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xampu no olho
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Historinha para a revista Gloss deste mês.
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No dia em que a Manu e eu nos casamos, o Rio de Janeiro parecia o Vietnã. Ou pelo menos a minha ideia de Vietnã, mistura de verbete da Mirador e Bom dia, Vietnã.
A chuva tinha parado, as bicicletas começavam a sair, o asfalto era a pele de uma rã (esfolada viva, porque isso é o Vietnã) e as árvores tinham um verde fluorescente, de arrozal. Eu nunca pensei em me casar. Mas pra quem tinha ido pra Disney aos doze anos, e depois colegial no Santa Cruz, faculdade, temporada em Barcelona, emprego na editora de revistas, até que fazia sentido. O casamento não teve cerimônia. Mas bebi o equivalente a Houston, Texas, para ficar nas comparações territoriais – e assim nos aproximamos de Nevada.
Estávamos casados há dois anos quando decidimos atravessar os Estados Unidos, nas férias. O voo foi legal. Nosso avião aterrissou em Miami, onde mora a irmã da Manu e é para onde vai o neon, quando morre (segundo o meu pai). De lá, rumamos para o Kansas, cujo epíteto é: o Estado do pão, e então, pegamos um carro. Tomamos cerveja na fronteira sul do Colorado, vimos bolas de feno rolar pelo Arizona e discutimos feio em Utah. Terminaríamos a viagem em San Francisco, mas no quarto do hotel em Las Vegas, Nevada, quase fui atingido por um cinzeiro de esfinge.
A Manu estava brava comigo. Não tinha se recuperado da coisa toda em Utah, e o uísque com suco de grapefruit só piorou a situação (eu avisei). Eu usava um chapéu de caubói maneiro, e o quarto, com as roupas de cama de faraó, começava a ficar pequeno demais para nós dois. A Manu tinha o rosto borrado de choro. E tentava me furar com um candelabro.
Antes que alguém se machuque, é preciso dizer que 150 mil casais se casam por ano em Nevada. Vestidos de Elvis, Marilyn. Gente que se ama. Dudley Moore se casou em Nevada. Nos fins de semana, é possível casar a qualquer hora da madrugada. Há a opção de se casar num helicóptero, sobrevoando o Grand Canyon. Na igreja do Elvis ou em praias cenográficas. Em Las Vegas, são 400 casamentos por dia. Mas eu nunca, NUNCA, ouvi falar de um divórcio em Las Vegas.
A Manu parou. Ficamos nos olhando. Soltou o candelabro. Ela também nunca tinha ouvido falar em viajar até a costa oeste dos Estados Unidos para se separar.
Pegou a lista, ligamos para um cartório. Divorciar-se em Nevada era tão fácil quanto se casar. “Não é necessário fazer alegação nem provar adultério, senhor. Só se apresentar com a identidade ou o passaporte, senhor.” Os casamentos em Nevada têm validade apenas no estado de Nevada. Os divórcios também.
Às vezes (sobretudo quando estou lavando o cabelo) penso que nada pode ser mais surreal do que o casamento. Um escritor disse que as pessoas não são monogâmicas por natureza, pelo menos grande parte delas. Mesmo assim, misteriosamente, encontram alguém, casam-se e jogam o jogo ancestral de marido e mulher. E estou quase acreditando que se continuamos juntos até hoje, a Manu e eu, é porque existe um lugar onde a gente se divorciou. Onde saímos sozinhos para beber uísque com suco de grapefruit. E de tempos em tempos (xampu no olho), com as coisas indo bem ou mal, voltamos para lá.
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Historinha para a revista Gloss deste mês.
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No dia em que a Manu e eu nos casamos, o Rio de Janeiro parecia o Vietnã. Ou pelo menos a minha ideia de Vietnã, mistura de verbete da Mirador e Bom dia, Vietnã.
