sexta-feira, 10 de junho de 2016

a coisa mais triste que pode existir

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"'Imagine só, vocês linchando alguém! Eu acho até engraçado. Vocês, achando que iam conseguir linchar um homem! Só porque têm coragem de cobrir de piche e penas as pobres mulheres perdidas que passam por aqui, sem ninguém para defender, acharam que iam ter tutano para botar as mãos num homem? Mesmo nas mãos de dez mil pessoas como vocês, um homem não corre perigo — se for dia claro e vocês não atacarem pelas costas.

Se eu conheço vocês? Conheço bem até demais, de cabo a rabo. Nasci e fui criado no Sul, mas já vivi no Norte; e então eu conheço a média. O homem médio é sempre covarde. No Norte, deixa qualquer um pisar nele, depois volta para casa e vai rezar, pedindo a Deus que lhe dê humildade de espírito para suportar aquilo. No Sul, já vi um sujeito sozinho parar uma diligência cheia de homens, à luz do dia, e roubar um por um. Os jornais daqui vivem dizendo que vocês são um punhado de bravos, e falam tanto que vocês acabaram acreditando que eram mesmo mais corajosos que qualquer um — mas na verdade são iguais a todo mundo, não são mais corajosos que ninguém. Por que é que os júris daqui não mandam enforcar os assassinos? Porque todo mundo fica com medo de levar um tiro pelas costas, dado de noite por algum amigo do criminoso — o tipo de coisa que eles fazem.

E sempre acabam absolvendo o acusado; então vem um homem e sai no meio da noite, com cem covardes mascarados atrás, e acaba linchando o bandido. O erro de vocês foi que não trouxeram homem nenhum; esse foi o primeiro erro, e o segundo foi não ter vindo de noite, e sem trazer as máscaras. Vocês só trouxeram parte de um homem — Buck Harkness, que está ali — e se não fosse por ele para começar alguma coisa, não ia acontecer nada. Na verdade, vocês nem queriam vir. O homem médio não gosta de se meter em problemas, e nem correr perigo. Vocês não gostam de problemas e nem do perigo. Mas basta meio homem — como Buck Harkness, que está ali — gritar Lincha! Lincha! para vocês ficarem com medo de recuar — medo de alguém descobrir como é que vocês são na verdade — um bando de covardes — e aí começam a berrar, se penduram no rabo do paletó do meio-homem e vêm até aqui, no maior tumulto, dizendo que vão fazer muita coisa. A coisa mais triste que pode existir é a multidão [...]. Mas a multidão que não é comandada por um homem é coisa tão triste que nem merece pena. Agora, vocês têm é que enfiar o rabo entre as pernas, voltar para casa e ir arranjar um buraco para se esconder. Se algum linchamento for mesmo acontecer aqui, vai ser no meio da noite, à moda do Sul; e quando vierem vão estar de máscara, e vão arranjar um homem para trazer. Agora, fora daqui — e podem levar esse meio-homem com vocês!' — E ao mesmo tempo, ele apoiou o cano da espingarda no braço esquerdo e engatilhou a arma.

A multidão recuou na mesma hora, depois se desmanchou e cada um saiu correndo para um lado."

As aventuras de Huckleberry Finn, Mark Twain (trad. Sergio Flaksman)
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terça-feira, 3 de maio de 2016

life, friends, is boring

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"Life, friends, is boring. We must not say so.
After all, the sky flashes, the great sea yearns,
we ourselves flash and yearn,
and moreover my mother told me as a boy
(repeatingly) ‘Ever to confess you’re bored
means you have no

Inner Resources.’ I conclude now I have no
inner resources, because I am heavy bored.
Peoples bore me,
literature bores me, especially great literature,
Henry bores me, with his plights & gripes
as bad as achilles,

who loves people and valiant art, which bores me.
And the tranquil hills, & gin, look like a drag
and somehow a dog
has taken itself & its tail considerably away
into mountains or sea or sky, leaving
behind: me, wag."

