quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

dobradiças

.
Carta do Flaubert para Louise Colet:

"Em cinco meses escrevi setenta e cinco páginas. Reli tudo isso anteontem, e fiquei assustado ao ver como é pouco e quanto tempo me custou. Cada parágrafo é bom em si e há páginas que são perfeitas. Estou seguro disso. Precisamente por isso, contudo, a coisa não avança. É uma coleção de parágrafos bem acabados e ordenados que não se comunicam uns com os outros. Terei de desfazê-los, afrouxar as dobradiças, como se faz com os mastros de um barco quando se deseja que as velas colham mais vento."
.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

hay una gota de sangre de pato

.
Debajo de las multiplicaciones
hay una gota de sangre de pato.
Debajo de las divisiones
hay una gota de sangre de marinero.
Debajo de las sumas, un río de sangre tierna.
Un río que viene cantando
por los dormitorios de los arrabales,
y es plata, cemento o brisa
en el alba mentida de New York.
Existen las montañas, lo sé.
Y los anteojos para la sabiduría,
Lo sé. Pero yo no he venido a ver el cielo.
Yo he venido para ver la turbia sangre,
la sangre que lleva las máquinas a las cataratas
y el espíritu a la lengua de la cobra.
Todos los días se matan en New York
cuatro millones de patos,
cinco millones de cerdos,
dos mil palomas para el gusto de los agonizantes,
un millón de vacas,
un millón de corderos
y dos millones de gallos
que dejan los cielos hechos añicos.
Más vale sollozar afilando la navaja
o asesinar a los perros
en las alucinantes cacerías
que resistir en la madrugada
los interminables trenes de leche,
los interminables trenes de sangre,
y los trenes de rosas maniatadas
por los comerciantes de perfumes.
Los patos y las palomas
y los cerdos y los corderos
ponen sus gotas de sangre
debajo de las multiplicaciones;
y los terribles alaridos de las vacas estrujadas
llenan de dolor el valle
donde el Hudson se emborracha con aceite.
Yo denuncio a toda la gente
que ignora la otra mitad,
la mitad irredimible
que levanta sus montes de cemento
donde laten los corazones
de los animalitos que se olvidan
y donde caeremos todos
en la última fiesta de los taladros.
Os escupo en la cara.
La otra mitad me escucha
devorando, orinando, volando en su pureza
como los niños en las porterías
que llevan frágiles palitos
a los huecos donde se oxidan
las antenas de los insectos.
No es el infierno, es la calle.
No es la muerte, es la tienda de frutas.
Hay un mundo de ríos quebrados
y distancias inasibles
en la patita de ese gato
quebrada por el automóvil,
y yo oigo el canto de la lombriz
en el corazón de muchas niñas.
Óxido, fermento, tierra estremecida.
Tierra tú mismo que nadas
por los números de la oficina.
¿Qué voy a hacer?, ¿ordenar los paisajes?
¿Ordenar los amores que luego son fotografías,
que luego son pedazos de madera
y bocanadas de sangre?
San Ignacio de Loyola
asesinó un pequeño conejo
y todavía sus labios gimen
por las torres de las iglesias.
No, no, no, no; yo denuncio.
Yo denuncio la conjura
de estas desiertas oficinas
que no radian las agonías,
que borran los programas de la selva,
y me ofrezco a ser comidopor las vacas estrujadas
cuando sus gritos llenan el valle
donde el Hudson se emborracha con aceite.

(Garcia Lorca; "Oficina y denuncia" in Poeta en Nueva York)
.

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

autorama

.
"É fama que ao perguntarem a Whistler quanto tempo lhe fora necessário para pintar um de seus noturnos, ele respondeu: a vida toda (...) o menor dos fatos pressupõe o inconcebível universo e, inversamente, que o universo necessita do menor dos fatos."

"Pressupor que toda recombinação de elementos é obrigatoriamente inferior a seu original, é pressupor que o rascunho 9 é obrigatoriamente inferior ao rascunho H -- já que não pode haver senão rascunhos. O conceito de texto definitivo não corresponde senão à religião ou ao cansaço."

"A Odisséia, graças a meu oportuno desconhecimento do grego, é uma biblioteca internacional de obras em prosa e verso, desde os versos de rimas emparelhadas de Chapman até a Authorized Version de Andrew Lang ou o drama clássico francês de Bérard ou a saga vigorosa de Morris ou o irônico romance burguês de Samuel Butler."

"Não há coisa no universo que não tenha uma causa eficiente e que essa causa, evidentemente, é o efeito de outra causa anterior. O mundo é um interminável encadeamento de causas e cada causa é um efeito. (...) conhecer é reconhecer."

"Flaubert não queria estar em seus livros, ou queria estar apenas de modo invisível, como Deus em suas obras (...) pensar na obra de Flaubert é pensar em Flaubert, no ansioso e laborioso trabalhador das muitas consultas e dos rascunhos inextricáveis. (...) nenhuma criatura de Flaubert é real como Flaubert."

"A página de perfeição, a página na qual nenhuma palavra pode ser alterada sem prejuízo, é a mais precária de todas. As mudanças de linguagem apagam os sentidos laterais e os matizes; a página 'perfeita' é a que é composta desses valores sutis, e a que com maior facilidade se desgasta. Inversamente, a página que tem vocação de imortalidade pode atravessar o fogo das erratas, das versões aproximativas, das leituras distraídas, das incompreensões, sem deixar a alma na prova."

(Borges; Discussão, 1932)
.

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

no palitinho

.

.
Entre 711 e 1248, Sevilha foi árabe, e no ano da graça de 913 o primeiro Califa andaluz, Abd al-Rahman III, iniciou a construção do que é conhecido hoje como o Real Alcázar sevilhano. Apesar do sol islâmico e dos belíssimos jardins do palácio, acabamos atraídos por uma escada fria, de mármore, que dava para as chamadas Salas Altas del Cuarto de la Montería. Lá estavam sendo expostas fotos da aventura de um dos tantos entediados exploradores ingleses do início do século passado, Sir Ernest Shackleton. Era o tipo de coisa esquisita, deixar de passear pelos pátios ensolarados do castelo espanhol para se enfurnar em cômodos escuros e ver fotografias velhas e geladas, com homens de casacos, luvas e gorros. Por curiosidade, porém (o nome "Salas Altas del Cuarto de la Montería" nos parecia um bom motivo), resolvemos subir. No pé do último degrau, a primeira foto era impressionante: o Endurance, navio de Shackleton, encalhado na imensidão branca do Pólo.

Em agosto de 1914, Shackleton e sua tripulação havia partido com a intenção de serem os primeiros a atravessar a Antártida: em 18 de janeiro de 1915, a apenas 160 quilômetros de seu objetivo, o Endurance ficou preso entre as placas de gelo no mar de Weddell. A agonia durou nove meses.

