quarta-feira, 14 de novembro de 2018

a lua de sebastopol

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Na Folha de S.Paulo, texto da Fernanda Torres:

Os três contos de Sebastopol, livro de Emilio Fraia lançado pela Alfaguara, contam histórias distintas, unidas, estranhamente, pela mesma sensação de hiato; a promessa de uma vida plena, que se torna insólita, vaga e melancólica. A escaladora que, antes da queda, atinge o topo do mundo; o proprietário rural arruinado que sonhou construir Xangrilá; o diretor de vanguarda que se conformou com o ostracismo; personagens que transitam num limbo chamado presente, cujo passado não lhes pertence mais e o futuro sequer chega a ser ambicionado.

Com uma narrativa impressionista, formada por grandes vazios e fragmentos falhos de memória, Sebastopol traduz a sensação de desencanto, de que algo se perdeu no caminho.

A data do acidente da atleta, mesma da primeira passeata de 2013, dá a pista de que a insidiosa escrita de Fraia aborda, sim, nosso fracasso recente.. Existe uma ligação curiosa entre essa pequena joia literária e O Primeiro Homem, superprodução hollywoodiana sobre a vida de Neil Armstrong, o primeiro astronauta a pisar na Lua.

Assisti ao filme no dia da votação do segundo turno. Exausta da angústia eleitoral, sentei-me na sala de cinema para esquecer. Achei que veria mais uma trama ufanista sobre o triunfo americano, no estilo de Apollo 13 e do superficialíssimo Perdido em Marte. Mas não.

O Primeiro Homem é tão casmurro quanto Sebastopol. Um filme intimista, composto de closes claustrofóbicos e grandes paisagens espaciais.

 Armstrong também vive o seu limbo. Lacônico, o piloto nem se esforça para traduzir em palavras a dor pela perda da filha e o peso da missão impossível imposta pelo destino.

Não há nem gritos nem choros, nem fucks nem fights. A mudez do herói, sua obstinação de engenheiro, a dor de pai -- bem como a solidão da esposa Penélope --, a espera do eterno retorno de Ulisses; tudo se ancora numa atuação sem dós de peito ou ambições de Oscar, vício frequente no cinema americano. O olhar abismado de Gosling para o horizonte curvo da Terra é o mesmo de Claire Foy diante da loucura da vizinha viúva. Seja no espaço sideral ou na vila militar, na cozinha de casa ou na clausura do módulo lunar, o desespero é sempre contido, seco, abafado.

No auge da Guerra Fria e com o mundo em convulsão, o astro da corrida espacial crava a sua pegada na lua graças à capacidade de manter a frieza diante do medo e da morte. A autocontenção é o seu trunfo.

O Primeiro Homem narra a história de um luto. O caráter científico, metódico, americano do herói, transforma em êxito o funeral. O mesmo não ocorre com os brasileiros de Sebastopol. Não há ciência ou método que lhes reparem as perdas, não há sociedade ou cultura capaz de dar ordem ao caos.

Saí do cinema com o novo presidente eleito, sob gritos e rojões de vitória.

Respeito a alegria dos que votaram na crença da retidão e da ética. Temo os meios, mas compreendo o alívio e a raiva. Foi uma escolha consciente, embora envolta em irracionalidade.

Espero que o país se acalme. Que a serenidade de Armstrong sirva de exemplo aos eleitos. Que a sensatez e a moderação que Moro viu em Messias guiem, como que por um milagre do Deus tão presente nessa eleição, a turba atiçada pelo ressentimento, pelo ódio e pelas paixões.

É isso ou a desorientação terminal dos anti-heróis de Sebastopol.
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quarta-feira, 7 de novembro de 2018

uma história esquisita em que não acontece nada

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Na Quatro cinco um deste mês, texto da Marcella Franco:









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Um No mapa, a cidade de Sebastopol se equilibra na ponta de uma península, abraçada pela Ucrânia, Rússia e Crimeia. Tem pouco mais de 300 mil habitantes, e já foi foco de disputa entre soviéticos e alemães nos anos 1940. Agora, Sebastopol dá nome à terceira publicação do escritor paulistano Emilio Fraia, que, pela primeira vez, assina um livro sozinho.

