quinta-feira, 30 de maio de 2013

um relato sobre o diário escrito quando eu tinha nove anos durante seis meses em 1992

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Texto para o blog da Companhia das Letras:

Quando tinha nove anos, durante seis meses, mantive um diário. Escrevia todos os dias. É uma agendinha velha, preta e com adesivos de marcas de surfwear na capa (Hang Loose, Sea Club e Ocean Pacific). Cada entrada possuía doze linhas, que eu preenchia inteiramente, o que pensando agora devia fazer apenas para não deixar espaço vazio.


O caderninho ficava na casa dos meus pais, num armário abarrotado de pastas. Nunca dei muita bola para ele, até ler aquele que se tornaria o meu conto favorito da Lydia Davis.

Em 2009, a Farrar, Straus & Giroux publicou uma edição com os contos reunidos da autora norte-americana, um volume de capa salmão, 733 páginas e 197 histórias. O conto chama-se “We Miss You: A Study of Get-Well Letters from a Class of Fourth-Graders” (“Saudades: um estudo de cartas escritas por alunos de uma classe do quarto ano primário desejando melhoras a um colega”, que integra Tipos de perturbação, primeiro livro da autora publicado no Brasil, com tradução da destemida Branca Vianna). 

O relato é exatamente o que diz o título: uma dissecação linguística e sociológica de vinte e sete cartas que alunos de uma classe do quarto ano escreveram para um coleguinha, Stephen, enquanto este se recuperava no hospital. Em dezembro de 1950, Stephen teve uma grave osteomielite (espécie de inflamação óssea, causada por uma bactéria) e foi internado. Após as férias de fim de ano, as aulas recomeçaram e a professora pediu, como tarefa de classe, que cada um dos alunos lhe escrevessem uma carta. 

Como em praticamente todos os contos de Tchekhov, a tensão aqui não está dirigida para o desfecho. Logo no início, o narrador de Lydia diz, sem alarde: “Após algumas semanas de muita preocupação por parte de médicos, família e amigos, Stephen se recuperou, graças em parte a [...]”. Já sabemos, portanto, que nada de pior vai acontecer, que Stephen saiu dessa, que não precisamos passar a história tensos torcendo pela sua melhora. 

A linguagem do conto é clara, direta, o que contribui para o efeito maravilhoso de relatório. No mais, nada acontece — ou pelo menos não aparentemente. O narrador descreve a escola (um edifício grande, de tijolinhos, com salas de aula bem iluminadas), fala sobre a aparência geral das cartas (a maioria das crianças usa papel tipo carta, apenas quatro optam pelo tamanho ofício), analisa a caligrafia dos alunos (a letra cursiva “é consistente, toca na linha inferior e tem espaçamento regular”) e a extensão dos textos (“variam de três a oito linhas e de duas a oito frases”). 

Seus comentários abrangem estilo, coerência, uso de verbos, conjunções e metáforas, além de categorizar tipos de saudações e expressões de simpatia — “volte logo/ queria que você estivesse aqui” aparece dezessete vezes. 


À medida que as cartas vão sendo esmiuçadas, detalhes do cotidiano das crianças, de sua personalidade, seu estado de espírito e a relação delas com Stephen são revelados. 

Algumas crianças falam do clima e de seus animais de estimação, outras relatam brincadeiras na neve e o que ganharam de presente no Natal. Cynthia, por exemplo, escreve: “Fui brincar de trenó uma vez e foi divertido. Fiz bonecos de neve mas eles caíram todos”. Joseph abre seu texto com uma expressão de empatia generosa: “Sei como você se sente”. E completa, de maneira 100% lógica e causal: “Vou ganhar um casaco novo com capuz”. 

Através desses fragmentos (e suas elipses), Lydia Davis apresenta essa pequena comunidade de crianças de nove anos, confrontada com a morte, a possibilidade da perda e o tédio. Ao terminar a leitura, a pergunta parece ser: quem é o narrador do conto? Por que ele está analisando essas cartas? É alguém que em posse de cartas antigas tenta descobrir ou lembrar algo de sua infância ou de algum irmão ou amigo? Não há nenhuma evidência de que o narrador seja homem ou mulher, mas talvez pelo fato da autora ser mulher, leio sempre como se fosse uma narradora. 


