciso que surja uma nova geração que o aborde sem nenhum tipo de preconceito, que consiga observá-lo com alguma distância", clama.

A oportunidade parece estar chegando. Se não propriamente de "justiça" ou ampla "redescoberta" — porque Bioy dará um jeito de desaparecer —, pelo menos de investigar se sua obra ainda tem o poder de assombrar.

Bioy Casares morreu em 8 de março de 1999, aos 84 anos. Em novembro, ele se materializa entre nós com a publicação do primeiro volume de sua Obra Completa (organizada pelo pesquisador e responsável pelo arquivo de Bioy Casares, Daniel Martino), a sair pelo selo Biblioteca Azul, da editora Globo. Nesse tomo está toda sua fase inicial, que vai de A Invenção de Morel (tradução de Sérgio Molina) a O Sonho dos Heróis (1954, tradução de Josely Vianna Baptista) e História Prodigiosa (1956, tradução de Antônio Xerxenesky), passando pelos contos inesquecíveis de A Trama Celeste (1948, tradução de Ari Roitman e Paulina Watch).

Na Argentina, o terceiro volume acaba de chegar às livrarias. Nele figuram Dormir ao Sol (1973), A Aventura de um Fotógrafo em La Plata (1985) e obras que surgiriam depois de o escritor ter sido agraciado com o Prêmio Cervantes, em 1990 — além de Uns Dias no Brasil (2011), que narra suas andanças por São Paulo, pelo Rio e pela recém-nascida Brasília, nos anos 60. Em breve, seus livros ganharão também novas edições de bolso, pela Emecé. E uma exposição, El Lado de la Luz, Bioy Fotógrafo, no Centro Cultural San Martín (a ser inaugurada no dia 28 de setembro), pretende dar conta de suas incursões pela fotografia.

O que sabemos de Bioy, no entanto, não é tudo. Ao lado de sua figura de exímio urdidor de tramas, que rechaçava as narrativas realistas e psicológicas —"mera verossimilhança sem invenção", segundo Borges, no célebre prólogo de A Invenção de Morel —, começa a se produzir agora o holograma de um outro Bioy.

É o pesquisador Ernesto Montequin quem dá forma a tal ectoplasma, entre um café e outro, no El Gato Negro da Avenida Corrientes, Buenos Aires: "O que vem acontecendo com Bioy é algo surpreendente. Sua obra visível, a que temos acesso, é apenas uma parte do todo. Secretamente, ao longo dos anos, ele desenvolveu uma espécie de vida literária paralela".

Montequin se refere aos diários do escritor. De 1949 a 1975, Bioy escreveu-os de forma obsessiva, preenchendo cerca de 120 cadernos. Destes, uma parte foi publicada em 2006 sob o título de Borges — um catatau de 1.650 páginas. Era um projeto de Bioy: sacar de seu diário todas as entradas em que o amigo fosse citado. Em 1990, anunciou que reuniria essas anotações em um livro: nele, surgiria um Borges inesperado, "rindo das coisas que ele mesmo respeitava, falando como um amigo íntimo".

O volume provocou calorosos debates e foi, sem dúvida, um dos principais acontecimentos literários da última década na Argentina — sobre ele, o escritor Alan Pauls diz, por e-mail: "É um texto sensacional, talvez o melhor de Bioy, todavia o menos Bioy de Bioy". Em 2001, surgiu Descanso de Caminantes, que muitos tomam como parte de seus diários mas que foi escrito pós-1975, num esquema diferente, de notas. Para os próximos anos, mais escritos privados de Bioy devem vir à tona.

A aposta de Montequin é de que Bioy será redescoberto e reavaliado à luz dessa nova faceta, de memorialista. "Isso vai mudar profundamente nossa percepção sobre ele", diz o pesquisador, que administrou os direitos da obra do escritor durante seis anos e hoje é responsável pelo arquivo de Silvina Ocampo (1903-1993) —uma das mais brilhantes contistas argentinas, autora de livros como A Fúria (1959), ainda estranhamente inédita no Brasil —, com quem Bioy foi casado por 53 anos.

"Os diários de Bioy não são meramente introspectivos. Bioy sabia que seriam publicados, por isso injetou neles toda sua verve narrativa, apurada ao longo dos anos. Também não têm a ver com o que conhecemos como autoficção. A tradição a que Bioy se filia é outra", afirma Montequin. "Por conta de sua posição social, ele tinha acesso a um mundo muito particular. Seus diários são a história de uma classe, de um tempo, a história de meio século da vida argentina, além de, claro, serem os registros de um dos maiores escritores do século 20."

Em 1949, Montequin destaca, um fato iluminaria o caminho rumo aos diários: Bioy descobre Proust — e passa a se interessar por livros de memórias, entrar em contato com as tradições inglesa e francesa das autobiografias, ir atrás de compilações de cartas. "Ele começa a ler de outra maneira, de um jeito diferente de seus anos iniciais, quando estava mais próximo de Borges."

Isso se cristaliza em 1965, quando, na segunda edição da Antologia da Literatura Fantástica (1940), que compilou com Borges e Silvina Ocampo, Bioy agrega um pós-escrito ao prólogo que fizera para o livro — prólogo este que, conforme registra o crítico Emir Rodriguez Monegal em Borges: uma Poética da Leitura [Perspectiva, R$ 27, 186 págs.], pertence à categoria de "texto fundador". Nele, retifica algumas de suas opiniões. E principalmente: absolve Proust, cuja obra havia comparado, na primeira versão do texto, a um "maço de jornais velhos".

Outra mudança ocorre em relação a Tchékhov. Em entrevista ao escritor argentino Fernando Sorrentino, nos anos 1990, reunida em Siete Conversaciones con Adolfo Bioy Casares [El Ateneo, R$ 42,90, 275 págs.], Bioy diz que "passou a vida desdenhando de Tchékhov porque não havia argumentos em seus contos". "Eu tinha predileção pelas narrativas que contavam histórias", diz. "Mas opinava sem ler, ou tendo lido apenas de forma rápida." Nos anos 1950, depois de voltar a Tchékhov, passa a se sentir próximo a ele, a seu jeito de ser. "Hoje, muitas coisas da psicologia de Tchékhov me são agradáveis. É como se tivesse descoberto um amigo."

Em 11 de novembro de 1955, Alejandra Pizarnik anota sobre Bioy Casares em seu diário: "Escreve muito bem. Mas tem alguma coisa que falha. Ainda não descobri o que é. Talvez não encontre, mas é uma vaga sensação de falta de plenitude".

O sentimento da poeta argentina encontra eco na apreciação de Alan Pauls sobre o estilo de Bioy: "Ele é 'puro' demais, e está feito sempre de uma coisa só, apenas um tom, um só imaginário. Suponho que isso seja precisamente sua força, o que gostam nele, mas eu prefiro a literatura impura"."Talvez por serem transparentes demais, os textos de Bioy não se prestem muito a especulações críticas", avalia Pauls. "Seu legado é a defesa do relato, da narrativa, da naturalidade como estilo. São valores que a crítica não aprecia muito, basicamente porque é pouco o que se pode fazer com eles."

A esse respeito, a jornalista e editora argentina Violeta Weinschelbaum assente: a presença de Bioy na escrita acadêmica hoje é praticamente nula. "Hernán Díaz, diretor da Revista Hispánica Moderna, da Universidade Columbia, comentava comigo que, nos três últimos anos, apareceu um só artigo sobre sua literatura", fala.

"Dos autores jovens que conheço, ninguém se interessa muito por ele", completa a editora, apontando que, enquanto "quase ninguém o lê sistematicamente", é possível notar certo "delírio", à moda da literatura de César Aira, "que parece determinar grande parte da literatura contemporânea na Argentina e tem muito a ver com Bioy".

Weinschelbaum chama a atenção para outro ponto, referente à classe: muitos desses autores, diz, têm uma postura clara de fastio frente à aristocracia de Bioy. "Em contrapartida, o ativismo político de Cortázar faz com que siga mais vigente entre determinado grupo de escritores (e de leitores) que manifestam certo progressismo político. O interessante", fala, "é que Bioy e Cortázar se admiravam, não havia brigas entre eles."

Filho de fazendeiros e casado com Silvina Ocampo, a filha mais nova de uma das famílias mais ricas da Argentina, Casares sempre levou sua classe com pudor e discrição, que é como levavam a classe os homens com classe de antes dos anos 1970. "Essa falta de ostentação e essa naturalidade estão muito em sincronia com a poética de Bioy, que descansa no 'understatement' e na transparência", comenta Pauls. "A partir dos anos 1990, quando irrompem na Argentina os novos poderosos, a alta burguesia a que pertencia Bioy passa a ser uma classe admirável (por seus modos, sua cultura, sua ética), inclusive para a esquerda que sempre a combateu."

"Creio que não trabalhou um único dia de sua vida, viveu muito comodamente, com uma herança familiar, e isso sempre despertou certo preconceito", analisa Rodrigo Fresán. "É um autor por quem a academia nunca se interessou. Conheço escritores que o consideram um burguês aristocrata que escrevia em seu tempo livre. O que não dizem é que foi um burguês aristocrata que escrevia muito bem em seu tempo livre."

César Aira, por sua vez, revela nunca ter nutrido muita simpatia por Bioy, ainda que "tenha terminado por perdoá-lo" quando leu seu Borges. "É um livro maravilhoso, que justifica uma vida de escritor", elogia, por e-mail. "De sua obra, gosto de A Aventura de um Fotógrafo em La Plata, e de alguns contos, como 'O Grande Serafim'. A Invenção de Morel tem uma explicação final longa demais, que torna o livro feio. Se um romance precisa de tanta explicação é porque alguma coisa falhou. Pensando agora, o que mais gosto de Bioy é seu último livro, De um Mundo a Outro, do qual todos dizem, seguramente com razão, que é senil — e que se parece tanto ao que eu escrevo."

