terça-feira, 31 de maio de 2011

uma despedida

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"Heinrich e Shilinski se foram. Um aperto de mão e um adeus. Partiram. É bem provável que eu nunca mais os veja. Como são breves as despedidas. Quer-se dizer alguma coisa, mas, bem na hora, se esquece o apropriado a dizer e não se diz nada, ou se diz alguma idiotice. Despedir-se é horroroso, para quem parte e para quem fica. Momentos assim sacodem a vida humana, e sentimos vividamente o nada que somos. Despedidas rápidas são desconsideradas; despedidas longas, insuportáveis. Que fazer?"

Robert Walser, Jakob Von Gunten (tradução Sergio Tellaroli)
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segunda-feira, 16 de maio de 2011

niagara / mississippi

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Alec Soth, Niagara, 2005 ("Falls 8" e "Heart")

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Alec Soth, Sleeping by the Mississippi, 2002 ("Helena" e "New Orleans")
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domingo, 3 de abril de 2011

I don't like to look at myself

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Werner Herzog, em entrevista na GQ:

WH: I don't like to look at myself.

GQ: Why?

WH: I've always been suspicious. I don't even look into my face. I shaved this morning, and I look at my cheeks so that I don't cut myself, but I don't even want to know the color of my eyes. I think psychology and self-reflection is one of the major catastrophes of the twentieth century. A major, major mistake. And it's only one of the mistakes of the twentieth century, which makes me think that the twentieth century in its entirety was a mistake.

GQ: What's the mistake with psychology and self-reflection?

WH: There's something profoundly wrong—as wrong as the Spanish Inquisition was. The Spanish Inquisition had one goal, to eradicate all traces of Muslim faith on the soil of Spain, and hence you had to confess and proclaim the innermost deepest nature of your faith to the commission. And almost as a parallel event, explaining and scrutinizing the human soul, into all its niches and crooks and abysses and dark corners, is not doing good to humans. We have to have our dark corners and the unexplained.

We will become uninhabitable in a way an apartment will become uninhabitable if you illuminate every single dark corner and under the table and wherever—you cannot live in a house like this anymore. And you cannot live with a person anymore—let's say in a marriage or a deep friendship—if everything is illuminated, explained, and put out on the table. There is something profoundly wrong. It's a mistake. It's a fundamentally wrong approach toward human beings.

GQ: And so if humans persist in this way...?

WH: They persist in stupidity, then.

GQ: And what will the consequence be?

WH: For example, for me, I could never ever be with a woman who is three times a week with a psychiatrist. It's like an iron curtain between us.

Like venetian blinds rattling down.
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segunda-feira, 28 de março de 2011

emilia e julio, julia e emilio

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Traduzi um trecho do Bonsái, de Alejandro Zambra. E, traduzida pelo Paulo Werneck, uma das entradas dos diários do Ricardo Piglia.
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"A primeira mentira que Julio contou a Emilia foi que tinha lido Marcel Proust. Não costumava mentir sobre suas leituras, mas naquela segunda noite, quando os dois sabiam que alguma coisa estava começando entre eles, e que essa coisa, durasse o que durasse, ia ser importante, naquela noite Julio impostou a voz e fingiu intimidade, e disse que sim, que tinha lido Proust, aos dezessete anos, num verão, em Quintero. Naquela época ninguém mais passava as férias em Quintero, nem sequer os pais de Julio, que tinham se conhecido na praia de El Durazno, iam a Quintero, um bonito balneário mas agora invadido pelo lúmpen, onde Julio, aos dezessete, conseguiu a casa de seus avós para se trancar e ler Em busca do tempo perdido. Era mentira, claro: ele tinha ido a Quintero naquele verão, e tinha lido muito, mas Jack Kerouac, Heinrich Böll, Vladimir Nabokov, Truman Capote e Enrique Lihn, não Marcel Proust.

Naquela mesma noite, Emilia mentiu a Julio pela primeira vez, e a mentira foi, também, que tinha lido Marcel Proust. No começo, ela se limitou a concordar: Eu também li Proust. Mas logo houve um grande silêncio, que não era um silêncio incômodo, mas apreensivo, de maneira que precisou completar a história: Foi no ano passado, não faz muito tempo, levei uns cinco meses, andava atarefada, você sabe, com os trabalhos da faculdade. Mas me propus a ler os sete tomos e a verdade é que esses foram os meses mais importantes da minha vida de leitora.

