domingo, 12 de janeiro de 2014

a mão esquerda tremia às vezes

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"[...] 'Você dormiu essa noite?'

'Não', ela respondeu.

'Ventou demais. Não parava de ventar. Ventou até o amanhecer. Eu adoro ouvir e sentir esse tipo de vento. Morno, quase quente. Chegou a dobrar as árvores lá fora. Dava pra ouvir o vento nas árvores. Aquele som pesado, de tudo sendo espalhado.'

'Ouvindo aquele barulho e sentindo a força do vento, não podia acreditar que estava quente.'

Quando tudo é novo, os prazeres são superficiais. Constatei que me dava uma satisfação misteriosa pronunciar o nome dela em voz alta, recitar as cores de seu corpo. Cabelo e olhos e mãos. A neve fresca dos seios. Absolutamente nada parecia banal. Eu tinha vontade de fazer listas e classificações. Simples, básico, verdadeiro. A voz dela era suave e sutil. Os olhos eram tristes. A mão esquerda tremia às vezes. Era uma mulher que tivera problemas na vida, um casamento desastroso que deixara marcas, talvez, ou uma amiga querida que havia morrido. A boca era sensual. Ela inclinava a cabeça para trás de leve quando estava à escuta. O tom de castanho do cabelo era comum, com laivos grisalhos, pequenos toques ou lampejos, que pareciam surgir e sumir com variações da luminosidade.

Tudo isso eu disse a ela, e mais ainda, descrevendo de modo detalhado a maneira exata como a via, e Christa parecia contente com essas atenções.

Passamos a manhã na cama. Depois do almoço fiquei flutuando na piscina. Christa deitou-se à sombra, nua, recuando cada vez que a linha do sol atingia seu cotovelo ou encostava em seu calcanhar rosado.

'Temos que começar a pensar', disse ela. 'Tem o voo das cinco.'

'Não estamos nem mais na lista de espera. Viemos pra cá sem pedir que eles avançassem nossos nomes na lista. Sem chance.'

'Preciso ir embora.'

'Eu ligo depois. Dou os nossos nomes. Vamos ver quais os números que eles vão dar. A gente pode ir amanhã. Amanhã são três voos.'

Ela enrolou-se numa toalha grande e sentou-se na escadinha do pátio. Claramente, queria dizer alguma coisa. Permaneci em pé no fundo da piscina, com a água à altura do peito.

Era o quarto dia em que ela tentava sair da ilha. Estava começando a ficar muito assustada nas últimas vinte e quatro horas. O calvário no aeroporto, disse ela, fizera-a sentir-se impotente, patética, perdida. A maneira estranha de falar das pessoas. O dinheiro cada vez mais curto. As viagens de táxi pela serra. A chuva e o calor. E a tensão, a tensão sombria, o tom ou atmosfera ínsita, a lógica infausta do lugar. Era como um sonho, um pesadelo de isolamento e imobilidade. Ela precisava ir embora da ilha. Teríamos aquelas horas juntos. Aquele episódio, como ela dizia. Mas depois eu teria de ajudá-la a ir embora. [...]"

"Criação" (1979), O Anjo Esmeralda, Don DeLillo
(trad. Paulo Henriques Britto)
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terça-feira, 31 de dezembro de 2013

capítulo méxico (2)

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Índia tarahumara; casa da Frida; casa do Trotsky; entrada da luta-livre; Tepoztlán; cachoeira de Cusarare; Chichén Tzá; Boca Paila, Tulum; cachoeira de Basaseachi & Palenque (caveira do coelho + templo) 
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terça-feira, 24 de dezembro de 2013

capítulo méxico (1)

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Quarto em San Jose del Cabo; baleias em Cabo San Lucas; no trem, pelas Barrancas, 650km até o Pacífico; marina de Los Cabos vista da piscina; pequena Sophie; noite no Bates Motel & o mar de Cortés
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sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

dias de montezuma

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Texto novo no blog da Companhia das Letras.

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Sexta-feira

É dezembro, quero começar esse texto com alguma ideia sobre inícios de viagem. Enrique Vila-Matas escreveu a respeito: algo como toda viagem ter começo e fim bem definidos, uma estrutura ideal para narrar. Mas estou longe de casa, sem meus livros, não consigo lembrar onde foi que li isso.