São três partes, com histórias aparentemente independentes e nomeadas com meses do ano. Lena, uma alpinista que sofre um acidente na descida de sua escalada ao Everest, em meados de 2012, é quem abre Sebastopol com “Dezembro”, narrando em primeira pessoa sua relação com o videomaker italiano Gino.

Por ter superado a amputação das pernas, depois de quinze cirurgias e um longo período sem conseguir se olhar no espelho, a atleta se transforma em uma palestrante de sucesso, o que ajuda, de certo modo, a aplacar seu isolamento social – Lena é uma mulher solitária, com poucos amigos, e uma mãe com câncer terminal.

Esta existência segregada parece ser o principal motivo que a leva a entregar não só ela própria, mas também suas valiosas memórias, aos cuidados de Gino, que ganha o poder de usá-las como bem entender. “Fiz o que as pessoas fazem o tempo todo. Contar as histórias, recontá-las, congelá-las, dar sentido a elas”, confessa a si mesma.

Chega “Maio”, e com ele vem Nilo, dono de um sítio onde funcionava uma pousada agora desativada. A exemplo de outros desavisados, o peruano Adán e sua mulher vão parar na propriedade, e, depois do pernoite improvisado, ela parte e ele permanece, estabelecendo uma relação com Nilo. Enquanto de um mal se sabe a história -- em uma tentativa de esquecer o passado, já há anos Nilo escondeu todas as fotografias em uma caixa no porão --, do outro se descobrem nós primitivos que envolvem exílios, sacrifícios e mortes.

É só quando desaparece que Adán, finalmente, ganha acesso às profundezas do amigo -- mas aí já é tarde demais. Enquanto esvazia a água da piscina logo na abertura do conto, o empregado Walter “sacode a cabeça e diz que aquilo não faz o menor sentido”.

“Agosto” é o conto e o mês de Klaus, um diretor de teatro que convida a jovem Nadia para criar uma peça que fala da vida de um famoso pintor russo, morador de uma cidade vizinha a Sebastopol, e que gostava de retratar soldados. A certa altura, enquanto planejam o roteiro do espetáculo, Nadia questiona o autor sobre a decisão de escrever sobre aquela figura.

“Você gosta das pinturas desse cara (...), mas é apenas uma história esquisita em que não acontece nada”, argumenta, enquanto Klaus responde que, no fundo, todas as histórias são esquisitas e também nada acontece. E esta reflexão, sobre o tênue limiar entre a banalidade e o relevante, permeia Sebastopol da primeira à última página, colocando o leitor na posição de advogado da importância dos relatos dos outros e da própria biografia.

Embora até apresentem reviravoltas, os contos de Fraia seguem sempre sem grandes sobressaltos, cultivando uma atmosfera ansiosa, que serve perfeitamente à ideia de envolver, mas sem que para isso sejam necessários quaisquer artifícios exceto o pleno domínio da linguagem e do manejo dos deslocamentos no tempo, bem como de uma cuidadosa narrativa descritiva.

Ao relatar sua vida pregressa, o peruano Adán traça um paralelo entre o papel das ondas como o elemento que serve para sacodir o mar e as tragédias, que vêm para sacodir a vida. Hábil como seu criador, o personagem sabe conduzir mais de uma trama ao mesmo tempo, e, como talvez Fraia também imagine, Adán pensa que “as histórias correm paralelas, sem nunca se encontrar”.

Contudo, ao menos em Sebastopol, as vidas se resvalam, sim, ainda que de modo sutil e quase misterioso. A intersecção pode estar na renúncia do self à qual todos os protagonistas se submetem, ou nas montanhas da escaladora Lena, que, segundo Nilo, são a tentativa humana de estar mais perto dos deuses, algo parecido com o que fazem o teatro e a pintura quando ousam retratar a guerra. Esteja onde estiver o cruzamento, sorte do leitor que se dispuser a galgar o universo de Fraia e tirar sua própria conclusão.
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domingo, 4 de novembro de 2018

nitidez impressionista

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Três leituras de Sebastopol:

“São três narrativas longas que se podem definir pelo paradoxo da ‘nitidez impressionista’: a lembrança fragmentada de um acidente terrível numa escalada do Everest, a busca de um desaparecido numa fazenda decadente e o projeto de uma peça de teatro malograda que une um velho diretor e uma jovem são histórias em que a notação realista precisa serve a um inacabamento de essência; o laço final de sentido sempre nos assombra e sempre nos escapa. Mais ou menos como o Brasil.”