Para o argentino Oliverio Coelho, eleito um dos melhores jovens autores hispano-americanos pela revista britânica Granta em 2011, "Bioy inaugurou um modo de escrever atípico para a época na Argentina, uma modalidade sem estridência, um sistema narrativo onde o jogo de matizes, a sátira e a ambiguidade psicológica aparecem unidos a certa naturalidade na escrita, uma coisa única". Enquanto encara um wok de macarrão com legumes no bar Shangai, em Palermo, Coelho lamenta a ausência de Bioy no debate literário argentino. "Dá para pensar nos contos de Bioy como uma indagação dos afetos unida ao recurso fantástico. Talvez nenhum escritor tenha oferecido percepções do amor tão diversas e contraditórias."

Na opinião de Alan Pauls, contudo, o melhor de Bioy está nos livros que escreveu com Borges — Seis Problemas para Dom Isidro Parodi (1942), Duas Fantasias Memoráveis (1946), Crônicas de Bustos Domecq (1967) e Novos Contos de Bustos Domecq (1977). "Amparados por um pseudônimo", diz o autor de O Passado, "Borges e Bioy lançaram mão de elementos que não poderiam nunca figurar em suas obras individuais". Entre eles, destaca "uma certa artificiosidade barroca, o uso brutal da cultura popular, atrevimento e paixões rasteiras".

A história é sabida: quando se conheceram, em 1932, na casa de Victoria Ocampo, em San Isidro, Bioy tinha 17 anos, e Borges, pouco mais de 30. Lá, reuniam-se colaboradores e pessoas ligadas à revista "Sur", editada por Ocampo — irmã mais velha da futura mulher de Bioy.

"Na casa de Victoria estávamos num mundo literário que não era o nosso", lembra Bioy, numa das entrevistas que deu a Sorrentino. A conexão entre Borges e Bioy foi instantânea. Por muito tempo, encontraram-se diariamente para discutir textos, criar histórias e colocar em prática a maledicência literária — "Creio que Thomas Mann era um idiota" (Borges); "Nada pode ser pior do que Quiroga" (Bioy). Em seu Um Ensaio Autobiográfico (1970), Borges diz que um dos principais acontecimentos de sua vida foi a amizade com Bioy. "Ao se opor a meu gosto pelo barroco, ele fez-me sentir que a discrição e o comedimento são mais convenientes. Eu diria que Bioy foi me levando aos poucos ao classicismo", escreveu.

As comparações entre Borges e Bioy são uma instituição da literatura. Para muitos, é como se Bioy fosse o Watson de Sherlock Holmes ou o Sancho Pança de Quixote. "Mas quem não gostaria de ser o Watson de Sherlock Holmes?", pergunta Rodrigo Fresán. "Sem falar que Watson salva Holmes e Sancho salva Quixote."

"De um ponto de vista muito pessoal, digo algo que costuma me trazer problemas: Bioy Casares é melhor do que Borges", provoca. "Essa visão não é partilhada pela maioria dos meus colegas argentinos, mas Bioy me parece um escritor mais completo. Borges me faz pensar no HAL 9000, computador de 2001, Uma Odisseia no Espaço. Tem algo de máquina, não humana, não sensível. Para mim, Bioy tem tudo o que há em Borges e, além disso, certa sensualidade, paixão, uma consideração com as personagens femininas que em Borges simplesmente não existe. Quando Borges quer tratar de amor, sinto vergonha alheia. Dá vontade de sair correndo, um pouco de pena. Já Bioy não: é um grande sensualista."

A esse respeito, Bioy Casares, numa das entrevistas que concedeu a Sorrentino, lembra de Borges como uma figura "eminentemente épica", que nutria desprezo pelo intimismo. "Nos livros, não gostava de expressar sentimentos, mas na vida era mais sentimental", diz. "Ficava apaixonado, sofria, deixava ver que estava completamente apaixonado. E tinha má pontaria para mulheres; elas muitas vezes o maltratavam por causa dessa entrega excessiva."

Borges admirava Bioy por sua sedutora elegância, pela maneira como, sutilmente, colocava em marcha suas conquistas. Pelos braços de Bioy passou uma infinidade de mulheres, solteiras e casadas — Elena Garro, mulher de Octavio Paz, foi uma das que durante anos sucumbiram a seus encantos. O escritor jogando tênis e tomando chá no clube com amigas queridas; o escritor em seu carro na saída dos fundos do teatro, com um cigarro nos lábios, esperando uma atriz ou corista do espetáculo: imagens possíveis de Bioy.

O escritor espanhol Manuel Vincent conta, em artigo de 2007 publicado no jornal El País, que, certa noite, em uma reunião de amigos na casa de Bioy, o escritor Carlos Mastronardi teria exclamado: "Genca está poderosíssima!". Tratava-se de Silvia Angélica, sobrinha de Silvina. Graças a esse comentário, Bioy reparou na beleza extraordinária de Genca, na época com quase trinta anos — e no dia seguinte a fez sua amante.

Bioy relata que, quando era adolescente, sofria de amores. Depois, tudo mudou. "Quando tive apenas uma mulher, fui muito infeliz. Com duas ou três, parece que adivinhavam e me mimavam para não me perder. Talvez tenha sido um Don Juan para me proteger", afirma. "Quando dizia a verdade e me entregava por completo, era comum que imediatamente fosse dominado e castigado."

Em uma entrada de Descanso de Caminantes intitulada "Mar del Plata", Bioy recorda que "suas amigas" às vezes queriam tirá-lo de casa durante a noite, mas ele se negava, "porque Silvina ficava ansiosa, e porque passar a noite fora sempre lhe deu medo e tristeza, um certo sentimento de culpa".
Para o crítico Alberto Giordano, em "La Intimidad de un Hombre Simples: los Escritos Autobiográficos de ABC", a "vida amorosa de Casares foi a de um temeroso Don Juan que teve que ser também um marido fiel". "Em casa sentia-se seguro, mas asfixiado e ansioso para saber se continuava sendo atraente para as mulheres de fora", escreve. "Quando estava fora, uma vez consumadas suas aventuras de sedutor, sentia um impreciso e arcaico temor diante do desconhecido que o levava de volta para casa."

Giordano imagina Bioy como um fantasma triste, vagando de um lugar a outro, prisioneiro de suas inconstâncias e infidelidades, traído por suas próprias armadilhas. "Mais ou menos como o imaginou Elena Garro, em um melancólico personagem de Testimonios de Mariana (1999), um Don Juan tomado pelo sentimento de 'filho infeliz de suas mulheres'."

A Silvina Ocampo, todavia, nunca caiu bem o papel de vítima, de mulher traída. Na história dessa relação de grande amor, tão bonita quanto controversa, Ocampo desafiava as ideias de como uma mulher deveria ser em sua época. Também teve suas aventuras, e sob certos aspectos, diz Giordano, "de maneira ainda mais radical do que Bioy, porque menos previsíveis".

Em Los Bioy [Tusquets, R$ 26,10, 186 págs.], livro de memórias que retrata os 50 anos em que trabalhou para o casal Bioy-Ocampo, a criada Jovita Iglesias conta que "Marcelo Pichon Rivière, muito amigo da senhora e do senhor, escreveu, depois da morte de Bioy, que na verdade Silvina havia tido uma vida amorosa igualmente intensa à de Adolfito, só que com mulheres".

Não se trata de um segredo. E é conhecida a carta que, em janeiro de 1972, poucos meses antes de suicidar-se, a poeta Alejandra Pizarnik envia a Ocampo. Nela, pede a Silvina que não a esqueça, que a ama demais e que gostaria que "estivesse nua, ao seu lado agora, lendo poemas em voz alta" (a carta é parte da correspondência de Pizarnik, publicada em 1988, pela Seix Barral).

É difícil prever o que o futuro reserva a Bioy ou como o seu espectro se comportará num mundo que, sob muitos aspectos, apresenta-se como seu antípoda. "A princípio, acho que Bioy não deixa herdeiros: os rumos da atual ficção hispano-americana são distintos demais do que ele concebeu e escreveu", avalia o crítico e professor Júlio Pimentel Pinto.

"Ao mesmo tempo, porém, me vem à cabeça uma infinidade de heranças de Bioy. Por exemplo: seu trabalho como editor e antologista, que determinou a difusão, na Argentina, de autores hoje óbvios, mas pouco ou nada conhecidos à época, como Kafka e Swedenborg." Pimentel frisa ainda "seu apreço, tão raro entre nós, pelas histórias de aventuras e pelos enigmas policiais; um apreço pela literatura de engenho, pelo rigor das arquiteturas narrativas, pela elegância do texto, pelo domínio pleno da língua". "Ou, ainda, a originalidade e a precisão das ambientações de seus romances, as categóricas descrições de personagens: sutis, complexas, envolventes — como as tramas que inventava."

Para Rodrigo Fresán, uma narrativa de Bioy que deve romper a dimensão espaço-tempo de nossos dias e permanecer no futuro é O Sonho dos Heróis — a história de um personagem que perde a lembrança de uma noite em que algo revelador aconteceu e, anos depois, decide tentar recuperá-la. "Formalmente, é o maior romance da literatura argentina, o romance mais perfeito", diz. "Adán Buenosayres, Sobre Heróis e Tumbas, O Jogo da Amarelinha, Facundo, Respiração Artificial são todos romances desarticulados, episódicos. São prisioneiros do fantasma do conto, gênero rei da literatura argentina", afirma Fresán. "O Sonho dos Heróis rende homenagem a essa estranheza, pois é um romance que tenta o tempo todo recordar um conto: o que aconteceu numa única noite. Trata-se de um conto e de um romance, ao mesmo tempo."

Ao fim, um possível legado de Bioy poderia estar na sua reticência, na sua sobriedade deliberada, na modéstia estilística que atravessa suas narrativas — no ar de uma rua pequena, escondida atrás de uma praça, na Recoleta. "A herança de Bioy, de tão ampla e discreta, é destituída de qualquer testamento e talvez nem consigamos ter consciência de sua profundidade", diz Pimentel. "Mas como seria bom se não o perdêssemos de vista."
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quarta-feira, 10 de setembro de 2014

os mentirosos

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Texto novo no blog da Companhia das Letras.
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Acho que o cronista que mais li na vida foi o Mario Prata. Quando ele começou a publicar seu James Lins, o playboy que não deu certo, folhetim encartado às quartas, sábados e domingos n’O Estado de S.Paulo, eu tinha onze anos. Durante o fim de 1993 e os primeiros meses de 1994, não perdi nenhum dos 36 capítulos da história, que terminavam sempre com aquele típico gancho do gênero, algo em suspenso, pâm-pâââmmm, a promessa de continuação.