Do aeroporto, mando um e-mail para o catalão, contando que acabei de chegar no México, que estou escrevendo sobre o assunto etc. Duas horas depois, vem a resposta, uma mensagem longa e loucona, com o seguinte trecho: “Em geral, me excitam mais os preparativos do que a viagem em si. Talvez porque neles a imaginação seja muito poderosa, e tudo é possível antes de se colocar em movimento. Os preparativos se parecem àquele momento extraordinário de liberdade que vivenciamos ao começar a escrever um texto, e não ignoramos que assim que colocamos o lápis no papel seremos prisioneiros do território verbal e moral contido na primeira linha. De todo modo, também gosto de viajar; viajar para despencar do sonho”.


Sábado

Para reparar erros de férias passadas (em que fui soterrado nas minas de carvão dos livros na bagagem), trouxe comigo um único volume: México, do Erico Verissimo. Estou convencido de que nessas ocasiões precisamos de um livro apenas; para que anos depois a memória da viagem se mescle ao livro, ou numa imagem mais literária e semicafona: como se duas pessoas estivessem conversando e, no chão, suas sombras se alongassem uma sobre a outra — a intersecção das sombras seria a sensação misteriosa livro/viagem.

Lendo México, penso que Veríssimo é uma espécie de Tintim de cabelo penteado e pulôver nos ombros. Na primavera de 1955, esgotado pela rotina no departamento de assuntos culturais da Organização dos Estados Americanos, em Washington, ele sai de férias e vai explorar o país das tortillas e do único goleiro possível: Jorge Campos.

No centro de Guadalajara, vejo uma criança de óculos e tampão no olho esquerdo. Um indiozinho pequeno e bochechudo, de nariz escorrendo. Penso que daria um bom livro infantil, uma história cujo protagonista fosse o menininho com o curativo, usado para exercitar o olho preguiçoso. Imagino a curiosidade das outras crianças, tentando descobrir o que existe atrás da gaze, o porquê daquilo estar ali, deve esconder algo aterrador.


Domingo

Vou com duas amigas editoras chilenas, Catalina e Paulina, a um bar chamado I Latina, recomendado pelo escritor Juan Pablo Villalobos. Segundo Villalobos, trata-se de seu lugar favorito no mundo. É, de fato, excelente local para se estar no universo. Passo a noite me alimentando de michelada com clamato — cerveja, limão, sal, gelo, pimenta & polpa de tomate enriquecida com molho de marisco. Mais tarde, no hotel, vejo que meu pai me escreveu. Diz que acompanhou no El País a cobertura dos debates da Feira do Livro.

“Li reportagens, vi fotos (parabéns). A preocupação dominante é sobre a divulgação da literatura, leitores novos, o papel da internet, economia, edição. Fiquei me perguntando quando é que vocês vão começar a falar de literatura. Temas, estilo, narrador. Também queria saber o porquê de nunca mais ter ouvido música mexicana, que sempre gostei quando era jovem. Na próxima oportunidade, se estiverem falando de economia e mercado, levante essa questão. Sucesso. Pai.”


Segunda-feira

Participo de um encontro com alunos do Instituto Esperanza. Jovens entre quinze e dezoito anos. É um colégio de freiras. Ao fim da conversa, as freiras Olga e Clara me levam a um povoado cujo nome é uma homenagem ao Deus Asteca da Onomatopeia: Tlaquepaque. Passo a tarde com elas. Visitamos a igreja local. Tomamos suco de frutas numa panelinha de barro. Clara passou sete anos numa missão em Angola. Olga foi missionária no Peru. Conto a elas minha ideia de ir ao norte, pegar El Chepe, o trem que corta as montanhas. Clara diz que lá faz frio e que devo levar agasalho.

Na despedida, me dão uma tequila de presente. Tiramos fotos juntos. Clara diz que vai me adicionar no Facebook, o que de fato faz, poucas horas depois — no chat, me manda o emoticon de um gato gordo e feliz.