Cristovão Tezza, na Folha

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"São três meses, três contos, três lugares, três ou mais personagens à deriva, três ou mais histórias que precisam ser contadas, três ou mais tempos que se confundem, iluminam-se e perdem-se. ‘Dezembro’ circula entre dois tempos que só na aparência são separados: antes e depois do acidente. A narradora lê a própria história numa história alheia e, para compreender o que há de verdade e de mentira no que vê e naquilo de que lembra, revisita o passado. Se tudo que recordamos, porém, é nublado, como saber qual tempo veio antes, que história foi de fato vivida?. ‘Maio’ insinua uma história, a de Nilo, e em seguida a troca por outra, a de Adán, para, no final, conciliá-las na idêntica tragédia, na idêntica paródia de desfecho incerto e derrota iminente. ‘Agosto’ é costurado pela voz de uma narradora que escreve uma história, participa da escrita de outra e, finalmente, tem que dar conta da vida que vive. Nenhuma escrita ou reescrita a resume e o futuro, tal qual o presente, é um tempo em suspensão. Sebastopol, nome do livro, é uma cidade no mapa, um porto feio, uma miragem, o lugar que deveria nos orientar, mas que não sabemos bem onde fica e qual relação temos ele. É assim com os personagens deste livro. Prosseguem em seus universos íntimos, que aos poucos se desagregam; miram o ponto a que querem chegar, mas, como todo destino, ele é esfumaçado e a memória não oferece maior proteção. Um belo livro, de escrita cuidada e construção delicada."

Julio Pimentel Pinto, Paisagens da crítica

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"A narradora de 'Agosto', último conto deste Sebastopol, está ajudando um diretor decadente a montar uma peça de teatro. Explicando o contexto de existência de Trúnov, pintor russo e objeto da peça, Klaus diz a ela que Sebastopol é um porto no Mar Negro, que por sua vez é como se fosse o ralo do mundo. Olhando numa espécie de quadro geral, talvez seja a melhor imagem para definir o novo livro de Emilio Fraia: escrever os ralos do mundo. Misturando realidade e ficção enquanto recorre a uma narrativa que acolhe, envolve e aperta, porém sem nunca deixar o leitor de fato ir, Emilio Fraia construiu em Sebastopol uma série de fotogramas literários. Como numa filmagem de velocidades distintas, os focos vão se alternando em fluxos nada aleatórios que amplificam zonas de desconforto. A impressão é que Sebastopol dialoga com as frestas. Sejam os travestis do Arouche ou os xerpas nos acampamentos nevados, esquadrinhar o mundo invisível a partir de protagonistas lacônicos é um trunfo. Aqui, ação quase sempre dá lugar à lentidão de personagens maleáveis que se potencializam no contexto em que estão inseridos. Lena, narradora de 'Dezembro', perdeu as pernas num acidente. Sua história se sobrepõe a um vídeo que revela mais do que deveria. Nilo, em 'Maio', está buscando Adán numa piscina no centro-oeste brasileiro. Desaparecido, o estrangeiro assume controle da história e eclipsa a dureza esperada no habitual homens-duros-fazendo-tarefas-duras. Por fim, a Nadia de 'Agosto' embarca numa jornada de autoconhecimento pelas fronteiras de São Paulo. Variando de intensidade, estas três histórias se cruzam no limite da experiência – física e intelectual – daquilo que é ser humano, quase como Fraia puxando o leitor e dizendo: não se preocupe, a coleira está comigo, eles não vão muito longe. Diante da impossibilidade de ajudar quem está condenado a somente existir, resta passear pelas páginas e aproveitar – ainda se fazem bons livros."

Mateus Baldi, Resenha de bolso
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sábado, 3 de novembro de 2018

dormir por anos, acordar de repente

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No Estado, texto da Maria Fernanda Rodrigues + quatro perguntas:







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Um livro de personagens em situações difíceis, de forasteiros, de gente deslocada e de terras estrangeiras e estranhas. Assim Emilio Fraia define Sebastopol, seu terceiro livro – e o primeiro que escreve sozinho – com lançamento nesta terça, 23.

Fraia estreou na literatura em 2008 com O Verão do Chibo, escrito com Vanessa Barbara. Pouco depois, em 2012, ele figurou na Granta – Os 20 Melhores Jovens Autores Brasileiros. Um ano mais tarde, lançou Campo em Branco, graphic novel assinada com DW Ribatski.

