domingo, 27 de novembro de 2016

cinco amores

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"Mi primer amor tenía doce años y las uñas negras. Mi alma rusa de entonces, en aquel pueblecito de once mil almas y cura publicista, amparó la soledad de la muchacha más fea con un amor grave, social, sombrío que era como una penumbra de sesión de congreso internacional obrero. Mi amor era vasto, oscuro, lento, con barbas, anteojos y carteras, con incidentes súbitos, con doce idiomas, con acechos de la policía, con problemas de muchos lados. Ella me decía, al ponerse en sexo: Eres un socialista. Y su almita de educanda de monjas europeas se abría como un devocionario íntimo por la parte que trata del pecado mortal.

Mi primer amor se iba de mí, espantada de mi socialismo y mi tontería. 'No vayan a ser todos socialistas...' Y ella se prometió darse al primer cristiano viejo que pasara, aunque éste no llegará a los doce años. Sólo yo, me aparté de los problemas más sumos y me enamoré verdaderamente de mi primer amor. Sentí una necesidad agónica toxicomaníaca, de inhalar, hasta reventarme los pulmones, el olor de ella; olor de escuelita, de tinta china, de encierro, de sol en el patio, de papel del estado, de anilina, de tocuyo vestido a flor de piel – olor de la tinta china, flaco y negro –, casi un tiralíneas de ébano, fantasma de vacaciones. Y esto era mi primer amor.

Mi segundo amor tenía quince años de edad. Una llorona con la dentadura perdida, con trenzas de cáñamo, con pecas en todo el cuerpo, sin familia, sin ideas, demasiado futura, excesivamente femenina. Fui rival de un muñeco de trapo y celuloide que no hacía sino reírse de mí con una bocaza pilluela y estúpida. Tuve que entender un sinfín de cosas perfectamente ininteligibles. Tuve que decir un sinfín de cosas perfectamente indecibles. Tuve que salir bien en los exámenes, con veinte – nota sospechosa, vergonzosa, ridícula; una gallina delante de un huevo. Tuve que verla a ella mimar a sus muñecas. Tuve que oírla llorar por mí. Tuve que chupar caramelos de todos los colores y sabores. Mi segundo amor me abandonó como en el tango. Un malevo...

Mi tercer amor tenía los ojos lindos y las piernas muy coquetas, casi cocotas. Hubo que leer a Fray Luis de León y a Carolina Invernizzio. Peregrina muchacha, no se por qué se enamoró de mí. Me consolé de su decisión irrevocable de ser amiga mía después de haber sido casi mi amante, con las doce faltas de ortografía de su última carta.

Mi cuarto amor fue Catita.

Mi quinto amor fue una muchacha sucia con quien pequé casi en la noche, casi en el mar. El recuerdo de ella huele como ella olía, a sombra de cinema, a perro mojado, a ropa interior, a pan caliente, olores superpuestos y en si mismos, individualmente, casi desagradables, como las capas de las tortas, jengibre, merengue etc. La suma de olores hacía de ella una verdadera tentación de seminarista. Sucia, sucia, sucia. Mi primer pecado mortal."

Martín Adán, La casa de cartón, 1928
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terça-feira, 11 de outubro de 2016

o demônio em pessoa

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"Ressoou junto ao terceiro pavilhão: jak, jak, jak. E assim junto a todos os pavilhões e, depois, atrás dos barracões e além do portão. Tinha-se a impressão de que aqueles sons eram emitidos, em pleno silêncio noturno, pelo próprio monstro de olhos carmesins, pelo demônio em pessoa, que possuía ali tanto os patrões como os operários e enganava a uns e outros.

Korolióv saiu do pátio e caminhou para o campo.

— Quem está aí? — gritou do portão, em sua direção, uma voz rude.

Parece uma prisão, ele pensou e não respondeu ao grito.

No campo, ouviam-se melhor os sapos e rouxinóis, sentia-se a noite de maio. Vinha da estação o ruído de um trem. Em alguma parte, galos sonolentos emitiam seu grito, mas, apesar de tudo, a noite era plácida, o mundo estava dormindo tranquilo. Não longe da fábrica, havia troncos de árvores cortadas, acumulava-se material para uma construção. Korolióv sentou-se sobre as tábuas e continuou pensando:

Somente a governanta sente-se bem aqui e toda a fábrica funciona unicamente para satisfazer seus prazeres. Mas ela parece ser apenas uma espécie de testa-de-ferro. O mais importante de todos, aquele para quem se faz tudo aqui, é o demônio.