Terça-feira

À noite, num lugar chamado La Favorita, festa da editora Almadía. Conheço a mexicana Valeria Luiselli. Em Los Ingrávidos, Valeria escreve sobre dormir em camas alheias: “Eu não gostava de dormir sozinha no meu apartamento. Morava em um sétimo andar. Certa noite, enquanto fumávamos um cigarro fora do edifício, disse ao porteiro: não sei dormir aqui. O que você tem que fazer — ele disse — é sair daqui o máximo que puder. Voltar só para comer e tomar banho, nunca para dormir, porque, à medida que a pessoa vai passando noites em lugares diferentes — pensões, hotéis, quartos emprestados, camas compartilhadas —, conhece mais sua intimidade”. No fundo, esta é a narrativa de toda viagem: passamos dias e dias dormindo em quartos e camas onde nunca estivemos antes.


Quarta-feira

Ônibus para a Cidade do México. Sete horas de viagem.


Quinta-feira

Que lugar dramático e maravilhoso, a Cidade do México. É uma metrópole espalhada. Tudo é longe. Há uma avenida, Insurgentes, que atravessa a capital, de norte a sul. Ando pelo centro. Vou ao Templo Maior. As construções ao redor foram erguidas sobre o cadáver da Tenochtitlán asteca, sobre um leito de areia, lava e rocha porosa. A impressão é de que tudo afunda. As fachadas dos prédios parecem estar fendidas, torres inclinadas. Mesmo com sol (o céu não tem uma nuvem), há um ar escuro. Na praça, o zócalo, fica a igreja que os conquistadores espanhóis ergueram com as mesmas pedras do templo asteca. O Palácio Nacional sobe no lugar onde foi a residência do imperador Montezuma. Vou até a pulqueria La Risa. É um lugar minúsculo, frequentado por jovens emos mexicanos. O pulque é a bebida clássica mexicana, muito antes do mezcal ou da tequila. Trata-se de uma água viscosa, extraída do maguey, um tipo de cacto. O líquido nefasto (nos sabores maçã, maracujá, aveia e mamão) é servido em canecas gigantes.


Sexta-feira

Passo a madrugada com febre, vomitando (a maldição de Montezuma). Havia combinado de ir ao povoado de Tepoztlán com a adorável tradutora Paula Abramo, seu marido Oscar e uma poeta israelense. Penso em escrever a eles, dizer que desisti do passeio.

Mas penso que se conseguir dormir, posso estar melhor pela manhã. Não prego os olhos. Às 10h30, ouço a campainha. É Paula. Estou um lixo humano. Mesmo assim, resolvo ir. Tepoztlán significa “lugar do cobre”, na língua asteca. No entanto, não há minas de cobre. Paula me diz que há uma explicação poética: a cor de cobre das montanhas, no fim da tarde.

Oscar e a amiga poeta sobem a trilha até a pirâmide, no alto da montanha. Paula e eu ficamos na cidadezinha. Caminhamos pela feira de comida. Visitamos o convento. Durmo algumas horas na biblioteca do convento.


Sábado

Consigo me recuperar a tempo da conversa na Universidade do México (UNAM). Lá, conheço um grupo de tradutores de literatura brasileira. Consuelo, uma das tradutoras, acaba de ler Barba ensopada de sangue e está empolgada. A cidade universitária mexicana lembra a USP. O Estádio Olímpico, dos Pumas, é um dos mais bonitos que já vi. A biblioteca é um prédio de treze andares coberto por murais coloridos com motivos astecas, cenas que representam bons e maus aspectos da Conquista.

No fim da tarde, tomo o caminho de volta. Estou hospedado na casa de uma amiga mexicana, Claudia. Ela mora com Mario, um barbudo dono de uma loja que vende, conserta e projeta bicicletas. Também residem no lugar três gatos, Tito, Yoshi e José Guadalupe Flores. À noite, vamos à luta-livre. Confronto entre El Místico y Valiente e Psyco Ripper. Há luta entre anões também (um deles, o anão vestido de macaco, com uma roupa azul e peluda). Perto da uma da manhã, reencontro as chilenas, Catalina e Paulina, que acabam de chegar de Guadalajara. Vamos a um bar em La Condesa chamado Salinger.