A chuva tinha parado, as bicicletas começavam a sair, o asfalto era a pele de uma rã (esfolada viva, porque isso é o Vietnã) e as árvores tinham um verde fluorescente, de arrozal. Eu nunca pensei em me casar. Mas pra quem tinha ido pra Disney aos doze anos, e depois colegial no Santa Cruz, faculdade, temporada em Barcelona, emprego na editora de revistas, até que fazia sentido. O casamento não teve cerimônia. Mas bebi o equivalente a Houston, Texas, para ficar nas comparações territoriais – e assim nos aproximamos de Nevada.
Estávamos casados há dois anos quando decidimos atravessar os Estados Unidos, nas férias. O voo foi legal. Nosso avião aterrissou em Miami, onde mora a irmã da Manu e é para onde vai o neon, quando morre (segundo o meu pai). De lá, rumamos para o Kansas, cujo epíteto é: o Estado do pão, e então, pegamos um carro. Tomamos cerveja na fronteira sul do Colorado, vimos bolas de feno rolar pelo Arizona e discutimos feio em Utah. Terminaríamos a viagem em San Francisco, mas no quarto do hotel em Las Vegas, Nevada, quase fui atingido por um cinzeiro de esfinge.
A Manu estava brava comigo. Não tinha se recuperado da coisa toda em Utah, e o uísque com suco de grapefruit só piorou a situação (eu avisei). Eu usava um chapéu de caubói maneiro, e o quarto, com as roupas de cama de faraó, começava a ficar pequeno demais para nós dois. A Manu tinha o rosto borrado de choro. E tentava me furar com um candelabro.
Antes que alguém se machuque, é preciso dizer que 150 mil casais se casam por ano em Nevada. Vestidos de Elvis, Marilyn. Gente que se ama. Dudley Moore se casou em Nevada. Nos fins de semana, é possível casar a qualquer hora da madrugada. Há a opção de se casar num helicóptero, sobrevoando o Grand Canyon. Na igreja do Elvis ou em praias cenográficas. Em Las Vegas, são 400 casamentos por dia. Mas eu nunca, NUNCA, ouvi falar de um divórcio em Las Vegas.
A Manu parou. Ficamos nos olhando. Soltou o candelabro. Ela também nunca tinha ouvido falar em viajar até a costa oeste dos Estados Unidos para se separar.
Pegou a lista, ligamos para um cartório. Divorciar-se em Nevada era tão fácil quanto se casar. “Não é necessário fazer alegação nem provar adultério, senhor. Só se apresentar com a identidade ou o passaporte, senhor.” Os casamentos em Nevada têm validade apenas no estado de Nevada. Os divórcios também.
Às vezes (sobretudo quando estou lavando o cabelo) penso que nada pode ser mais surreal do que o casamento. Um escritor disse que as pessoas não são monogâmicas por natureza, pelo menos grande parte delas. Mesmo assim, misteriosamente, encontram alguém, casam-se e jogam o jogo ancestral de marido e mulher. E estou quase acreditando que se continuamos juntos até hoje, a Manu e eu, é porque existe um lugar onde a gente se divorciou. Onde saímos sozinhos para beber uísque com suco de grapefruit. E de tempos em tempos (xampu no olho), com as coisas indo bem ou mal, voltamos para lá.
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segunda-feira, 2 de novembro de 2009
terça-feira, 27 de outubro de 2009
toco de madeira que fala
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Texto de orelha para um livro do Faulkner, A Árvore dos Desejos.
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Quando William Faulkner (1897-1962) escreveu A Árvore dos Desejos, em 1927, a imensa árvore-Faulkner ainda não existia na literatura. O condado de Yoknapatawpha, cenário fictício de seus principais livros, era só uma semente; O som e a fúria não havia sido plantado; e estava longe de aflorar a grande enchente daquele que é um dos cinco romances mais incríveis desde a Arca de Noé, Palmeiras selvagens.