A experiência era também como a exumação de um cadáver. Largada numa curva dos anos 60 (pós-Asfalto selvagem, do Nelson Rodrigues, que foi sucesso no Última hora entre 1959 e 60), a ficção em capítulos havia migrado para a tevê e nunca mais voltaria às páginas dos grandes jornais. Meu pai, que lia a história comigo, me explicava o que era um folhetim (do jeito que provavelmente vamos falar aos nossos filhos sobre o orelhão e a videolocadora) e tentava dirimir com naturalidade/respostas técnicas minhas eventuais dúvidas (“pai, o que é ‘michê do Trianon’?”; “o que é 69?”).

De saída, ficávamos sabendo que James Lins, 51, “golpista, simpático, mulherengo, mentiroso”, havia sido condenado a trinta e dois anos de prisão. Mas qual teria sido o seu crime? Essa pergunta — e se o personagem ficaria ou não com a Teka, seu amor de juventude — era o que alavancava a ação. Ou melhor, a enrolação. No folhetim, tudo é postergado, o tempo todo, o que pode nos levar à ruína, sofrimento e morte. No caso do Prata, porém, esse procrastinar narrativo esbanjava simpatia, era também alvo das ironias do autor, e nos carregava por situações maravilhosas como a da freira que comia os próprios seios (na verdade, James Lins disfarçado, com duas mortadelas debaixo do hábito) ou a das estalactites de esperma no teto do vestiário feminino do clube da cidade. (Em tempo: no departamento dos truques, lenga-lenga e macetes narrativos típicos do gênero, nosso herói se chama Alexandre Dumas, criador de um personagem, o criado Grimaud que, taciturno, só respondia em monossílabos — porque os jornais da época pagavam por linha.)

Meu interesse pela história do James Lins, “playboy dos Jardins que gostava de loiras oxigenadas de vida duvidosa”, tinha ainda um elemento adicional: o fato de o personagem ter nascido na cidade da minha mãe, Lins, no interior de São Paulo — que é a cidade do Mario Prata também. Eu sabia muito pouco sobre Lins. Depois que minha mãe nasceu, meus avós logo se mudaram para São Paulo; eu não tinha parentes por lá, nada. Acompanhar o folhetim, então, fazia com que eu criasse uma ideia da cidade, que se tornou, para mim, a das sessões de Juventude transviada, no Cine Sebastião; dos carnavais no Linense; de amigos cujos apelidos eram Bambolê, Chinesinho e Pintassilgo; do James Lins que “andava de preto, usava topete, mascava chiclete, tomava Coca-Cola com Melhoral e ficava doidão”.

Para mim, e ainda no terreno da memória afetiva, a história do Prata se ligava a uma outra, igualmente picaresca, até hoje meu livro preferido da infância: As aventuras do Barão de Munchausen. Havia algo de James Lins nas proezas contadas pelo Barão, que andara por São Petersburgo, Cairo, Londres, pelo Ceilão, África e uma infinidade de outros lugares.

Em ambas as histórias, os autores diziam ter conhecido seus personagens. O Mario Prata era “amigo de infância” do mentiroso James Lins (que em determinado momento da trama, aliás, se rebelava e passava a escrever o folhetim no lugar do Prata, afastado pela direção d’O Estado de S.Paulo). O Barão de Munchausen, por sua vez, parece realmente ter existido — quem somos nós para duvidar. Nasceu em 1720, foi tenente, capitão de cavalaria, serviu num regimento russo e teria lutado em duas guerras turcas. Depois de doze anos de serviço militar, aposentou-se. Nas recepções em sua casa em Hanover, na Baixa Saxônia alemã, gostava de entreter amigos e convidados com as histórias de suas aventuras, caçadas e viagens a terras estrangeiras.

Era exímio caçador, e entre seus relatos (não raro, politicamente incorretos, como os do James Lins) estava o da vez em que se viu diante de uma “esplêndida raposa negra, cuja pele valia demais para que a danificasse com uma bala” e não encontrou outra saída que não: chicotear o animal até que ele saltasse para fora da própria pele. Entre os ouvintes desse e de outros causos, a lenda conta, estava o bibliotecário e cientista Rudolf Erich Raspe (1737-1794), a quem se atribui a autoria das aventuras do Homem de Munchausen.

As primeiras histórias do Barão foram publicadas anonimamente em forma de anedotas, entre 1781 e 1783, numa revista chamada Vade Mecum für lustige leute (Manual para pessoas divertidas). Depois, acrescidas de mais relatos, viraram livro, A narrativa do Barão de Munchausen, de suas maravilhosas viagens e campanhas na Rússia. Originalmente, não foram escritas para crianças. Mas quem é que tem controle sobre essas coisas? “Kipling dedicou sua vida a escrever em função de determinados ideais políticos, quis fazer de sua obra um instrumento de propaganda e, no entanto, no final da sua vida teve que confessar que a verdadeira essência da obra de um escritor costuma ser ignorada por este; e lembrou o caso de Swift, que ao escrever Viagens de Gulliver quis levantar um testemunho contra a humanidade e deixou, no entanto, um livro para crianças”, escreveu Borges num ensaio do seu melhor livro, Discussão.

Meu episódio preferido das narrativas do Barão é uma das cenas clássicas da história da literatura, e quem me contou foi (de novo) meu pai, antes mesmo de eu ler o livro. A cavalo, Munchausen parte em viagem a Rússia, em pleno inverno. Errando à noite, pela escuridão, com o campo coberto de neve, decide parar para descansar. Está num lugar deserto, não se vê nada, apenas quilômetros de branco. Desmonta e amarra o animal a “uma coisa que despontava na neve, um tronco pontudo de árvore”. Deita agarrado a uma de suas pistolas (medida de cautela) e dorme “tão profundamente que só abre os olhos em plena luz do dia”. Quando acorda, tudo mudou: está no meio de um vilarejo, no pátio de uma igreja, e ouve seu cavalo relinchar num lugar distante, alto.

Olhando para cima, vê o bicho pendurado, pelas rédeas, na cruz da igreja. “Aí tudo ficou muito claro”, afirma, “durante a noite, o vilarejo tinha sido coberto de neve; mas acontecera uma súbita mudança no tempo; eu fui afundando devagar até o pátio da igreja enquanto dormia; e aquilo que, no escuro, eu tinha pensado ser o toco de uma árvore despontando acima da neve onde tinha amarrado meu cavalo, provou ser a cruz ou o catavento da torre da igreja!” (Tradução de Ana Goldberger, na edição da Iluminuras).

Há uns dois meses, participei de um bate-papo com o Mario Prata no Sesc Pinheiros. Contei a ele a história acima, de quando li o James Lins. Ele me falou do seu livro novo, que deve sair em breve. É uma série de entrevistas. O Prata encontrou e conversou com gente como o Aleijadinho, Pedro Álvares Cabral, o Bispo Sardinha, Ruy Barbosa, Anchieta (papo que aconteceu no Boteco das Ostra — assim mesmo, sem o plural —, na praia de Iperoig), o Carlos Gomes, a Marquesa de Santos, entre outros. Com o Cabral, aliás, além de revelações sobre o Descobrimento, um dos assuntos foi o Paulo Maluf — o tipo de coisa que o Munchausen aprovaria.
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sábado, 9 de agosto de 2014

fogo, água & ar

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Cui Cui, Rinko Kawauchi, 2005
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quinta-feira, 3 de julho de 2014

as boas intenções

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Texto novo no blog da Companhia das Letras.
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Dez de dezembro, do norte-americano George Saunders, está cheio de personagens bem-intencionados.

Na primeira história, “Victory lap”, a jovem Alison Pope ama suas amigas de classe, e as garotas da escola, e os garotos, e os professores. “Todo mundo era tão bacana. Todos dando o melhor de si.” Na verdade, ela ama a cidade toda. A pastora Carol; o quitandeiro adorável, “borrifando suas alfaces!”; o carteiro gorducho, “acenando com seus envelopes-bolha!”. “Para fazer o bem você só precisa decidir fazer o bem. Ter coragem. Fazer o que é direito”, diz Alison, que “gostava de estar no comando de si própria. De seu corpo, de sua cabeça. De seus pensamentos, sua carreira, seu futuro”. Alison luta pelas vítimas e contra a opressão, dá comida a pobres imaginários e conversa com eles: “Há alguma coisa que eu possa fazer por vocês, pessoal?”. E eles respondem: “Você já fez muito, Alison, ao se dignar a falar conosco.” Ao que ela acrescenta: “Isso não é verdade! Vocês não entendem que todas as pessoas merecem respeito? Cada um de nós é um arco-íris”.

Às vésperas de seu aniversário de quinze anos, Alison está sozinha em casa (“Também amava sua casa. Do outro lado do riacho ficava a igreja russa. Tão étnica!”) quando alguém bate à porta. É um desconhecido, um sujeito enorme, num daqueles coletes dos homens que medem o consumo de água.

De repente, o grandalhão segura Alison pelo pulso, saca uma faca.

Nesse ponto, George Saunders (mestre absoluto) nos leva a observar a história através dos olhos do vizinho da frente de Alison, o superprotegido Kyle Boot. Eles cresceram juntos, Alison e Kyle. Os pais de Kyle não o deixam fazer nada, estão sempre em cima, cobrando, exigindo, cuidando, proibindo. Querem, afinal, o bem dele. “Pense em todos os recursos que investimos em você, Amado Filho Único”, diz sua mãe. “Eu sei que às vezes parecemos rigorosos demais, mas você é tudo que temos”, diz seu pai.