Tomamos mojito e ficamos tentando lembrar das últimas frases do Apanhador, quando Holden diz que mal acaba de contar e começa a sentir uma espécie de saudade de todo mundo que entrou na história.

Nos despedimos. Pego um táxi. O taxista, de uns oitenta anos, conta que foi mariachi. Abaixa o som do rádio e canta uma música.


Domingo

Acordo, nova mensagem de Vila-Matas:

“Emilio, fiquei muito impressionado quando li uma microbiografia do poeta do século dezenove Antero de Quental, incluída em Dama de Porto Pim, de Antonio Tabucchi. Nela se contava que depois de uma longa temporada em Lisboa, o poeta dos Açores, o mais trágico de todos, regressa a suas ilhas cheio de sonhos — sonhos que caem por terra poucos meses depois.

Em sua pátria, desesperado com a solidão, descobre a existência do nada e se mata em Ponta Delgada, com um tiro, em um banco verde em frente ao mar, em pleno meio-dia, sob o muro branco do Convento da Esperança, onde existe uma âncora azul desenhada na parede caiada.

Um meio-dia, em minha primeira viagem para os Açores, fui ao tal convento, para me sentar no banco verde em que Antero se matou. Encontrei tudo exatamente igual, inclusive seguia ali a âncora azul desenhada na parede branca. Todavia, de todos os bancos da área, o de Antero era o único que estava ocupado. Era quase propriedade de uns mendigos que não arredavam pé. Tive que esperar duas horas até que fossem embora. Então, me sentei no banco. Havia o mesmo mar daquele distante meio-dia. A mesma praça, as mesmas árvores, o mesmo brilho na água — nada muda, tudo segue igual, eu pensei. Esse é o tipo de viagem que gosto de fazer.

Abraço, espero vê-lo em São Paulo, na próxima viagem. Enrique.”
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quinta-feira, 7 de novembro de 2013

meia branca, fio de cabelo, caroço de ameixa

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Texto novo no blog da Companhia das Letras.
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Mother, do sul-coreano Joon-ho Bong, começa assim:



Apesar da dança excelente, esta cena de abertura pode sugerir que pela frente vamos esbarrar numa história: lírica, existencial, morosa e/ou contemplativa. Nada mais errado. Mother é um thriller dos melhores, conduzido por roteiro de fazer o cinema recente argentino esturricar e cair para o lado — em notas relacionadas: o melhor filme que vi em 2013 foi de um sul-coreano também, A visitante francesa, de Sang-soo Hong.

Joon-ho Bong é um dos meus diretores favoritos. É dele O hospedeiro, filme de monstro e mutações genéticas divertido até para quem nutre interesse negativo por filmes de monstro e mutações genéticas — para quem gosta de H.P. Lovecraft vale muito. Recentemente, foi lançada a primeira produção de Bong fora da Coreia (com Tilda Swinton e Chris Evans), Snowpiercer. O argumento é animador: o mundo sofreu um colapso climático, e um grupo de humanos sobrevive e evolui num trem, que dá voltas pela Terra, sem nunca parar. Mas confesso que o trailer me deixou meio triste (muita LUTA, tudo muito grandioso demais), e parece que o estúdio interferiu e o diretor não gostou nada do corte final também.

Mas voltemos a Mother.

A premissa do filme é simples: uma mãe superprotetora quer provar a inocência do filho adolescente num caso de assassinato. Uma colegial da pequena cidade foi morta de maneira brutal e pendurada de cabeça para baixo na sacada de uma casa, à vista de todos. Há policiais ineficientes (que assistem CSI e não se lembram da última vez que investigaram um homicídio); há um drama do passado (instalado de maneira rápida e sem muitas explicações — como se deve ser); há uma mãe que, espécie de Charles Bronson versão coreana acupunturista de meia-idade, se vê sozinha e decide fazer justiça com as próprias mãos.

Com as próprias mãos é uma expressão adequada aqui, já que Hye-ja, a mãe do título, carrega sempre consigo seu estojinho com agulhas de acupuntura. Esse detalhe (o estojinho, o fato de a personagem fazer acupuntura) está longe de ser apenas pitoresco. Pensei nisso dia desses ao rever um outro filme, Aqui é o meu lugar, de Paolo Sorrentino, em que Sean Penn vive um astro de rock velho e decadente.

