quinta-feira, 20 de novembro de 2008

um assombro quando paramos pra pensar

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"E ele acabou se convencendo de que tem o dever de acompanhá-la, que assim vai pagando à prestação a dívida que tem com ela, como está pagando a que tem comigo; e agora, nesta tarde de sábado, como em tantas noites e meio-dias, com bom tempo, às vezes com chuva que se junta à que sempre está regando o rosto dela, vão juntos para lá de Retiro, caminham pelo cais até que o barco parte, misturam-se um pouco com as pessoas com capotes, malas, flores e lenços e, quando o barco começa a se mover, depois do apito, ficam rígidos e olham, olham até não mais poder, cada um pensando em coisas bem diferentes e ocultas, mas de acordo, sem o saber, na desesperança e na sensação de que estamos sozinhos, sempre um assombro quando paramos para pensar." (Onetti; Esbjerg, na costa)
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domingo, 16 de novembro de 2008

mundo à milanesa

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Há uns dois anos, fiz (para a Trip) uma entrevista com o Isay Weinfeld. Já conhecia o Isay por causa da Paula, filha dele, minha amiga. E também porque a gente se reunia nas noites de sexta pra sessões de cinema no apartamento dele. Foi lá que vi pela primeira vez o Fanny & Alexander, do Bergman (filme em que pensei muito enquanto psicografava o Chibo). O Isay apresentou pra gente o Claude Lelouche, o Viver por viver, com aquelas cenas em que a música sobe e os personagens seguem falando, falando, abanando os braços feito galhos, e a gente entende tudo, mesmo sem o som dos diálogos. Na semana passada, encontrei o Isay. Conversamos sobre cinema (ele disse que está pensando em voltar a filmar) e lembrei da entrevista, que na época precisei editar um pouco. Abaixo, segue na íntegra.

Você passa muito tempo sozinho?
Tenho necessidade de solidão, de ficar quieto. Li uma vez que estavam instituindo nas escolas da Inglaterra aulas de nada. Cinquenta minutos de nada. Obrigatoriamente nada. Apenas para pensar. Achei o máximo.

Sei que você gosta de Londres, qual a sua relação com a cidade?
Aos 14 anos tive o meu primeiro contato com Londres. A cidade é a mistura perfeita entre metrópole e cidade do interior. Uma coisa que me chamou a atenção desde cedo em Londres é a plaquinha nas escadas rolantes dos metrôs: “please, stand on the right”. Isso pra mim é o exemplo mais bem acabado de respeito e educação. Londres permite que andemos a pé, o maior sinônimo de qualidade de vida que um lugar pode oferecer.

Você caminha por São Paulo?
Não. A cidade é muito feia. No meu bairro, Higienópolis, por exemplo, os prédios são predominantemente residenciais. Isso é terrível. Eles deviam ter comércio embaixo; livraria, barzinho, loja de CDs. Tudo em São Paulo deveria ter uso misto. É uma delícia caminhar por lugares assim. Andar na Gabriel Monteiro da Silva e só ver decoração é chato, incomoda. Se existisse uma mescla teríamos mais prazer em caminhar na cidade.

Qual a rua mais feia de São Paulo?
Impossível saber. Isso aqui é um concurso com milhares de candidatos. A avenida Santo Amaro, por exemplo, é muito feia.

O que você faria para melhorar São Paulo?
Deceparia tudo o que estivesse acima do quarto andar.

Como a arquitetura entrou na sua vida?
Quando era criança vi a maquete de um prédio. Lembro de ter ficado imaginando a vida das famílias em cada um dos andares. Essa é a primeira lembrança que tenho relacionada à arquitetura. Mas não acho que eu tenha nascido para ser arquiteto. Inclusive, não acho que sou arquiteto, nem quero me considerar como tal.

O que você é então?
Outro dia li em algum lugar que meu trabalho é multifacetado. Até entendo que as pessoas achem isso. Mas não significa que eu seja multitalentoso. Às vezes produzo um cenário, projeto uma casa, faço um filme. Mas não tem multitalento nenhum. Faço sempre a mesma coisa. Faço arquitetura, mas poderia ser um filme, por exemplo. Não me sinto arquiteto. Nem quero que a minha vida seja apenas isso, não quero ser especialista em nada.

Numa das suas exposições, Happyland, você ironizava o comportamento de pessoas que blindam seus carros, que se encastelam por medo da violência. Mas a maioria dos seus projetos são privados, casas de pessoas ricas, com muros altos.
O tipo de pessoa que critico nessas exposições eu não atendo no meu escritório. A coisa mais importante que alcancei na minha profissão é o fato de poder dizer não. Não ser obrigado a me violentar. Eu jamais faria um palacete em estilo neoclássico. Mas se um dos meus clientes precisa de uma guarita porque a cidade é violenta, não vejo nenhum problema em atendê-lo. As pessoas que atendo não são as mesmas que compram livro por metro ou que moram num lugar só para mostrar quanto dinheiro tem.

Você falou das construções neoclássicas, a cidade está cheia delas. Tem também os bares cariocas em São Paulo, que poderiam estar num pavilhão do Rio no Epcot Center.
Morro de rir com a criatividade das pessoas. Não entendo porque acham brega o bingo de tema africano que foi construído na avenida 23 de Maio. Chamam aquilo de arquitetura temática, pejorativamente. Ninguém se dá conta que a cidade está cheia de outros tipos de arquitetura temática. Por que o neoclássico é um “estilo” e o bingo africano é um tema? O “estilo” francês de casas e lojas é um tema também, não um estilo. Só que ninguém diz isso. Las Vegas, por exemplo, é um tema. E é maravilhoso. Não acho que o bingo da 23 de Maio seja brega. É um projeto muito bem-feito dentro do tema africano. Existem construções temáticas em São Paulo muito piores que o bingo.