Sebastopol traz três contos independentes, mas com temas em comum. "Dezembro" é narrado por Lena, que queria se tornar a mais jovem mulher brasileira a “alcançar o cume dos montes mais altos de cada um dos sete continentes”, ela nos conta. Algo, claro, dá errado. "Maio" é narrado em terceira pessoa e retrata o encontro e o desencontro entre Nilo, dono de uma pousada desativada, e Adán, que pede abrigo no local. "Agosto" volta a ser narrado por uma mulher, Nadia, que deixa o emprego num museu para ajudar um dramaturgo decadente a escrever uma peça sobre um pintor russo enquanto ela mesma tenta escrever uma história.

São personagens às voltas com traumas, tentando dar conta da vida, recordando histórias que preferiam esquecer – que preferiam não ter vivido. Dor física e psíquica, o não dito, o que não está mais lá. “Este é um dos grandes temas: lidar com o invisível. O Roberto Piva dizia, citando o Lorca, que ele era um pulso ferido sondando as coisas do outro lado. Acho uma boa definição para a literatura”, diz Fraia.

Outra questão, comenta o autor, tem a ver com o jeito que contamos as histórias das nossas vidas – para nós mesmos e para os outros. “E como estas histórias tomam o lugar do acontecido, fazendo com que as fronteiras entre o que aconteceu e o que se conta fiquem borradas e, no limite, desapareçam.”

E há também, ressalta, uma desfiguração do tempo nas histórias. “Porque o trauma é uma espécie de tempo que não passa. Não existe um antes e depois. Há um clima melancólico, de falta de esperança, de histórias interrompidas e deixadas pelo caminho. Alguns episódios são apenas aludidos, e os personagens parecem ter dormido por anos e acordado de repente. Algo meio história de terror ou de uma aventura que não se realiza”, comenta.

Sebastopol, o título do livro, remete à maior cidade da Crimeia, palco de um dos mais sangrentos episódios da Guerra da Crimeia no século 19 e anexada à Rússia em 2014, que aparece como um postal no terceiro conto. É um nome estranho que combina com o livro, diz Fraia, que cita ainda obra de Tolstoi. “Contos de Sebastopol narra três momentos distintos desta guerra. Tolstoi esteve lá, viu tudo de perto. Uma história de gente mutilada e de resistência e, de certa forma, isso tem a ver com o livro – e com um sentimento que estamos experimentando agora no Brasil.”

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Como surgiram os contos do livro? O livro surgiu de uma vontade de escrever histórias que funcionassem por si só, cada uma com seu universo, mas que ao mesmo tempo quando colocadas lado a lado pudessem estar conectadas por relações sutis, por um andamento comum. Como se para além da voz da narração de cada um dos contos houvesse uma outra subjetividade, difusa, pairando sobre tudo, e isso criasse um efeito. Uma sensação de diferença (afinal, as histórias são independentes), mas também de proximidade (temas que voltam, um tom comum). Queria que o leitor chegasse ao final e pudesse repassar as histórias em busca destes pontos de contato. Por exemplo: no livro, há sempre alguém que conta, imagina, recorda. E a história contada, imaginada, inventada toma a frente e acaba funcionando como uma espécie de comentário à história principal -- e ao livro também. São histórias simples que começam a ficar complexas.

Por que Sebastopol? É um nome estranho, que combina com o livro. Eu nunca fui a esta cidade, nunca estive na Rússia -- também nunca fui ao Everest, que é onde se passa parte da primeira história. Sebastopol aparece como uma cidade num mapa, uma representação, como um lugar num daqueles jogos de tabuleiro tipo War. As montanhas do Everest surgem quase como um cenário de isopor e papelão. Tudo bastante artificial. Tem algo de irônico nessa escolha também, há muitos livros com nomes de cidades, Berlim, do Joseph Roth, Austerlitz, do Sebald, Budapeste, do Chico Buarque. Sebastopol é uma cidade portuária do Mar Negro, a maior da península da Crimeia. É uma cidade meio híbrida, ucraniana, que em 2014 foi anexada à Rússia. Foi palco na metade do século dezenove de um dos episódios mais sangrentos da Guerra da Crimeia. O primeiro livro do Tolstói, Contos de Sebastopol, narra três momentos desta guerra. O Tolstói esteve lá, viu tudo de perto. É uma história de gente mutilada, de resistência e, de certa forma, isso tem a ver com o livro -- e com um sentimento que estamos experimentando agora no Brasil.