Quando assisti ao filme de Sorrentino, fiquei com a impressão de que a história se afogou em uma espécie de excesso de extravagâncias. Era como se a sequência de esquisitices e de tiradas espirituosas do personagem, o tempo todo, sem descanso, fizesse tudo parecer amorfo, gratuito. Nada se destacava nem repercutia na trama. Todos os detalhes e imagens criados por Sorrentino pareciam simplesmente a serviço deles mesmos (veja como sou estranho!). Em Mother, ao contrário, a acupuntura e o estojinho com as agulhas, detalhes simples, estão no coração do enredo, de maneira tão exata que dão a impressão de que sempre estiveram ali. Não posso me estender em como isso se desenvolve, estaria incorrendo no crime do spoiler, mas creia: são detalhes que atuam como fios condutores, leitmotivs.

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Nem todos detalhes e objetos de uma trama devem funcionar assim, claro.

Mas essa era uma das formas como Robert Louis Stevenson (1850-1894) pensava o detalhe em suas histórias. O autor de A ilha do tesouro pregava certa economia no seu uso. Acreditava que contra um fundo escasso o efeito seria mais eficaz, mais plástico, mais visual. Stevenson se insurge contra certos autores de seu tempo que, “após Sir Walter Scott”, passaram a encher de detalhes seus relatos. Queixa-se de que os detalhes ou particularidades dominaram o romance até o ponto em que já não existe mais lugar para a imaginação do leitor.

O que parece ocorrer é um congestionamento visual, seja através do excesso de detalhes realistas evocado por Stevenson, ou do excesso de detalhes cool-extravagantes à Sorrentino — importante dizer que nem Aqui é o meu lugar, nem Mother são filmes que se pretendem realistas.

Do lado realista-sério, James Wood dedica ao detalhe todo um capítulo de Como funciona a ficção. E confessa também “certa ambivalência em relação ao uso do detalhe”. “Gosto, saboreio, reflito sobre ele [...]”, afirma. “Mas o excesso de detalhes me sufoca, e acho que certa tradição claramente pós-flaubertiana os transformou em fetiches”.

Num dos momentos mais interessantes do livro, o crítico inglês responde a um famoso texto de Roland Barthes, “O efeito do real”, em que Barthes argumenta a partir de um trecho do conto “Um coração simples”, de Flaubert (“Rente ao lambril, pintado de branco, alinhavam-se oito cadeiras de mogno. Um velho piano sustentava, logo abaixo de um barômetro, uma pilha piramidal de caixas e cartões”). O piano, diz Barthes, está ali para sugerir uma condição social burguesa, as caixas e cartões talvez para sugerir desordem. Mas por que há um barômetro? O barômetro não denota nada; é um objeto aparentemente “irrelevante”.

Wood, com sua verve habitual, comenta que Barthes “é rápido demais em decidir qual detalhe é relevante e qual é irrelevante” na cena, e anota que “a categoria do irrelevante ou inexplicável existe na vida, assim como o barômetro, com toda a sua inutilidade, existe em casas reais”. O barômetro, portanto, não é “irrelevante”; é “significativamente insignificante” — o objeto revelaria, afinal, algo sobre o tipo de casa do personagem em questão: de classe média, e não alta; convencional; aparentemente antiquada. Wood diz, por fim, que o romance pós-Flaubert pede uma “combinação de detalhes: alguns relevantes, outros estudadamente irrelevantes”.

Em A Note on Realism, Stevenson volta ao tema, parece dialogar com Wood. (E acho bonito pensar em como Wood e Stevenson podem estar próximos — apesar de Wood não citá-lo nenhuma vez em seu livro, o que considero injusto, já que Stevenson pensou e polemizou como poucos sobre essas questões, e eu talvez esteja escrevendo este texto apenas para vê-los assim, de mãos dadas).