A única obra pública que você realizou até hoje foi a praça da rua Amauri. Você tem vontade de fazer mais obras públicas? Qual a função pública do arquiteto?
O arquiteto tem que saber se calar. Deve saber quando fazer uma arquitetura silenciosa. Já tive chances de construir um marco na cidade, um lugar onde as pessoas poderiam dizer: “puxa, isto é uma obra feita pelo Isay”. Mas acho isso uma bobagem. Quando se trata de uma coisa pública, o arquiteto deve deixar o ego em casa e fazer algo em benefício da cidade. Há certas ocasiões que não são para mostrar o talento nem provar que se é um arquiteto genial. De vez em quando é preciso evidenciar o talento sabendo ficar quieto.

Se fosse encarregado de recriar Brasília, o que mudaria?
Brasília é uma cidade onde falta essa coisa importantíssima chamada esquina. Isso de estarmos caminhando e, de repente, o espaço se abrir e conduzir nosso olhar para um lugar novo, inesperado. Essa surpresa falta a Brasília.

O que acha de Brasília?
Utopia, fantasia, melancolia. Palavras que tem tudo a ver com Brasília, e comigo também.

Certa vez você disse: “Gerações foram caladas pelo fato de que toda obra pública importante é entregue a um arquiteto só: Oscar Niemeyer.”
Continuo achando isso. Mas a culpa não é do Niemeyer, é da falta de imaginação dos governantes. Eles têm medo de errar e acabam entregando as obras para uma pessoa só.

Gosta do trabalho do Niemeyer?
Niemeyer é um grande artista, mas nunca teve influência na minha vida. Ele é um grande escultor, que fez das esculturas arquitetura. Algumas de suas esculturas são deslumbrantes e adaptadas para determinados fins. Não é assim que vejo o trabalho do arquiteto. Considero a função muito importante em arquitetura. Se é um museu, ele deve funcionar, antes de mais nada, como museu. Não adianta ser impactante, lindo por fora se não funcionar para o que foi destinado. Lina Bo Bardi sempre teve muito mais a ver comigo.

Que projeto contemporâneo você mais gosta?
O Museu de Arte Moderna de Nova York, do Yoshio Taniguchi.

Você é se preocupa bastante também com os interiores. Isso faz com que alguns arquitetos te chamem de decorador, pejorativamente.
Antigamente eu achava outra coisa, hoje acho que é despeito mesmo. Quando eu fazia cinema, falavam: o Isay é aquele arquiteto que faz cinema. Depois, passaram a dizer: o Isay é aquele cineasta que faz arquitetura; é o decorador que faz cenários; o cenógrafo que faz arquitetura. Esses rótulos não me interessam. Fazer decoração é tão importante quanto fazer arquitetura, design, urbanismo ou cenografia. Um não é menos complexo do que o outro. Pra mim o desenho do botão da campainha é tão importante quanto o resto.

O que há de brasileiro na sua arquitetura?
Eu. Eu sou brasileiro, não basta? Ser brasileiro é trabalhar com materiais brasileiros? Eu trabalho. Só não sei ser caricato. Ou será que para ser brasileiro tenho que me inspirar nas curvas das montanhas do Rio de Janeiro? E se eu for influenciado pelas retas de São Paulo, isso não é ser brasileiro?

Que projeto você ainda não fez mas gostaria de fazer?
Um bordel, uma escola de samba, um cemitério, um cinema. Mas faria um cinema com cortina. Ela vai se abrindo, desvendando aquela tela enorme. Há anos eu e o Leon Cakoff temos vontade de fazer um cinema juntos.

Quando começou a fazer cinema?
Eu estava no cursinho, tinha 17 anos, e me reencontrei com o Marcio Kogan. Nossas famílias eram amigas, mas nunca tínhamos tido muito contato. Ele também era apaixonado por Bergman, estávamos ligados nas mesmas coisas. Na época, o Marcio tinha acabado de ganhar uma câmera Super 8. Resolvemos então rodar um filme na cozinha da minha casa. O Marcio me filmava fazendo o jantar. Eu estava todo de preto fritando um ovo, a trilha sonora era a marcha fúnebre. Uma coisa meio surrealista, meio underground. Em 1983, fizemos o Idos com o Vento, que ganhou o festival de Gramado e outros festivais fora do Brasil.

Como foi filmar o Fogo e Paixão (1988)? O que acha dele hoje?
Eu ainda gosto do filme. Acho, evidentemente, que ele tem vários problemas. O ritmo, por exemplo, é muito lento. Acho que poderia ser mais agitado se tivesse uma outra edição. Mas foi um grande sucesso, considerado o melhor filme brasileiro do ano. A direção de arte era inédita na época. Os papéis principais foram feitos por um grupo de teatro genial, o Pod Minoga [Mira Haar, Cristina Mutarelli, Carlos Moreno]. O filme contava também com participações da Fernanda Montenegro, Paulo Autran, Tônia Carrero.

Pensa em voltar ao cinema? Pretende filmar o Palace Hotel?
Tenho muita vontade de retomar esse roteiro. Uma época eu e o Marcio pensamos em adaptá-lo para o teatro, caso não filmássemos. A história é sobre um fim de semana em um hotel que já foi elegante, mas que está decadente e será transformado em outro empreendimento. Narra a vida do staff do hotel e dos hóspedes nesses últimos dias.