E ele pensou no diabo, em que não acreditava, e ficou olhando para as duas janelas iluminadas pelo fogo. Tinha a impressão de que olhava para ele, com aqueles olhos carmesins, o próprio demônio, aquela força desconhecida que estabelecera as relações entre os fortes e os fracos, este erro grosseiro, que já não havia meio de corrigir."

"Um caso clínico", Tchekhov, 1898
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sexta-feira, 16 de setembro de 2016

perdi duas cidades lindas. e um império / que era meu, dois rios, e mais um continente

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"The art of losing isn’t hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn’t hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster. 

I lost my mother’s watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loves houses went.
The art of losing isn’t hard to master.

I lost two cities, lovely ones, And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn’t a disaster.

— Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan’t have lied. It’s evident
the art of losing’s not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster."

"One art", Elizabeth Bishop, 1976
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quarta-feira, 17 de agosto de 2016

domingo, 14 de agosto de 2016

atletas, corpo, beleza (e terror)

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"Beauty is not the goal of competitive sports, but high-level sports are a prime venue for the expression of human beauty. The relation is roughly that of courage to war.

The human beauty we’re talking about here is beauty of a particular type; it might be called kinetic beauty. Its power and appeal are universal. It has nothing to do with sex or cultural norms. What it seems to have to do with, really, is human beings’ reconciliation with the fact of having a body. There’s a great deal that’s bad about having a body.

If this is not so obviously true that no one needs examples, we can just quickly mention pain, sores, odors, nausea, aging, gravity, sepsis, clumsiness, illness, limits — every last schism between our physical wills and our actual capacities. Can anyone doubt we need help being reconciled? Crave it? It’s your body that dies, after all.

There are wonderful things about having a body, too, obviously — it’s just that these things are much harder to feel and appreciate in real time. Rather like certain kinds of rare, peak-type sensuous epiphanies (“I’m so glad I have eyes to see this sunrise!” etc.), great athletes seem to catalyze our awareness of how glorious it is to touch and perceive, move through space, interact with matter. Granted, what great athletes can do with their bodies are things that the rest of us can only dream of. But these dreams are important — they make up for a lot."

"Federer como experiência religiosa", David Foster Wallace, 2006

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"O Atleta W não tem poderes sobre sua vida. Nada tem a esperar do tempo que passa. Nem a alternância dos dias e das noites nem o ritmo das estações lhe serão de alguma valia. Suportará com igual rigor a neblina da noite de inverno, as chuvas glaciais da primavera, o calor tórrido das tardes de verão. Certamente pode esperar que a Vitória melhore sua sorte: mas a Vitória é tão rara e tantas vezes irrisória! A vida do Atleta W não é senão um esforço obstinado, incessante, a perseguição extenuante e vã desse instante ilusório em que o triunfo poderá trazer o repouso. Quantas centenas, quantos milhares de horas esmagadoras por um segundo de serenidade, um segundo de calma? Quantas semanas, quantos meses de esgotamento por uma hora de descanso?

[...] É preciso vê-los, esses Atletas que, com suas roupas listradas, parecem caricaturas de esportistas de 1900, lançarem-se, cotovelos junto ao corpo, numa grotesca prova de velocidade. É preciso ver esses lançadores cujos pesos são bolas de canhão, esses saltadores com tornozelos atados, esses saltadores em distância que caem pesadamente num fosso cheio de estrume. É preciso ver esses lutadores cobertos de alcatrão e de plumas, é preciso ver esses fundistas saltitando num pé só ou apoiados nas mãos e nos pés, é preciso ver esses sobreviventes da maratona, estropiados, transidos, tropeçando entre duas fileiras cerradas de juízes de linha armados de varas e paus, é preciso vê-los, esses Atletas esqueléticos, de rosto cadavérico, com a espinha sempre curvada, aqueles crânios calvos e luzentes, aqueles olhos cheios de pânico, aquelas chagas purulentas, todas aquelas marcas indeléveis de uma humilhação sem fim, de um terror sem fundo, todas essas provas, administradas cada hora, cada dia, cada segundo, de um esmagamento consciente, organizado, hierarquizado, é preciso ver funcionar aquela máquina enorme em que cada peça contribui, com uma eficácia implacável, para o aniquilamento sistemático dos homens, para não mais achar surpreendente a mediocridade dos desempenhos registrados: os 100 metros rasos correm-se em 23 segundos, os 200 metros em 51; o melhor saltador jamais ultrapassou 1,30m."