Stevenson diz que tem o costume de usar poucos detalhes supérfluos em suas histórias, mas que dá muita importância ao emprego sutil de certo tipo de detalhe. Faz então uma distinção, divide os detalhes em duas categorias. Há, para ele, uma categoria de detalhes que une diferentes momentos de um relato (atuando como leitmotivs) ou que ajuda a reforçar uma cena importante e emblemática; e outra de detalhes pouco relevantes, “inexplicáveis ou anômalos”, mas que levam o leitor a imaginar uma história para justificar a presença deles.

Nas mãos de Stevenson, o detalhe “significativamente insignificante” de Wood abre “perspectivas de relatos secundários”. Um exemplo, dado pelo crítico Daniel Balderston: a lista de coisas encontradas no baú do pirata Billy Bones em A ilha do tesouro. Uma caixa de lata, cigarros, dois pares de pistolas, um velho relógio espanhol, bússolas de bronze, cinco ou seis conchas raras das Índias Ocidentais. Esses detalhes poderiam ser trocados por outros; não têm nenhuma importância crucial. Mas aqui o leitor se vê obrigado a ir além do texto, a inventar (ou ao menos vislumbrar) as histórias que ocultam esses compassos, pistolas, relógio espanhol, conchas raras etc.

Lendo, fico feliz quando um detalhe RELUZ, assim, como o estojinho das agulhas de acupuntura de Hye-ja — ou como o barômetro de Flaubert, as bússolas de Stevenson.

Meus três detalhes/objetos preferidos do universo estão em Lolita, de Nabokov, numa cena que é também uma aula excelente de como antecipar a entrada de um personagem em cena. Levado pela criada, o narrador do livro, Humbert Humbert, visita a residência da sra. Haze, em busca de um quarto para alugar. Ele sabe que não vai ficar ali, desgosta de tudo. Mas vai passando de cômodo em cômodo, torcendo o nariz, pensando os piores pensamentos possíveis. Até que Humbert tem uma visão do banheiro, onde “coisas úmidas e informes pendiam acima da banheira duvidosa”, entre elas “o ponto de interrogação de um fio de cabelo colado a uma das paredes”.

Depois, atravessa a cozinha no final do hall, passa por uma despensa, entra na sala de visitas. Lá, percebe, no meio do caminho, uma meia branca atirada no chão, um único pé — que a sra. Haze apressa-se a jogar dentro de um armário. Mais adiante, quase no pátio, sobre a mesa de mogno, vê uma fruteira, vazia; no centro apenas um caroço, ainda úmido, de uma ameixa. Então, pouco mais de uma página depois, surge Lolita.
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quarta-feira, 9 de outubro de 2013

the arm is not an arm, the arm is a head

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"In the backseat, Chibo was breathing hard—my brother hunkered down, his wheels spun in the void, the cables were cut, his wings would free themselves from the wreckage, and we’d all fall. I already knew that we’d lost contact with the base, but I didn’t tell Moptop, who looked anxiously at his insideout shirt, looked at the three small stones in his hand, looked at me.

Falling, falling, more than 20,000 feet, Moptop inserted the transmitters into his pocket, into the package of gumdrops. It was as if he were archiving the definitive evidence of the case. Through static I heard Bruno repeating: Moptop goes west. My area’s the pond. Nobody talks to nobody. Whoever gets captured better—and he was cut off by a noise, a shrill sound, heavy breathing. Then we started walking, me and Moptop (and it was an odd day), until we split up. He waved back, then kept going, singing softly:

'The arm is not an arm, the arm is a head.' I went in the opposite direction, toward the red-all-over tree, 'the mouth is not a mouth, the mouth is a bellybutton,' until the sound fadedaway."

Trecho d'O Verão do Chibo, traduzido pela Katrina Dodson, no número especial da revista da Biblioteca Nacional, publicado na Feira de Frankfurt.

Capítulo inteiro aqui.
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terça-feira, 1 de outubro de 2013

blue

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"She Found Now", My Bloody Valentine, m v b, 2013
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terça-feira, 24 de setembro de 2013

antídoto contra adulto

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Texto novo para o blog da Companhia das Letras:
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Na época em que registrava minhas eletrizantes atividades diárias numa agendinha com adesivos de surfwear (a saber: “acordei, tomei café, vi televisão, joguei videogame, jantei e dormi”), eu tinha duas leituras prediletas: a revista Mad e a Seleções do Reader’s Digest.