Usou essa expressão: minha vida de leitora, disse que aqueles haviam sido, sem dúvida, os meses mais importantes da sua vida de leitora.

Em todo caso, na história de Emilia e Julio há mais omissões que mentiras, e menos omissões que verdades, dessas verdades que são chamadas de absolutas e que costumam ser incômodas. Com o tempo, que não foi muito mas o bastante, trocaram confidências sobre seus desejos e aspirações mais íntimos, seus sentimentos desmedidos, suas breves e exageradas vidas. Julio confiou a Emilia assuntos que só o psicólogo de Julio saberia, e Emilia, por sua vez, converteu Julio numa espécie de cúmplice retroativo de cada uma das decisões que havia tomado ao longo da vida. Aquela vez, por exemplo, quando decidiu que odiava sua mãe, aos catorze anos: Julio a escutou atentamente e opinou que sim, que Emilia, aos catorze anos, estava certa, que não havia outra decisão possível, que ele teria feito o mesmo e, claro, se então, aos catorze, eles já estivessem juntos, ele com certeza a teria apoiado.

A relação de Emilia e Julio foi cheia de verdades, de revelações íntimas que rapidamente estabeleceram uma cumplicidade que eles quiseram entender como definitiva. Esta é, então, uma história leve que se torna pesada. Esta é a história de dois estudantes devotados à verdade, a dizer frases que parecem verdadeiras, a fumar cigarros eternos, e a se fechar na violenta complacência dos que se creem melhores, mais puros que o resto, que esse grupo imenso e desprezível que chamam de o resto.

Rapidamente aprenderam a ler os mesmos livros, a pensar parecido e a disfarçar as diferenças. Logo moldaram uma vaidosa intimidade. Ao menos naquela época, Julio e Emilia conseguiram se fundir numa espécie de vulto. Em resumo, foram felizes. Disso não resta dúvida."

(Bonsái, Alejandro Zambra, 2006)
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"Foi ao vernissage de uma exposição de León Ferrari no Filo e, quando estava de saída, encontrou Miguel, amigo da vida inteira, e com ele ficou. Começaram a beber em diferentes bares e, primeiro Julia, depois a menina que estava com Miguel, os deixaram sós. Os dois eram -- ou foram -- bons escritores, mas pararam de publicar, e as lembranças da juventude ajudavam a seguir adiante.

Mal-entendidos, piadas sangrentas, referências equívocas. Conversas errantes, difíceis de transmitir: torcidas pela dupla temporalidade da ironia, por sua captação diferida. Acabaram ao amanhecer num dos únicos bares abertos, atrás do cemitério da Recoleta, e despediram-se como se nunca mais fossem se encontrar.

Emilio voltou a seu apartamento, Julia não estava lá, tinha ficado farta daquelas histórias de bêbados. Sentia-se enjoado, insone; buscou uma garrafa de água na geladeira; depois desceu para comprar cigarros e, quando atravessava a rua Ayacucho na direção da avenida Santa Fe, viu a igreja.

Fazia quantos anos que não entrava numa igreja? A quietude, as mulheres sentadas nos bancos de madeira, a pia de água benta, um sacerdote atrás das cortininhas do claustro, palavras em latim, murmúrios. Então vai até o confessionário, ajoelha-se.

O conto termina aí? Ou inclui o que diz ao se confessar?"

("Notas em um diário", Ricardo Piglia)
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sexta-feira, 18 de março de 2011