"Dream song 14", 77 Dream Songs, John Berryman, 1965
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quinta-feira, 28 de abril de 2016

ordem e progresso

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"Todo o sonho da democracia, escreveu Flaubert, é erguer o proletariado ao nível de estupidez alcançado pela burguesia. Essa frase costuma deixar as pessoas nervosas. Mas não é perfeita? Ao longo dos últimos cem anos, o proletariado instruiu-se nas pretensões da burguesia; enquanto a burguesia, menos confiante na própria ascendência, tornou-se mais astuta e ardilosa. Isso é progresso? Analise uma balsa lotada atravessando o Canal da Mancha, se quiser ver uma moderna nau dos tolos. Lá estão todos eles: calculando o lucro no free shop, bebendo no bar de sua preferência, jogando nos caça-níqueis, percorrendo o convés à toa, decidindo até que ponto serão honestos na alfândega, esperando a próxima ordem da tripulação como se dela dependesse a travessia do mar Vermelho. Não critico, meramente observo; e não sei bem o que pensaria caso todo mundo se alinhasse junto à amurada para admirar o jogo de luzes sobre a água e começasse a discutir Boudin. Não sou diferente, aliás: abasteço-me no free shop e espero ordens como todos os demais. O meu argumento simplesmente é: Flaubert tinha razão."

O papagaio de Flaubert, Julian Barnes, 1984
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sábado, 26 de março de 2016

assim é que eles voltam

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"Mas certas coisas, como percebo cada vez mais, têm um jeito especial de retornar, inesperadas e imprevistas, muitas vezes depois de uma longa ausência. Por volta do final de julho de 1986, estive na Suiça por uns dias. Na manhã do dia 23, peguei um trem de Zurique para Lausanne. À medida que o trem, reduzindo a velocidade, atravessava a ponte do Aare rumo a Berna, ergui a vista da cidade para a cadeia de montanhas de Oberland. Como me lembro, ou como talvez agora somente imagine, dr. Selwyn me voltou então à lembrança, depois de muito tempo. Três quartos de hora mais tarde, para não perder a paisagem do lago Genebra, cujo espetáculo não cansa de me admirar toda vez que se abre, eu estava prestes a pôr de lado um jornal de Lausanne comprado em Zurique e apenas folheado, quando meus olhos pousaram numa reportagem que dizia que os restos do corpo do alpinista bernês Johannes Naegeli, dado como desaparecido desde o verão de 1914, haviam sido novamente expostos à luz pela geleira de Oberaar, setenta e dois anos mais tarde. Assim é que eles voltam, os mortos. Às vezes afloram do gelo mais de sete décadas depois e jazem à beira da moraina, um montículo de ossos brunidos e um par de botas com grampos de ferro."

"Dr. Henry Selwyn", W. G. Sebald, 1992
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domingo, 6 de março de 2016

monte fuji

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John Riddy, Shin-Fuji, 2005
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quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

dois inícios com menina e bicicleta

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"Capurro estava em mangas de camisa, apoiado no parapeito da varanda, vendo como o desbotado sol da tarde levava a sombra de sua cabeça até a beira do caminho que, entre plantas, unia a estrada e a praia ao hotel. A garota pedalava no caminho, perdeu-se atrás de um chalé de telhado suíço, logo depois apareceu de novo, mantendo o ritmo compassado dos pedais, o corpo agora ereto no selim, movendo as pernas com fácil lentidão, com tranquila arrogância, as pernas cobertas com meias cinzas, grossas, lanudas, as pernas que mostravam seus joelhos. Freou a bicicleta rente à sombra da cabeça de Capurro e seu pé direito, afastando-se do veículo, apoiou-se para manter o equilíbrio ao pisar no capim raquítico, meio amarelado, e depois sacudiu os cabelos da testa e olhou para o homem imóvel.