Saunders constrói Kyle como um personagem paralisado, abobalhado pela infinidade de regras a que é submetido. Kyle vê o que está acontecendo na casa em frente: o sujeito com a faca, carregando Alison (“como uma boneca de pano no santuário do jardim perfeito que o pai tinha feito para ela”). O coração de Kyle dispara. Sua boca fica seca.

Não vou contar o desfecho da história, claro. Mas sugeriria um salto até a terceira narrativa do livro, “Filhote”, em que uma mãe, Marie, parte com seus dois filhos pequenos, Josh e Abbie, numa “Missão Família”. Pegam seu Lexus (sedan da Toyota) e vão até um sítio, margeado por um milharal, a alguns quilômetros da cidade, onde pessoas estão doando um cachorrinho.

À primeira vista, Marie parece ter algo da Alison Pope do primeiro conto, uma visão otimista das coisas. Também possui total certeza de que é portadora do bem. Apesar disso, logo percebemos que o caminho pelo qual Saunders está nos levando aqui é outro. Marie teve uma infância dura, sem muitas alegrias (“Papai era tão casmurro, Mamãe tão envergonhada”), por isso agora, na sua família, “a risada era incentivada!”. “Ah, a risada em família era a melhor coisa do mundo!”, pensava, enquanto dirigia, com os filhos no banco de trás.

Tinha uma visão muito correta de si, “sentia que o mundo era bom e que ela tinha encontrado seu lugar nele”. Era, afinal, uma pessoa compreensiva, que sabia que os filhos eram “crias de si próprios”. Ela era meramente uma “zeladora”. “Eles não precisavam sentir o que ela sentia; tinham apenas que receber apoio naquilo que sentissem, fosse o que fosse” — Waldorf aprovaria.

Então, Saunders muda a perspectiva da narração. Passamos a acompanhar Callie, a mãe da família cujo cachorrinho vai ser doado. Eles moram num sítio. São gente simples. O cachorrinho é branco, tem uma mancha marrom num olho. Se não for doado, vai ter que ser sacrificado, e Callie não quer isso, não quer que seu marido precise agir “como daquela outra vez, com os gatinhos”.

Callie tem um filho, Bo, que possui um tipo de deficiência — Saunders não nos diz do que se trata. Bo costuma ficar nervoso. Os remédios o fazem ranger os dentes, e subitamente “ele dava com o punho em cima de alguma coisa; tinha quebrado pratos daquele jeito, levado quatro pontos na mão até.” Mas naquele dia ele não precisava dos remédios porque estava em segurança no quintal, diz Callie, com seu taco, treinando arremessos, enchendo de pedrinhas seu capacete dos Yankees e atirando-as contra a árvore.

Marie chega com as crianças à casa de Callie e logo se depara com um mundo completamente distinto do seu, “a imundície, o cheiro de mofo, o aquário seco sustentando o volume único da enciclopédia”. “Por favor não toquem em nada”, ela diz a Josh e Abbie, mas “só mentalmente, desejando dar às crianças uma oportunidade de observá-la sendo democrática e compreensiva”.

As crianças adoram o cachorrinho, ficam repetindo “mamãe, eu quero ele, eu quero ele!”. Tudo está indo bem, de maneira absolutamente ok. Até que Marie vai até a janela e, “afastando antropologicamente a persiana”, vê uma cena que, claro, eu não vou contar. Mas que a faz desistir de levar o cãozinho, e que coloca em movimento um dos finais mais sensíveis que já li num conto.

O que dá para dizer sem dizer sobre os desfechos dessas duas histórias? — e é incrível que Dez de dezembro não tenha recebido uma única resenha ou crítica sequer até agora desde o seu lançamento por essas bandas. Saunders parece nos dizer algo mais ou menos assim: 1) por mais ponderadas e pretensamente racionais que sejam as nossas escolhas, alguma coisa sempre pode sair do controle; 2) lutamos contra injustiças e criamos novas injustiças; 3) temos plena certeza de que somos razoáveis e bons — o bom-senso, que Descartes dizia ser a coisa mais bem distribuída do mundo, porque todos pensamos ter —, mas muitas vezes o que consideramos o melhor a ser feito, com total convicção, acaba se mostrando cruel e desencadeando violência. 

Num outro conto sensacional, “Exortação”, um chefe manda um e-mail a seus empregados. A história é a própria mensagem, um memorando DE: Todd Birnie, Diretor de Divisão. PARA: Equipe. RE: Estatísticas do Desempenho de Março. É um texto motivacional, a “exortação” do título. Tem aquele humor dos relatos de Kafka — nunca ficamos sabendo, por exemplo, o que é exatamente o trabalho que Todd e seus funcionários realizam.

E a coisa, aos poucos, vai ficando pesada. “Estou dizendo que devemos tentar não esmiuçar cada mínima coisa que fazemos para saber se é boa/má/indiferente em última instância em termos morais”, escreve Todd. E vamos ficando horrorizados com a naturalização de comportamentos atrozes, com os auto-enganos que justificam as ações no ambiente corporativo. Ainda assim, o que sentimos é melancolia, uma sensação difusa, nunca raiva. A afeição de Saunders por seus personagens impressiona. E isso se dá ao mesmo tempo em que o autor lança luz sobre aquele lado negro que, lendo seus textos, passamos a enxergar em tudo o que convencionamos chamar de bem e de nossas mais nobres certezas e intenções.
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segunda-feira, 16 de junho de 2014

selfie secreto

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Escrevi sobre a Vivian Maier na edição de ontem da Ilustríssima.

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Em 2007, John Maloof, um corretor de imóveis e historiador ocasional de 26 anos, andava atrás de material iconográfico para a elaboração de um livro sobre Portage Park, bairro onde vivia, em Chicago. O volume serviria para promover a região, "colocá-la no mapa imobiliário da cidade". Na época, John também presidia uma certa Associação de Preservação Histórica do Setor Noroeste de Chicago, e passava parte de seus dias tragado por antiquários, leilões de tralhas, feiras, mercados de pulgas, aquilo tudo que o artista belga Francis Alÿs apelidou de "buracos negros da memória coletiva".

Certo dia, na modesta casa de leilões e venda de "móveis vintage, objetos para casa, arte e antiguidades" RPN (iniciais dos donos Roger, Paul e Nancy), John esbarrou numa caixa atulhada de velhos negativos e fotografias, uma coleção de imagens urbanas dos anos 1960. Sem saber muito bem se aquilo poderia ou não ser útil a sua pesquisa, deu um lance de US$ 400 (cerca de R$ 890) e arrematou o lote: 30 mil negativos, 1.600 rolos de filmes não revelados.

Foi para casa, abriu o pacote. As imagens nada tinham a ver com a vizinhança sobre a qual estava interessado — acabou não utilizando uma foto sequer no projeto do livro. Ficaram na caixa, num armário, por quase um ano.










Nesse ponto, como num daqueles contos de Maupassant em que depois de uma breve introdução o narrador diz aos ouvintes (quase sempre no final de um jantar): "Vou lhes apresentar o caso mais inquietante que jamais encontrei", John Maloof nos fala de Vivian Maier. Primeiro, assim, apenas um nome, num envelope, em meio a rolos de filme. Na época, Maloof não sabia praticamente nada sobre fotografia, mas quando decidiu olhar de perto o que tinha em mãos (e era muita coisa), ficou impressionado. Estava ali, diante dele, um riquíssimo panorama social de Nova York e Chicago nos anos 1950 e 1960, um olhar cheio de empatia sobre crianças e mulheres, a vida de gente simples, a experiência dos afro-americanos na cidade, bêbados, vagabundos, a face de mármore de nobres senhoras vestidas com pompa, uma freira na sombra, um homem caído e centenas de autorretratos.

Resolveu ir atrás daquela que provavelmente seria a autora das fotos. Vasculhou a internet. Nenhuma referência no Google, nada no Flickr, Twitter, Facebook. Ao mesmo tempo em que tentava encontrar pistas (sem sucesso), surpreendia-se cada vez mais com a qualidade do material. Passou a escanear os negativos e criou um blog. Seu interesse por fotografia também crescia. Fez cursos, leu livros, passou tardes indolentes assistindo a Os Gênios da Fotografia, na BBC.
Em 2009, em mais uma de suas monótonas e periódicas varreduras em sites de buscas, algo enfim surgiu: um brevíssimo obituário, no Chicago Tribune, do dia 23 de abril daquele ano. Uma nota simples, que dizia apenas: "Vivian Dorothea Maier, francesa de origem e moradora de Chicago nos últimos 50 anos, faleceu em paz na segunda-feira. Foi uma segunda mãe para John, Lane e Matthew. Sua mente aberta tocou a todos que a conheceram. Sempre pronta a dar sua opinião, um conselho, uma ajuda".

A partir disso, Maloof descobriu que John, Lane e Matthew eram irmãos e filhos de uma família para quem a senhorita Maier havia trabalhado por 17 anos, os Gensburg. E descobriu também que, durante 40 anos, entre Nova York, Los Angeles e Chicago, Vivian Maier fora babá.

Nascida em Nova York em 1926, filha de pai austríaco e mãe francesa, separados quando Vivian ainda era bebê, mudou-se para uma pequena cidade na França, Saint-Julien-en-Champsaur, onde passou a maior parte da infância e da adolescência. Foi lá que, em 1949, começou a fotografar, com uma Kodak Brownie, uma câmera amadora rudimentar. Não se sabe exatamente como desenvolveu essa aptidão. Alguns dizem que foi influenciada pela lembrança de uma amiga de sua mãe, a retratista Jeanne Bertrand, que conhecera pequena, ainda nos Estados Unidos. Em 1951, aos 25 anos, voltou para Nova York. Foi quando começou a trabalhar como babá — e a fotografar, compulsivamente, o que fez até o fim de sua vida.


Em outubro de 2009, enquanto ia desvendando essas e outras pegadas, John postou o link de seu blog sobre Maier num grupo de discussão do Flickr chamado Hardcore Street Photography. Na postagem, perguntava: "O que devo fazer com essa tralha toda? Consideram esse trabalho digno de uma exposição, de um livro? Ou esse tipo de coisa surge o tempo todo, assim, do nada? Qualquer ajuda é bem-vinda".