Junto à tripulação (homens recrutados a partir de um anúncio que Shackleton publicara em um jornal britânico -- "procura-se homens para uma viagem perigosa. Salário baixo. Frio extremo. Longos meses de completa escuridão. Perigo constante. Não se garante retorno com vida. Honra e reconhecimento em caso de êxito"), estava um fotógrafo, o australiano Frank Hurley. As imagens noturnas feitas por Hurley são brutais: o barco, um fantasma enorme, preso no tenebroso oceano de gelo. De um lado, a escuridão da noite; de outro, o branco interminável, o silêncio daqueles meses terríveis. Há fotos da tripulação ouvindo música, jogando futebol, brincando com filhotes de huskie, tentando desencalhar o navio.
.
Em A narrativa de Arthur Gordon Pym, único romance que Poe escreveu, há cenas assombrosas. Tenho duas preferidas. A primeira acontece quando o narrador e seus três companheiros chegam ao limite da fome e da privação a bordo do Grampus. Perdidos no mar e à beira da morte, um deles, Parker, propõe a saída canibal: alguém deve ser sacrificado, "para preservar a existência dos outros." Depois de certa relutância do narrador, começam a pensar em como escolher a vítima. Então decidem por uma boa, velha e sensacional prática: "o único método que pudemos entrever para essa loteria terrível, em que cada qual teria um risco a correr, foi tirar palitinhos."

.
.
A outra cena terrível é essa:
.
"Ninguém foi visto a bordo até que o navio estivesse a cerca de um quarto de milha de nós. Vimos então três marujos, a quem, pelos trajes, tomamos por holandeses. Dois desses estavam deitados sobre velas rotas junto ao castelo de popa, e o terceiro, que parecia nos olhar com grande curiosidade, debruçava-se na proa a estibordo, perto do gurupés. Este último era um homem alto e corpulento, com pele bem escura. Parecia, pelos seus gestos, encorajar-nos a ter paciência, saudando-nos de maneira jovial, mas um tanto esquisita, e sorrindo constantemente, como para exibir uma fileira de dentes da mais brilhante brancura. À medida que o navio se aproximava, vimos seu gorro de lã vermelha cair de sua cabeça na água; mas ele não fez caso disso, insistindo em seus sorrisos e gesticulações bizarras. Relato essas coisas e circunstâncias em minúcias, para que fique bem entendido como pareceram a nós. O brigue aproximava-se lentamente, agora com mais firmeza que antes, e -- não consigo falar com sangue-frio deste episódio -- nossos corações saltaram alucinados dentro do peito, vertemos toda nossa alma em gritos de júbilo e ações de graças a Deus pelo completo, inesperado e glorioso salvamento que tão palpavelmente tínhamos à mão. Súbito, de uma só vez, vindo do estranho navio (que agora estava próximo de nós), chegou até nós, bafejado sobre o oceano, um cheiro, um fedor tal que não há no mundo palavras para exprimi-lo -- infernal, sufocante no mais alto grau, intolerável, incocebível. De fôlego cortado e virando-me para meus companheiros, percebi que estavam mais pálidos que mármore. Mas não tínhamos tempo para questão ou conjetura -- o brigue estava a cinquenta pés de nós e parecia ter a intenção de nos acostar pela nossa almeida, a fim que pudéssemos abordá-lo sem lançar um bote ao mar. Precipitamo-nos para a popa, quando, de repente, uma forte guinada o lançou a bons cinco ou seis graus fora da rota que vinha mantendo; ao margear nossa popa à distância de uns vinte pés, tivemos visão plena de seu convés. Hei de esquecer algum dia o triplo horror daquele espetáculo? Vinte e cinco ou trinta corpos humanos, entre os quais várias mulheres, jaziam espalhados aqui e ali, entre o painel de popa e a cozinha, no último e mais repugnante estado de putrefação. Vimos nitidamente que não havia vivalma naquele barco maldito! Mas não pudemos deixar de gritar ao mortos por ajuda! Isso mesmo: longa e ruidosamente imploramos, na agonia do momento, que aquelas imagens silenciosas e repulsivas se detivessem para nós, que não nos abandonassem à mesma sorte, que nos recebessem em sua ilustre companhia! Delirávamos de horror e desespero -- loucos de angústia e cruel decepção."
.
.

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

mirko

.
Mirko acena da única janela acesa, a mais alta de um prédio de quatro andares no bairro de Kreuzberg, em Berlim. Pede pra que eu espere. Fico no pátio, no centro do quadrado de prédios, estou cansado e deixo a mochila no chão. Ouço um eco (primeiro longe, sem forma), são os degraus, é um par de tênis e há intervalos entre os lances de escada. Isso me diverte, imaginar as paredes cortadas, como numa grande casa de bonecas. Mirko diz que mora sempre em últimos andares, nos apartamentos mais altos. O barulho de um copo, um talher, alguém caminhando: é sempre possível enlouquecer, à noite, quando se vive sozinho. O prédio da frente costumava ser maior, Mirko me conta. Uma bomba durante a guerra decepou a parte de cima, no térreo morava um alfaiate judeu, ele ficou refugiado ali, não podia sair. Hoje, a família do alfaiate é dona do conjunto de prédios e aluga os apartamentos, o preço é baixo e a vizinhança, simpática. Kreuzberg é o bairro turco de Berlim. Descemos o quarteirão e chegamos à uma pequena porta onde uma velha russa vende falafels. Mirko sugere algumas opções de lugares para irmos depois de comer. Pensando na vista, escolho o da grande janela, no terceiro andar de um prédio perto dali. A primeira impressão é de um edifício residencial, não há letreiro na entrada e da rua não ouço barulho nenhum. No escuro, subimos a escada, dobramos num corredor e alguém atrás do olho mágico abre a porta. Entramos em uma sala esfumaçada, com balcão, música, pessoas bebendo e falando (conversam incrivelmente baixo). A janela aponta para um viaduto. No inverno, Mirko diz, Berlim é outra cidade, fica irreconhecível por causa da neve. Mirko lembra de uma viagem de trem que fez quando era pequeno para a casa de amigos dos pais, na França. Foi a primeira vez que saiu da parte oriental da Alemanha, onde nasceu e foi criado. Quando chegou, ganhou motos, carros, helicópteros. Nunca tinha visto tantos brinquedos. Ele me conta a mesma história de novo, depois do bar. A avenida Karl Marx fica mais larga à noite, é impossível de atravessar.
.