Gino dizia que o que o interessava em suas filmagens era encontrar maneiras novas de mostrar o de sempre. Isso diz respeito também à literatura? Sim, mas a narradora está apaixonada por Gino, então qualquer frase que ele diga soa como algo muito sério e verdadeiro. Ele é uma figura meio pedante, dono de uma produtora, com aspirações artísticas. E a narradora está presa a este cara. Então acho que é verdade e mentira que precisamos encontrar maneiras novas de mostrar o de sempre. Penso nisso também como uma reflexão sobre algumas verdades que volta e meia surgem: é preciso escrever sem muitos advérbios, adjetivos são ruins, não se pode escrever de maneira bonita, é preciso encontrar maneiras novas de contar o de sempre. Tudo verdade. Tudo mentira.

Nadia diz que as pessoas contam sempre as mesmas histórias, mesmo quando tentam contar outras histórias. Adán, que contamos e repetimos as histórias porque temos medo delas, porque este é o nosso pedido de ajuda. Você concorda? Que história é essa que você está tentando contar? Nadia é a personagem mais jovem do livro. Ela está ajudando um diretor de teatro mais velho e meio decadente a escrever uma peça de teatro e ao mesmo tempo tentando escrever uma história dela e, finalmente, precisando dar conta da própria vida -- ela terminou um namoro, isso só se insinua na trama, mas ao mesmo tempo parece estar em tudo o que ela faz. Na outro conto, Adán conta a Nilo sua história, seu passado como motorista de táxi em Lima, sua relação com o pai e com o filho. É uma história que ele não gosta de lembrar, mas parece que precisa contar e lembrar. Acho que uma possível questão do livro pode ter a ver com o jeito que contamos as histórias das nossas vidas -- para nós mesmos e para os outros. E como estas histórias tomam o lugar do acontecido, fazendo com que as fronteiras entre o que aconteceu e o que se conta fiquem borradas e, no limite, desapareçam.
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segunda-feira, 29 de outubro de 2018

velhos esqueletos

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Texto na revista Época da semana











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Na parte da cidade aonde não podíamos ir, descobriram o esqueleto do governador Geraldo Alckmin.

Isso foi o que ouvimos falar, o que se espalhou. Nenhum de nós pisava na zona proibida. Éramos muitos, e todos os dias, se corrêssemos feito almas penadas pela avenida dos Índios Mortos, chegávamos na hora da distribuição de comida e água.

Depois da guerra que se seguiu ao Dia da Revolução, o chamado Dia da Revolução, fomos divididos. O satélite de gerenciamento de batalhas cruza o céu. A guerra se arrasta há anos. Há um sentimento de que está emperrada, esgotada. Alguns acreditam que a guerra acabou, só decidiram nos manter ligados a ela através dos informes que não param de chegar. Outros, os Homens do Esgoto, falam baixo, pelos cantos, que a guerra na verdade nunca existiu, a não ser para nós, que ficamos presos aqui.

Na parte proibida, os que encontraram o esqueleto disseram que parecia ter sido mastigado. Clandestinamente, contrabandearam um osso, um osso do tornozelo do governador Geraldo Alckmin. Passamos de mão em mão. Era de um branco tão branco, uma cor que não existia; tínhamos certeza de que se tornaria escuro em minutos, porque os nossos dedos tremiam, eram sujos e mansos, como o rio Real, no interior do Piauí, forte Estado da Nação Soberana – repetir todos os dias, com a mão em riste na altura do peito.

O que nos contaram, a informação que nos foi levada nas sombras, é que havia um grupo que foi dizimado. Dele, fazia parte o governador Geraldo Alckmin. Pessoas que outrora tomavam banhos longuíssimos nas banheiras de louça chinesa de suas casas antigas do bairro alto. Homens que seguiam as regras. Sorrateiros, não havia nada fora das regras. Mas, nós ouvimos falar, as regras haviam sido também inventadas por eles. Quando tudo veio à tona, a raiva cresceu. Foi canalizada pela Nova Ordem, que prometeu louvar Deus e a Nação acima de todas as coisas, reestabelecer a ordem e, principalmente, atirar para matar.