Usava um pulôver escuro e uma saia cor-de-rosa. Fitou-o com calma e atenção, como se a mão bronzeada que afastava os cabelos das sobrancelhas bastasse para velar seu prolongado exame, oferecendo o corpo contra a paisagem que se aplacava na tarde, os dentes no cansaço, os cabelos alvoroçados e aquela luz do suor e da fadiga que recolhia o reflexo do anoitecer para cobrir-se e destacar-se feito máscara fosforecente na penumbra. Depois largou a bicicleta na grama e olhou novamente para ele, enquanto suas mãos tocavam a cintura afundando os polegares sob o cós da saia, então desviou o olhar e perfilou a cabeça, sem seios, ainda ofegante, os olhos voltados para o ponto da tarde onde o sol ia se pôr.

De repente, sentou-se na grama, tirou os sapatos e sacudiu-os, segurando um por um os pés nus nas mãos, friccionando-os e mexendo os dedos curtos, deixando ver por sobre os ombros os pés avermelhados, revirando-se no ar fresco. Calçou-se novamente, levantou-se e ficou, por um momento mais, girando o pedal com golpes rápidos do pé, até repetir seu movimento duro e apressado, então virou-se, com uma expressão desafiante, para o homem que a olhava, o rosto recuando na luz escassa, com um desafio de todo seu corpo desdenhoso, fazendo com que dele participassem o brilho niquelado da bicicleta, as formas e os matizes das árvores, como se tudo que a rodeava fosse segregado por ela. Montou novamente e pedalou atrás das hortênsias, atrás dos bancos pintados de azul. [...]"

"A longa história", Juan Carlos Onetti, 1944

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"Ao entardecer fiquei em mangas de camisa, apesar do estorvo do vento, apoiado no parapeito da varanda do hotel, sozinho. A luz levava a sombra de minha cabeça até a beira do caminho de areia que, entre arbustos, une a estrada e a praia ao casario.

A garota apareceu pedalando no caminho para logo se perder atrás do chalé suíço, vazio, que mantinha o cartaz de letras negras em cima da caixa de correspondência. Era-me impossível não olhar para o cartaz ao menos uma vez por dia; apesar de sua face castigada pelas chuvas, pelas sestas e pelo vento do mar, mostrava um brilho perdurável e exibia: Mi descanso.

Um momento depois a garota surgiu novamente sobre a franja arenosa cercada de mato. Tinha o corpo vertical sobre o selim, movia as pernas com fácil lentidão, com tranquila arrogância, as pernas cobertas com meias cinzas, grossas, lanudas, eriçadas por galhinhos de pinheiro-bravo. Os joelhos eram espantosamente redondos, bem-acabados, em relação à idade que o corpo mostrava.

Freou a bicicleta bem rente à sombra da minha cabeça, e seu pé direito, separando-se do veículo, apoiou-se para manter o equilíbrio ao pisar no curto relvado morto, meio castanho, agora na sombra de meu corpo. Depois afastou os cabelos da testa e olhou-me. Usava um pulôver escuro e uma saia cor-de-rosa. Fitou-me com calma e atenção, como se a mão bronzeada que separava os cabelos das sobrancelhas bastasse para esconder seu exame.

Calculei que nos separavam vinte metros e menos de trinta anos. Descansando nos antebraços, sustentei seu olhar, mudei o local do cachimbo entre os dentes, continuei olhando para ela e para a pesada bicicleta, para as cores de seu corpo esguio contra o fundo da paisagem de árvores e ovelhas que esmaecia na tarde.

Repentinamente triste e enlouquecido, olhei o sorriso que a garota oferecia ao cansaço, os cabelos duros e alvoroçados, o delgado nariz curvo que se movia com a respiração, o ângulo infantil em que os olhos tinham sido impostados no rosto -- e que nada tinha a ver com a idade, já estava ali desde sempre e até a morte --, o excessivo espaço que concediam à esclerótica. Olhei aquela luz do suor e da fadiga que recolhia o último resplendor ou o primeiro do anoitecer para cobrir-se e destacar-se feito máscara fosforecente na escuridão próxima.