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

não-dito

.
E o Joca decidiu fechar a conta. Uma pena, eu gostava do blog dele, sobretudo da maneira que ele, com seu fígado assaz argentino, se aventurava pelos gêneros, misturando crítica, ficção, jornalismo, poesia, diário, provando que a organização dos posts de um blog em categorias é uma coisa sem graça, principalmente para um escritor. A verdade é que os escritores estão caindo fora. Não querem mais saber de blog. Há alguns dias, na Folha, o Bernardo Carvalho publicou uma coluna (só para assinantes) em que criticava "uma literatura que, originária e devedora dos blogs, foi reduzida a crônica, expressão da opinião e da experiência pessoal". No texto (uma resenha sobre A fera na selva, do Henry James), ele contrapunha "invenção e transcendência", qualidades que enxerga nos livros de James, ao relato pessoal com ares de crônica dos blogs: "Henry James professa a idéia de que a própria literatura é reflexão -- e não apenas expressão de si ou de geração", escreve. "O não-dito, por exemplo, que é um dos recursos dramáticos e romanescos mais fundamentais dos livros de James, é inconcebível dentro do princípio exibicionista da encenação pública do eu, na qual tudo deve ser dito e mostrado." Para além da coisa dos blogs como divulgadores da obra de seus autores (o marketing das grandes editoras faz o mesmo, ora), essa é uma questão que pode ser investigada: são os blogs, única e exclusivamente os blogs, responsáveis por uma sensibilidade"exibicionista", que produz uma literatura que não passa de "expressão da opinião e da experiência pessoal"? Eles não são também um sintoma? Por outro lado, o texto do Bernardo acaba sacrificando algo que, para mim, não tem um valor negativo em si: o diário escrito e pensado para a publicação -- que não nasceu com os blogs e que pode, sim, ser uma boa forma de exercício. Quando comecei a fazer esse blog, por conta da viagem, quis colocar no rodapé da página algo que lembrasse o Kafka e o Gombrowicz. Eles, na minha opinião, exemplificam bem duas atitudes possíveis diante de um diário: enquanto Kafka relatava para si, e somente para si, suas noites de raios & trovões, Gombrowicz escrevia sabendo que seria lido. O que separa os dois diários, além de meros 30 anos (o de Kafka foi escrito entre 1910 e 1923, o de Gombrowicz na década de 50), é a ironia. No Diário Argentino, a ironia -- de construir uma intimidade para publicação, de mesclar ficção e biografia -- é um complicador e tanto. Os não-ditos estão ali, todos. Não se trata de boteco, relato ou crônica. "O Diário é o principal livro de Gombrowicz", falou o Piglia. É possível encontrar blogs legais por aí. O do próprio Bernardo, por exemplo.
.

sailor moon comanda o motim

.
Texto novo na piauí.
.

Diga wee por um mundo melhor

Operador do Playcenter não se intimida com Sailor Moon

Naruto Uzumaki, garoto em cujo corpo está aprisionado o espírito da raposa de nove caudas, espera a vez na fila do Splash. Faz manobras arriscadas no carrinho bate-bate, grita na montanha-russa — tudo ao mesmo tempo. Alto, baixinho, gordo, magro, Naruto se multiplica; sua roupa laranja está por toda parte, é uma das mais populares entre os participantes da primeira edição do Anime Play, que acontece num fim de semana de maio, no Playcenter, em São Paulo. Naruto é o protagonista do mangá homônimo. Suas aventuras começaram a ser publicadas em 1999 no Japão e viraram febre; já têm centenas de fãs no Brasil. “Ao mover uma das caudas”, conta o Naruto Marcos Fujioka, 16 anos, ajeitando a bandana ninja, “o espírito da raposa é capaz de gerar tsunamis e achatar montanhas”.

Perto dali, de peruca rosa, Sumomo viu o mundo, ele estava de cabeça para baixo. Na saída do liquidificador humano Evolution, a robô do anime Chobits se apresenta: Milena dos Santos, 17 anos, de Itatiba. “Adoro a Sumomo, ela mede vinte centímetros, é uma robozinha de estimação e—”, Milena larga a frase pela metade quando vê, no meio de um exército de Pokemons, as irmãs gêmeas Chii e Freya, também personagens de Chobits. Elisabeth Eguchi (Chii), 18 anos, e Tamara Yumi (Freya), 15 anos, têm um metro e meio de altura. Vestem saias curtas, longos cabelos loiros e orelhinhas de gato. “É fácil vermos Chii ou Freya nos eventos, mas quase nunca as duas juntas”, orgulha-se Tamara. A ambição de Elisabeth é aprender a costurar para fazer suas próprias fantasias. “Hoje, gasto em média cem reais por roupa”, diz. “Quero economizar e usar esse dinheiro pra comprar mais mangá.” Antes de ir embora, Sumomo tira fotos com as gêmeas; as três se abraçam e, loucamente, gritam weee umas para as outras.

Vestir-se como personagens de anime ou mangá é a diversão da maioria dos freqüentadores de eventos como o Anime Play. “Eles não só se fantasiam como encarnam o jeito, as poses, o modo de falar e até as coreografias dos seus heróis preferidos”, explica Philipe Monteiro, 23 anos, um dos organizadores. Quem imitar melhor o personagem, vence. Atual campeão mundial, o Brasil é uma nação emergente na geopolítica do cosplay (espécie de abreviação para “costume play”). Os irmãos Mônica e Maurício Somenzari Leite Olivas venceram o World Cosplay Summit (WCS) disputado no Japão em 2006 com os personagens Rosiel e Alexiel, do anime Angel Sanctuary (!). Este ano o verde-amarelo vai ser representado na final japonesa, em Nagoya, dia cinco de agosto, pelos noivos Thaís “Yuki” Jussin e Marcelo “Vingaard” Fernandes, que venceram a etapa brasileira com os personagens Sesshoumaru e InuYasha (!).

No palco do Playcenter, as bandas Tofu Attack e Tsubasa se revezam, tocam temas dos seriados Jaspion e Changeman, do RPG Final Fantasy e do anime Dragon Ball Z. A pequena multidão vai ao delírio com os ideais da revolução japonesa: “pela liberdade sou Jaspion, pela igualdade sou Jaspion!”. No cinema, uma sessão nostalgia com episódios clássicos. O capítulo final de Jiraya arranca gritos e aplausos. Enquanto isso, do outro lado do parque, uma gangue de Sailor Moon toma o barco viking. Quando o brinquedo ameaça parar, elas berram, contrariadíssimas. Recusam-se a descer. Uma delas desafia o operador: “Sou uma guerreira com roupa de marinheiro e vou punir você em nome da Lua!” Ele ajeita o boné, aperta um e outro botão, como se nada tivesse acontecido.

Perto da montanha-russa, sentada num banquinho, Carolina Gatti, 11 anos, bebe tranqüilamente seu Mupy sabor maçã. A bebida à base de leite de soja é chamada por ela de “néctar dos Deuses”. Carolina está fantasiada de Sakura, companheira de Naruto, e carrega uma plaquinha onde se lê: “Diga weee por um mundo melhor”. Carol explica que um mundo melhor é um mundo com muitos pandas. “Meu bicho preferido é o panda, tenho cinco pandas de pelúcia no meu quarto, eles são muito fofinhos”.

O momento mais esperado do evento é o concurso de cosplay. Foram inscritos 120 participantes nas categorias feminino, masculino e grupo. “Batam palmas para os Chobits!”, conclama o apresentador: a disputa começou. Os personagens entram e saem do palco, apresentando cenas de luta e coreografias. “O nível das apresentações está muito bom”, aplaude o jurado e expert Bruno Lazzarini, 22 anos, estudante de matemática. “Não tem nenhum cospobre”, observa judiciosamente Larissa Regina, 14 anos, referindo-se aos cosplays mais modestos.