É por isso que estamos aqui agora, de um lado para o outro, pela avenida dos Índios Mortos, atrás de água e comida. Ainda não entendemos muito bem. O governador Geraldo Alckmin – dizem os que viram seu esqueleto –, ele não esteve do nosso lado. Nem quando mais precisamos. Ficou em silêncio. Ele poderia nos salvar? Enxergaria o rio da história o governador Geraldo Alckmin? Não sabemos. No fim, acabou como um montículo de ossos à beira do caminho. Ele e seu grupo. Acabaremos todos, é verdade. Mas poderia ter sido diferente? Os Homens do Esgoto, contempladores do fogo e das estrelas, repetem em surdina: acabaremos todos.

Espirais de tempestades, oceanos brilhantes, caldeiras vulcânicas, fótons, mésons. Olhamos as nuvens se formando, partículas carregadas. Examinamos nosso kit de mapas. As emoções mudaram. Nossa visão está mudando neste exato momento, e projetamos nosso fracasso e desespero. Será que projetamos nosso desespero de agora na madrugada infinita?

Esta noite, dormiremos abraçados ao esqueleto do governador Geraldo Alckmin. Nos sonhos, receberemos sua alma. Ela é doce e vem trazer a notícia de que na América Latina mais um general maquina um golpe. Quando acordarmos, um de nós tomará nas mãos uma pedra e com ela quebrará o osso do tornozelo do governador Geraldo Alckmin. O osso será espatifado. Ficará apenas o pó branco grudado na terra suja. Estávamos em busca de comida, vamos dizer. Dentro do osso, pode haver alguma coisa, afinal. Água, talvez. Mas não haverá nada.

Viramos as chaves. Fazemos a contagem regressiva. No alto-falante, uma voz diz: Agora vocês estão em modo de disparo. Ficamos esperando. Nenhuma outra ordem é dada. Acabamos cansados. Sob a pele da treva, nada cresce, dizem as vozes sorrateiras, todas elas, esta noite, penduradas no esqueleto do governador Geraldo Alckmin.
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quinta-feira, 25 de outubro de 2018

tempo que não passa

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Na Folha de S.Paulo, texto do João Perassolo:







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“Percebi que Klaus era uma pessoa sozinha. Ele não tinha dinheiro nem amigos e não podia contar com muita gente. Dizia que um dia ainda seria morto por um michê. Falava que, como eu gostava de escrever, então agora eu teria uma missão: a de escrever o seu obituário quando ele morresse”, relata Nadia, a certa altura do conto “Agosto”.

Ela é uma das personagens levemente tristes de Sebastopol, livro de contos de Emilio Fraia que será lançado nesta terça (23), na livraria Tapera Taperá, em São Paulo.

Nadia é uma arte-educadora que acaba de pedir demissão do museu no qual trabalhava para se dedicar ao teatro e à sua paixão por escrever; Klaus, um diretor de teatro sessentão com “um aspecto de penúria geral”, informa o narrador da história. No decorrer das páginas, o encontro dos dois vai gerar uma peça de teatro sobre um pintor que retratava os soldados da batalha de Sebastopol, na Rússia, em situações melancólicas: nos intervalos dos combates e em momentos de ócio.

“O livro tem uma leve melancolia, um humor trágico, embora não seja dramático. É como o riso que você dá em situações tristes”, compara Fraia. Para o escritor, Sebastopol é sobre “como contamos as nossas histórias para a gente e para os outros”.

Nos três contos que compõem o terceiro livro do paulistano — sua estreia solo após o romance O verão do Chibo, em coautoria com Vanessa Barbara, e da graphic novel Campo em branco, em colaboração com DW Ribatski —, a narrativa está sempre associada a tragédias pessoais dos personagens.

No primeiro conto, “Dezembro”, uma jovem escaladora tenta reconstruir a vida após perder as pernas na descida do monte Everest.

No segundo, “Maio”, o proprietário de uma pousada decadente à beira da estrada vê seu negócio ameaçado pela próspera plantação de eucaliptos situada na propriedade vizinha. No último, “Agosto”, a peça de teatro de Nadia e Klaus é repleta de atuações ruins e acaba sendo um fracasso de público.