sobre a água

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"O que na água Bloom, amante da água, tirador de água, portador da água, voltando ao fogão, admirava? Sua universalidade: sua uniformidade democrática e constância em sua natureza em procurar o próprio nível: sua vastidão no oceano da projeção de Mercator: sua imensurável profundidade na fossa de Sunda excedendo 8000 braças: a inquietação de suas ondas e partículas superficiais percorrendo em turnos todos os pontos da costa: a independência de suas unidades: a variabilidade das condições marinhas: sua imobilidade hidrostática na calmaria: sua turgidez hidrocinética nas marés baixa e de primavera: sua subsidência depois da devastação: sua esterilidade nas calotas circumpolares, ártica e antártica: sua importância climática e comercial: sua preponderância de 3:1 sobre a terra seca: sua hegemonia indisputável estendendo-se em léguas quadradas por toda a região abaixo do trópico subequatorial de Capricórnio: a estabilidade multisecular de sua bacia primordial: seu leito marrom-alaranjado: sua capacidade de dissolver e manter em solução todas as substâncias solúveis incluindo milhões de toneladas dos metais mais preciosos: sua lenta erosão de penínsulas e ilhas, sua persistente formação de ilhas e penínsulas homotéticas e promontórios em declive: seus depósitos aluviais: seu peso e volume e densidade: sua imperturbabilidade em lagunas e lagoas dos planaltos: sua gradação de cores nas zonas áridas e temperadas e frias: suas ramificações veiculares em correntes continentais riocontidas e rios afluentes a derramar no oceano com seus tributários e correntes transoceânicas, correntedogolfo, cursos norte e sul e equatorial: sua violência em maremotos, trombas-d’água, poços artesianos, erupções, torrentes, turbilhões, enchentes, ressacas, divisores d’águas, bifurcações de água, gêiseres, cataratas, redemoinhos [...]"

Trecho do Ulysses, traduzido pelo André Conti, aqui.
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sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

precursor velado

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Documentário de Ricardo Piglia e Andrés Di Tella sobre Macedonio Fernández, autor do sensacional Museu do Romance da Eterna, que editei e acaba de sair pela casa editorial cossaca.


Além do Museu apontar muitos caminhos que a ficção portenha tomaria no século vinte, Macedonio, ele mesmo, nossa, valha-me Deus. Começou a escrever o Museu (sua obra mais importante) em 1904 e morreu em 1952 sem ter colocado ponto final no livro, que não considerava acabado e só foi ganhar edição em 1967. Além da caligrafia a la Walser, Macedonio escrevia em qualquer folha solta ou pedaço de papel que visse pela frente -- e tudo se espalhava por bolsos, potes e gavetas. Foi promotor e advogado. Só andava de poncho e em 1927, saiu candidato à presidência da Argentina, porque dizia que era mais fácil ser presidente da Argentina do que abrir um bar, já que muita gente queria abrir um bar e poucos queriam ser presidente.

Conhecemos Macedonio através de Borges, que talvez tenha no autor do Museu seu principal precursor. Mas, como tudo o que respira e se move em torno de Borges, Macedonio também ficou à sombra. Numa passagem do diário de Bioy Casares, a dupla Borges/Bioy, cujo drinque predileto era o líquido negro da maledicência, comenta que nem o próprio Macedonio entendia os livros que escrevia. Piglia, autor de A cidade ausente e do dicionário macedoniano, diz que não era bem assim e que, na verdade, é só a partir de Macedonio que se torna possível escrever romances na Argentina.

O documentário é um pouco solene (coisa que Macedonio, o malucão primordial das letras portenhas, não aprovaria), mas serve para entender melhor esse autor estranho e único, praticamente desconhecido por acá.
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segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

e talvez por isso se conte tanto

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"Contar deforma, contar os fatos deforma os fatos e os tergiversa e quase os nega, tudo o que se conta passa a ser irreal e aproximado embora seja verídico, a verdade não depende de que as coisas tenham sido ou acontecido, mas de que permaneçam ocultas e sejam desconhecidas e não contadas, enquanto se relatam ou se manifestam ou se mostram, mesmo que seja no que parece mais real, na televisão ou no jornal, no que se chama realidade ou vida ou vida real até, passam a fazer parte da analogia e do símbolo, já não são fatos, mas se transformam em reconhecimento. A verdade nunca resplandece, como diz a fórmula, porque a única verdade é a que não se conhece nem se transmite, a que não se traduz em palavras nem em imagens, a encoberta e não averiguada, e talvez por isso se conte tanto ou se conte tudo, para que nunca tenha ocorrido nada, uma vez que se conta."