Nos bastidores, Maria Elisa, 17 anos, e Debora Ferreira, 15 anos, estão nervosas. Vestidas como personagens de Sailor Moon (a Graciosa Guerreira Marinheira da Lua), elas aguardam os resultados do concurso. É a primeira vez que a dupla participa de um evento, apresentaram o que chamam de Kirari Sailor Jupiter, com música e dança, uma homenagem ao “melhor anime de todos os tempos”, Sailor Moon. Quando, depois de algum suspense, o apresentador diz que a dupla de Sailor Jupiter é a grande vencedora da noite, Maria e Debora se abraçam, gritam, choram. “Ficamos um mês ensaiando”, diz Maria. "É muita emoção". Sobem ao palco e recebem as medalhas. Acenam para o público. “Elas mereceram”, avalia o jurado Bruno Lazzarini, também tomando seu Mupy. “Ninguém fez botas como as delas, ficaram incríveis.”
.

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

if god had a fridge your picture would be on it

.

Ontem, o caderno G2 do The Guardian publicou ensaio fotográfico com placas de igreja feitas pelo casal norte-americano Steve e Pam Paulson. Em viagem da Florida para o Alaska, eles decidiram que a coisa mais hilariante desde George Washington eram as publicidades de Cristo, e resolveram passar três verões rodando pelos EUA e registrando os anúncios celestiais.
.

.
.
.
.
.

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

mezzo intelectuale, mezzo di sinistra

.


Nanni Moretti e o way of life de sua namorada riponga em seu primeiro filme, Ecce Bombo, 1978
.

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

dentro do aquário

.
Em dezembro de 1920, DH Lawrence escreveu em seu blog: "we are going to look at Sardinia, and if I like that I shall move there".

No mês seguinte, ele e sua mulher, Frieda, partiram para a ilha. Em 1919, Lawrence tinha trocado o cinza inglês pelo azul italiano (até a sua morte, em 1930, na França, nunca mais voltou a viver na Inglaterra); passou por Florença, Roma, Capri e se estabeleceu na Sicilia na primavera de 1920. Embora estivesse gostando bastante da costa siciliana (vinho, praia, topless), o outono daquele ano foi parecido com o atual verão inglês: chuvoso, com as nuvens amassadas e um sol frio.

Lawrence, cansado de ficar quieto em seu quarto (e contrariando Pascal, que dizia que "toda a infelicidade dos homens provém de uma só coisa, que é a de não saber ficar quieto em seu quarto"), escreveu: "Sicily at the moment feels like a land inside an aquarium -- all water -- and people like crabs and black-grey shrimps creeping on the bottom. Don't like it... We shall be coming north in the spring -- have promised to go to Germany... perhaps Sardinia -- who knows." Então Lawrence decidiu voltar a viajar. Em janeiro de 1921, ele e Frieda tomaram um barco em Palermo e aportaram em Cagliari, sul da Sardenha. A jornada pela ilha durou nove dias, o bastante para que suas anotações virassem livro, Sea and Sardinia, incrivelmente azul.
.

.
Na semana passada, fui conhecer a Sardenha. Do avião, a água do mediterrâneo era uma pedra imensa cheia de pontinhos brancos, pequenas ondas que de longe pareciam estrelas num céu muito escuro. Paolo, namorado da Julia, amigo italiano que passou um tempo estudando e morando no Brasil, nos hospedou na casa de seus pais, em Sassari, norte da ilha. Pais, avós, tios: toda a família do Paolo vive na Sardenha, há séculos.

Para comprovar que estávamos mesmo na Itália e não mais na cinzenta Inglaterra, aquela primeira noite o jantar durou seis horas. Vinho e mais vinho. Paolo nos falou das maravilhas da TV italiana e fiquei sabendo que seu pai, Michelangelo, é professor de matemática; a irmã mais nova, Helena, toca piano; e a mãe, Maria (que na verdade se chama Domenica), estudou Letras, coleciona miniaturas de tudo o que existe no mundo (cadeiras, rádios, livros, chinelos etc) e trabalha na estação ferroviária fantasma da cidade, onde os trens vêm e vão sem maquinistas nem passageiros.
.

.
Sexta cedo, Paolo nos levou no seu Fiat Panda até a praia de Stintino. No caminho, enquanto corriam lá fora retorcidas árvores de cortiça, ele nos contava sobre a história da terra de Gramsci: fenícios, árabes, aragoneses, a dominação e influência catalãs, os gigantes de pedra do Monte Prama e o movimento independentista da ilha. Paolo faz parte do movimento, o que rende discussões com sua tia de 90 anos. Ela diz que o sardo é um dialeto, Paolo afirma que se trata de uma língua. Até concordam quanto às origens latinas, pré-romanas, etruscas e fenícias. Mas a tia não abre mão: é dialeto.
.



.
A praia de Stintino é essa coisa maravilhosa aí, dispensa comentários. Me faz pensar em como cada vez mais gosto de paisagens enormes, antigas e desoladas. Lawrence, no livro, faz belas descrições panorâmicas da Sardenha. De longe. Como esta: "The landscape continues the same: low, rolling upland hills, dim under the yellow sun of the January morning: stone fences, fields, grey arable land: a man slowly, slowly ploughing with a pony and a dark red cow: the road trailing empty across the distance".

E, principalmente, esta: "From the sea, Cagliari on its rock looms up like a legendary dream site carved onto space: a naked town rising steep, golden-looking, piled naked to the sky from the plain... The city piles up lofty and almost miniature, and makes me think of Jerusalem: without trees, without cover, rising rather bare and proud, remote as if back in history, like a town in a monkish, illuminated missal. Yet withal rather jewel-like: like a sudden rose-cut amber jewel naked at the depth of the vast indenture."
.
.
No sábado fomos para Berchidda ver o Time in Jazz. Berchidda, onde vivem os avós do Paolo, é uma cidade minúscula nas montanhas. Os shows do festival, que já conta vinte edições, acontecem em pequenos bosques ou no alto de rochas nos arredores da cidade. Na foto acima, a Kocani Orkestar, banda cigana que toca no gigante Underground, obra-prima do Emir Kusturica, puxa o carnaval nas ruas de Berchidda.
.