Há uma frase de Tchekhov que poderia se passar por uma frase de Lydia: “mandem-me que escreva sobre esta garrafa, e sairá um conto intitulado ‘Uma garrafa’”. É nas coisas e episódios pequenos, triviais e aparentemente sem importância que recai o interesse da autora, que na semana passada ganhou o prestigioso Man Booker Prize — o que podemos entender como a vitória cabal das garrafas, dos diários escritos aos nove anos, das cartas dos amigos de Stephen, das histórias sem desfecho nem fábula e, sobretudo, de uma outra frase de Tchekhov (que poderia se passar por uma frase de Lydia): “nada de pensamento: as imagens vivas e verdadeiras criam pensamentos, e um pensamento jamais criará uma imagem”.

Quando li “Saudades: um estudo de cartas escritas por alunos de uma classe do quarto ano primário desejando melhoras a um colega”, pensei que o conto talvez tivesse me ensinado a ler o meu diariozinho — prestando atenção nas lacunas, no que não está lá. Por que meu amigo voltou chorando da diretoria? Por que não gostei das pinturas? Em que praia estávamos? 

Num levantamento rápido, praticamente todas as entradas começam com “Hoje acordei/ Levantei/ Tomei café” e terminam com “vi televisão e fui dormir/ tomei banho, jantei e dormi”. As ações mais recorrentes são: jogar videogame, nadar, ver filmes, jogar bola e gravar programas de tevê. A conjunção mais comum é a inexpressiva aditiva “e”. Quase não há vírgulas nem pontos. Há, todavia, momentos de superação, como em 15 de janeiro: “hoje levantei notei que meu dente estava mole mas não liguei”.

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domingo, 19 de maio de 2013

ausência/presença

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"O preto da letra impressa não é preto em si, mas torna-se preto por estar emparelhado com o branco do papel. O círculo vermelho da bandeira japonesa fica brilhante como o sol não pelo vermelho do círculo, mas por ter o fundo branco. A ausência, justamente por almejar a presença, pode às vezes fazer com que se sinta mais forte a falta da presença do que a própria presença. O branco, por se sujar com facilidade e por ser difícil de manter limpo, torna sua beleza mais marcante; faz nascer o sentimento de tristeza por saber que essa beleza é efêmera, o que a torna ainda mais impressionante."

Kenya Hara, White, 2011
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segunda-feira, 6 de maio de 2013

campo em branco

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Lançamento no início de junho.

A capa gênia é da Elisa.
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quinta-feira, 2 de maio de 2013

uma dança

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Frantic, Roman Polanski, 1988
("I've seen that face before", Grace Jones, 1981)
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quarta-feira, 10 de abril de 2013

buraco negro da memória coletiva

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Sobre as Fabiolas de Francis Alÿs (texto para a edição desse mês da Bravo!):

No fim dos anos 80, quando abandonou a arquitetura, o artista belga Francis Alÿs entendeu que não deveria acrescentar mais nada às cidades, “apenas absorver o que já se encontrava nelas”. Trabalhar com o que chamou de “resíduos, vãos, espaços negativos”. Em 1992, vagando pelo mercado de pulgas de Bruxelas, esbarrou em um desses “resíduos”: o retrato de uma jovem, de perfil, com um véu vermelho, o olhar perdido.

Alÿs levou o quadro para casa. Sem dar muita importância, acabou reciclando-o, usando a tela como suporte para uma de suas pinturas. Meses depois, em outra feira de rua, um dejà-vu: a mesma figura, a jovem, de perfil, com um véu vermelho, o mesmo olhar. Havia ali, entretanto, algumas diferenças: um nariz adunco, a boca pintada, um queixo sobressalente. Decidiu ficar com ela — a imagem passou a decorar sua cozinha — e de tanto observá-la, Francis quis saber de quem afinal era aquele rosto. Descobriu que se tratava da reprodução de um retrato pintado em 1885 pelo francês Jean-Jacques Henner (1829-1905). A mulher chamava-se Fabiola. Tinha vivido em Roma no século IV e, após um divórcio e a morte de seu segundo marido, renunciara à “vida de pecados” para se dedicar à filantropia e à fé cristã. Canonizada em 547, tornou-se padroeira dos viúvos, divorciados e dos casamentos infelizes.

De lá para cá, Alÿs virou um caçador de Fabiolas. Já são 426 retratos, de todas as épocas, garimpados por todo o mundo, a maioria feita por anônimos, artesãos, pintores de fim de semana. Há de tudo: quadros, miniaturas, bordados, composições feitas com arroz, feijão, sementes. “Fabiola estava dormindo silenciosamente no esquecimento quando tentei trazê-la de volta à vida”, sorri Alÿs. “Meu papel foi o de revelar o fenômeno discreto de sua reprodução espontânea ao longo de décadas, manifestar sua condição de ícone, embora ignorado pelo establishment.”

