terça-feira, 12 de março de 2013

rápido demais na moldura da janela

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"HÁ AQUILO QUE FICA FIRME (UM POSTE)
e não comove e há o que se mexe (uma árvore)
e faz barulho e chega a parecer um polvo com tentáculos
tentando agarrar as nuvens, ao contrário
das montanhas muito firmes
e sérias e certas de onde estão
mas há também o que se movimenta
rápido demais na moldura da janela: um pássaro
sempre pode ser uma andorinha ou uma águia
e um avião nunca sabemos
de onde parte para onde segue"

Alice Sant'Anna, Rabo de baleia, 2013
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sexta-feira, 1 de março de 2013

mergulho esportivo em navio naufragado

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Texto meu na nova edição da serrote, que chega às livrarias esta semana:

“Mova-se com cuidado para não levantar sedimento” é um dos mandamentos do mergulho esportivo em navios nau­fragados. Se um dos pés de pato, parte da roupa que nos torna uma espécie lenta e monstruosa de peixe, esbarra em qualquer superfície do barco, a matéria orgânica des­perta e a água fica turva.

O mesmo acontece no mergulho em cavernas. A visibi­lidade pode chegar a níveis muito baixos. Por isso, é pre­ciso usar cordas, cabos e estar preparado para sair às cegas. No mar de Coral, na Austrália, acontece o oposto: é um dos locais mais transparentes do ambiente água. Quarenta metros de visibilidade e a ilusão de que chegamos a respos­tas satisfatórias, temos domínio sobre a nossa condição.

“Esbjerg, na costa”, de Juan Carlos Onetti, é uma história sobre a opacidade. De saída, o narrador nos coloca dentro de uma situação: um casal, Kirsten e Montes, caminha pelo cais, observando a partida dos barcos. O narrador fica sabendo da his­tória que vai nos contar “sem entendê-la direito” numa manhã em que um dos personagens, Montes, vai ao seu escritório e, humilhado, confessa que o roubou. Montes, “um coitado, um amigo sujo, um canalha”, diz que escondera dele uma série de apostas para bancá-las por conta própria, e que agora não podia pagar o que perdeu. Fez isso para conseguir dinheiro para uma viagem, a da mulher, Kirsten, a seu país natal: a Dinamarca.

Mas o plano não dá certo. “Acho que Montes me contou a história, ou quase toda, no primeiro dia, quando veio me ver, com o rabo entre as pernas, a cara verde e um brilho de suor gelado, nojento, na testa e nos flancos do nariz.” Mais que sinalizar a não confiabilidade do narrador – “fiquei sabendo da história, sem entendê-la direito”; “acho que Montes me contou a história, ou quase toda” –, Onetti vai fazer da opacidade (de tudo-aquilo-que-não-se-pode-ver-ou­-entender) o tema secreto do conto.

Esbjerg é uma cidade portuária, na Dinamarca. Apresenta-se como um lugar obscuro, enigmático. Kirsten, a mulher de Montes, vive triste e não diz por quê. Enche a casa de fotografias da Dinamarca, paisa­gens com vacas, montanhas. Depois, come­çam a chegar cartas daquele país. Montes não entende uma palavra do que está escrito nelas, e Kirsten diz que “havia escrito para uns parentes distantes e que agora as respos­tas estavam chegando, embora as notícias não fossem muito boas”. Há uma frase – em dinamarquês – que Kirsten repete, e isso é o que mais impres­siona Montes. Ele não entende (nós tam­bém não), mas é contagiado pela vontade de chorar que brota da voz de Kirsten. “Deve ser, acho, porque a frase que ele não conseguia entender era a coisa mais distante, mais estrangeira, aquilo que vinha da parte des­conhecida dela”, especula o narrador.

Depois que o plano de Montes naufraga, Kirsten passa a sair sem dar explicações. Sai o tempo todo, sem dizer nada. Um dia, Mon­tes a segue. O destino de Kirsten é o porto – onde fica por muitas horas, rígida, olhando fixamente na direção da água. O relato termina com Kirsten e Montes, lado a lado, observando as partidas dos navios, “cada um pensando em coisas bem diferentes e ocultas”: uma sen­sação – e aqui a frase se afasta do narrador, e ouvimos puro Onetti – de que “estamos sozinhos, sempre um assombro quando paramos para pensar”. Ao final, a impressão é a de que também não podemos conhecer o homem que narra, e de que a história do casal serve como uma cortina de água suja entre nós e o narrador.