W ou a memória da infância, Georges Perec, 1975
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sábado, 16 de julho de 2016

uma palavra ao lado da outra

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Escrevi esse texto na Folha de hoje, sobre o Péter Esterházy.

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Quando Péter Esterházy, que morreu aos 66 anos na quinta-feira (dia 14), veio ao Brasil, em 2011, ele disse estar tentando escrever uma história simples e que na sua escrivaninha havia um bilhete: “história simples, cem páginas”. O escritor húngaro, renovador da linguagem do romance, um dos mais brilhantes autores de sua geração, sabia que o que costumava escrever 1) não era simples; 2) era mais do que uma história; 3) e geralmente não tinha cem páginas – podia inclusive chegar às quase oitocentas de Harmonia Caelestis (2000), sua obra-prima.

“Todo escritor de prosa deseja contar uma história do início ao fim. Como se estivesse contando ao próprio filho. Quando uma pessoa escreve livros há muito tempo, sempre acaba tentando escrever o que ainda não conseguiu. Mas só conseguimos escrever o que conseguimos escrever. Não importam os esforços. Os meus livros são assim: eu quero contar uma história e não consigo, pelo menos não do jeito tradicional. A crítica diz que esse é o meu estilo, o que me faz pensar que o estilo de um escritor tem mais a ver com o que ele não sabe do que com o que ele sabe”, disse, com seu tom sempre leve, sem estridência, de discreta ironia.

Editei os dois livros de Péter Esterházy publicados no Brasil, Uma mulher (2010) e Os verbos auxiliares do coração (2011), ambos pela Cosac Naify, traduzidos pelo destemido Paulo Schiller. E quase sempre editar significa longas conversas e trocas de e-mail.

Foi assim que soube que o irmão mais novo de Péter era jogador de futebol, defendeu a seleção húngara na Copa de 1986 e jogou contra o Brasil num amistoso em março do mesmo ano em Budapeste, numa partida em que a Hungria venceu por 3 a 0. Foi assim que soube da admiração de Esterházy por Jorge Luis Borges (“ele trata da incerteza da realidade, existe alguma realidade além das palavras? É como se ele tivesse vindo da lua”). E foi assim que soube (algo menos nobre) que Péter e eu comemorávamos aniversário no mesmo dia, 14 de abril.

Péter nasceu em 1950 e era herdeiro de uma linhagem conhecida da aristocracia húngara (para se ter uma ideia Haydn foi o músico da família no tempo do príncipe Nikolaus). Seu avô foi primeiro-ministro do império por alguns meses em 1917. Em 1948, durante o regime comunista, sua família perdeu todos os bens e privilégios. Em Harmonia Caelestis ele narra os vários séculos de história da dinastia Esterházy a partir da perspectiva de um personagem que chama de “meu pai”.

Depois de escrita a obra, Péter foi arremessado num pesadelo: descobriu que seu pai havia trabalhado como informante da polícia secreta entre 1957 e 1980. Em 2002, publicou Edição revista, sobre suas reflexões a partir da notícia das atividades escusas do pai. “Não faço distinção entre ficção e não-ficção. Costuma-se dizer que o escritor deve manter uma distância entre ele e o seu objeto. Eu anulo essa distância, o que é o mesmo que infinito. Se não existe uma distância, então essa distância pode ser de qualquer tamanho”, dizia Esterházy, que era também matemático.

Em 1985, escreveu sobre a morte da mãe em um de seus livros mais delicados, Os verbos auxiliares do coração. Sobre a obra (e para terminar este texto-lembrança), Esterházy falou: “É incômodo quando alguém fala da morte. Mas silenciar também é ruim. Escrever não é uma solução. Não é verdade que escrever ajude. Mesmo se o escritor estiver triste depois da morte de alguém, os seus sentimentos não importam. Só tem importância se o escritor conseguir colocar uma palavra ao lado da outra e criar a sensação de que está triste. Ou fazer com que o leitor pense na pessoa que morreu, ou que se lembre de determinada pessoa, caso ela tenha morrido também”.
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quinta-feira, 7 de julho de 2016

língua/coração

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"Não conseguia tirar da cabeça a maciez da língua, sua maciez e umidade, e o fato de que não vive na luz; também como ela é indefesa diante da faca, uma vez ultrapassada a barreira dos dentes. A língua é como o coração, sob esse aspecto, não é? Só que não morremos quando uma faca perfura a língua. Nesse sentido, podemos dizer que a língua pertence ao mundo do jogo, enquanto o coração pertence ao mundo da seriedade.