Mais do que um projeto artístico, Francis considera Fabiola uma investigação. “Trata-se de uma questão aberta sobre o que é a arte contemporânea”, reflete. A mostra, que chega este mês à Pinacoteca de São Paulo, já passou pela National Portrait Gallery, em Londres, pelo Hispanic Society of America, em Nova York, pelo Haus Zum Kirschgarten, em Basel, entre outros museus. “Todos, tradicionalmente, dedicados à arte clássica, histórica”, destaca Francis. “Assim, as cópias são exibidas em um circuito que valoriza a autoria, em que o retrato original poderia estar.” Só não está, vale dizer, pois o quadro original sumiu ainda no século dezenove. “É uma imagem praticamente desconhecida, que sobreviveu graças a essas reproduções.”

Como uma Marylin de Andy Warhol às avessas, a Fabiola de Alÿs é o contrário de um retrato impessoal, produto da cultura de massa. “À primeira vista, a coleção parece uma série”, comenta. “Mas se chegamos mais perto, se passamos um tempo maior na companhia dessas imagens, o caráter artesanal se impõe. As diferenças começam a surgir e aumentam à medida que continuamos a observá-las.” Alÿs acredita que a coleção põe em cena uma estética “livre de ambições artísticas ou comerciais”. “O que se vê é a tentativa de se apropriar de uma imagem”, diz. “As obras compartilham aspectos idênticos mas são únicas. Acredito que cada autor tenha projetado nelas sua ideia muito pessoal de mulher, que poderia ser uma mãe, irmã, amante.”

Fabiola foi ganhando corpo a partir das andanças de Alÿs por feiras, antiquários e mercados de pulgas (“buracos negros da memória coletiva”). A ideia de caminhar, andar pela cidade, sobretudo pelas ruas da Cidade do México, onde Francis mora desde 1989, ocupa lugar central em seu processo artístico — vide obras como The Leak, Duett e Paradox of Praxis I. “Andar a pé, em particular à deriva, sem destino — ainda mais se pensarmos na cultura da velocidade do nosso tempo — é um tipo de resistência”, defende Alÿs. “É também um ótimo método para descobrir e criar histórias. É preciso estar alerta ao que acontece ao redor e, ao mesmo tempo, imerso nos próprios pensamentos.” Como resultado dessas jornadas, a obsessão por uma jovem, com um véu vermelho, o olhar perdido. Segui-la, catalogar seus disfarces. Pode-se dizer que nos últimos vinte anos Alÿs vem escrevendo secretamente a biografia de uma imagem — e ainda não terminou: há lacunas, capítulos pela frente. Pergunto: dentre todas, qual a sua Fabiola favorita? Francis sorri. “Vou te dar uma resposta típica de um pastor de ovelhas: todas e nenhuma.”
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sábado, 23 de março de 2013

negritas

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Devendra Banhart, "Mi negrita", Mala, 2013

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"En un lejano país existió hace muchos
años una oveja negra.

Fue fusilada.

Un siglo después, el rebaño arrepentido
le levantó una estatua ecuestre que
quedó muy bien en el parque.

Así, en lo sucesivo, cada vez que
aparecían ovejas negras eran
rápidamente pasadas por las armas
para que las futuras generaciones de
ovejas comunes y corrientes pudieran
ejercitarse también en la escultura."

Augusto Monterroso, "La oveja negra", 1969
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terça-feira, 12 de março de 2013

rápido demais na moldura da janela

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"HÁ AQUILO QUE FICA FIRME (UM POSTE)
e não comove e há o que se mexe (uma árvore)
e faz barulho e chega a parecer um polvo com tentáculos
tentando agarrar as nuvens, ao contrário
das montanhas muito firmes
e sérias e certas de onde estão
mas há também o que se movimenta
rápido demais na moldura da janela: um pássaro
sempre pode ser uma andorinha ou uma águia
e um avião nunca sabemos
de onde parte para onde segue"

Alice Sant'Anna, Rabo de baleia, 2013
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sexta-feira, 1 de março de 2013

mergulho esportivo em navio naufragado

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Texto meu na nova edição da serrote, que chega às livrarias esta semana:

“Mova-se com cuidado para não levantar sedimento” é um dos mandamentos do mergulho esportivo em navios nau­fragados. Se um dos pés de pato, parte da roupa que nos torna uma espécie lenta e monstruosa de peixe, esbarra em qualquer superfície do barco, a matéria orgânica des­perta e a água fica turva.

O mesmo acontece no mergulho em cavernas. A visibi­lidade pode chegar a níveis muito baixos. Por isso, é pre­ciso usar cordas, cabos e estar preparado para sair às cegas. No mar de Coral, na Austrália, acontece o oposto: é um dos locais mais transparentes do ambiente água. Quarenta metros de visibilidade e a ilusão de que chegamos a respos­tas satisfatórias, temos domínio sobre a nossa condição.