O que Onetti parece dizer é: não podemos ver. Nenhuma proximidade nos permitirá decifrar além da incerteza os pensamentos do outro. Não é possível chegar a respostas satisfatórias.

Em física, opacidade é o conceito mais usado para calcular quão determinado meio é penetrável/impenetrável a uma onda (ele­tromagnética ou não). A luz, por exemplo. Um meio opaco não deixa a luz ser transmi­tida integralmente; ele a absorve, refrata ou reflete. Como consequência, a intensidade do feixe de luz decai e não alcança integralmente “o outro lado”. 

De outro lado, contemporâneo de Onetti, Michel Leiris acreditava que a atividade literária “não pode ter outra justificação a não ser ilumi­nar certas coisas para si próprio ao mesmo tempo que elas se tornam comunicáveis para outrem”. Em “Da literatura como tauroma­quia”, espécie de introdução a seu projeto confessional, Leiris escreve: “Pretendia eluci­dar certas coisas ainda obscuras para as quais a psicanálise, sem torná-las inteiramente cla­ras, havia despertado minha atenção quando a experimentei como paciente”. Expressões como “iluminar”, “comunicar”, “elucidar” e “tornar claro” dão uma ideia de como a Onda Eletromagnética Leiris interage com o meio A Linguagem de Michel Leiris (clara, sem ênfase, pretensamente não literária).

Se Leiris quer "elucidar", na interação da Onda Onetti com A Lin­guagem de Juan Carlos Onetti (turva, descontínua, não linear), o efeito é outro, oposto: a busca por respostas e esclarecimento parece conduzir os personagens (e nos conduzir) a uma escuridão ainda maior – Faulkner, irmão mais velho de Onetti, dizia que a pequena chama acesa no meio da noite escura não serve senão para que percebamos a magnitude da escuridão ao nosso redor.

(Aqui, podemos pensar no nosso mundo, um mundo de naufrágios e sonhos mortos, onde a visibilidade, na maior parte do tempo e para a maioria de nós, é violentamente baixa. Como dar forma a esse mundo? Quanto podemos conhecer de alguém e de nós mesmos? Como mergulhar na água turva, cada dia mais saturada, e comunicar esse estado?)

Importante notar que a opacidade não é uma característica absoluta; ou seja, meios opacos para determinadas frequências de ondas podem ser translúcidos para outras frequências. Num exemplo simples: há vidros que são transparentes para ondas normais de luz (você consegue enxergar através deles), mas absolutamente opacos para ondas ultravioletas (que torram nossa pele na Bahia ou no mar de Coral australiano). Como regra geral, isso tem a ver com a interação entre a frequência do meio e a frequência da onda que está tentando atravessá-lo. A depender do grau de sintonia entre essas frequências, a onda consegue passar ou é barrada.

Um dos lemas da Onda Leiris é: “rejei­tar a fabulação” e só admitir como material “fatos verídicos, e não apenas fatos verossímeis como na narrativa clássica”. Leiris desejava colocar em movimento um realismo “não fingido como geralmente nos romances”, mas feito de “coisas vividas e apresentadas sem o menor disfarce”. De certo ângulo, isso parece conectado ao nosso tempo. Podemos pensar em autoficção, tramas que aproveitam fatos reais e biográficos como um valor em si, o inte­resse pela vida privada, diários devassa­dos e expostos publicamente, narrativa confessional, nossa vida diligentemente psicanalisada (a épica da subjetividade), a pressuposição de que há correspondência entre nossa percepção do mundo (“nossas verdades”) e o mundo em si, a vontade de "tornar claro", ver como as coisas são "de fato"; a crença numa ilusão de transparência – no campo de atualização de status do Facebook, somos convocados a compartilhar: “No que você está pensando?”.