Naquele ano, depois de uma breve temporada em Paris (onde deixou a barba crescer e rondava o café favorito de Joyce), Faulkner tinha acabado de publicar seu primeiro romance, Soldier’s Pay, e um de seus esportes favoritos era contar histórias para crianças – era especialista nas de abóboras e Halloween. Foi então que, após ser demitido da agência de correio onde trabalhava (porque lia demais), teve a ideia deste livro.
A Árvore dos Desejos é uma odisseia fabulosa: crianças encolhem, pôneis saem de uma sacola e, se alguém “virar o travesseiro de lado antes de pegar no sono, tudo pode acontecer”. No dia do seu aniversário, a pequena Dulcie se junta ao seu irmão caçula, Dicky, à criada Alice e ao amigo George, e guiados por um misterioso garoto ruivo chamado Maurice, saem à procura de uma árvore mágica. No caminho, a caravana ganha novos integrantes: um soldado desiludido com a guerra, um toco de madeira que fala e o velhinho Egbert, um dos personagens mais sensíveis já criados pelo autor.
Quando encontram uma árvore (que não é a dos desejos, segundo o velhinho Egbert), a história se desdobra em conflitos e situações de perigo. Por baixo da narrativa, tipicamente de aventura, surge uma ferida: a ideia de que os desejos podem ser traiçoeiros e, no limite, causar o mal. Essa dimensão trágica do sonho é amplificada nas ilustrações de Guazzelli, que com um traço clássico e imagens oníricas (casas tortas, galhos retorcidos, paisagens desoladas) dá à história um contorno sinistro e delirante.
Do ponto de vista temático, A Árvore dos Desejos antecipa as obras adultas do escritor: o Sul dos Estados Unidos pós-Secessão, a reflexão sobre a guerra (“nunca vi nenhum soldado ganhar na guerra qualquer coisa que seja, essas guerras dos brancos são sempre meio esquisitas”) e, sobretudo, as referências bíblicas. O antídoto para a ambição desmedida, aqui, está na renúncia e humildade, uma espécie de fé naquilo que habita a superfície do mundo, simbolizadas pela figura de São Francisco.
Ah, a árvore do título fica longe à beça – segundo o velhinho Egbert. E no final da história, a contaminação do real pelo delírio sugere um movimento que parece fundar toda a obra daquele que J. M. Coetzee chamou de “o único gênio inequívoco da literatura norte-americana do início do século vinte”.
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Texto de orelha para um livro do Faulkner, A Árvore dos Desejos.
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Quando William Faulkner (1897-1962) escreveu A Árvore dos Desejos, em 1927, a imensa árvore-Faulkner ainda não existia na literatura. O condado de Yoknapatawpha, cenário fictício de seus principais livros, era só uma semente; O som e a fúria não havia sido plantado; e estava longe de aflorar a grande enchente daquele que é um dos cinco romances mais incríveis desde a Arca de Noé, Palmeiras selvagens.
Naquele ano, depois de uma breve temporada em Paris (onde deixou a barba crescer e rondava o café favorito de Joyce), Faulkner tinha acabado de publicar seu primeiro romance, Soldier’s Pay, e um de seus esportes favoritos era contar histórias para crianças – era especialista nas de abóboras e Halloween. Foi então que, após ser demitido da agência de correio onde trabalhava (porque lia demais), teve a ideia deste livro.
A Árvore dos Desejos é uma odisseia fabulosa: crianças encolhem, pôneis saem de uma sacola e, se alguém “virar o travesseiro de lado antes de pegar no sono, tudo pode acontecer”. No dia do seu aniversário, a pequena Dulcie se junta ao seu irmão caçula, Dicky, à criada Alice e ao amigo George, e guiados por um misterioso garoto ruivo chamado Maurice, saem à procura de uma árvore mágica. No caminho, a caravana ganha novos integrantes: um soldado desiludido com a guerra, um toco de madeira que fala e o velhinho Egbert, um dos personagens mais sensíveis já criados pelo autor.