Em menos de 24 horas, Maloof recebeu mais de 200 respostas. Algumas, como a assinada pela alcunha Film Noir Anti-Hero, questionavam se aquilo não seria um hoax, um boato virtual: "Será que alguém não saiu por aí tirando fotos de pessoas vestidas com roupas dos anos 40 a fim de publicar na internet e dar o crédito para alguém que já morreu?". Mas a maioria das mensagens (a postagem no fórum chegou a ter 752 respostas) era de relatos absolutamente emocionados com as imagens de Maier.

"Seus rolos de filme não são uma sequência de cliques. Vivian não era nada impulsiva, era cuidadosa a cada registro. Raramente tirava três ou quatro 'takes' da mesma cena", comenta John Maloof, em entrevista por telefone. Sem perder tempo, John foi atrás dos outros lotes com o nome de Maier do mesmo leilão em que havia adquirido a primeira caixa. Arrematou praticamente tudo. Sua coleção, hoje, tem quase 150 mil negativos (boa parte ainda não escaneada), além de mais de 3.000 fotos impressas, centenas de rolos ainda não revelados e filmes de 8 mm gravados por ela. Nada disso veio à tona durante a vida de Maier, que, até onde se sabe, jamais mostrou a alguém seu trabalho.

Neste mês, com o lançamento no Brasil de Vivian Maier: Uma Fotógrafa de Rua [Autêntica, 136 págs., R$ 108], editado por John Maloof, com prefácio de Geoff Dyer, talvez possamos adivinhar algo mais sobre a vida secreta da babá-fotógrafa, cuja obra não raro vem sendo colocada ao lado de mestres como Diane Arbus, Walker Evans, Garry Winogrand e Robert Frank.

Dois outros livros foram publicados recentemente nos Estados Unidos e podem aprofundar o olhar sobre seu legado: Vivian Maier: Out of Shadows [CityFiles Press, 288 págs.], biografia escrita por Richard Cahan e Michael Williams; e Vivian Maier: Self-Portraits [ed. PowerHouse Books, 120 págs.], organizado por Maloof com Elizabeth Avedon. Para 2015, Maloof promete um novo volume de inéditas. Uma exposição com as fotografias já passou por mais de dez países, incluindo Alemanha, Inglaterra e França, e nos próximos meses deve chegar à Bélgica e à Suécia. Dois documentários, Finding Vivian Maier, dirigido pelo próprio Maloof em parceria com Charlie Siskel, e The Vivian Maier Mistery, produzido pela BBC e dirigido por Jill Nicholls, aterrissaram recentemente nos cinemas e na TV.


O reconhecimento crítico despontou já em 2011, na ocasião da primeira exposição individual de Maier, organizada por Maloof, em Chicago. "Trata-se de uma das fotógrafas de rua mais argutas dos Estados Unidos", escreveu David W. Dunlap, em extenso artigo no New York Times.

"As paisagens urbanas da senhorita Maier conseguem captar ao mesmo tempo a forte marca local e os momentos paradoxais que dão à cidade o seu pulso", diz o articulista. "As pessoas em seus frames são vulneráveis, nobres, derrotadas, orgulhosas, frágeis, ternas e, não raro, bem cômicas."

Apesar disso, Maloof viu portas de instituições como o MoMA e a Tate Modern se fecharem. "Eles não consideram as fotos como visão do artista se não forem impressas pelo próprio artista", lamenta.

Para o crítico e curador Rubens Fernandes Junior (um dos primeiros a escrever sobre Vivian no Brasil), o fato de nos anos 50 Maier fotografar com uma Rolleiflex, formato médio 6 x 6 cm — mais tarde ela usaria as Rolleiflex 3.5T, 3.5F, 2.8C, uma Leica IIIc, além das Ihagee Exakta, Zeiss Contarex, entre outras — já é um indício de sua exigência em relação à qualidade da imagem. "Significa também, arrisco dizer, que ela provavelmente estava observando os fotógrafos do período", diz.

A grande referência da época, chama a atenção Rubens, é a exposição de Edward Steichen, no MoMA, The Family of Man (1955), que se tornou um marco do imaginário do pós-Guerra. Embora existam poucos indícios nesse sentido, o crítico acredita que ela estava atenta ao mundo dos museus, para a produção de fotógrafos como Dorothea Lange, Eugene Smith, Irving Penn, Lisette Model, e às revistas como Life, Time e Paris Match. "Há em suas fotos um olhar terno, generoso, que busca incessantemente o diálogo. Sua composição nem sempre é óbvia, e sua luz é muito trabalhada, o que denota um amplo conhecimento do ofício", comenta ele. "O que me espanta é sua atitude de nunca querer mostrar, ou mesmo ter batalhado pela publicação ou exibição de suas fotografias. Seria muito rigorosa com ela mesma?"


Essa é uma das questões em Finding Vivian Maier. Para a realização do filme, o ex-corretor de imóveis e atual guardião do espólio de Maier entrevistou cerca de 90 pessoas, entre remanescentes das famílias em que ela trabalhara como babá e gente que a conhecera na França durante a juventude, além de críticos e especialistas.

A partir dos depoimentos, descobrimos que, ao se aposentar, Maier estocou seus pertences em vários guarda-móveis da cidade. Com o passar dos anos, parou de pagar o aluguel, e suas coisas ficaram esquecidas. Foi assim que boa parte de seu material fotográfico foi parar nas mãos de leiloeiros.

Nos depósitos, prestes a serem jogados fora, Maloof encontrou chapéus, câmeras, ingressos, um par de sapatos vermelhos, cartas, itinerários de viagem, milhares de dólares em cheques do governo não descontados, um gravador, uma infinidade de recortes de jornais diligentemente organizados em pastas — boa parte deles sobre crimes ocorridos na cidade.

Maloof conta que Vivian nunca casou, não teve filhos nem tinha amigos próximos. Revelava seus rolos de filmes num banheiro que tinha na casa dos seus patrões. No documentário, ela é lembrada como uma mulher "intransigente, mas brincalhona, infinitamente curiosa ainda que reservada e, algumas vezes, cruel". Vestia-se de "maneira antiga, costumava mentir sobre seu local de nascimento, e nas lojas de material fotográfico apresentava-se sempre com um nome diferente". Um conhecido recorda ter lhe perguntado do que vivia. "Sou uma espécie de espiã", foi a resposta.

Em 1958, fez uma viagem de quase três meses pelas Américas Central e do Sul, passando por Bogotá, Quito, Santiago, Montevidéu, Buenos Aires, São Paulo, Rio e pela Amazônia. Maloof diz que há uma profusão de imagens destas andanças, mas que ainda estão sendo escaneadas e avaliadas. Em 1959, perambulou ainda por Europa, Oriente Médio e Ásia.


Em recente artigo publicado no blog da revista The New Yorker, a jornalista e roteirista Rose Lichter-Marck diz que Maier "desafia nossas ideias de como uma pessoa, um artista e, especialmente, uma mulher deveria ser" — ainda mais se pensarmos nos Estados Unidos dos anos 1950, principal cenário das idas e vindas da fotógrafa. Para Lichter-Marck, ao contrário do que o documentário sugere, ao buscar motivações psicológicas e de trauma para a trajetória da fotógrafa, a impressão é de que Maier "era alguém bastante livre, que gostava de estar à margem, e que viveu a vida que quis viver".

Uma possível chave para sua obra talvez esteja em seus autorretratos, tirados em frente a vitrines, espelhos, vidros de carro. E sobretudo naqueles numerosos cliques em que Vivian registra a própria sombra. Num verso de "Folhas de Relva", Walt Whitman se pergunta: "Será que alguém, quando eu morrer e sumir, escreverá a minha história?/ Como se alguém pudesse saber alguma coisa".

Em 2008, Vivian escorregou e bateu a cabeça num pedaço de gelo, no centro de Chicago. Acabou não conseguindo se recuperar da queda e morreu em 2009, numa casa de repouso, aos 83 anos.
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segunda-feira, 2 de junho de 2014

duas músicas com sax e ombreiras

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"Love Theme", Vangelis, 1982

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"Chosen", Blood Orange, 2013
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sexta-feira, 30 de maio de 2014

em frente, pedalando

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Correspondência na revista de literatura Traviesa. Uma versão resumida saiu no caderno Ilustríssima, da Folha de S. Paulo.

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De: Emilio Fraia
Dec 30, 2013

Nesky,

Hoje cedo, abri o Facebook e vi uma foto sua dando uma cambalhota no ar, prestes a cair numa piscina. Primeiro, fiquei feliz em saber que você: 1) está bem; 2) de férias; 3) praticando saltos de caráter ornamental. Depois, pensei naquela sensação de quando algo está para acontecer — a superfície da água ali, paradinha, e num segundo, tudo em movimento.

Faz trinta dias que cheguei ao México, e essa é a sensação padrão da viagem. Toda hora parece que algo vai acontecer. Estou em Tulum, estado de Quintana Roo, num lugar chamado Pico Beach. Sol, mar, calor, um drinque de nome Ojo Rojo & o topless é uma realidade. Bom local para escrever e viver a vida subaquática; tenho acordado por volta das seis, todos os dias. Ontem, decidi alongar minha estada por aqui. Isso me parece uma das vantagens de viajar sem roteiro: a possibilidade de gostar de um lugar e ir ficando.

Meu vizinho de cabana é um argentino, Adán, que está atravessando o México de bicicleta, vendendo chocolates (orgânicos, que ele mesmo faz). Adán é magro, tem uma falha entre os dentes da frente e o cabelo comprido, preso num rabo de cavalo. Usa sempre a mesma camiseta, uma regata verde com uma orca desenhada. Ele me contou que quando chegou na cidade não tinha lugar para ficar. Então conheceu um casal de americanos que havia alugado a cabana por um mês. Por algum motivo, eles precisaram voltar para os Estados Unidos e como já tinham pago, e ninguém devolve dinheiro na temporada, ofereceram o lugar a ele. E o melhor: a cabana tem uma cozinha, onde Adán pode confeccionar de maneira hippie seu chocolate orgânico — é bom chocolate, experimentei ontem.