No entanto, não é o coração, mas os membros de jogo que nos elevam acima das feras: os dedos com que tocamos o clavicórdio ou a flauta, a língua com a qual brincamos, mentimos, seduzimos. Na falta de membros de jogo, o que resta a feras quando estão entediadas senão dormir?"

Foe, J.M. Coetzee, 1986
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sexta-feira, 10 de junho de 2016

a coisa mais triste que pode existir

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"'Imagine só, vocês linchando alguém! Eu acho até engraçado. Vocês, achando que iam conseguir linchar um homem! Só porque têm coragem de cobrir de piche e penas as pobres mulheres perdidas que passam por aqui, sem ninguém para defender, acharam que iam ter tutano para botar as mãos num homem? Mesmo nas mãos de dez mil pessoas como vocês, um homem não corre perigo — se for dia claro e vocês não atacarem pelas costas.

Se eu conheço vocês? Conheço bem até demais, de cabo a rabo. Nasci e fui criado no Sul, mas já vivi no Norte; e então eu conheço a média. O homem médio é sempre covarde. No Norte, deixa qualquer um pisar nele, depois volta para casa e vai rezar, pedindo a Deus que lhe dê humildade de espírito para suportar aquilo. No Sul, já vi um sujeito sozinho parar uma diligência cheia de homens, à luz do dia, e roubar um por um. Os jornais daqui vivem dizendo que vocês são um punhado de bravos, e falam tanto que vocês acabaram acreditando que eram mesmo mais corajosos que qualquer um — mas na verdade são iguais a todo mundo, não são mais corajosos que ninguém. Por que é que os júris daqui não mandam enforcar os assassinos? Porque todo mundo fica com medo de levar um tiro pelas costas, dado de noite por algum amigo do criminoso — o tipo de coisa que eles fazem.

E sempre acabam absolvendo o acusado; então vem um homem e sai no meio da noite, com cem covardes mascarados atrás, e acaba linchando o bandido. O erro de vocês foi que não trouxeram homem nenhum; esse foi o primeiro erro, e o segundo foi não ter vindo de noite, e sem trazer as máscaras. Vocês só trouxeram parte de um homem — Buck Harkness, que está ali — e se não fosse por ele para começar alguma coisa, não ia acontecer nada. Na verdade, vocês nem queriam vir. O homem médio não gosta de se meter em problemas, e nem correr perigo. Vocês não gostam de problemas e nem do perigo. Mas basta meio homem — como Buck Harkness, que está ali — gritar Lincha! Lincha! para vocês ficarem com medo de recuar — medo de alguém descobrir como é que vocês são na verdade — um bando de covardes — e aí começam a berrar, se penduram no rabo do paletó do meio-homem e vêm até aqui, no maior tumulto, dizendo que vão fazer muita coisa. A coisa mais triste que pode existir é a multidão [...]. Mas a multidão que não é comandada por um homem é coisa tão triste que nem merece pena. Agora, vocês têm é que enfiar o rabo entre as pernas, voltar para casa e ir arranjar um buraco para se esconder. Se algum linchamento for mesmo acontecer aqui, vai ser no meio da noite, à moda do Sul; e quando vierem vão estar de máscara, e vão arranjar um homem para trazer. Agora, fora daqui — e podem levar esse meio-homem com vocês!' — E ao mesmo tempo, ele apoiou o cano da espingarda no braço esquerdo e engatilhou a arma.

A multidão recuou na mesma hora, depois se desmanchou e cada um saiu correndo para um lado."

As aventuras de Huckleberry Finn, Mark Twain (trad. Sergio Flaksman)
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terça-feira, 3 de maio de 2016

life, friends, is boring

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"Life, friends, is boring. We must not say so.
After all, the sky flashes, the great sea yearns,
we ourselves flash and yearn,
and moreover my mother told me as a boy
(repeatingly) ‘Ever to confess you’re bored
means you have no

Inner Resources.’ I conclude now I have no
inner resources, because I am heavy bored.
Peoples bore me,
literature bores me, especially great literature,
Henry bores me, with his plights & gripes
as bad as achilles,

who loves people and valiant art, which bores me.
And the tranquil hills, & gin, look like a drag
and somehow a dog
has taken itself & its tail considerably away
into mountains or sea or sky, leaving
behind: me, wag."

"Dream song 14", 77 Dream Songs, John Berryman, 1965
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