Quando encontram uma árvore (que não é a dos desejos, segundo o velhinho Egbert), a história se desdobra em conflitos e situações de perigo. Por baixo da narrativa, tipicamente de aventura, surge uma ferida: a ideia de que os desejos podem ser traiçoeiros e, no limite, causar o mal. Essa dimensão trágica do sonho é amplificada nas ilustrações de Guazzelli, que com um traço clássico e imagens oníricas (casas tortas, galhos retorcidos, paisagens desoladas) dá à história um contorno sinistro e delirante.
Do ponto de vista temático, A Árvore dos Desejos antecipa as obras adultas do escritor: o Sul dos Estados Unidos pós-Secessão, a reflexão sobre a guerra (“nunca vi nenhum soldado ganhar na guerra qualquer coisa que seja, essas guerras dos brancos são sempre meio esquisitas”) e, sobretudo, as referências bíblicas. O antídoto para a ambição desmedida, aqui, está na renúncia e humildade, uma espécie de fé naquilo que habita a superfície do mundo, simbolizadas pela figura de São Francisco.
Ah, a árvore do título fica longe à beça – segundo o velhinho Egbert. E no final da história, a contaminação do real pelo delírio sugere um movimento que parece fundar toda a obra daquele que J. M. Coetzee chamou de “o único gênio inequívoco da literatura norte-americana do início do século vinte”.
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domingo, 25 de outubro de 2009
não fica me excitando que eu tô de sunga
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Texto para o Brasil Econômico de sábado (p. 56). Sobre sunga.
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Embora a Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU nada diga acerca da sunga, é indiscutível no mundo de hoje o direito de cobrir as partes pudendas com o referido item do vestuário masculino (apud deputado Fernando Gabeira, sunga lilás de crochê, Ipanema, 1980). Na última semana, o senador Eduardo Suplicy desfilou pelos corredores do Senado trajando uma viçosa sunga vermelho-tomate, para escândalo de inimigos e considerável fatia de seus correligionários. Tanto se falou (“não conheço a sunga de Suplicy, mas sou contra”; “sunga é mais uma complicação para a vida do indivíduo”; “subjuga a barriga”) que alguns precisaram sair em defesa do senador (“foi por cima da calça, então não vejo problema”). Chegou-se até a discutir se houve ou não quebra de decoro. Perderam-se noites de sono. A sunga, que tinha sido um presente, foi devolvida.
Nada disso teria acontecido, claro, se estivessemos falando de um chapéu de felpo, um sapato cromado gigante ou uma gravata com motivos de Babe, o porquinho atrapalhado. A sunga (que em São Paulo é “maiô”, e os veteranos do Clube de Regatas Tietê chamam de “calção de banho”) é polêmica por natureza. Discutir sunga acirra os ânimos, traz à tona preconceitos e, desde Tarzan, nos coloca diante da inconstância de nossa alma selvagem -- Rousseau de sunga, ressurgido nas areias de Ubatuba. Esse caráter controverso talvez explique um pouco os altos e baixos pelos quais o traje passou desde a sua criação, no início do século 20. Num passado recente, com a escalada das bermudas e ao ter sua imagem vinculada a barrigas proeminentes, meias soquete e tênis branco, a sunga saiu de moda. Caiu no ostracismo, no ridículo. Mas não morreu e vive hoje um renascimento.
Há quem diga que nunca se usou tanta sunga. Na internet, um grupo de intelectuais de São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre forma uma espécie de movimento pró-sunga. Conhecido como Fotos Pós-Chernobyl, o grupo é um dos principais divulgadores do traje. Consideram a sunga uma conquista, já que no século 19, a roupa de banho chegava a pesar 10 quilos quando molhada, e o azul-marinho predominava. As sungas, por sua vez, são leves e divertidas, há opções de cores, além de versões fluorescentes. André Czarnobai, 30 anos, um dos fundadores da congregação, acredita que a sunga é a verdadeira contracultura. “Para fazer natação = indispensável. Para usar na praia = revela caráter, despojo e finesse. Para usar em reuniões de amigos à beira da piscina = só se tem gostosa”, enfatiza. Sobre o tópico, nunca é demais lembrar Leo Jaime, que em sua versão do standard Sunny, de 1984, alertava: “Sônia, não fica me excitando que eu tô de sunga”.