“Esbjerg, na costa”, de Juan Carlos Onetti, é uma história sobre a opacidade. De saída, o narrador nos coloca dentro de uma situação: um casal, Kirsten e Montes, caminha pelo cais, observando a partida dos barcos. O narrador fica sabendo da his­tória que vai nos contar “sem entendê-la direito” numa manhã em que um dos personagens, Montes, vai ao seu escritório e, humilhado, confessa que o roubou. Montes, “um coitado, um amigo sujo, um canalha”, diz que escondera dele uma série de apostas para bancá-las por conta própria, e que agora não podia pagar o que perdeu. Fez isso para conseguir dinheiro para uma viagem, a da mulher, Kirsten, a seu país natal: a Dinamarca.

Mas o plano não dá certo. “Acho que Montes me contou a história, ou quase toda, no primeiro dia, quando veio me ver, com o rabo entre as pernas, a cara verde e um brilho de suor gelado, nojento, na testa e nos flancos do nariz.” Mais que sinalizar a não confiabilidade do narrador – “fiquei sabendo da história, sem entendê-la direito”; “acho que Montes me contou a história, ou quase toda” –, Onetti vai fazer da opacidade (de tudo-aquilo-que-não-se-pode-ver-ou­-entender) o tema secreto do conto.

Esbjerg é uma cidade portuária, na Dinamarca. Apresenta-se como um lugar obscuro, enigmático. Kirsten, a mulher de Montes, vive triste e não diz por quê. Enche a casa de fotografias da Dinamarca, paisa­gens com vacas, montanhas. Depois, come­çam a chegar cartas daquele país. Montes não entende uma palavra do que está escrito nelas, e Kirsten diz que “havia escrito para uns parentes distantes e que agora as respos­tas estavam chegando, embora as notícias não fossem muito boas”. Há uma frase – em dinamarquês – que Kirsten repete, e isso é o que mais impres­siona Montes. Ele não entende (nós tam­bém não), mas é contagiado pela vontade de chorar que brota da voz de Kirsten. “Deve ser, acho, porque a frase que ele não conseguia entender era a coisa mais distante, mais estrangeira, aquilo que vinha da parte des­conhecida dela”, especula o narrador.

Depois que o plano de Montes naufraga, Kirsten passa a sair sem dar explicações. Sai o tempo todo, sem dizer nada. Um dia, Mon­tes a segue. O destino de Kirsten é o porto – onde fica por muitas horas, rígida, olhando fixamente na direção da água. O relato termina com Kirsten e Montes, lado a lado, observando as partidas dos navios, “cada um pensando em coisas bem diferentes e ocultas”: uma sen­sação – e aqui a frase se afasta do narrador, e ouvimos puro Onetti – de que “estamos sozinhos, sempre um assombro quando paramos para pensar”. Ao final, a impressão é a de que também não podemos conhecer o homem que narra, e de que a história do casal serve como uma cortina de água suja entre nós e o narrador.

O que Onetti parece dizer é: não podemos ver. Nenhuma proximidade nos permitirá decifrar além da incerteza os pensamentos do outro. Não é possível chegar a respostas satisfatórias.

Em física, opacidade é o conceito mais usado para calcular quão determinado meio é penetrável/impenetrável a uma onda (ele­tromagnética ou não). A luz, por exemplo. Um meio opaco não deixa a luz ser transmi­tida integralmente; ele a absorve, refrata ou reflete. Como consequência, a intensidade do feixe de luz decai e não alcança integralmente “o outro lado”. 

De outro lado, contemporâneo de Onetti, Michel Leiris acreditava que a atividade literária “não pode ter outra justificação a não ser ilumi­nar certas coisas para si próprio ao mesmo tempo que elas se tornam comunicáveis para outrem”. Em “Da literatura como tauroma­quia”, espécie de introdução a seu projeto confessional, Leiris escreve: “Pretendia eluci­dar certas coisas ainda obscuras para as quais a psicanálise, sem torná-las inteiramente cla­ras, havia despertado minha atenção quando a experimentei como paciente”. Expressões como “iluminar”, “comunicar”, “elucidar” e “tornar claro” dão uma ideia de como a Onda Eletromagnética Leiris interage com o meio A Linguagem de Michel Leiris (clara, sem ênfase, pretensamente não literária).