Esses viajantes, gente do couchsurfing, gente que passa anos viajando, indo de um lugar a outro, sem parar. É como se os exilados dos livros do Bolaño tivessem trocado de lugar com eles. Tenho pensado nas motivações, que não são políticas (pelo menos não diretamente políticas), que levam alguém como o Adán a viajar dessa maneira. Há pouco, li um ensaio, Antifragile: Things That Gain from Disorder, de um libanês-norte-americano, Nassim Nicholas Taleb. O que o autor tenta é desenvolver um conceito que seja o contrário da fragilidade. Mas esse oposto não seria a robustez nem a resistência. A ideia é: existem coisas que não só resistem mas se beneficiam do choque; que crescem ou se modificam quando expostas a situações de aleatoriedade e desordem.

Perguntei ao Adán a razão dele ter decidido sair pelo mundo, sozinho. Ele não tinha uma resposta pronta, mas deu para perceber aqui e ali que ele é meio que viciado em incerteza. Começou a viajar há treze anos e nunca mais parou (nesse tempo, voltou para a Argentina duas únicas vezes). Gosta de chegar num lugar sem saber muito bem o que vai acontecer, e não se mover, e ir percebendo como as coisas se configuram. Não deixa de ser uma atitude zen. E viajar sozinho talvez tenha a ver com exercitar isso, porque a todo momento alguma coisa acontece e desestabiliza a superfície da água.

Na terça, quando estava vindo para cá, peguei o avião em San Jose del Cabo, na Baixa California, fiz uma escala na Cidade do México, onde tomei um café e realizei breve análise metereológica da viagem: estou neste país há um mês e ainda não choveu. Na chegada, no aeroporto de Cancun (Tulum fica a 130 quilômetros de Cancun), me dirigi até o local onde calças, camisetas, livros, meias e cuecas desfilam em uma esteira rolante dentro de invólucros de couro ou tecido a que chamamos malas, bolsas e mochilas. Fiquei de pé, cumprindo o procedimento padrão de esperar. As malas circulavam, e as pessoas iam pescando suas coisas. Até que o salão começou a esvaziar.

Estava tudo indo bem, mas de repente entendi que estava prestes, pela primeira vez na vida, a viver a experiência cabal de ter a bagagem extraviada. Na esteira, sobrou apenas uma mochila preta, desbotada e murcha, dando voltas — até que um funcionário veio e a recolheu. Fui até a portinhola de onde saem as bagagens. Enfiei a cabeça. Já era noite lá fora e não tinha nada, ninguém, só um carrinho enferrujado, provavelmente o que trouxe as bagagens (menos a minha). Já aconteceu com você? É desolador. Fui e voltei umas cinco vezes, e eis que na outra ponta do salão surgiu um guardinha obeso de bigode. Eu me aproximei. Contei a situação. Os bocejos do guardinha desenvolviam velocidades negativas. Pelo rádio, ele entrou em contato com o balcão da companhia aérea. Então disse que um funcionário chamado Oliver estava a caminho. Depois de longa espera, funcionário Oliver surgiu. Preenchi um formulário. Apontei num diagrama o desenho que mais se assemelhava à minha mochila (descobri que ela se enquadra na categoria “mochila esportiva”). Oliver fez uma série de telefonemas. Até que minha bagagem foi localizada. Estava num outro avião, que sairia naquele momento da capital federal. Se eu quisesse, poderia ir ao hotel (no caso, minha cabana) e a companhia aérea se encarregaria de entregar a bagagem. Como a sorte já não estava muito do meu lado, achei melhor esperar no aeroporto. Comer um cachorro-quente e morrer. Seria um fim digno.

Enfim, eu poderia estar te contando coisas maravilhosas que vivi nos últimos vinte e nove dias mas é sempre mais divertido contar aquilo que saiu errado. Também deve ser por isso que o Adán viaja: para que as coisas possam dar errado em algum nível (buscar aventuras num mundo onde as promessas de aventura parecem não se cumprir). E ninguém afinal quer saber de histórias que não envolvam: 1) ruína; 2) choro; 3) personagens que apanham do início ao fim. Acho que todo bom romance é assim, né? E tanto melhor se envolver incerteza. Agora o vento mudou, parece que vai chover.

Feliz início de ano, amigo Nesky.

Emilio

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De: Antônio Xerxenesky
Jan 2, 2014

Dearest Emilio,

Em primeiro lugar, gostaria de romper sua ilusão: não pratico grandes saltos ornamentais na piscina. A foto ficou incrível, não dá para entender onde estão os meus braços, qual o movimento que está ocorrendo, se vou dar de cabeça na laje ou cair de costas na água. A realidade não é tão emocionante. Estávamos na casa do Galera — um dos primeiros lugares onde te encontrei ao vivo, onde começamos essa história de “ser amigos” — e o Natão, amigo do pessoal, queria muito testar uma câmera que registra zilhões de frames por segundo. Então fui lá, dei um salto desajeitado, uma cambalhota fracassada, caí de costas na água, um tchuf doloroso, mas isolando aquele frame que publiquei no Facebook, parece que realizei uma manobra mirabolante. Costumam dizer que construímos uma narrativa idealizada de quem somos nas redes sociais. Pode-se dizer que fiz isso. Mas a verdade é que gosto de colocar coisas estapafúrdias no Facebook mesmo. Não entendo aquele monte de escritores que lotam minha timeline publicando apenas comentários críticos inteligentes sobre tudo que está aí. Parece que não dão cambalhotas na piscina.

Rapaz, quantas aventuras você deve estar vivendo. Na sua carta, por sinal, aparece algumas vezes a palavra “aventura”. E você me fala de viagens solitárias e pessoas nômades. Esse mundo parece ficção. Viajar nunca foi tarefa fácil para mim. A primeira vez que saí da América Latina foi em 2013, uma ida a França em maio. Nunca tive nenhum fetiche por Paris ou pela cultura francesa, nem consigo me lembrar por qual motivo eu e a Gabi escolhemos a França, dentre tantos países. Deve ter sido porque gostávamos de coq au vin e de vinhos.

Você contou do drama de perder a bagagem. Nunca me aconteceu, mas tenho um medo tremendo que ocorra. Sou muito apavorado para certas coisas, e sinto que nem anos de terapia seriam capazes de curar isso. Eu tinha uma certeza inconsciente, por exemplo, de que seria barrado na imigração, mesmo estando com os documentos em ordem, mesmo sendo branco, de classe média, mesmo trajando um blazer. Claro que passei tranquilamente, mas uma voz repetia no meu cérebro o tempo inteiro: “Vai dar errado. Não deixarão você entrar. Você será interrogado. Caso passe, vai perder a conexão. Se pegar a conexão, o avião vai cair. Se chegar lá, sua bagagem não estará na esteira”. E assim por diante. Um dos motivos pelos quais só consegui viajar mesmo em 2013, aos 28 anos, segurando a mão da namorada.

É nessas barreiras de imigração, por sinal, que você enxerga toda a tensão racial que parece dominar a Europa: enquanto um branquela como eu passa diretamente, sem grandes inspeções, qualquer mulher trajando uma burca é questionada por minutos e minutos. Em Paris, árabes e negros são vistos mais na periferia, e parecem ser tratados com receio e desdém por alguns parisienses. Posso estar enganado, mas foi a sensação que eu tive. Paris, por sinal, foi uma decepção. É o legítimo caso de uma cidade arruinada pelo turismo predatório. Mesmo evitando lugares mais óbvios, parece que nenhum lugar está a salvo. E sinto que os moradores de lá desenvolveram certo nojo dos turistas. Com razão. Vi cada demonstração de grosseria que seria capaz de preencher cinco cartas com exemplos. Impossível não lembrar o que Foster Wallace diz: o lugar que visitamos seria muito melhor sem a nossa presença.

Por favor, não me entenda mal. Não imagino que você ou seu comparsa Adan sejam turistas incômodos. Estou falando apenas de um mal estar que tenho em lugares muito clichês. Por isso que as cidades que mais gostei ficavam no interior da França. O que me lembra o que você falou de “aventura”. Parece que, nas viagens, há uma guerra dialética entre “aventura” e “conforto”, entre explorar pequenas cidades do México, hospedado em cabanas, ou ficar estirado numa cadeira de praia em um resort paradisíaco. Não vivi nada maluco e fiquei no lado do conforto na França, mas é curioso pensar que a parte mais legal da viagem foi quando eu e Gabi tomamos o caminho menos óbvio. Estávamos em Dijon e decidimos beber os tais vinhos da Borgonha. O hotel oferecia esses pacotes turísticos, um ônibus gostosinho com ar-condicionado que nos levaria até um château. Pensamos em comprar um pacote, mas estavam esgotados. O que fizemos? Descobrimos que havia um château que recebia gente de fora a algumas cidadezinhas de distância. Pegamos um trem até a periferia da cidade e de lá um ônibus que passava com uma frequência desanimadora. Quando entramos no ônibus, estava cheio. Quando descemos, éramos os únicos passageiros. A cidadezinha ficava no fim da linha. Saímos do ônibus e não havia nada ao redor. Nada. Quer dizer, campos verdejantes. Uma casa à distância. Parreiras. Um cão estropiado. Caminhamos sem rumo. Encontramos uma vovozinha meio surda em uma cadeira de rodas. Ela nos orientou até o château, apesar do nosso tosco francês. Batemos na porta e bebemos os melhores vinhos de nossas vidas.

Uma aventura terrivelmente burguesa, sem dúvida. Mas céus, estávamos na França e gostamos de vinho. Tudo que fizermos será terrivelmente burguês. Conto a experiência porque, mesmo visitando o país mais turístico de todos, por um momento nos encontramos perdidos, em terra estranha, e isso pareceu mais especial do que o maldito Arco do Triunfo, que é sem graça pra chuchu.