Como exemplo de por que a sunga deveria ser adotada como vestimenta oficial de senadores, outro integrante do grupo, Renato Delmonaco, 28, cita sua própria vida. “Depois que comecei a usar sunga diariamente, minha vida melhorou 300%, no mínimo.” Renato tem usado sunga todos os dias há mais ou menos um ano e meio. “É quase medicinal para mim”, conta. “Qualquer tipo de problema, forma ou natureza fica em segundo plano quando visto minha sunga.”
Se a sunga define caráter e personalidade, o episódio Suplicy é revelador. Faz pensar na primeira viagem com os amigos para a praia, na adolescência. Quando todos estão de bermuda, na areia, eis que alguém do grupo surge de sunga. Vai ter que suportar risos, escárnio, troça, zombaria. Toda uma vida será forjada ali, naquele átimo em que, de sunga vermelha, alguém resiste entre as bermudas.
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Texto para o Brasil Econômico de sábado (p. 56). Sobre sunga.
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Embora a Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU nada diga acerca da sunga, é indiscutível no mundo de hoje o direito de cobrir as partes pudendas com o referido item do vestuário masculino (apud deputado Fernando Gabeira, sunga lilás de crochê, Ipanema, 1980). Na última semana, o senador Eduardo Suplicy desfilou pelos corredores do Senado trajando uma viçosa sunga vermelho-tomate, para escândalo de inimigos e considerável fatia de seus correligionários. Tanto se falou (“não conheço a sunga de Suplicy, mas sou contra”; “sunga é mais uma complicação para a vida do indivíduo”; “subjuga a barriga”) que alguns precisaram sair em defesa do senador (“foi por cima da calça, então não vejo problema”). Chegou-se até a discutir se houve ou não quebra de decoro. Perderam-se noites de sono. A sunga, que tinha sido um presente, foi devolvida.
Nada disso teria acontecido, claro, se estivessemos falando de um chapéu de felpo, um sapato cromado gigante ou uma gravata com motivos de Babe, o porquinho atrapalhado. A sunga (que em São Paulo é “maiô”, e os veteranos do Clube de Regatas Tietê chamam de “calção de banho”) é polêmica por natureza. Discutir sunga acirra os ânimos, traz à tona preconceitos e, desde Tarzan, nos coloca diante da inconstância de nossa alma selvagem -- Rousseau de sunga, ressurgido nas areias de Ubatuba. Esse caráter controverso talvez explique um pouco os altos e baixos pelos quais o traje passou desde a sua criação, no início do século 20. Num passado recente, com a escalada das bermudas e ao ter sua imagem vinculada a barrigas proeminentes, meias soquete e tênis branco, a sunga saiu de moda. Caiu no ostracismo, no ridículo. Mas não morreu e vive hoje um renascimento.
Há quem diga que nunca se usou tanta sunga. Na internet, um grupo de intelectuais de São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre forma uma espécie de movimento pró-sunga. Conhecido como Fotos Pós-Chernobyl, o grupo é um dos principais divulgadores do traje. Consideram a sunga uma conquista, já que no século 19, a roupa de banho chegava a pesar 10 quilos quando molhada, e o azul-marinho predominava. As sungas, por sua vez, são leves e divertidas, há opções de cores, além de versões fluorescentes. André Czarnobai, 30 anos, um dos fundadores da congregação, acredita que a sunga é a verdadeira contracultura. “Para fazer natação = indispensável. Para usar na praia = revela caráter, despojo e finesse. Para usar em reuniões de amigos à beira da piscina = só se tem gostosa”, enfatiza. Sobre o tópico, nunca é demais lembrar Leo Jaime, que em sua versão do standard Sunny, de 1984, alertava: “Sônia, não fica me excitando que eu tô de sunga”.