A garota largou com suavidade a bicicleta sobre os arbustos e olhou-me novamente enquanto suas mãos tocavam a cintura com os polegares afundados no cinto da saia. Não sei se ela usava cinto; naquele verão todas as garotas usavam cintos largos. Depois olhou ao redor. Agora estava de perfil, com as mãos juntas nas costas, sempre sem seios, respirando ainda com curioso cansaço, o rosto voltado para o ponto da tarde onde o sol ia se pôr. Sentou-se bruscamente no gramado, tirou as sandálias e sacudiu-as; segurou um por um os pés nus nas mãos, friccionando os dedos curtos e movendo-os no ar. Por sobre seus ombros estreitos eu a via agitar os pés sujos e avermelhados. Vi-a esticar as pernas, apanhar um pente e um espelho do grande bolso com monograma colocado sobre o ventre da saia. Penteou-se descuidada, quase sem me olhar.

Calçou-se novamente, levantou-se e ficou por um momento girando o pedal com golpes rápidos do pé. Reiterando um movimento duro e apressado, girou em minha direção, ainda sozinho na varanda, sempre imóvel, fitando-a. O perfume das madressilvas começava a subir e a luz do bar estirou manchas pálidas no gramado, nos espaços de areia e no caminho circular para automóveis que rodeava o terraço.

Era como se já nos tivéssemos visto, como se nos conhecêssemos, como se tivéssemos guardado lembranças agradáveis. Olhou-me com uma expressão desafiante enquanto seu rosto ia se perdendo na luz escassa; olhou-me com um desafio de todo seu corpo desdenhoso, do brilho niquelado da bicicleta, da paisagem com chalé de telhados suíço e ligustros e eucaliptos jovens de troncos leitosos. Foi assim por um segundo; tudo o que a rodeava era segregado por ela e por sua atitude absurda. Montou novamente e pedalou por trás das hortênsias, por trás dos bancos vazios pintados de azul, mais rápida entre as filas de carros diante do hotel."

"A face da desgraça", Juan Carlos Onetti, 1960
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terça-feira, 26 de janeiro de 2016

fervo

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No ano passado, estive em White Island, uma ilha-vulcão na Nova Zelândia. Escrevi sobre ela, aqui. As fotos são do Renato Parada.







É o vulcão mais ativo da Nova Zelândia. Fica a cinquenta quilômetros da baía de Whakatane, na porção norte do país – uma cidade tranquila de não mais do que vinte mil habitantes, sendo quase metade de população maori. O capitão do barco que nos levou até lá, um velho lobo do mar chamado David Plews, faz esse trajeto desde seus oito anos. Ele falou que a ilha muda sempre. De quando era criança para cá, está muito diferente.

White Island, calcula-se, vem mudando há 200 mil anos, sua idade aproximada. O primeiro não-nativo a avistá-la foi um daqueles entediados exploradores ingleses (talvez o mais famoso deles), o destemido James Cook, em 1769 – que, vale dizer, não chegou a descer e investigar o local, o que só aconteceu em 1826. Na ocasião, Cook escreveu no diário de bordo de seu navio, o Endeavour: “nós a chamamos de ilha branca porque foi assim que ela apareceu para nós” (em meio à névoa). Em maori, a ilha-vulcão é conhecida como Whakaari, “aquilo que se pode fazer visível”.




O barco fica estacionado à meia distância, e num pequeno bote alcançamos a breve praia de pedras vermelhas que dá acesso ao interior do vulcão. Vapores sobem das rochas e das três grandes crateras, a maior delas com 1,5 quilômetro de diâmetro. Pequenos lagos, córregos de água, paredões – tudo ferve e borbulha, a temperaturas que podem chegar a 600 graus.

Mais adiante, há as ruínas de uma antiga mina de extração de enxofre (o cheiro de enxofre é relevante). Em alguns pontos, o enxofre se cristaliza e ganha uma coloração amarela, luminosa.