Como o cinema influencia sua arquitetura?
Principalmente pela fotografia. Os ângulos de uma cena ou de uma sala, o clima, a simetria, a luz. Não filmei o Palace Hotel, mas projetei o Hotel Fasano. Acho tudo muito parecido. Escrever o roteiro, fazer o croqui de uma obra. Começar a desenvolver o projeto, montar a pré-produção do filme. Em ambos existe uma certa manipulação do espectador.

Quem são seus ídolos?
O Ingmar Bergman era e continua sendo meu grande ídolo. Ao lado dele, colocaria o Haroldo, um professor de português que tive no Rio Branco. Ele ensinava redação com frases muito curtas. Uma frase e ponto, uma palavra, ponto. Ele falava que o principal numa redação é a primeira e a última frase. Tudo pra mim, até hoje, tem relação com isso. Esse professor, o Haroldo, adorava cinema. Ele organizava sessões no colégio. Foi numa delas que, com 14 anos, vi pela primeira vez Morangos Silvestres, do Bergman

Como você reagiu ao filme?
Ele mudou minha vida. A ponto de eu viajar até Estocolmo e ir atrás do senhor Bergman. Chegando lá me decepcionei com a cidade, que eu achava que era um lugar em preto-e-branco como nos filmes dele. No hotel fui direto à lista telefônica. Descobri então que Bergman é como Silva aqui no Brasil. Existia um bilhão.

Como foi a sua infância?
Nasci em São Paulo, em 1952, no Bom Retiro. Meu pai era polonês. Quando chegou ao país, depois da guerra, vendia colchas e lençóis de porta em porta. Depois montou uma malharia que acabou virando uma indústria têxtil. Da minha infância lembro de coisas como o misto-quente da mercearia do Seu Vicente, no Bom Retiro; os tijolos de vidro do piso da mercearia; o elevador do prédio onde eu morava; a árvore no pátio do Jardim Escola São Paulo. No colégio Rio Branco, lembro de jogar futebol. Como tinha bronquite asmática, ficava no gol – acho que era um péssimo goleiro.

Você era um filho mais rebelde ou mais bonzinho?
Muito cedo, comecei a viajar para Londres. Voltava de lá sempre de um jeito, o cabelo comprido, pintado de prata, vermelho. Chegava em Congonhas e quase não me reconheciam. Saía daqui um bicho e voltava outro. Durante anos me vesti só de preto também, isso pré-Gerald Thomas. Usava sapatos com solado alto, salto plataforma. Minha rebeldia era mais neste sentido.

Você gosta de moda?
Gosto, mas não sou de grifes. Odeio etiqueta, logomarcas. Nunca comprei uma roupa que tivesse um logotipo aparente. Acho genial o trabalho do Paul Smith. Na loja dele é possível encontrar uma camisa branca com a costura do botão do punho em vermelho. Ele faz roupas assim, clássicas, mas com uma nota dissonante. Isso tem muito a ver comigo e com a minha obra.

Gosta de ir à praia?
Vou menos do que gostaria. Mas não gosto das coisas ligadas à praia. Tenho medo de mar, não gosto de areia, não gosto dos trajes de praia, dos mosquitos. Gosto da praia no inverno, da solidão, da quietude. Detesto tomar sol. Vou por causa do barulho do mar, do vento e da cor da água.

A Paulinha me contou que você fez uma viagem a Polônia para entender melhor a história dos seus pais e avós.
Foi há dois anos. Meus avós eram donos de um moinho numa cidade muito pequena do interior da Polônia. Tinham quatro filhos. Quando a Segunda Guerra começou eles pagaram para uma senhora católica esconder os filhos, que ficaram por mais de dois anos embaixo do piso do quarto dela. Só saíam de madrugada, rapidamente. Essa senhora, no entanto, se tornou amante de um oficial, e certa noite, na cama, o oficial contou a ela que tinha acabado de matar o casal Weinfeld. Os quatro filhos estavam escondidos no quarto e ouviram tudo. Sempre escutei meu pai contar esse episódio, e quando ele morreu, há cinco anos, fiquei com vontade de ir a Polônia conhecer o lugar onde ele viveu com meus avós.

Como foi a viagem?
Fui com um casal de primos. Sabíamos apenas os nomes da cidade e da mulher que havia escondido nossos pais e tios. Depois de muito perguntar e caminhar pela minúscula cidade, conseguimos encontrar a casa onde nossos pais tinham sido escondidos. A casa existia ainda. Nela morava uma família muito pobre e numerosa. Fomos convidados a entrar na casa, no quarto. O senhor, dono da casa, puxou um armário. O chão de tábua estava oco, era ali que meu pai e tios ficavam. A janela do quarto (a vista que meu pai me descrevia) estava na minha frente. Foi uma das experiências mais impressionantes da minha vida.

Qual sua relação com o judaísmo?
Tenho muito do humor típico judeu, isso é verdade. Mas não sou religioso. Não rezo, não vou à sinagoga. Minha relação com a religião é puramente gastronômica. Participo de jantares de confraternização, só. No entanto me sinto profundamente judeu.

Li uma entrevista em que você dizia acreditar em discos voadores.
Gosto de acreditar, acho que me faz bem. Sempre tive vontade de ser abduzido. Quando eu estudava no Rio Branco, eu tinha aula de ciências com um professor que presidia a Associação Brasileira de Estudos de Civilizações Extraterrestres. Comecei a me interessar, a participar das reuniões da associação. Cheguei, inclusive, a fazer parte de grupos de pesquisa que iam atrás de relatos de pessoas que tinham avistado OVNIs.