Como exemplo de por que a sunga deveria ser adotada como vestimenta oficial de senadores, outro integrante do grupo, Renato Delmonaco, 28, cita sua própria vida. “Depois que comecei a usar sunga diariamente, minha vida melhorou 300%, no mínimo.” Renato tem usado sunga todos os dias há mais ou menos um ano e meio. “É quase medicinal para mim”, conta. “Qualquer tipo de problema, forma ou natureza fica em segundo plano quando visto minha sunga.”
Se a sunga define caráter e personalidade, o episódio Suplicy é revelador. Faz pensar na primeira viagem com os amigos para a praia, na adolescência. Quando todos estão de bermuda, na areia, eis que alguém do grupo surge de sunga. Vai ter que suportar risos, escárnio, troça, zombaria. Toda uma vida será forjada ali, naquele átimo em que, de sunga vermelha, alguém resiste entre as bermudas.
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quarta-feira, 14 de outubro de 2009
fotos pós-chernobyl
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Martin Amis fala, em entrevista ao Michel:
“Não procuro por histórias tanto quanto por níveis de percepção. O que quero saber é a maneira como os escritores interpretam o mundo, em que nível isso se dá, mais do que a respeito de sagas familiares ou narrativas tradicionais. Não tem a ver com contar histórias ou não, e sim com como se escreve.”
“O grande pós-modernismo europeu está acabado como ficção. Era um grande insight de como o mundo funcionava; não era, no fim das contas, um filão ficcional muito produtivo, rico por si só. Era muito auto-consciente, muito limitado, e agora o romance parece ter evoluído para uma invenção mais ampla. Não há, agora, uma grande tradição dominando o romance. Contar histórias voltou a ser importante. Enredos voltaram a sê-lo."
"Na minha geração, há uma maior liberdade em relação a essas regras, com o realismo mágico e o pós-modernismo. A realidade apresentada ao leitor não é tão confiável. Mas agora há um movimento contrário. A próxima geração, suspeito, vai precisar de velocidade e enredo. Interesse humano, não abstrações (…). Nos anos 80, talvez, a presença do pós-modernismo deixasse as coisas mais ‘fechadas’. Um romance como Money, por exemplo, enfureceria o meu pai [o escritor Kingsley Amis]. Aliás, enfureceu… Agora, apesar da liberdade de abordagem, há a volta das ‘leis da realidade’ ao romance. É a minha impressão.”
Entendo Amis.
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Martin Amis fala, em entrevista ao Michel:
“Não procuro por histórias tanto quanto por níveis de percepção. O que quero saber é a maneira como os escritores interpretam o mundo, em que nível isso se dá, mais do que a respeito de sagas familiares ou narrativas tradicionais. Não tem a ver com contar histórias ou não, e sim com como se escreve.”
“O grande pós-modernismo europeu está acabado como ficção. Era um grande insight de como o mundo funcionava; não era, no fim das contas, um filão ficcional muito produtivo, rico por si só. Era muito auto-consciente, muito limitado, e agora o romance parece ter evoluído para uma invenção mais ampla. Não há, agora, uma grande tradição dominando o romance. Contar histórias voltou a ser importante. Enredos voltaram a sê-lo."
"Na minha geração, há uma maior liberdade em relação a essas regras, com o realismo mágico e o pós-modernismo. A realidade apresentada ao leitor não é tão confiável. Mas agora há um movimento contrário. A próxima geração, suspeito, vai precisar de velocidade e enredo. Interesse humano, não abstrações (…). Nos anos 80, talvez, a presença do pós-modernismo deixasse as coisas mais ‘fechadas’. Um romance como Money, por exemplo, enfureceria o meu pai [o escritor Kingsley Amis]. Aliás, enfureceu… Agora, apesar da liberdade de abordagem, há a volta das ‘leis da realidade’ ao romance. É a minha impressão.”