Javier Marías, Coração tão branco, 1991
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terça-feira, 25 de janeiro de 2011

dia de sol

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Francesca Woodman, Untitled 1975-80
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"The sun, from the human point of view (in other words, as it is confused with the notion of noon) is the most elevated conception. It is also the most abstract object, since it is impossible to look at it fixedly at that time of day. If we describe the notion of the sun in the mind of one whose weak eyes compel him to emasculate it, that sun must be said to have the poetic meaning of mathematical serenity and spiritual elevation. If on the other hand one obstinately focuses on it, a certain madness is implied, and the notion changes meaning because it is no longer production that appears in light, but refuse or combustion, adequately expressed by the horror emanating from a brillint arc lamp. In practice the scrutinized sun can be identified with a mental ejaculation, foam on the lips, and an epileptic crisis. In the same way that preceding sun (the one not looked at) is perfectly beautiful, the one that is scrutinized can be considered horribly ugly. In mythology, the scrutinized sun is identified with a man who slays a bull (Mithra), with a vulture that eats the liver (Prometheus): in other words, with the man who looks along with the slain bull or the eaten liver.

The Mithraic cult of the sun led to a very widespread religious practice: people stripped in a kind of pit that was covered with a wooden scaffold, on which a priest slashed the throat of a bull; thus they were suddenly doused with hot blood, to the accompaniment of the bull's boisterous struggle and bellowing -- a simple way of reaping the moral benefits of the blinding sun. The same goes for the cock, whose horrible and particularly solar cry always approximates the screams of a slaughter. One might add that the sun has also been mythologically expressed by a man slashing his own throat, as well as by an anthropomorphic being deprived of a head. All this leads one to say that the summit of elevation is in practice confused with a sudden fall of unheard-of violence. The myth of Icarus is particularly expressive from this point of view: it clearly splits the sun in two -- the one that was shining at the moment of Icaru's elevation, and the one that melted the wax, causing failure and a screaming fall when Icarus got too close (...)".

Bataille, "Rotten sun". Visions of excess, 1927-1939
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segunda-feira, 29 de novembro de 2010

perder a cabeça

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"Fiz em 1914 meu primeiro busto de observação. Era meu irmão que posava. Meu pai era pintor. Eu tinha visto a reprodução de pequenos bustos sobre uma base e imediatamente tive vontade de fazer igual. Meu pai me comprou plastilina, e comecei. De início, senti um prazer extremo e tive a impressão de que a coisa viria bem facilmente, de que eu conseguiria fazer mais ou menos o que via -- ainda tenho o pequeno busto em casa. Cinquenta anos depois, é curioso confessar que, há dois dias, estou tentando fazer a cabeça daquela época, como em 1914, mais ou menos da mesma dimensão que a primeira, e enquanto em 1914 eu tinha a impressão de fazer o que queria, agora não consigo mais.

Será que é psicológico? Não sei. Mas, desde então, nunca mais consegui fazer uma cabeça simplesmente como a vejo, no sentido mais primário. Se vejo uma cabeça de muito longe, tenho a ideia de uma esfera. Se vejo bem de perto, ela deixa de ser uma esfera para se tornar uma complicação extrema em profundidade. A gente entra no indivíduo. Tudo parece transparente, a gente vê através do esqueleto.

A impossibilidade principal é apreender o conjunto e o que se poderia chamar detalhes. Assim, só penso nos olhos. [...] Sim, para esculpir bastaria essencialmente esculpir os olhos. [...] Tenho a impressão de que se conseguisse copiar só um pouquinho -- aproximadamente -- um olho, eu teria a cabeça inteira. [...] Não penso diretamente no olhar, mas na forma do olho. Se eu aprendesse a forma do olho, isso daria provavelmente algo que se assemelharia ao olhar! Sim, toda a arte consiste talvez em conseguir situar a pupila. O olhar é feito pelo que está em torno do olho. Mas a dificuldade para expressar realmente esse "detalhe" é a mesma que para traduzir, para compreender o conjunto. Se olho você de frente, esqueço o perfil. Se olho o perfil, esqueço a face. Tudo se torna descontínuo. Não consigo mais apreender o conjunto. Estágios demais. Níveis demais. O ser humano se torna complexo. E nessa medida não consigo mais apreendê-lo."


Giacometti, numa entrevista de 1962

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