“Aventuras”. Heh.

Saludos,

Nesky

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De: Emilio Fraia
Jan 3, 2014

Nesky,

Obrigado demais pelo relato. Pensei em finais alternativos: você e Gabi batem na porta do château e bebem os piores vinhos de suas vidas. Ou depois de toda a epopeia ônibus/trem descobrem que o lugar está perturbadoramente vazio, com cara de ter sido abandonado às pressas por algum motivo obscuro. Ou vocês se marcam no Foursquare e são perseguidos por um assassino de blazer branco Miami Vice. Quanto ao argentino Adan meu-vizinho-de-cabana, bem, ele poderia seguir pelo mundo, transmutando manteiga de cacau em chocolate orgânico para, no fim, concluir que seu ideal de “aventura” na verdade não se cumpriu; que sua experiência ficou abaixo da ficção que formou dela mesma; que de um jeito ou de outro, em algum nível, tudo é decepção. Mesmo assim, ele não deixaria de viajar. Vai consertar a bicicleta (está com um problema na correia) e continuar firme, em frente, pedalando. Um tipo de “não posso continuar, tenho que continuar”.

Do lado de cá, fui visitar as ruínas de Palenque, em Chiapas. Que bonito esse tipo de paisagem, desolada, com a natureza avançando sobre os restos das construções. Dá uma espécie de consciência da transitoriedade das coisas. Principalmente do poder. Ver todos aqueles templos carcomidos, pensar que um dia foram edifícios majestosos, feitos por gente que escravizou e/ou devastou tribos vizinhas, que usurpou o lugar daqueles que num momento específico foram tomados como inimigos etc. — uma coisa meio ambiente corporativo, só que com chefes maias de nome K’inich Janaab’ Pakal.

Lá pelas tantas, eu sentei no degrauzinho de uma das pirâmides, fazia um calor desgraçado, e fiquei brincando de tirar fotos em que só aparecessem as ruínas, os templos no meio da selva, sem as pessoas. Esperar o momento, buscar o ângulo certo, e quando não sobrasse ninguém no quadro, clic clic, fotografar. Coisas estúpidas que a gente faz quando está sozinho (a prática da vida secreta, que você conhece bem). Mas os ônibus não paravam de chegar. Era muita gente. Então, analisando as fotos depois, pode-se dizer que minha tentativa de evocar o mundo anterior às procissões de turistas não foi exatamente um sucesso. E mesmo se tivesse sido, ainda restaria: eu. No fundo, acho que somos todos turistas incômodos, compartilhando nas redes sociais nossas peripécias incômodas de turistas incômodos.

E nunca tinha pensado nisso: o Brasil é um país sem ruínas, né. Sem falar que tudo o que existe de mais ou menos antigo entre nós acaba sendo restaurado e, poxa, seria legal ter uns lugares assim, abandonados e caindo aos pedaços, diz aí. Do que conheço, tem o castelo do Garcia D’Ávila, na Bahia, e dois presídios, o da Ilha Anchieta, em Ubatuba, e o da Ilha Grande, no Rio. Não sei se você já esteve lá, mas essas ruínas dos presídios são espetaculares, bons espécimes de passado, ainda que um passado recente. Este último fica numa das praias mais bonitas que já vi, Dois Rios — três horas de caminhada pesada desde o Abraão, a vila onde a maioria das pessoas se aloja na Ilha Grande. Foi lá que o Graciliano Ramos ficou preso, nos anos 30. Madame Satã também. E eu peguei um carrapato na perna, tive febre e achei que fosse morrer (como você é meu amigo, vou te poupar dos detalhes dessa história).

No sábado, recebi um e-mail da Flora, uma amiga que mora na Alemanha. Fazia um tempão que não falava com ela. Na mensagem, ela dizia que se mudou com o namorado para uma reserva cercada de lagos, a uma hora de Berlim, uma casa de três andares, com duas cachorras e dois quartos de hóspedes. Disse que em breve vão abrir vagas para artistas em crise, escritores com bloqueio etc. (a estadia vai incluir alimentação orgânica, lareira e mímica). Depois, me contou que vai passar por uma cirurgia. Eu escrevi de volta, narrando episódios da minha vida recente e contando da vez que tive apendicite. Durante um tempo, nós fomos bastante próximos, a Flora namorava um amigo meu, o Arthur. Então, enquanto escrevia, foi como retomar um pouco essa época, a gente num réveillon na Cajaíba, olhando os plânctons na praia à noite; algo análogo a estar diante das ruínas do templo ou do presídio da Ilha Grande (ok, não é uma imagem muito boa, mas tem a ver com uma espécie de elo, no presente, com essa ficção chamada passado). Na hora foi meio nostálgico, mas não no sentido de que “antes era melhor”, só uma consciência de que o tempo passa e as coisas vão ganhando níveis, complexidade, layers.

Pensei numa história que li outro dia: em 1914, o Giacometti esculpiu seu primeiro busto de observação. Era o irmão dele que posava. Ele conta que de início sentiu um prazer extremo e teve a impressão de que a coisa viria facilmente, de que conseguiria fazer mais ou menos o que via. Cinquenta anos depois, ele está no ateliê, há uma semana, tentando fazer a cabeça daquela época, como em 1914, mais ou menos da mesma dimensão que a primeira. Enquanto em 1914 tinha a impressão de fazer o que queria, agora não consegue mais. E conta que pensando bem nunca mais conseguiu fazer uma cabeça simplesmente como a vê, no sentido mais primário. Se vê uma cabeça de muito longe, tem a ideia de uma esfera. Se vê de perto, ela deixa de ser uma esfera para se tornar uma complicação extrema em profundidade. Se olha de frente, esquece o perfil. Se olha o perfil, esquece a face. Tudo se torna descontínuo, complexo, e ele não consegue mais apreender o conjunto. Estágios demais. Níveis demais. Acho que é isso.

Abraço e urge almoço da indolência,

Emilio

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De: Antônio Xerxenesky
Jan 6, 2014

Caro Emilio,

Nunca vi uma ruína. Quer dizer, estou aqui cavoucando as lembranças atrás de algo, algum passeio pelo interior do Rio Grande do Sul, sei lá. Não, acho que não. Acho que só vi em filmes. E talvez por isso não tenha pensado muito nelas. Mas o que você me falou me fez lembrar A grande beleza, filme de Paolo Sorrentino elogiadíssimo que assisti semana passada. Achei o filme lamentável, tive vontade de sair no meio de tão ruim que achei. Fazia tempo que não sentia isso quanto a um filme. É um sub-Fellini com estética de propaganda de perfume. Quer homenagear 8 e ½, mas não tem um quinto do apuro visual. E dá-lhe travelling no pôr-do-sol.

Mas o que mais me irritou no filme nem foi isso. Foi certa defesa da “antiga Roma”, dos antigos valores. Das ruínas. O tempo todo o filme contrasta o novo decadente com o velho sagrado. De um lado, música pop de quinta categoria, padres aproveitadores e festas dignas de Berlusconi; de outro, a beleza do Coliseu, da Roma de arquitetura clássica, a presença fantasmagórica de Fanny Ardant. Na sequência que considero a pior do filme, uma menina faz sua performance artística com um monte de balde de tintas e o protagonista faz um piadinha sobre como ela ganha milhões. Todo blasé, o protagonista resolve então abandonar a performance e mostrar à sua companheira o que considera a parte mais bela de Roma, a parte “secreta”, estátuas de séculos atrás, tudo embalado na mais melodiosa música sacra.

Não me entenda mal, não estou criticando a tradição, muito menos a música — a trilha do filme é linda, tem Arvo Pärt e Henryk Górecki. Critico apenas a má vontade contra o contemporâneo. É muito, muito fácil fazer piada com arte contemporânea. A cada Bienal de São Paulo (ou de Porto Alegre), a gente precisa aguentar aquela série de piadas sobre alguém que confundiu um extintor de incêndio com uma obra, blá blá blá. Considero muito mais digno o esforço de encontrar valor e produzir reflexão sobre o que está aí — porque tem muita coisa boa aí, seja na arte, seja na música pop. Dizer que vivemos numa grande decadência cultural e moral (que parece ser a mensagem do filme de Sorrentino) é uma saída tão banal e preguiçosa...

Eu estou muito longe de ser um conhecedor da arte contemporânea, e admito com constrangimento que de vez em quando confundo Waltercio Caldas com Cildo Meireles, e que muitas vezes passo por uma exposição pensando que nada fez o menor sentido para mim. E, no entanto, vejo um valor inestimável em um projeto como o de Inhotim. Você já foi lá?

Rapaz, creio que Inhotim é o segredo mais bem guardado do Brasil. Quer dizer, o pessoal do nosso meio de trabalho vai dizer “dã, claro, Inhotim, isso não é segredo, todo mundo conhece”, mas pergunte aos seus pais, primos, amigos de fora do meio literário/jornalístico/editorial. Eles não sabem o que é Inhotim. E é incrível que exista esse lugar no Brasil. Um museu imenso à céu aberto. Um museu onde você pode tomar banho de piscina em uma obra de arte. Um museu que permite que os artistas libertem que o possuem de mais megalomaníaco. Há instalações das quais não gostei muito, mas que me impressionaram justamente pela imponência, como o imenso trator derrubando a árvore de Matthew Barney dentro de uma cúpula espelhada.

Talvez a obra que eu mais lembre de Inhotim seja Sonic Pavilion, criada pelo californiano Doug Aitken. É um pavilhão envidraçado com um buraco no meio. O buraco tem 200 metros de profundidade; no fundo dele, Aitken colocou microfones para gravar o ruído que vem do fundo da Terra e o barulho fica reverberando pelo pavilhão. E qual é o som do fundo da Terra? É terrivelmente grave e estranho. Lembra um pouco os drones tão usados na música experimental. Acho que sou capaz de produzir uma onda sonora parecida no meu sintetizador, mas será um som criado artificialmente, que não veio do fundo da Terra, e isso faz toda a diferença. Só sentando no chão do Sonic Pavilion para entender.