.
À noite, fomos apresentados à zuppa, mistura de queijos, molho de tomate, condimentos e pão sardo cortado em pedaços. Antes de ir para a panela, o pão sardo (que se assemelha ao pão sírio, redondo e macio) é cozido no caldo de alguma carne -- de javali, no caso. O pão absorve o caldo e fica com o seu sabor. Na foto acima, os avós de Paolo, Gigi e Concetta, se fartam com a zuppa. A garrafa de vinho na mesa é a terceira da noite. Gigi gosta de chamar os visitantes de ubriacones e perguntar, com um sorriso de sardinha, quando é que vão embora (pra poder sobrar mais vinho). Quando é mesmo que vocês vão embora? Quando termina o almoço, Gigi lava os pratos enquanto Concetta tira a sesta. Concetta diz que a coisa toda dos pratos é desculpa pra poder ficar bebendo mais. Gigi desconversa, e toda vez que Concetta tenta afastar o copo de perto dele, com a mão estendida, grita "Heil, Hitler!".
.
Da esquerda para a direita: Paolo, Michelangelo, Julias e Helena.
.
.
No domingo, deixamos Berchidda. As tias do Paolo, lembradas sobre o peixe frito ser o principal atrativo da gastronomia inglesa, olharam com pena e nos presentearam com tortas de queijo. Gigi nos deu garrafas de cortiça em miniatura, feitas por ele. À noite, tomamos o avião de volta. Lendo o livro do DH Lawrence, aqui, no quarto, penso que toda viagem possibilita que entremos em contato com certas reflexões que não experimentamos no dia-a-dia (além de permitir a construção de uma narrativa completa, com início e fim bem definidos). "I suppose one carries one's own self wherever one goes. But one undergoes a metamorphosis also", escreveu Lawrence. "Italy has given me back I know not what of myself, but a very, very great deal. She has found for me so much that was lost: like a restored Osiris. (...) apart from the great rediscovery backwards there is a move forwards. There are unknown, unworked lands where the salt has not lost its savour".
.

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

coolanga flyer

.

Este é Sam, meu amigo cockney, preparando o churrasco no quintal de casa. No domingo, a namorada de Sam, Emma, fez aniversário e eles resolveram levar à grelha generosas porções de frango e porco. Todo mundo bebeu um monte e Jeff e eu bolamos estratégias pra capturar a raposa que mora na nossa rua. Era o fim ideal para uma semana que começou com os cachorros. Bernardo tinha me levado ao Walthamstow Greyhound Racing Stadium.

Bernardo, além de traduzir manuais de suma importância para a educação feminina na tenra idade, é um expert na ciência canina: consegue em poucos segundos examinar o histórico dos cães, o sobe-e-desce na bolsa de palpites e farejar o campeão. Eu, no entanto, não consegui emplacar bons resultados (a sorte de principiante não funcionou). Minhas maiores apostas, os cachorros Coolanga Flyer, Crocodile Tears, Kid Joker e Wheres the Girls, não estavam em suas melhores noites. Dos treze páreos que assistimos me dei bem em apenas um, em que faturei três pounds em uma aposta de 40 pence.
.

terça-feira, 31 de julho de 2007

sand and mud for miles and miles

.
"Quick , Ju!", he cried. "We're close to the sea. I can hear it! Listen! That's where they've went. P'raps we can catch them if we was in time. They didn't mean to go without us. They've only forgot." "Iss", said Judy. "They've only forgotted. Less go to the sea." (...) He took Judy by the hand, and the two ran hatless in the direction of the sound of the sea. (...) They climbed another dune, and came upon the great grey sea at low tide. Hundreds of crabs were scuttling about the beach, but there was no trace of Papa and Mamma, not even of a ship upon the waters -- nothing but sand and mud for miles and miles. (Rudyard Kipling; "Baa baa black sheep")
.

sábado, 21 de julho de 2007

wino

.

Eu tinha três chances de ver a Amy Winehouse. Quer dizer, dois dos shows (na Somerset House e no ICA) estavam com os ingressos esgotados e o terceiro, num festival da Virgin perto de Birminghan, me deu certa preguiça -- além da grana com os tickets eu teria que desembolsar ricos dobrões com a viagem. O Sam, inglês que me ensina cockney enquanto frita o café-da-manhã na cozinha de casa, disse que eu poderia tentar aparecer na Somerset House antes do show e negociar com os cambistas. Eu já tinha visitado a Somerset House. Um dia, estava andando na Strand, procurando um ônibus para Waterloo (que era logo ali do lado!), e fui atraído pela suntuosa fachada.

A existência do prédio remonta ao ano da graça de 1549, quando o Duque de Somerset decidiu que precisava de uma casa maior. Somerset, no entanto, não viu seu bangalô ficar pronto. Em 1552, o rei pediu sua cabeça, que rolou Tower Hill abaixo, e confiscou as propriedades do duque, entre elas a Somerset House. A partir de então, o lugar virou residência de um montão de rainhas. Elizabeth I morou lá, Catherine de Bragança também. Em 1775, um projeto para transformar a casa Somerset em um prédio público foi aprovado, reformas foram feitas (tudo foi praticamente reconstruído) e o lugar ganhou a cara que tem hoje.



O Sam disse que Amy mora no nosso bairro, Camden. Ele cruza com ela no Sainsbury, aqui pertinho, provavelmente na seção do sucrilhos preferido ou da bolacha hedionda. Confirmou que ela é mesmo boa de copo (no Dublin Castle, pub do bairro, ela teria gritado: “First person to get a bottle of tequila to the stage gets a sex act!”). Além disso, o Sam me ensina, enquanto frita suas bangers matinais, que em cockney cérebro não é "brain", mas sim "loaf"; braços não são "arms", mas sim "chalks"; e cerveja é "britney", nunca "beer".


E lá fomos nós para a porta da Somerset House. Julia mostrou-se uma negociante implacável. No meio de uma dezena de cavalheiros cochichando preços extorsivos, ela foi realmente durona. Não cedeu em nenhum momento e praticamente fez o cambista sair chorando.

Ingressos na mão, entramos na casa Somerset. Olhando o palco e as pessoas chegando -- comprando suas pints de Forster, emolduradas pela fachada dos prédios -- entendi porque todos os shows da temporada ali estavam com os ingressos esgotados (Mogwai, Black Rebel Motorcycle Club, Kasabian). No princípio, ficamos com um pouco de medo da chuva que tinha dado as caras pela manhã (esse é o verão mais chuvoso na Inglaterra desde que os registros começaram a ser feitos, em 1914), mas para a nossa sorte o céu abriu e às nove horas, com a noite baixando, a Amy foi anunciada pela filha do Ozzy Osbourne -- que passou o show inteiro ao lado do palco, sorrindo. Na foto abaixo, Amy aciona um de seus capangas para dar cabo nela.


Amy surgiu e começou com "You know I'm no good", seguida de "Addicted" e "Tears dry on their own" -- e ainda bem que desta vez ela não cuspiu na platéia. A atmosfera é de uma noite cheia de fumaça, com um homem no balcão, tragando uma neblina, perdido em alguma curva dos anos 60. Fiz alguns videozinhos, aqui, aqui e aqui.

Depois, pra noite ficar completa, saímos e fomos jantar em um lugar com uma vitrola chiando e chão quadriculado.

O Sam ensinou: não é "tea", é "rosy lea".

.

quarta-feira, 4 de julho de 2007

atores parados em suas marcas

.
"Na história de nosso amor, um foi sempre
Uma tribo nômade, outro uma nação em seu próprio solo.
Quando trocamos de lugar, tudo tinha acabado.
O tempo passará por nós, como paisagens
Passam por trás de atores parados em suas marcas
Quando se roda um filme.
As palavras
Passarão por nossos lábios, até as lágrimas
Passarão por nossos olhos.
O tempo passará
Por cada um em seu lugar.
E na geografia do resto de nossas vidas,
Quem será uma ilha e quem uma península.
Ficará claro pra cada um de nós no resto de nossas vidas
Em noites de amor com outros."