Entendo Amis.
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sexta-feira, 9 de outubro de 2009
minha casa engordava
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Esta é a história de como se vive na barriga de uma baleia.
Esta é a continuação da história de como se vive na barriga da baleia:
"E achando-me em dias tão difíceis decidi alimentar
a baleia que então me dava guarida:
tive jornadas que excediam em muito as doze horas
e meus sonhos foram ofícios rigorosos, meu cansaço
engordava como o ventre da baleia:
que trabalheira caçar os animais mais robustos,
despojá-los de todas as suas escamas e uma vez abertos
arrancar-lhes o fel e o espinhaço,
e minha casa engordava.
(Foi a última vez em que fui duro: insultei a baleia,
recolhi meus escassos pertences para buscar
algum abrigo em outras águas, e já me preparava
para construir um periscópio
quando no teto vi incharem como dois sóis seus pulmões
– iguais aos nossos
mas estirados sobre o horizonte –, suas omoplatas
remavam contra todos os ventos,
e eu sozinho,
com minha camisa azul-marinho em um grande prado
onde podiam alvejar-me de qualquer janela: eu, o coelho,
e os cães velozes atrás, e nenhum buraco.)
E achando-me em dias tão difíceis
acomodei-me entre as zonas mais moles e mau cheirosas da baleia."
(Antonio Cisneros, "Apêndice do poema sobre Jonas e os desalienados", no Canto cerimonial contra um tamanduá, 1968. A tradução é de Carlito Azevedo e Aníbal Cristobo)
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Esta é a história de como se vive na barriga de uma baleia.
Esta é a continuação da história de como se vive na barriga da baleia:
"E achando-me em dias tão difíceis decidi alimentar
a baleia que então me dava guarida:
tive jornadas que excediam em muito as doze horas
e meus sonhos foram ofícios rigorosos, meu cansaço
engordava como o ventre da baleia:
que trabalheira caçar os animais mais robustos,
despojá-los de todas as suas escamas e uma vez abertos
arrancar-lhes o fel e o espinhaço,
e minha casa engordava.
(Foi a última vez em que fui duro: insultei a baleia,
recolhi meus escassos pertences para buscar
algum abrigo em outras águas, e já me preparava
para construir um periscópio
quando no teto vi incharem como dois sóis seus pulmões
– iguais aos nossos
mas estirados sobre o horizonte –, suas omoplatas
remavam contra todos os ventos,
e eu sozinho,
com minha camisa azul-marinho em um grande prado
onde podiam alvejar-me de qualquer janela: eu, o coelho,
e os cães velozes atrás, e nenhum buraco.)
E achando-me em dias tão difíceis
acomodei-me entre as zonas mais moles e mau cheirosas da baleia."
(Antonio Cisneros, "Apêndice do poema sobre Jonas e os desalienados", no Canto cerimonial contra um tamanduá, 1968. A tradução é de Carlito Azevedo e Aníbal Cristobo)
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segunda-feira, 28 de setembro de 2009
it's difficult to love a woman whose vagina is a gateway to the world of the dead
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A Abebooks inaugurou um departamento de livros bizarros. Títulos como The lost art of towel origami, Old Tractors and the Men Who Love Them: How to Keep Your Tractors Happy and Your Family Running e The haunted vagina (cuja descrição é: "it's difficult to love a woman whose vagina is a gateway to the world of the dead") estão entre as ofertas, além de obras sobre besouros e taxidermia para iniciantes. O livro estranho da semana é uma coletânea dos mais horríveis cortes de cabelo de todos os tempos -- dos mesmos editores de The mullet, hairstyle of the gods. Quero ler Living with llamas.
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segunda-feira, 14 de setembro de 2009
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