E isso fica no Brasil. A seis horas de carro de São Paulo. Perdoe o deslumbramento, mas acho isso incrível. Pena que os detratores do contemporâneo nunca chegarão nem perto do local.

Vamos marcar aquele almoço, plmdds.

Saudações,

Nesky

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De: Emilio Fraia
Jan 9, 2014

Nesky,

Você conhece a Lei Kenneth Tynan sobre o Cinema Responsável? Ela diz que todos os filmes que tentem diagnosticar a sério os Problemas Humanos Contemporâneos são ruins. Só os filmes históricos, as comédias, as sátiras e os filmes de suspense prestam. Nota: para Tynan, Cidadão Kane é em parte histórico e, em parte, uma sátira. Ou seja, estou 800% contigo. E, pensando depois, a sinopse do A grande beleza podia ser: “A grande beleza (Itália-França/2013, 142 min.) Ao fazer 65 anos, escritor bon vivant questiona rumos de sua vida e encontra o antídoto para a arte vazia e frívola de seu tempo numa revoada de flamingos feita no Windows 95”. Ainda não me recuperei dessa cena dos flamingos, que coisa hedionda.

Sim, fui a Inhotim no ano passado. Gostei de tudo o que você falou. E tem o pavilhão da Lygia Pape. Rapaz. Eu queria escrever daquele jeito, tudo muito simples, elegante e geométrico. Outra obra que me impactou foi a de uma espanhola, Cristina Iglesias. Não sei se você se lembra, fica no meio de uma clareira, num lugar de mata fechada. É uma escultura de aço, espelhada, um labirinto: por fora, as paredes refletem a vegetação ao redor; por dentro, texturas imitam raízes, folhas, troncos. O tempo todo ouve-se um barulho de água. E bem no centro da coisa, depois de percorrer corredores, alguns sem saída, voltar, entrar de novo, chega-se a uma bomba d’água.

E, antes, é preciso andar uns dez minutos numa trilha até alcançar a obra. Essa parte é bem legal também. Tem algo de surpresa, e é como se uma narrativa (a da trilha, no meio do mato) fosse interrompida e invadida por outra (a de uma grande escultura, um objeto estranho, um labirinto espelhado).

Tenho pensado em histórias assim, que de repente se transformam em outras. Acontece muito nos contos do Onetti. Há sempre alguém que conta, imagina, inventa, recorda. E a história contada, imaginada, inventada toma a frente e acaba funcionando como uma espécie de comentário à primeira história, que segue ali, latente, à espreita. No Los ingravidos, da Valeria Luiselli, tem algo assim também. Você leu? Tive a impressão que esse livro passou meio batido aqui no Brasil. A narradora, que tenta escrever um romance, fica obcecada pelo poeta mexicano Gilberto Owen, e a voz dele começa a tomar conta da trama e se mistura às lembranças dela. A justaposição das duas narrativas cria um efeito que achei excelência pura.

E, cara, essa semana foi tensa, um milhão de coisas pra resolver. Devo ter ido ao cartório pelo menos umas cinco vezes. E tem toda a morte que é responder e-mails. Você responde cinco, dez, e eles se multiplicam em quinze, vinte. Revisei também a tradução de um conto meu que vai sair numa coletânea de autores brasileiros da Alfaguara, na Argentina. E estou tentando terminar meu livro. Aliás, fiquei feliz com a notícia de que você está traduzindo o Kassel no invita a la logica, novo do Vila-Matas. É um livro que tem a ver com essas questões da arte contemporânea, né. Está achando bom? Gosto da maneira como o Vila-Matas se aproxima do tema. O História abreviada da literatura portátil é um baita livro. Gosto do lema dos portáteis: escrita por diversão e escrever obras que possam facilmente caber numa maleta (embora, claro, escrever não seja algo exatamente divertido e há romances ótimos que, nossa, como pesam). No Exploradores do abismo tem o famoso conto com a Sophie Calle e, enfim. Tudo infinitamente mais interessante do que a visão do Mario Vargas Llosa sobre arte contemporânea, para dar um exemplo de “detrator do contemporâneo”. E, olha, não me entenda mal, eu adoro Vargas Llosa — Os filhotes, A cidade e os cachorros e Tia Julia e o escrevinhador são livros que calam fundo no peito deste prosador. Mas esse recente, A civilização do espetáculo, não dá. Até entendo o empenho em conservar a tradição do romance etc., mas a coisa não pode ser um Fla-Flu assim.

Vi que numa entrevista recente sobre o Kassel o Vila-Matas cita um trecho de uma entrevista do David Foster Wallace. Então vou transcrever aqui a título de “até mais, Nesky”. É assim: “A ficção pode oferecer uma visão de mundo tão sombria quanto desejar, mas para ser realmente boa ela precisa encontrar uma maneira de, ao mesmo tempo, retratar o mundo e iluminar as possibilidades de permanecer vivo e humano dentro dele”. É meio “literário” e semicafona, né. Mas sei lá. Acho que cheguei aqui, no fim, e estou quase absolvendo os flamingos, as propagandas de perfume e o Windows 95.

Abração, capricha.

Emilio

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De: Antônio Xerxenesky
Jan 11, 2014

Dearest Emilio,

Fico feliz de ver que concordamos no quesito cinematográfico, embora eu estivesse torcendo por alguma discordância selvagem, algo que tornasse essa última carta um espaço de disputa e briga. 

Quanto à instalação de Cristina Iglesias, não me lembrava dela: tive que colocar no Google para confirmar que visitei essa obra em Inhotim. A verdade é que caminhei por esse labirinto sem entender absolutamente nada. Quando isso acontece, também prefiro nem olhar o release explicativo. Esses textos informativos que se propõem a explicar uma obra de arte com um monte de jargões acadêmicos sobre “relação entre o homem e o espaço” tendem a ser nauseabundos. Engraçado como nós dois reagimos de maneira completamente distinta quanto a uma obra — se não fosse a sua menção, nem lembraria desse lugar verde-envidraçado.

Estou me programando para ler Luiselli há bastante tempo. Não acho que ela passou batido por aqui, vários amigos comentaram do livro — a verdade é que quase todo autor latino cujo nome não é Roberto Bolaño acaba sendo menos lido do que deveria no Brasil. Tenho a impressão de que somos muito mais influenciados pelas tendências de mercado norte-americanas; até mesmo os sucessos europeus que emplacam no Brasil tiveram um selo de aprovação dos norte-americanos: Thomas Bernhard, W. G. Sebald... Uma pergunta cruel: teria Roberto Bolaño feito tanto sucesso no Brasil se não fosse o êxito tremendo nos Estados Unidos? Claro, talvez eu esteja sendo paranoico.

Não li ainda a Luiselli porque estou me esquecendo o que é ler um livro por prazer, um romance que escolhi ler por puro capricho. Você sabe como funciona: trabalho oito horas por dia, depois do expediente vou para casa onde trabalho mais, em outra coisa, neste caso a tradução de Vila-Matas, e às vezes ainda tenho alguma resenha ou artigo para escrever, ou ler um livro para redigir as famosas “orelhas não-assinadas”. Céus, e preciso arranjar espaço para ler algo de pesquisa para o meu futuro romance. E um pouco de tempo para assistir a um filme ou série boba, jogar videogame, existir, comer um hambúrguer, escovar os dentes.

Preciso dar um jeito de fazer o dia ter 30 horas.

Ou mudar o meu estilo de vida. 

Voltando ao Vila-Matas: não está nada fácil traduzir Kassel. Não por alguma dificuldade intrínseca do livro (embora tenha muitas expressões barcelonenses que eu nunca tinha ouvido), mas porque Vila-Matas é um autor tão presente em minha vida que traduzi-lo é intimidante. Isso não quer dizer que tenho uma idolatria cega por Vila-Matas; como todo autor que realmente admiro, tenho minhas crises de fé. Às vezes acho que tanta metaliteratura e autoficção acaba tirando muito da humanidade, que faltam personagens tridimensionais. E admito que achei Dublinesca e Ar de Dylan livros de pouca vitalidade. Este novo que estou traduzindo, no entanto, é incrível, é Vila-Matas na sua melhor forma. E, se eu acreditasse em sincronicidade, diria que é um recado do destino ter caído nas minhas mãos esse livro. Vila-Matas está tratando de vários temas que vem me obcecando: desde a defesa do contemporâneo — sobre o qual conversamos aqui! — até as caminhadas de Walser e a reclusão de Wittgenstein (o último livro que li 100% por prazer foi a inacreditável biografia de Wittgenstein escrita por Ray Monk). A sua lembrança do História abreviada é certeira — Vila-Matas é ótimo ao lidar com arte contemporânea, especialmente com discípulos de Duchamp.

Enfim, Kassel é um livro excelente e espero que minha tradução faça jus. Não sei como é para você, mas, para mim, traduzir é um tanto como escrever ficção: durante todo o processo, acho que está ficando horrível e que sou uma farsa. Só depois, revisando com calma, que consigo avaliar de forma mais realista o resultado. A exceção recente foi O fundo do céu, livro de Rodrigo Fresán que traduzi. Ao terminar, tive certeza de que fiz um trabalho digno, que Fresán estava soando naturalmente em português, que o resultado foi um romance traduzido sem sotaque e, ao mesmo tempo, fiel. Queria que fosse sempre assim.

Olho o tamanho da carta que escrevi até agora e vejo que estou já abusando do tempo e do espaço, como aquele vencedor do Oscar que fica discursando tempo demais e ignora o volume da orquestra aumentando. Eu queria encontrar uma frase (uma citação também seria válida), um tema, um recado, algo para fechar de um jeito redondinho a nossa correspondência. Nada me ocorre. Tenho andado ansioso, não reconheço mais a diferença entre dia de semana e fim de semana, tenho trabalhado demais e lido por prazer de menos. Por favor, vamos marcar aquele almoço, um almoço terrivelmente longo e inútil, um almoço de três horas, com direito a café em um segundo local e um sorvete de pistache em um terceiro. Acho que estou precisando.

Foi um prazer,

Nesky
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