Ao contrário da Globo Ciência cuja assinatura pedi para o meu pai e a revista bateu à nossa porta apenas duas ou três vezes, a Seleções nós recebemos pelo resto de nossas vidas, mesmo depois de a assinatura expirar, e de ter sido cancelada, e de ninguém saber ao certo se chegou a ter realmente assinado a revista algum dia. O fato é que durante anos fizemos parte do seletíssimo grupo que travava contato mensal com histórias como a do avô que lutou com um crocodilo para salvar a vida de seu cachorro ou a da mulher para quem o incêndio da própria casa acabou sendo inspirador.

Na Mad, o que eu mais gostava era de uma seção chamada “A Mad Look At...”. Eram quatro ou cinco páginas sem diálogos com tirinhas relacionadas a um determinado tema. A seção contemplava um amplo espectro de assuntos, que iam de “Mad vê o namoro” a “Mad vê os contos-de-fada”, passando por “instrumentos musicais”, “enfermeiras”, “dinossauros”, “camping”, “serviço militar”, “zumbis” “aquecimento global”, “cabelo” etc.

Seu autor, o espanhol radicado nos Estados Unidos Sergio Aragonés, é até hoje um dos principais colaboradores da revista. A Mad foi fundada em 1952, Aragonés estreou em 1963 e até a edição de número 500, publicada em 2009, havia contribuído em 424 números. Seu traço arredondado, seus personagens desajeitados, seu sarcasmo simpático: para mim, o desenhista era o centro, terno e afetivo, da revista. (Em tempo: Aragonés é autor também de outra série emblemática, a das pequenas charges feitas nos cantinhos das páginas da Mad, as “Marginais”. São vinte e cinco desenhos por edição, e nos últimos cinquenta anos apenas um número da revista ficou sem as miniaturas — porque foram extraviadas pelo correio).

Lembro de uma de suas tirinhas em que um caminhão passava em frente à porta da Mad e despejava um latão cheio de lixo. No quadro seguinte, os editores, redatores e desenhistas iam até a calçada e, felizes da vida, recolhiam o lixo para dentro da redação. Lixo, afinal, era o que se dizia ser a matéria-prima da revista — o que inclui o papel-jornal ISO 9000 do Horror em que a Mad era impressa. No prefácio que escreveu para um dos mais destemidos romances do século XX, Ferdydurke, de Witold Gombrowicz, Susan Sontag diz algo que me faz pensar nessa charge — e na Mad, na Reader’s Digest e em todas as leituras ruins (mas boas), em todas as capas de livros feias (mas bonitas), em tudo aquilo que não faz sentido (mas faz): “A adolescência porca pode parecer um antídoto drástico para a maturidade presunçosa, e é exatamente isso o que Gombrowicz tem em mente”.


Esse é o grande tema de Gombrowicz. Como declarou no fim da vida: “Imaturidade — que palavra contemporizadora e desagradável! — tornou-se o meu grito de guerra”. Ferdydurke é a história de um homem de trinta anos que é raptado e se vê subitamente de volta ao colégio. Em meio a duelos de caretas e professores que mais parecem fatias de uma pizza amanhecida, ele proclama a imaturidade como a única maturidade possível.

É conhecida a história de que em 1939 Gombrowicz saiu da sua Polônia natal para fazer a viagem inaugural de um navio rumo a Buenos Aires. Depois de uma semana na cidade, a Alemanha declarou guerra a seu país, obrigando o escritor a permanecer na Argentina. Sua estadia, que seria de alguns dias, durou vinte e quatro anos. (O caráter acidental deste exílio, no entanto, acaba de ganhar nova versão, com o recém-lançado Kronos, um complemento de seu Diário que só agora veio a público — neste novo relato, Gombrowicz revela que sua permanência na Argentina não fora casual: a viagem havia sido estimulada por sua família, que queria afastar do território polonês o jovem autor, ante a ameaça de iminentes ações bélicas.) Seja como for, Gombrowicz se viu, assim, longe da Europa e lançado no “imaturo” Novo Mundo. 