Se Leiris quer "elucidar", na interação da Onda Onetti com A Lin­guagem de Juan Carlos Onetti (turva, descontínua, não linear), o efeito é outro, oposto: a busca por respostas e esclarecimento parece conduzir os personagens (e nos conduzir) a uma escuridão ainda maior – Faulkner, irmão mais velho de Onetti, dizia que a pequena chama acesa no meio da noite escura não serve senão para que percebamos a magnitude da escuridão ao nosso redor.

(Aqui, podemos pensar no nosso mundo, um mundo de naufrágios e sonhos mortos, onde a visibilidade, na maior parte do tempo e para a maioria de nós, é violentamente baixa. Como dar forma a esse mundo? Quanto podemos conhecer de alguém e de nós mesmos? Como mergulhar na água turva, cada dia mais saturada, e comunicar esse estado?)

Importante notar que a opacidade não é uma característica absoluta; ou seja, meios opacos para determinadas frequências de ondas podem ser translúcidos para outras frequências. Num exemplo simples: há vidros que são transparentes para ondas normais de luz (você consegue enxergar através deles), mas absolutamente opacos para ondas ultravioletas (que torram nossa pele na Bahia ou no mar de Coral australiano). Como regra geral, isso tem a ver com a interação entre a frequência do meio e a frequência da onda que está tentando atravessá-lo. A depender do grau de sintonia entre essas frequências, a onda consegue passar ou é barrada.

Um dos lemas da Onda Leiris é: “rejei­tar a fabulação” e só admitir como material “fatos verídicos, e não apenas fatos verossímeis como na narrativa clássica”. Leiris desejava colocar em movimento um realismo “não fingido como geralmente nos romances”, mas feito de “coisas vividas e apresentadas sem o menor disfarce”. De certo ângulo, isso parece conectado ao nosso tempo. Podemos pensar em autoficção, tramas que aproveitam fatos reais e biográficos como um valor em si, o inte­resse pela vida privada, diários devassa­dos e expostos publicamente, narrativa confessional, nossa vida diligentemente psicanalisada (a épica da subjetividade), a pressuposição de que há correspondência entre nossa percepção do mundo (“nossas verdades”) e o mundo em si, a vontade de "tornar claro", ver como as coisas são "de fato"; a crença numa ilusão de transparência – no campo de atualização de status do Facebook, somos convocados a compartilhar: “No que você está pensando?”.

Se são muitos os caminhos que nos levam à encenação da transparência (à diluição do gesto autobiográfico de Leiris), Onetti é uma espécie de mestre zen da opacidade – sua figura reforça isso: sempre na cama, deitado, fumando, escrevendo em pequenos pedaços de papel, com os lençóis cheirando a gim de má qualidade. No entanto, a entrada nesse mundo de água turva não se dá por meio do fantástico ou do mágico, como em parte de seus contemporâneos latino-americanos. Os contos mais inesquecíveis (e dolorosos) de Onetti – “Um sonho realizado”, “O inferno tão temido” e “A face da desgraça”, além de “Esbjerg, na costa” – são narrativas realistas, que dialogam de maneira sofisticada com o modernismo (mas sem deixar-se escra­vizar). Há na Frequência Onetti, na sua inte­ração com a Linguagem Onetti, um jogo de afirmação e negação do real – uma corrente subterrânea que parece conectá-lo a Bolaño (e a Borges). Isso se dá principalmente porque dentro das histórias há sempre alguém que: conta, imagina, inventa, recorda. Ou seja, os mecanismos da memória, da invenção involuntária, da ignorância parcial e da desfiguração do tempo são parte do que se narra.

Quando lemos (a vida, os livros), o que buscamos é que as coisas se esclareçam. Queremos que o feixe de luz alcance o outro lado. Queremos "ver e entender" – o que nos dá uma sensação inequívoca de con­forto e felicidade. É isso que nos faz avan­çar num romance, por exemplo: a busca por um motivo, uma lógica, um propósito. A vida, de forma geral, também funciona assim. Todavia, é inevitável (e tão certo quanto a morte), há coisas que não podemos ver. Há pontos cegos, ris­cos, distorções.

Como no mergulho em navios naufra­gados, tudo acontece entre a opacidade e a transparência. Podemos contrapor essas duas categorias para fins práticos e esté­ticos, mas a verdade é que uma coisa não existe contra a outra. À nossa revelia, elas convivem, o tempo todo. Por isso, pode parecer paradoxal, mas Onetti, apesar de sua eventual não linearidade, da temporalidade turva de suas histórias – ou talvez justamente por isso –, é um escritor trans­parente. É transparente em sua tentativa de encenar a opacidade. Nele, conseguimos enxergar que não podemos enxergar.
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domingo, 17 de fevereiro de 2013

acertem seus relógios

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Chromatics, Kill for love, 2012
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