Qual sua bebida preferida?
Adoro cachaça. Destesto champagne e uísque.

Você se leva a sério?
As pessoas começam a afundar, sobretudo profissionalmente, quando passam a se levar a sério. Sou favorável, por exemplo, à total destruição do meu trabalho. Não acho que ninguém deva preservar nada dele. A cidade de São Paulo é assim, autodestrutiva, mutável. Não acho que nada do que eu faça tenha qualquer importância.

Hoje em dia há pouco de minimalismo aqui, não?
A base do desenho puro se manteve. Mas com o tempo aprendi outras coisas. Minha ex-mulher, por exemplo, me ensinou que dentro do meu minimalismo cabiam outros elementos. Uma renda, uma cortina de renda. Aprendi a aceitar isso, a ver beleza nisso. Aprendi a enxergar a pureza das linhas retas (que todo mundo vê com mais clareza num móvel moderno), aprendi a enxergar isso num móvel inglês do século XVII, por exemplo. Comecei a ler, conhecer mais e hoje eu sou um grande colecionador de cacarecos.

Tem algum medo?
De avião. Quer acabar comigo? É anunciar que meu vôo teve um problema. Pedir para que eu escolha: ou pegar um outro avião no dia seguinte ou esperar seis horas e pegar o mesmo. Fico imaginando que sempre vou tomar a decisão errada. Outro dia entrei no avião e começou a tocar uma música do Agostinho dos Santos, cantor que morreu num desastre de avião. Fiquei apavorado. Outra coisa que tenho muito medo é de panela de pressão.

Toca algum instrumento?
Comecei a aprender violino. Quando criança, com uns 10 anos, eu tocava harmônica. Me apresentava num programa de televisão da TV Record, aos sábados. Eu fazia um número.

Em uma entrevista, o Paulo Mendes da Rocha disse que tem horror a dinheiro e que o ideal do homem inteligente contemporâneo é não possuir nada.
Eu não tenho esse desprendimento. Mas um dia, eu ainda vou ser um Paulo Mendes da Rocha. Só que com uma pitada de Artacho Jurado [arquiteto de prédios como o Cinderela, em Higienópolis].

Para terminar, uma mensagem final.
O mundo seria melhor se fosse à milanesa.
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segunda-feira, 10 de novembro de 2008

o equivalente em diálogo

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"Para descrever bem um ruído, deve-se imaginar o que renderia o seu equivalente em diálogo. Na água-furtada, eu queria conseguir um som que tivesse o mesmo significado de uma frase que os pássaros poderiam eventualmente dizer a Melanie: 'Agora você não escapa. Vamos cair em cima de você. Não precisamos dar gritos de triunfo, não temos necessidade de nos enfurecer, iremos cometer um assassinato em silêncio.' Eis o que os pássaros estão dizendo a Melanie Daniels, e foi isso que consegui dos técnicos do som eletrônico. Para a cena final, quando Rod Taylor abre a porta da casa e vê pela primeira vez os pássaros, a perder de vista, pedi um silêncio, mas não um silêncio qualquer; um silêncio eletrônico de uma monotonia capaz de evocar o barulho do mar ouvido de muito longe. Transposto em diálogo de pássaros, o som desse silêncio artificial quer dizer: 'Ainda não estamos prontos para atacá-los mas estamos nos aprontando. Somos como um motor que está esquentando. Em breve daremos a partida'."

(Hitchcock, no Hitchcock/Truffaut)
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quinta-feira, 30 de outubro de 2008

para tornar uma viagem de táxi mais animada

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13 de maio

Antes que eu me esqueça: a história das calcinhas de Britt Ekland. Mais ou menos um ano atrás, quando cheguei ao meu escritório no National Theatre, tirei um livro do bolso do meu sobretudo e com ele veio junto uma calcinha de Kathleen. Ela caiu no chão, bem diante dos olhos de Rozina, [secretária de Tynan]. Só por malícia, e pela vontade de testar a velocidade e a durabilidade de uma fofoca, decidi inventar uma história sobre a maneira como aquela calcinha tinha ido parar no meu bolso. (A verdade é que, para tornar uma viagem de táxi mais animada, eu tinha pedido a K. para tirá-la, em pagamento de uma aposta. Depois, esquecera que estava no meu bolso.) Contei a Rozina — o que era verdade — que, na noite anterior, eu tinha ido à festa de aniversário de casamento da princesa Margaret e Tony. A rainha, o príncipe Philip e a rainha-mãe também estavam presentes. E então começava a mentira. Contei que tinha percebido que a rainha-mãe tomava copos e mais copos de um líquido claro, tirado de um frasco. “Gim, é claro”, observei para Britt. “Evidente que não”, respondeu ela. “Deve ser água.” “Pois aposto”, disse eu, “a sua calcinha contra dois lugares na primeira fila de Oh, Calcutá! que é gim.” “Está apostado”, disse ela. Então chamei um garçom de libré, dei-lhe uma gorjeta de dez shillings e fiz a pergunta. “Gim Gordon’s, senhor”, foi a resposta. Ao que Britt se retirou para o banheiro, voltou e me entregou a sua calcinha. Três dias mais tarde, fui abordado por um colunista de mexericos num clube noturno. “É verdade a sua história com a calcinha de Britt Ekland?”, perguntou ele. “Melhor perguntar a ela”, respondi. No dia seguinte, a história toda apareceu, contada por ele, no Daily Mirror. No mesmo ano, Britt vendeu a história da sua vida à revista People, que dedicou quase um número inteiro a perpetuar o mito que criei.