“A principal característica da Argentina é a de uma beleza jovem e baixa, próxima do chão”, escreveu em seu Diário argentino. “Aqui, somente o vulgo é distinto. Apenas a juventude é infalível. É um país ao contrário, onde o vendedor ambulante de uma revista literária tem mais estilo do que todos os colaboradores da mesma revista.” Longe de casa, Gombrowicz vai precisar aprender os códigos locais, se adaptar, e não conhece ninguém, não sabe falar a língua, está sozinho e numa posição inferior. “Sempre tive inclinações a buscar na juventude, na própria ou na alheia, um refúgio frente aos ‘valores’, ou melhor, frente à cultura. A juventude é um valor em si, é destruidora de todos os outros valores, porque ela se basta, não necessita de nada mais. Diante do aniquilamento de tudo o que até agora possuía: pátria, casa, situação social e artística, eu me refugiei na juventude.” 

Ferdydurke foi publicado no fim de 1937, dois anos antes da viagem de Gombrowicz. A Mad tornou-se famosa durante os anos 60 e 70, no auge da contracultura. Em seu prefácio, para a edição da Yale University Press (de 2001), Sontag diz que, apesar de Ferdydurke ser um romance extravagante, brilhante, audaz e perturbador, a defesa que o autor faz da imaturidade, da juventude e de tudo o que é inferior: envelheceu. Os alvos contra os quais Gombrowicz se insurge já não existem mais. “Os ideais, de estilo europeu, de maturidade, de cultura, de sabedoria cederam claramente seu lugar às celebrações, de estilo americano, do Jovem Para Sempre”, escreve a crítica. 

Para o olhar (maduro) de Sontag, o descrédito da literatura e de outras expressões da “alta” cultura como elitistas e antivida é um produto da nova cultura presidida pelos valores do entretenimento. “Hoje, quem proclama que ama o ‘inferior’, alegará que isso não é nada inferior; é na verdade superior”, anota a norte-americana. “Dificilmente haverá, entre as acalentadas opiniões contra as quais Gombrowicz se batia, alguma que ainda seja acalentada.” 

Sontag tem um ponto. Mas, ao mesmo tempo, me parece uma alegria que em algum lugar exista Witold Gombrowicz e que possamos voltar a ele de vez em quando. Quando os tempos ficam estranhos e tudo parece igual e ditado por certo “bom-gosto” orgulhoso de si — um “bom” livro, “bom” vinho, “boa” música, “boa” arquitetura, “boa” maneira de se vestir —, faz sentido ler Gombrowicz e a sua defesa furiosa e amalucada do imperfeito. 

Como um Lewis Carrol às avessas (se pensarmos na moral vitoriana e nos jogos verbais engraçadinhos e assexuados de Carrol), Gombrowicz funda um país das maravilhas turbinado por sexo, acaso, ironia e desejo, e coloca em questão as formas cristalizadas e convencionais da língua literária. Nesse sentido, tanto ou mais que Ferdydurke, Cosmos é a sua obra-prima. O que Gombrowicz parece nos dizer é: só assim, em lugares escuros, toscos, arriscados e inesperados, é possível captar os tons de um novo estilo. 

Antes do ponto final: a leitura mais interessante e surpreendente de Gombrowicz quem fez foi Ricardo Piglia. Em “O romance polonês”, ensaio de Formas breves, o escritor argentino aproxima Gombrowicz de Borges, o que à primeira vista parece impossível — Borges, o europeu; o escritor sério e maduro por excelência. Não vou entrar em detalhes aqui, a coluna ficaria muito longa, mas vale a pena dar uma olhada: o texto de Piglia faz todo sentido e coloca em perspectiva a leitura histórica feita por Sontag, dando ainda mais brilho ao sempre jovem Gombrowicz. 
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domingo, 1 de setembro de 2013

duas entrevistas + booktrailer

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No Em Movimento, do Arte 1, em 2013:
http://arte1.band.uol.com.br/familia-e-memoria

No Entrelinhas, da Cultura, em 2010:
http://www.youtube.com/watch?v=kBmXF0K89to

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