A exploração do elemento, usado na fabricação de fertilizantes, pesticidas e pólvora, começou em 1885. Em setembro de 1914, um desmoronamento destruiu a fábrica e matou os dez homens que trabalhavam por lá – o único sobrevivente foi um gato chamado Peter, The Great.

Depois do desastre, a ilha foi abandonada por nove anos até que a produção de enxofre foi retomada em 1923. Com a Grande Depressão, a fábrica foi à falência em 1933. Em 1936, a ilha foi comprada pelo dono atual, um daqueles entediados homens de finanças saxões, George Raymond Buttle (sim, é uma ilha privada), que achou interessante a ideia de “ter seu próprio vulcão”. O governo tentou comprá-la, mas Buttle não vendeu.




Em 1953, White Island se tornou uma reserva. De lá para cá pode ser visitada por gente que não enjoa em viagens de barco e disposta a meditar sobre o início e o final dos tempos + superfícies borbulhantes. Câmeras registram a atividade do vulcão vinte e quatro horas por dia.
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quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

o que acontecerá com as coisas

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Sufjan Stevens, "Death with dignity",
Carrie & Lowell, 2015
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"Vai ser estranho
Saber, enfim, que não podia continuar para sempre
Uma certa voz nos repetindo
Que nada ia mudar,

E, também, se lembrar,
Pois então tudo já vai ter acabado, o jeito
Como as coisas eram, e como desperdiçamos tempo
Como se não tivéssemos nada para fazer,

Quando, de repente
O clima mudou, o ar de superioridade se tornou
insuportavelmente pesado, e o vento incrivelmente estúpido
E nossas cidades viraram cinzas,

E saber, também,
O que nunca suspeitamos, que vivíamos algo como o verão
No seu mês de agosto, só que com noites mais quentes
E as nuvens pareciam brilhar,

E até mesmo nesse momento,
Porque não mudamos muito, nos perguntamos
O que acontecerá com as coisas, e quem restará para repetir
Tudo de novo,

E de certa forma tentamos,
Mas ainda somos incapazes de saber o que foi
Que deu tão errado, ou por que
Estamos morrendo."

Mark Strand, "Quando as férias acabam de vez", 1962
(tradução Antônio Xerxenesky)
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sábado, 12 de dezembro de 2015

consenso, mercado, exceção

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"Por que essa tendência a confundir maioria e consenso com democracia, ainda mais quando se trata de arte? Porque a exceção, que é fundamental nas artes e que por isso mesmo precisa ser defendida a despeito de gostos e tendências, é também o que está ligado ao risco, ao disfuncional, ao erro e ao fracasso. Nada disso combina com discursos politicamente edificantes.

Umas das principais perversões do mundo contemporâneo tem a ver com a confusão entre essas duas visibilidades: 1) a visibilidade (e o direito à existência) do que antes não podia ser visto e 2) a visibilidade autorreplicante do que quanto mais se vê mais é visto.

São duas coisas completamente diferentes e, em certo aspecto, conflitantes. No primeiro caso, está a população que antes era segregada às rodoviárias e hoje tem direito de acesso aos aeroportos e ao transporte aéreo, como qualquer cidadão. No segundo, está o princípio de mercado elevado à enésima potência pelos algoritmos que estruturam a lógica da internet: quanto mais uma coisa é vista, mais ela será visível. Ou seja, você tende a ver somente o que todo mundo vê, embora a rigor tenha acesso a tudo.

Pela lógica tautológica da internet, o que ninguém acessa torna-se cada vez mais inacessível, embora esteja, em princípio, disponível. É fácil entender como as exceções são banidas desse mundo da visibilidade total para um limbo de invisibilidade que equivale ao desaparecimento e à inexistência. E nesse sentido, associar a exceção na arte a elitismo e a antidemocracia não ajuda nem democratiza coisa nenhuma."

"Visibilidade", Bernardo Carvalho
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