"Nossa história", Yehuda Amichai
.

quinta-feira, 28 de junho de 2007

the chance encounter of a sewing machine and an umbrella on an operating table

.


.
Um homem sai do metrô e alguém entrega a ele um mapa; um desenho confuso, vago, de retas e curvas (parece o plano-piloto de Brasília). Ele olha, tenta decifrar, segue pela cidade as pistas do mapa, o homem de chapéu, carregando uma pasta. Anda até chegar a uma rua, uma parede, um vão na parede. Entra. Dentro, encontra o diabo.

Essa é a historia do filme que vi semana passada, no BFI, em Southbank (um lugar com cinemas e um bar bem legal na beira do Tâmisa, perto da Waterloo Station e da galeria Hayward). É uma releitura do Fausto, do Goethe, feita pelo Jan Svankmajer.

O filme é cheio de bizarrices (um ovo dentro de um pão, uma mesa que jorra vinho, cabeças rolando pela floresta) e por isso, cansa um pouco -- às vezes, a máquina de costura não funciona e o guarda-chuva do Lautréamont emperra pra valer. Mas a mistura de teatro de bonecos, atores reais e stop-motion é sensacional. São incríveis as cenas em que o protagonista do filme é manipulado como se fosse uma marionete. Dá pra ver, no alto da tela, mãos coordenando os fios, fazendo o personagem ir de lá pra cá. Outra coisa interessante é a cidade onde o filme se passa, Praga, mas uma Praga dilapidada, de ruas vazias, prédios e muros velhos, destruídos. Milos Forman disse que Svankmajer é o encontro de Disney e Buñuel. Imagino os dois num parque à noite, sentados num banco, olhando os guindastes. Tim Burton e Terry Gilliam chegam com umas cervejas, o Georges Méliès traz o vibrafone.

O BFI está exibindo filmes do Svankmajer. Entre eles, uma versão da Alice (em que a personagem também se perde, entra num vão, o buraco na árvore) e de "A Queda da Casa de Usher", conto do Poe.

Dois trechos da Alice, aqui e aqui.
.

terça-feira, 26 de junho de 2007

sebastopol

.
Eu me virava, sonolenta, procurando os comprimidos. Da varanda, na poltrona de palha, nenhuma luz, nem dos barcos, nada, só o clarão da sala, as risadas, os meninos jogando tranca. A dor começou há três semanas. Acordei o Digo no meio da noite, estávamos no sítio, e disse que achava melhor a gente voltar. Ele ficou aborrecido (não conseguiu disfarçar), tinha reservado o sábado pra fazer de bicicleta a trilha do morro, e agora isso. Colocamos as malas no carro e saímos. Na estrada, ele me mandava relaxar, dizia que no fundo aquilo era minha culpa: você precisa se alimentar melhor, praticar ioga, fazer do corpo um instrumento para expansão da alma etc. Ligou o som e procurava um CD quando uma mancha escura se acendeu no pára-brisa; dei um grito e ele freou (cobri o rosto), o carro travou as rodas e se arrastou até parar, a dois palmos do bicho, que nos encarava, os olhos fundos. As crinas. Um relincho e os cascos; o cavalo retomou o passo, lento — e sumiu.

O resto da viagem foi tenso, como se muita coisa tivesse acontecido depressa demais. Quando entramos na cidade, os olhos fundos do bicho ainda voltavam, um par de túneis sob um viaduto, a madrugada de São Paulo: fui internada com uma infecção no rim. Precisei operar e dois dias depois, por causa de complicações, sofri outra cirurgia. Passei uma semana triste, no apartamento, sem poder andar, até que a Mari teve a idéia de reunir os amigos na casa da praia. Disse que seria bom pra mim, o verão está chegando, as noites têm um vento doce.

Os outros acordam perto das dez. O Digo, basta o sol entrar, ele se mexe, não consegue ficar na cama. Levanta, põe a bermuda e sai pro mar. Enrolada no lençol, eu tento me espreguiçar, mas a cicatriz estica, como se me abrisse um buraco. Tomo um chá, caminho até a varanda e a casa vai ficando vazia. A Lóli e a Ju acenam da escadinha; a Mari passa de biquíni, óculos escuros, levando uma toalha. O pai da Mari é arquiteto. Foi ele quem projetou a casa — o jardim na frente, com uma árvore grande, as samambaias, os canteiros bem-cuidados. A varanda é de tábuas brancas, metodicamente descascadas. Tudo o que parece casual, aqui, é resultado de minuciosas operações: o ar de velho dos móveis, a ferrugem dos remos que decoram a entrada, as lâmpadas sem lustre. Passo a tarde na poltrona de palha, olhando o jardim, tentando ler (um livro sem graça que a Lóli disse que era o máximo, sobre a importância do sono para uma vida feliz) e penso que no mar, lá na frente, nunca acontece nada — quando muito, barcos, mulheres gordas, os catadores de marisco. As ondas são todas iguais, nem fracas nem fortes. Me programo pra não esquecer o horário dos antibióticos, os comprimidos pra febre, mas quase sempre me distraio e o alarme do celular vem me encontrar sozinha num parque, às quatro da manhã, depois de me despedir do Digo e das meninas, me sentindo protegida da vida que tinha nos escolhido e que talvez pudesse ser outra. Mas que não seria. Os bares, o parque à noite. Chegava uma hora que isso tudo envelhecia também.

Lá pelas três, o Cao entra — é assim todos os dias, desde que chegamos — e começa a preparar o almoço. Ele some pra cozinha, depois volta (trazendo os copos), some, depois volta (a pilha de pratos). Quando eu penso “garfo”, ele surge com um pote de açúcar. Os olhos fechados, eu me concentro: “guardanapo, salada de tomate”, e a mesa da varanda se cobre de pão, colher, jarra de suco. Eu nunca adivinho (salmão com gengibre, me diz o Cao), e os outros começam a chegar. Primeiro o Alê, que estende a bermuda numa pedra, depois a Lóli, com o biquíni de zebrinha, segurando os chinelos cor-de-rosa, morta de fome. Os dois se revezam na ducha do jardim, rindo, falando alto — que o mar estava ótimo, que as gaivotas ficam na parte deserta, do outro lado, que a Mari era louca, ficar torrando daquele jeito, naquele sol, que a ducha está quente, que a ducha está fria, que lá na ponta, no costão, o Pedro tinha juntado um monte de tralhas. O Digo encostou, com o maior cuidado, a prancha num canto; a última a chegar foi a Mari. Largou no degrau as raquetes de sebastopol e pediu pro Alê passar hidratante nos ombros dela. Só faltava o Pedro. Um monte de fios, tábuas. Lataria velha, de máquina de lavar. Umas roldanas — a fome cresceu e resolvemos começar sem ele. Ninguém sabia explicar.