O autor usa o conceito de trauma para descrever os personagens do livro, que ruminam sobre como suas atitudes passadas os trouxeram até um presente relativamente morto, não promissor. “É um tempo que não passa, não existe antes e depois”, afirma Fraia.

Há também mais um elemento que interliga as histórias: o andamento.

O narrador parece ser o mesmo em todos os contos, imprimindo um ritmo comum a três narrativas completamente diferentes. As frases são sóbrias e quase sempre curtas, sem malabarismos de sintaxe ou vocabulário complicado; os diálogos estão inseridos no texto, e não destacados por aspas, emprestando fluidez à leitura.

Fraia, eleito um dos melhores jovens autores brasileiros pela revista Granta, em 2012, conta que a ideia para Sebastopol surgiu há dez anos, mas que só colocou as palavras no papel nos últimos dois. O período de escrita coincidiu com o cenário de crise política e econômica no Brasil, mas, apesar disso, ele diz que inserir o “real” de forma direta nas suas histórias não estava necessariamente nos planos. Ele vê sua literatura “não como um espelho, mas sim como um comentário” do mundo lá fora.
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quarta-feira, 24 de outubro de 2018

histórias dentro de histórias

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Embora apresentem enredos totalmente distintos, os três contos que constituem Sebastopol, de Emilio Fraia, estabelecem um sentido de unidade através da maneira como são estruturados. Em seu primeiro livro solo (Fraia já publicou o romance O verão do Chibo, escrito com Vanessa Barbara, e a HQ Campo em branco, ilustrada por DW Ribatski), o autor paulistano articula sua escrita a partir de níveis e desníveis, alternando linhas narrativas e temporais, de modo que a forma breve adquira o aspecto e a densidade do romance.

É uma técnica que demanda domínio e criatividade, e Fraia se sai muito bem, por trabalhar em duas frentes: a manutenção permanente da tensão e a mecânica do mistério. Seus textos guardam segredos que, diante de um andamento compassado, de frases precisas e bem ordenadas, surgem com alto poder de surpresa, em função de estarem em camadas profundas, feito histórias que se encontram dentro de histórias.

O primeiro conto, “Dezembro”, é narrado por Lena, uma alpinista cujo projeto era ser a brasileira mais jovem a chegar ao topo dos montes mais altos do planeta, até se acidentar na subida do Everest. Anos depois, ela se depara com um vídeo exibido numa exposição que parece contar sua história, e é arremessada de volta ao passado. Um período que envolve não apenas seus dias de escalada, mas toda uma construção afetiva e identitária que parecia apagada.

A tessitura se conforma no entrelaçamento de fios de memórias, que vão conduzir a personagem a repassar momentos que não tem certeza se viveu ou se foram sacados involuntariamente do filme, no trânsito por um terreno movediço que pode resultar em (auto)descobertas dolorosas ou conceder uma ilusão reconfortante.

Fraia lança mão de uma ambiguidade que ativa possibilidades discursivas, movimentos de fala nos quais seus narradores avançam por caminhos que, supostamente, parecem sem saída, mas que são acessos secretos para desvendar suas relações interpessoais e com o próprio mundo. Não é raro também servirem para introduzir e acompanhar outros agentes da trama, saindo do que era considerado o eixo central para, adiante, retomar esse mesmo ponto e redirecioná-lo.

É o caso de “Maio”, o segundo conto, ambientado numa decadente pousada rural, na qual Nilo, o dono, e um empregado esvaziam uma piscina à procura de um cadáver. À medida que a narrativa recua, sabe-se que um casal se hospedou ali faz pouco tempo. Que a mulher foi embora e o homem ficou, até sumir.

O enigma é posto, a princípio, como um elemento de conjunção entre presente e passado, para, aos poucos, tomar as rédeas do texto e transformar a história inicial, que deveria se desenhar nos desdobramentos do caso, na contemplação desse homem desaparecido, suas escolhas, uma biografia quase acidental.

O autor traz esse mesmo mecanismo para o último conto, “Agosto”, no qual uma aprendiz e um fracassado diretor de teatro se unem para escrever uma peça passada durante o cerco à cidade russa de Sebastopol, nos anos 1800, tendo como protagonista o pintor Bogdan Trúnov. Três linhas narrativas se cruzam: a história em curso, a biografia de Trúnov e os acontecimentos da peça. Embora seja o conto mais fechado em si, é aquele que ilustra o conceito do livro de se engendrar por meio de uma multiplicidade de segmentos que se confluem quando uma experiência decisiva muda a visão de mundo de um personagem.