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12 de abril

A coisa mais inesperada que já ouvi dizerem, depois de um jantar, em meados dos anos 50. O dono da casa pediu aos convidados, despretensiosamente, que indicassem as três coisas de que mais gostavam no mundo. As respostas variaram entre o sério, o previsível (“os quartetos de Schubert”) e o previsivelmente leviano (“abotoaduras de ônix”), até Kitty Freud sacudir os cabelos escuros e declarar, com uma franqueza trêmula: “Viajar, boa comida e ser espancada no traseiro com uma escova de cabelo”.

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16 de abril

O maior acontecimento cultural da primeira parte da minha vida foi Cidadão Kane. Acreditando em tudo que eu lia (e que Welles dizia) sobre o filme, achava que fosse a obra de um homem só, concebido, produzido, escrito, dirigido e, predominantemente, estrelado por Orson. Essa idéia de uma obra de arte como um desempenho de solista afetou todas as minhas atitudes a respeito do teatro, do cinema e da minha própria carreira por muitos e muitos anos. Só fui encarar de frente a idéia da arte como colaboração muito tempo depois. Agora, os artigos de Pauline Kael sobre Cidadão Kane na New Yorker provam, sem dúvida, que Welles não escreveu qualquer das falas de Kane, e que a idéia e a sua execução (até o estágio de roteiro final, pronto para ser filmado) foram obra exclusiva de Herman J. Mankiewicz. Fiquei encantado, claro, com essa confirmação da minha convicção de que um filme é tanto (se não mais) obra do escritor quanto do diretor. Mas é um abalo profundo descobrir que uma parte tão importante da minha definição anterior de arte se baseava numa mentira.

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27 de maio

Voando para Nova York, para fazer pesquisas para o meu artigo sobre Wilhelm Reich para a New Yorker, comprei e li o último volume dos diários de Cecil Beaton. Como ele tem a sorte — neste único sentido — de ser veado e solteiro, é obrigado a usar o diário como receptáculo para a sua vida exterior e os seus pensamentos interiores. No casamento, os parceiros compartilham a vida exterior, que assim acaba sem registro, e extravasam a sua vida interior um para o outro, e para o provável esquecimento. Ainda assim (e escrevo isso em plena travessia do Atlântico), eu não trocaria Kathleen pela autoria de nenhuma obra-prima.

(Dos fabulosos diários de Kenneth Tynan. Mais aqui)
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quarta-feira, 15 de outubro de 2008

meu pai, 1965

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Minha amiga Flora, que é artista plástica, me mandou a foto abaixo, parte de um trabalho que ela vai inscrever em um programa de residência na França. Ela pediu para que diferentes pessoas escrevessem textos a respeito da obra, só a partir de fotos, sem saber NADA mais.

Minha contribuição, abaixo.
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Contato imediato, 2008

Em 30 de janeiro de 1978, Michigan foi devastada por uma grande nevasca e Stanley A. Perkins perdeu seu chapéu. O mundo nunca mais foi o mesmo. Além do mais as pessoas são feitas de cabeça, tronco e coisas -- as coisas se misturam às pessoas, as pessoas se misturam às coisas. O chapéu era um pedaço vivo de Stanley (Stanley era um pedaço morto do chapéu).

Depois do almoço, Flora e eu saímos para fotografar a obra. Era a nossa primeira vez em Lyon. Os três obstáculos de cimento estavam lá, como havíamos visto pela manhã. Ela olhou o relógio. Estava quase na hora de a quarta pedra pousar. Porque o mundo está lotado de objetos, mais ou menos interessantes, disse Douglas Huebler. Alguns somem, outros aparecem. O chapéu de Stanley A. Perkins, por exemplo, voltou para o seu planeta. Os hidrantes e os telefones públicos também, começam a tomar o caminho de volta. Flora posiciona a máquina: se forçar a vista, dá pra ver o granulado das naves de cimento. Quando dispara, a foto tem um som metálico. Meu pai esteve na cidade, em 1965. Na época, Lyon não tinha obstáculos para proibir os carros de estacionarem. Penso que essa foto era impossível; a imagem que a Flora me mostra no visor da câmera não existia, só passou a fazer parte do mundo agora, quando o último dos quatro objetos pousou no asfalto de Lyon. Um quinto objeto seria redundante, a Flora me diz. O artista não poderia criar um quinto objeto, só pode aceitá-lo e, quando muito, registrá-lo. As pessoas podem tropeçar nos objetos (um degrau sobressalente na escada, por exemplo). O artista deve ouvir em silêncio, ela me diz, registrar; ninguém nunca tropeçou numa foto. Mostro a foto para o meu pai. Quando ele esteve na cidade, em 1965 (ele dirigia um Volks), Lyon não tinha os quatro robôs de cimento. Ele me diz que não reconhece Lyon na foto (e comenta que há manchas no chão). Digo a ele que é uma obra de arte, em Lyon. Corrijo: é a foto de uma obra de arte, em Lyon. Ele sai da sala e volta com uma foto da cour d'honneur do Palais Royal de Paris. As colunas de mármore, onde as crianças brincam. O escritor polonês Witold Gombrowicz, em 1947, em um convescote em Buenos Aires, disse que não existe nenhum elemento específico capaz de definir um texto como poético. A noção de função poética da linguagem, criada por Jakobson (uma função específica que se manifestaria na atividade poética e que implica em certa distância com relação ao uso normalizado da linguagem), essa noção nunca existiu. Nenhum elemento na linguagem possibilitaria essa função poética.