O Alê disse que de longe aquele amontoado de ferro-velho parecia uma torre, um negócio alto mesmo. “Ele trouxe tudo do terreno baldio que fica perto da estradinha”, falou. A Lóli jurava que tinha visto uma panela. A Mari e a Ju tinham ficado do lado de cá, tomando sol (o rosto escondido entre os cotovelos), e não sabiam de nada, não tinham visto ninguém. Bem cedo, o Cao foi visitar um amigo que trabalhava na cozinha do Bucaneiro Inglês, lá nas pedras. No caminho, viu o Pedro agachado, na frente das tralhas — latas de tinta vazias, enferrujadas, vigas de madeira. “Ele olhou pra mim daquele jeito dele, nunca dá pra saber quando o Pedro tá brincando ou não.” A Lóli jurava: vi uma panela. O Alê, com a boca cheia de melancia, perguntou se não era melhor a gente ir até a praia, ver a coisa de perto. A Mari e a Ju se entreolharam, o Cao bocejou.

Passei o resto da tarde pensando naquilo: as quinquilharias na praia, os fios ligando a areia e o alto da torre, cabos de transmissão, muros de lata. Sozinha (os outros tinham entrado, estavam dormindo), eu quase podia ver o amontoado de tralhas. Imaginava o Pedro no meio das carcaças, concentrado no menor dos barulhos, a ameaça de um caranguejo, o desenho das gaivotas. Se as pontadas fossem um pouquinho mais fracas, se a dor não incomodasse tanto... Pensei em levantar, atravessar o jardim, ir até a praia. De longe, a fortaleza grosseira se reduziria a uma velha caixa de ferramentas. Mas eu poderia acenar, um aceno breve. Olhei o céu. O vento tinha mudado e as nuvens pendiam escuras, chegavam com as náuseas, o frio, a testa úmida, um breu de tentáculos, peixes, arraias sangrentas. O corte não estava completamente fechado e de tempos em tempos afundava em uma mistura de sangue e água turva. Cortei a gaze, as fitas adesivas. A primeira pancada de chuva sacudiu as vidraças. No branco do curativo eu via o Pedro, entrincheirado, se apoiando nas ripas de ferro, a água entrando pelos sapatos. O abrigo tremendo.

Gritei o nome do Digo — o quarto fica bem atrás da varanda. Gritei de novo, mais uma vez. Ele apareceu na porta, esfregando o rosto, com cara de sono. O Pedro ainda não chegou, eu disse, já é tarde. O Digo sentou, olhou pro jardim: “Ele deve ter parado no bar do meio, deve estar esperando a chuva passar.” Caía um temporal. Os trovões apagavam o mar, colocavam as ondas numa caixinha de música, dentro de um bolso, dentro de um capote. Tem razão, pensei, o Pedro deve estar no bar do meio, esperando a chuva passar, só isso. Brilharam relâmpagos verdes e frios, claros demais. Na mesa, o Digo cortava o baralho, tirava uma carta de cima, outra de baixo, embaralhava, tirava uma carta de cima, outra de baixo, sem vontade. Passava das oito e ficamos assim não sei por quanto tempo, carta de cima, carta de baixo, em silêncio, esquecidos um do outro, o Digo e as cartas, eu e a noite do jardim, ouvindo a água descer pela calha, bater no telhado. Pensei que o repelente estava no fim e que talvez fosse prudente comprar outro, que o Cao tinha prometido preparar arroz com mariscos, que minhas unhas estavam horríveis, que quando isso tudo acabasse, eu me internaria num spa, com cremes, banhos, massagens.

Até que o barulho veio enorme, inesperado, descomunal.

A casa tremeu. Na poltrona, enroscada num calafrio, tentando escapar, vi as cartas caírem e o Digo de pé, congelado, olhando pra cima; o céu banhado em fogo. Os outros chegaram correndo, escorregando. Ficamos ali, como se uma onda gigante tivesse nos engolido. Na praia, a chuva pateava, dura e lamacenta, ouvíamos um comboio barulhento de vozes, cascos, ordens numa língua estranha. As nuvens flamejaram — depois, as explosões. Aviões cortaram o céu, descarregando luzes sobre as montanhas. Na água, um clarão de faróis. A Mari começou a chorar, correu e nos abraçamos num canto. Do meio do jardim, uma sombra avançou, trêmula, ofegava e se arrastava, quase sem forças. É o Pedro!, gritou a Lóli, é o Pedro! Ele mancava, o sangue sujo escorrendo pela cabeça. Gemia e sangrava. Não dizia nada, tinha as roupas esfarrapadas, a boca e os olhos pendiam moles. Atrás dele, os homens a cavalo abriam caminho pisoteando os canteiros.

(Conto publicado na piauí de junho)
.

segunda-feira, 25 de junho de 2007

up the apples and pears

.
Os primeiros dias em uma cidade têm o peso dos sonhos. O de sempre, tudo diferente: quilos de batata, a cerveja em lugares escuros, patos pendurados numa vitrine. No alto do Hampstead Heath, parque enorme perto de casa, dá pra ver boa parte da cidade. Os prédios são baixos e a paisagem, pontuada por guindastes. Enormes, os guindastes -- porque todo o resto é pequeno demais. No Shu Bar, no Soho, a gente pede um fire-exploded kidney flowers. Rins de porco, vegetais e cogumelos. Quando submetidos a alta temperatura os rins desabrocham. Em uma livraria, em Camden, penso que escolher um prato pelo nome é tão divertido quanto escolher um livro pela capa.


.

turma do milkshake

.
Há cerca de um ano, o Cassiano (Elek) e eu entrevistamos o Roberto Piva. Lembro que depois do papo (no apartamento dele, em Santa Cecilia) demos uma carona para o Piva, que ia encontrar um amigo num restaurante perto dali. No caminho, falamos sobre torresmo, espaguete e sobre como o imprevisível praticamente inexiste no mundo de hoje (o Cassiano discordou, apontando um posto de gasolina com restaurante chinês dentro). Piva não quis ser fotografado. Acho que preferia estar com os amigos: Rimbaud, os beats (em especial Ginsberg e Corso), Murilo Mendes e Nietzsche. Ou calçando os sapatos de abóbora do surrealismo. Não o surrealismo do nonsense pelo nonsense, em que a ausência de sentido é só uma regra estética, mas o surrealismo das imagens convulsivas, das aventuras urbanas, das alucinações -- "em matéria de arrancar o homem de si mesmo, há o surrealismo e mais nada", escrevia Georges Bataille, em 1946.

Ícone da poesia dos anos 60, Piva nunca se filiou a nenhum grupo. É conhecida a frase de Piva, que completa 70 anos em setembro, segundo a qual "não existe poeta experimental sem vida experimental".

Ou como escreve Annie Le Brun sobre o surrealismo: "revolta contra a ordem social, é claro, mas que não passa da consequência de uma revolta incomparavelmente mais profunda, vasculhando nas raízes do ser esta 'sede insaciável do infinito' de que fala Lautréamont e que nenhuma mudança social poderá satisfazer".