Dos argumentos usados para depreciar o conto, há aquele de que o gênero não tem a mesma força do romance. Sebastopol desmonta esse equívoco, ao dar forma a narrativas que conseguem oferecer um intenso grau de imersão e alcançar a propriedade magnética inerentes às grandes obras romanescas.
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segunda-feira, 8 de outubro de 2018

este mês

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Lançamento em São Paulo, dia 23 de outubro, a partir das 19h30.
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sábado, 29 de setembro de 2018

eu direi as palavras mais terríveis esta noite

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"Esse é tempo de partido,/ tempo de homens partidos./ Em vão percorremos volumes,/ viajamos e nos colorimos./ A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua./ Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos./ As leis não bastam. Os lírios não nascem/ da lei. Meu nome é tumulto, e escreve-se/ na pedra./ Visito os fatos, não te encontro./ Onde te ocultas, precária síntese,/ penhor de meu sono, luz/ dormindo acesa na varanda?/ Miúdas certezas de empréstimos, nenhum beijo/ sobe ao ombro para contar-me/ a cidade dos homens completos./ Calo-me, espero, decifro./ As coisas talvez melhorem./ São tão fortes as coisas!/ Mas eu não sou as coisas e me revolto./ Tenho palavras em mim buscando canal,/ são roucas e duras,/ irritadas, enérgicas,/ comprimidas há tanto tempo,/ perderam o sentido, apenas querem explodir./ Esse é tempo de divisas,/ tempo de gente cortada./ De mãos viajando sem braços,/ obscenos gestos avulsos./ Mudou-se a rua da infância./ E o vestido vermelho/ vermelho/ cobre a nudez do amor,/ ao relento, no vale./ Símbolos obscuros se multiplicam./ Guerra, verdade, flores?/ Dos laboratórios platônicos mobilizados/ vem um sopro que cresta as faces/ e dissipa, na praia, as palavras./ A escuridão estende-se mas não elimina/ o sucedâneo da estrela nas mãos./ Certas partes de nós como brilham! São unhas,/ anéis, pérolas, cigarros, lanternas,/ são partes mais íntimas,/ e pulsação, o ofego,/ e o ar da noite é o estritamente necessário/ para continuar, e continuamos." 

"Nosso Tempo", Drummond, A rosa do povo, 1945

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"Eu direi as palavras mais terríveis esta noite/ enquanto os ponteiros se dissolvem/ contra o meu poder/ contra o meu amor/ no sobressalto da minha mente/ meus olhos dançam/ no alto da Lapa os mosquitos me sufocam/ que me importa saber se as mulheres são/ férteis se Deus caiu no mar se/ Kierkegaard pede socorro numa montanha/ da Dinamarca?/ os telefones gritam/ isoladas criaturas caem no nada/ os órgãos de carne falam morte/ morte doce carnaval de rua do/ fim do mundo/ eu não quero elegias mas sim os lírios/ de ferro dos recintos/ há uma epopéia nas roupas penduradas contra/ o céu cinza/ e os luminosos me fitam do espaço alucinado/ quantos lindos garotos eu não vi sob esta luz?/ eu urrava meio louco meio estarrado meio fendido/ narcóticos santos ó gato azul da minha mente!/ eu não posso deter nunca mais meus Delírios/ Oh Antonin Artaud/ Oh Garcia Lorca/ com seus olhos de aborto reduzidos/ a retratos/ almas/ almas/ como icebergs/ como velas/ como manequins mecânicos/ e o clímax fraudulento dos sanduíches almoços/ sorvetes controles ansiedades/ eu preciso cortar os cabelos da minha alma/ eu preciso tomar colheradas de/ Morte Absoluta/ eu não enxergo mais nada/ meu crânio diz que estou embriagado/ suplícios genuflexões neuroses/ psicanalistas espetando meu pobre/ esqueleto em férias/ eu apertava uma árvore contra meu peito/ como se fosse um anjo/ meus amores começam crescer/ passam cadillacs sem sangue os helicópteros/ mugem/ minha alma minha canção bolsos abertos/ da minha mente/ eu sou uma alucinação na ponta de teus olhos."

"Meteoro", Roberto Piva, Paranoia, 1963
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