Meu pai volta à foto de Lyon, os quatro alienígenas de cimento, no asfalto. Agora diz que, pensando bem, é uma obra de arte. A disposição para ler poeticamente é o que constitui um texto como poético? O significado da foto que a Flora tirou em Lyon seria fruto de uma disposição -- e não de uma essência, como queria Jakobson. E de um contexto. Se os obstáculos de cimento tivessem pousado sobre a catedral de Notre Dame (para continuarmos na França), o significado seria outro? Num texto de 1952 sobre a metáfora, Borges escreveu: "Sempre desconfiei que a distinção radical entre poesia e prosa está na expectativa diferente daquele que lê." Tudo se move, e o chapéu de Stanley A. Perkins ainda não foi encontrado.
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sábado, 20 de setembro de 2008

tomado de furores abstratos

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"Eu, naquele inverno, estava tomado de furores abstratos. Não direi quais, não é isso que me proponho a contar. Mas é preciso dizer que eram abstratos, nada heróicos, nem vivos; de qualquer maneira, furores pelo gênero humano perdido. Vinha assim há muito tempo, e andava cabisbaixo. Via manchetes nos jornais sensacionalistas e abaixava a cabeça; estava com os amigos, uma hora, duas horas, e ficava com eles sem abrir a boca; abaixava a cabeça; e tinha uma moça ou uma mulher que me esperava, mas nem com ela eu trocava uma palavra, mesmo com ela eu abaixava a cabeça. Chovia o tempo todo, passavam-se os dias, os meses, e eu tinha os sapatos furados, a água me entrando nos sapatos, e não era mais nada que isso: chuva, carnificinas nas manchetes dos jornais, e água nos meus sapatos furados, amigos mudos, a vida em mim como um sonho surdo, e não-esperança, calmaria. Isso era terrível: a calmaria na não-esperança. Dar o gênero humano como perdido e não ter vontade de fazer coisa alguma quanto a isso, nem vontade de me perder, por exemplo, com ele. Eu estava perturbado por furores abstratos, não no sangue, e ficava quieto, sem vontade de nada. Não importava que minha namorada estivesse me esperando, estar com ela ou não, ou folhear o dicionário, era para mim a mesma coisa; e sair para ver os amigos, ou ficar em casa, era o mesmo para mim. Estava quieto; como se nunca tivesse tido um dia de vida, nem jamais soubesse o que é ser feliz, como se nada tivesse a dizer, a afirmar, a negar, nada de meu para pôr em jogo, nada a escutar, a dar, e nenhuma disposição de ganhar, como se em todos os anos de minha vida nunca tivesse comido pão, bebido vinho, ou tomado café, nunca tivesse estado na cama com uma mulher, nunca tivesse tido filhos, nunca tivesse brigado a socos com alguém, ou não achasse tudo isso possível, como se eu nunca tivesse tido uma infância na Sicília, entre os figos-da-índia e o enxofre das minas, nas montanhas; mas, dentro de mim, eu me agitava com os furores abstratos, e pensava sobre o gênero humano perdido, abaixava a cabeça, e chovia, não dizia uma só palavra aos amigos, e a água me entrava nos sapatos."

(Elio Vittorini; Conversa na Sicília)
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quinta-feira, 18 de setembro de 2008

vietcongue

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Organizando minhas fotos, encontrei esta, da Flip 2004. Eu e o Cardoso, síndico do COL (que faz 100 anos amanhã), cuidando da defesa antiaérea de Haiphong em pleno Vietnã.

O momento foi imortalizado no mirabolante texto cardoseano sobre a referida Flip-Indochina do Sul:

"VIETNAM:

É aquele clássico drink game de FRAT BOY, que consiste em:

1. abrir um BURACO no RODAPÉ de uma latinha de ceva;
2. encaixar o furo na BOCARRA;
3. abrir o anel de cima.

A idéia é beber todo o conteúdo da lata no GUTI – germanicamente conhecido como GUTI-GUTI. As regras são SIMPLES: quem não conseguir, PERDE. Acho que quem CONSEGUIR só DEPOIS do outro, também perde, mas aí já não tenho bem certeza por que não só perdi EU como também perdeu EMILIO: nenhum dos dois concluiu a tarefa com plenitude. Sobrou uma REBA em cada. Merda."
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terça-feira, 16 de setembro de 2008