Trechos da conversa foram publicados na Trip de maio.

Abaixo segue a entrevista. E um quadro do De Chirico.

.
.
Paranóia (1963) é uma espécie de retrato delirante de São Paulo. Como você enxerga a cidade hoje? Eu não enxergo mais nada. O poeta lida com a face invisível do planeta, está preocupado com a dimensão cósmica. A poesia não tem existência no real, nasce do real imaginário, da subjetividade do poeta. Paranóia é um poema urbano. Estou na cidade, mas não sou da cidade. Pra mim, toda metrópole é uma necrópole, um vasto cemitério. São Paulo mudou muito por causa da sociedade e da criminalidade de massa. Antes a cidade mantinha um lado rural, hoje os garotos da periferia são pálidos criminalóides. Podem te dar um sorriso ou uma facada. Matam por causa de um tênis. Paranóia foi a forma que encontrei para exorcizar a cidade e todo câncer urbano.

Você acha que seria possível fazer um livro como o Paranóia hoje? Ou a cidade já não permite essa presença na cidade? Ah! Não permite. É uma experiência única. Eu nem ando mais por São Paulo. Costumo viajar para fora da cidade. No fins de semana, eu e alguns amigos pegamos a estrada e vamos para o infinito. Serra da Cantareira, São Roque, Jarinu, Ilha Comprida, esses lugares.

Você tem vontade de se mudar de São Paulo?
Eu gostaria de morar num sítio, mas não tenho grana.

Na década de 60 existiam muitos grupos literários (os concretistas, a poesia engajada). Você nunca se filiou a nenhum deles. Eu sempre fui um franco-atirador. Por não ter me juntado a esse pessoal, à esquerda intelectual, eu fui boicotado durante anos. Porque eu não fazia parte da “tchurma”. O intelecual brasileiro entra em partido político pra lavar chão, pra ser devoto, quando na verdade devia entrar pra criticar, esculhambar.

Durante muito tempo você foi professor, mas sempre foi crítico à Universidade. A educação deveria ser como no Banquete de Platão: conhecer os corpos para depois conhecer as almas. As universidades deviam ser substituídas por terreiros de candomblé.

Você teve uma experiência forte com o xamanismo, não? Eu fui iniciado no xamanismo e nem sabia que aquilo se chamava xamanismo. Foi aos doze anos, na fazenda do meu pai. Um mestiço de negro com índios apontava o fogo e me fazia ver figuras. Ele interpretava as minhas visões. O xamanismo é uma religião de poesia, não de teologia. Assim como no candomblé, a tradição xamânica é oral. Não é escrita, como na religião católica. Hoje, eu não me ligo a nenhuma religião organizada.

Você também tem interesse em UFOs, OVNIs.
Eu nunca vi discos voadores, mas eles existem e são muito importantes para criticarmos a ciência. É importante criticar o racionalismo. O reducionismo cartesiano emperra qualquer visão profunda da realidade.

Você é feliz? Muito. Não sou nem um pouco infeliz. Só é possível ser feliz quando se está nadando contra a corrente de mediocridade. Daí a realidade fica mais alegre, mais profunda, mais dionisíaca. O que me faz feliz é a leitura de um bom livro, o amor, sair de São Paulo para as matas, para as praias, caminhar pelos campos, montanhas.

Mas você é um poeta símbolo de São Paulo.
Ai, que horror!

Qual o lugar do sagrado no mundo de hoje? Isso é subjetivo, depende de cada um. Eu sou, como disse o Garcia Lorca, um pulso ferido que sonda as coisas do outro lado. Temos que profanar o sagrado e sacralizar o profano. Não entendo o sagrado como devoção. O sagrado está na natureza, ele está disperso em tudo, basta sabermos aglutiná-lo. Estamos vivendo a falência das religiões monoteístas: do comunismo, do islamismo, do cristianismo, do judaísmo. É aquela coisa: em toda religião monoteísta o meu Deus é melhor que o seu. No candomblé, por exemplo, não. Todos os orixás se equivalem. Cada um tem a sua função, mas todos se equivalem. Iemanjá não é maior que Xangô. Xangô não é maior que Exu. É uma visão politeísta de mundo.

O pensador francês Michel Maffesoli acredita que a atual relação do homem com o sexo, a violência, as drogas está relacionada a uma espécie de renascimento dionisíaco. Acredito que o homem está mais solitário e hedonista. Porque, hoje, todas essas experiências (sexo, violência, drogas) foram cooptadas pela cultura de massa, pelos jornais, pela televisão. Não querem dizer mais nada.

Você assiste televisão?
Assisto, sim. Gosto de ver o Animal Planet e o Discovery Channel.

Como é o seu processo de criação hoje? Eu nem sei te explicar, não saberia te explicar. Escrevo muito pouco. Nunca reescrevo. Do jeito que veio fica. Não posso perder tempo escrevendo, a vida é maior.

Li que você foi um dos primeiros a tomar LSD em São Paulo, é verdade? Eu não sei, não fiz uma enquete sobre isso (risos). Tomei quando veio até mim, não procurei nem nada. Foi na Cantareira nos anos sessenta. Teve um papel importante na minha poesia. A revolução psicodélica talvez seja a única que tenha algo a dizer ainda hoje.

Você acha que a experiência com drogas é muito diferente hoje daquela que se tinha na década de sessenta? Depende. Tem aquela pessoa que cheira cocaína e mata a família. É o que acontece quando se dá cocaína para a turma do milkshake. Com o índio boliviano não acontece isso. Ele toma chá de folha de coca, e não mata ninguém. Agora, a turma do milkshake tem aquela subjetividade de esquina, de cheeseburguer. Eles cheiram e acabam com a vida do primeiro que aparecer.

Qual a importância da experiência para a literatura? A importância é total. A geração atual é muito protegida, cheia de psicólogos, pedagogos, não pode quebrar a cara nunca. Está cada dia mais sem iniciativa, burrificada. A única doença que pega é a burrice. Tem também os anti-depressivos, que fazem parte de uma conspiração flagrada pelo Wilhelm Reich, quando ele falava da indústria do câncer. Reich mostrou que a cura do câncer é quase impossível porque há uma indústria que lucra com a doença. Ninguém enfrenta impunemente a máfia dos médicos, a máfia de branco. Por isso Reich foi parar na cadeia em 56. Estamos vivendo hoje a industrialização do medo.

Não é interessante que numa sociedade cada vez mais maluca, as pessoas experimentem cada vez menos, tenham uma vida cada vez mais protegida? A metrópole maluca não deveria nos levar a experiências ainda mais malucas? Esse “maluco” não é dionísiaco, mas sim programático e programado. A felicidade é sempre individual, nunca coletiva. Mas é preciso desmarxizar o pensamento pra entender isso. O coletivo não passa de uma grande cruzada para se ganhar dinheiro.

Como é reler coisas que você escreveu há quarenta anos?
Isso que chamam de "história" é meu plano de fuga da civilização de vocês.
.