cada um no seu quadrado

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Mês passado entrevistei alguns quadrinistas sobre o processo criativo de cada um deles. Precisei deixar muita coisa fora do texto, então segue o que cada um disse na íntegra.
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Rafael Grampá: "Meu traço melhora muito das duas às seis da madrugada. Quando chega essa hora, eu já estou trabalhando há muito tempo e minha mão fica levemente adormecida. Eu quase não sinto minha mão tocando o papel, parece que sobra apenas minha mente e o traço, aparecendo sozinho. Acho interessante a sensação que surge logo depois que se tem uma boa idéia. É quase como acertar no bingo, só que melhor. Quando eu era moleque, bem criança, eu era louco pelo Popeye. Desenhava ele o tempo inteiro e acho que ainda consigo encontrar no meu traço influência do E. C. Segar e de outros artistas que desenharam o Popeye. Já adolescente, minha vida mudou depois que eu conheci o Gustave Doré. Hoje em dia me interesso mais em buscar referências narrativas, pois sei que o desenho vai evoluir naturalmente. Uma das minhas principais influências é o cinema, principalmente o do diretor Sergio Leone, que eu admiro pela originalidade da narrativa. Antes, lá fora, brasileiros eram mão de obra barata, tinham espaço apenas nos quadrinhos de linha, de super-heróis. Agora parece que somos esperança de sangue novo. Quando ganhamos o Eisner pela nossa HQ independente 5, ouvimos de figurões e de grandes ídolos que o prêmio não seria importante apenas para nós, mas sim para a indústria em geral. Foi a primeira vez que uma HQ independente ganhou em uma das categorias mais disputadas do Eisner Awards, a de “melhor antologia”, que costuma ser onde os novos artistas surgem. Disseram que isso mostra uma mudança no pensamento da indústria americana de HQs, antes totalmente mainstream e hoje diferente, buscando novo fôlego nos quadrinhos de autor. Quadrinhos ainda é uma arte muito inexplorada, muito jovem, e tem muito o que evoluir. Estamos numa fase muito boa e a quantidade e qualidade dos artistas vem aumentando."
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André Kitagawa: "A questão da narrativa é primordial, me empenho em fazê-la bem. Parte da graça está na maneira como as histórias são contadas. Na origem, sou um desenhista e nesse quesito sempre estou disposto a experimentar, mas sem cair no mero experimentalismo. No Chapa Quente há uma clara variação de estilos e técnicas. O gosto pela temática urbana é uma coisa natural em mim, nunca vislumbrei outro cenário para as minhas histórias. Gosto de alguma sordidez, humor negro, amores platônicos, tédio, losers, situações limite e atitudes inexplicáveis. Minhas histórias geralmente nascem a partir de fragmentos, de pequenas idéias e visões que tento recombinar pra forjar uma narrativa que faça sentido pra mim. Comecei com a pretensão de desenhar super heróis, naquele estilo bem clássico. Mas depois desencanei e fui buscar outras referências. Como quadrinista fui gerado em meio ao boom dos anos 80: Frank Miller, Alan Moore, Angeli, Laerte, revista Animal (com os quadrinhos "adultos" e alternativos da Europa, dos EUA e do Brasil). Fanzineiros da época também me influenciaram: MZK, Alberto Monteiro, Yuri Hermuche. O desenhista que mais gosto é o argentino Muñoz. A capa do disco Goo do Sonic Youth tinha um desenho que eu não cansava de admirar e estudar. Além disso, uma salada de coisas me influenciou. De Scorsese a Vuillemin, de Rubem Fonseca a Fábio Zimbres. Meu jeito de fazer quadrinhos hoje em dia é bem careta até, procuro fazer um roteiro sem falhas (e já errei muito), uma narrativa fluida e envolvente, um desenho expressivo e sempre bem inserido dentro do contexto narrativo. Mas não precisa ser assim, é só a minha opção. Acho que os quadrinhos estão abertos a todo tipo de experimentação, dá pra pirar muito, fazer coisas que, no cinema por exemplo, seriam inviáveis."
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Rafa Coutinho: "Gosto do traço limpo, combinado com uma pintura mais solta. Busco muito uma aproximação com o real, porque gosto do real. E como gosto das narrativas mais fragmentadas e histórias confusas, o mínimo que eu tenho que fazer pelo leitor é o personagem parecer o mesmo de um quadro pro outro. Gosto de terminar de ler uma história com aquela sensação de ter participado de um negócio muito especial, de tomar aquele tapa na cara, essas são as histórias que eu busco quando desenho. Bebo muito no quadrinho de alguns autores que me influenciaram e ainda me influenciam, como Miquelanxo Prado, Jaime Hernandes e o Tayio Matsumoto. Atualmente me apaixonei pelo Cris Blain e o Gippi. No Brasil estão reaparecendo as histórias mais longas, de mais fôlego. O difícil é abrir uma janela no meio dos outros trabalhos. Continua sendo um trabalho mal remunerado, quadrinhos no Brasil. Isso sempre complicou tudo, mas por força divina os autores ainda fazem e cada vez mais. E sim, a trama continua sendo fundamental, meio como cinema ou literatura. As evoluções e experimentações no meio sempre existiram, mas no fim você tem que contar uma história."
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DW: "O pincel é com certeza o instrumento com o qual mais gosto de desenhar. Minhas influências são muitas, o mundo é grande e interessante. No momento estou fascinado pelo John Lennon, pelo Charles Burns, e sempre pelo Cortázar. Acho importante manter o leitor consciente de que a HQ tem características próprias que fazem dela uma linguagem peculiar. Sempre penso que o visual é o mais importante, mas sentar e ler uma boa história torna a experiência completa, mesmo que essas tramas às vezes sejam bastante "abertas" e peçam dedicação para serem absorvidas."
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Daniel Bueno: "Meu estilo nos quadrinhos tem relação direta com o das ilustrações. Os contornos geométricos e sintéticos, o apelo ao grotesco e a ambientes soturnos, o uso de texturas e colagem. Quando elaboro as histórias, estruturo os quadros de modo muito simples, e faço textos diretos e curtos. Em relação aos temas, costumo partir de aspectos do cotidiano que me incomodam para abordar questões existenciais. Meu estilo de ilustração tem influências muito variadas: admiro Grosz, Depero, Steinberg, Jim Flora, Covarrubias. Leio quadrinhos de todo gênero desde pequeno, mas nos últimos anos o que têm me chamado a atenção é a produção alternativa, coisas da velha RAW e das revistas Blab!, Le Dernier Cri, Strapazin, Kramers Ergot. Gosto das experimentações muito encontradas nas histórias curtas. Elas estão frequentemente no limiar do “errado”, e quando acertam chegam a situações novas e inusitadas. Por outro lado, também aprecio HQs longas, de desenho sutil e em harmonia com o roteiro, ambos integrados de modo a contar bem uma história. É o caso dos quadrinhos de Christophe Blain, Art Spiegelman, Hugo Pratt, e outros. No Brasil também temos ótimos contadores de história, como o Laerte, Pavanelli, Mutarelli, Spacca, Kitagawa. Luiz Gê é referência obrigatória, foi um desbravador nos tempos da revista Circo, explorou os recursos de narrativa como ninguém. Chama a atenção o trabalho do Guazzelli, que sabe inserir em HQs longas experimentações de desenho e narrativa, com traço muito refinado. Temos também o Zimbres, que recentemente lançou uma novela gráfica experimental, Música para Antropomorfos, feita a partir das músicas da banda Mechanics. Acredito que o quadrinista deve ser honesto consigo mesmo e fazer aquilo que considera o melhor, sem comprometer seu trabalho em função do mercado ou do gosto mediano...Tem que ter algo a dizer, ir longe em sua proposta, falar de coisas indigestas e desagradar a si mesmo, se for necessário. Coisa que Harvey Pekar, por exemplo, sabia fazer muito bem. Uma narrativa longa requer domínio do conjunto da obra, da estrutura do roteiro, da relação da história com os aspectos gráficos. Saber encontrar o equilíbrio entre o desenho e roteiro é um dos segredos. Existe sempre o risco do quadrinista se perder em devaneios gráficos, cair na redundância e monotonia, errar no ritmo do roteiro, não saber resolver o final. Acho a trama importante, mas quando isso é feito como oposição a outras abordagens mais experimentais, fico preocupado, pois me parece conservadorismo e fruto de incompreensão. O fato é que a HQ permite uma grande variedade de opções, suficientes para abarcar inúmeros caminhos."
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Fabio Lyra: "Faço HQs bobas sobre garotas, com um traço limpo e elegante. É o que dizem. Minhas principais influências são Moebius, Nick Hornby, Jaime Hernandez, Daniel Clowes e o Sergio Leone. Moebius foi importantíssimo para a minha formação. Eu tinha 16 anos e ainda estava naquele mundo de super-heróis, quando caiu em minhas mãos um álbum do cara. Aquilo foi o suficiente para abrir meus horizontes e mostrar que quadrinhos podem ser muito mais do que gente de collant apertadinho. O Nick Hornby é o grande responsável pelo tipo de HQs que eu faço. Quando li o Alta Fidelidade eu não estava satisfeito com os quadrinhos que andava rascunhando, não estava à vontade com eles. Ler o livro do Hornby e ver como ele falava com naturalidade sobre temas contemporâneos e a sinceridade com que ele escrevia foi muito inspirador para mim. Sergio Leone é um gênio, tudo que aprendi sobre narrativa foi assistindo aos westerns que ele fez. Esse tipo de quadrinho autoral, com um pezinho nas graphic novels, ainda não tem uma "escola" no Brasil. Só o desenho não basta, é preciso ter uma história que seja envolvente e que cative o leitor."
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Gabriel Moon e Fábio Bá: "Nós temos traços expressivos e detalhados, e isso é um resultado do tipo de histórias que gostamos, mais intimista, sobre relacionamentos humanos, onde as expressões faciais, os gestos, a linguagem corporal e os detalhes do ambiente são importantes para construir o clima da história. Gostamos de contar histórias de drama humano, usando elementos fantásticos para ressaltar os aspectos mais cotidianos dos relacionamentos entre as pessoas. Queremos criar um registro da época em que vivemos e o modo como as pessoas se relacionam está diretamente ligado aos tempos de hoje. Gostamos de Laerte, Will Eisner, Guimarães Rosa, Neil Gaiman. Queremos ser visto como autores, tanto aqui como lá fora, e nossos esforços internacionais são nesse sentido. É um caminho difícil e longo. Para mim, a premiação do Eisner é uma validação e um reconhecimento desse trabalho de autor, e deve nos ajudar a continuar contando nossas histórias. Acho que essa nova geração não está ligada mais ao humor como acho que a geração anterior estava. Acho que existe uma busca de narrativas mais sérias, mais longas, numa aproximação maior com a literatura e com o cinema do que com a charge e o cartum. Acho que hoje em dia os quadrinhos são "cool", viram filmes, desenhos animados e bonequinhos. Mas esse prestígio vem ligado a uma ignorância, muita gente nem sabe o que está sendo feito em quadrinhos, não lê o que está sendo publicado. Existem coisas que só são possíveis em quadrinhos, pois a HQ tem um ritmo de leitura muito singular, tornando a experiência da leitura muito mais impactante do que a literatura, muito mais intimista, pois é o leitor quem determina o tempo da história, e muito mais maleável do que o cinema, que tem seu ritmo de 24 quadros por segundo. Existe uma poesia na escolha das palavras de uma HQ, e assim também acontece com a escolha das imagem de cada quadrinho, na escolha do que mostrar e do que deixar de fora. Você direciona o olhar do leitor e o mergulha no mundo de uma maneira que só é possível numa história em quadrinhos. Nas HQs, você precisa escolher as palavras e as imagens, e nessa escolha está o estilo do autor, sua voz, sua visão de mundo. O mais difícil numa HQ é saber o que tirar, o que é gordura, e somente deixar o que é essencial."
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domingo, 7 de setembro de 2008

gena é um gênio

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Gena Rowlands, enormíssima.

A woman under the influence, John Cassavetes, 1974
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