Se são muitos os caminhos que nos levam à encenação da transparência (à diluição do gesto autobiográfico de Leiris), Onetti é uma espécie de mestre zen da opacidade – sua figura reforça isso: sempre na cama, deitado, fumando, escrevendo em pequenos pedaços de papel, com os lençóis cheirando a gim de má qualidade. No entanto, a entrada nesse mundo de água turva não se dá por meio do fantástico ou do mágico, como em parte de seus contemporâneos latino-americanos. Os contos mais inesquecíveis (e dolorosos) de Onetti – “Um sonho realizado”, “O inferno tão temido” e “A face da desgraça”, além de “Esbjerg, na costa” – são narrativas realistas, que dialogam de maneira sofisticada com o modernismo (mas sem deixar-se escra­vizar). Há na Frequência Onetti, na sua inte­ração com a Linguagem Onetti, um jogo de afirmação e negação do real – uma corrente subterrânea que parece conectá-lo a Bolaño (e a Borges). Isso se dá principalmente porque dentro das histórias há sempre alguém que: conta, imagina, inventa, recorda. Ou seja, os mecanismos da memória, da invenção involuntária, da ignorância parcial e da desfiguração do tempo são parte do que se narra.

Quando lemos (a vida, os livros), o que buscamos é que as coisas se esclareçam. Queremos que o feixe de luz alcance o outro lado. Queremos "ver e entender" – o que nos dá uma sensação inequívoca de con­forto e felicidade. É isso que nos faz avan­çar num romance, por exemplo: a busca por um motivo, uma lógica, um propósito. A vida, de forma geral, também funciona assim. Todavia, é inevitável (e tão certo quanto a morte), há coisas que não podemos ver. Há pontos cegos, ris­cos, distorções.

Como no mergulho em navios naufra­gados, tudo acontece entre a opacidade e a transparência. Podemos contrapor essas duas categorias para fins práticos e esté­ticos, mas a verdade é que uma coisa não existe contra a outra. À nossa revelia, elas convivem, o tempo todo. Por isso, pode parecer paradoxal, mas Onetti, apesar de sua eventual não linearidade, da temporalidade turva de suas histórias – ou talvez justamente por isso –, é um escritor trans­parente. É transparente em sua tentativa de encenar a opacidade. Nele, conseguimos enxergar que não podemos enxergar.
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domingo, 17 de fevereiro de 2013

acertem seus relógios

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Chromatics, Kill for love, 2012
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sábado, 9 de fevereiro de 2013

como o ar sustenta e faz voar os papéis

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Jeff Wall, A sudden gust of wind (after Hokusai), 1993

"Quando eu estava produzindo A sudden gust of wind, estava decidido a mostrar de que maneira o ar sustenta e faz voar os papéis. Hokusai já tinha resolvido alguns desses problemas. Se formos analisar sua composição, veremos que muitos dos seus pedacinhos de papel coincidem com pontos importantes do retângulo. E sua composição transmite a impressão de um arranjo acidental. Não é nada acidental, mas ele sabia como criar essa aparência. Já eu achava que o único modo de conseguir esse efeito era criar situações aleatórias, produzir grande quantidade de movimento e depois trabalhar a partir de uma fartura de material a editar.

E assim criamos um modo de fazer voar uma grande quantidade de papel, tentando depois pensar tanto o retângulo quanto a corrente invisível de ar em três dimensões. À medida que os papéis se deslocam no sentido da profundidade, afastam-se de nós e ficam menores. Trabalhei muito em torno dessa questão e tentei compor. É só uma impressão, uma sensação do real, de como as coisas são ou deveriam ser na verdade."

Mais fotos e comentários excelentes, aqui.
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quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

foie gras

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Acerca do tema da próxima edição da Granta, BETRAYAL, uma breve história com patos.

"I got the feeling, quack, that we’ve seized the castle, quack-quack, that the banging of pans is ours, that we’re in more than we’ve ever been, that this one at the kitchen, knife in his hand, quack, he’s gonna help us, yes, that these onions and tomatoes, quack-quack, all of that, is our plan working out."

("Tenho a impressão, quén, de que tomamos o castelo, quén-quén, que o bater panelas é nosso, que a gente está mais dentro do que nunca, que aquele ali na cozinha, de faca na mão, quén, vai nos ajudar, vai sim, que essas cebolas e tomates, quén-quén, isso tudo é o nosso plano dando certo").
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quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

creperia, calçadão e discoteca

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Alan Pauls sobre Eric Rohmer e a praia (trecho de A vida descalço):

"Não é o sul, não é o Mediterrâneo, não são as orlas chiques que aparecem nos filmes de Rohmer (e quando aparecem, como Biarritz em O raio verde, aparecem planas, sem brilho nem sedução), e sim as praias comuns da Normandia ou da Bretanha, tão impessoais, tão carentes de cor local e de glamour quanto uma colônia de férias do sindicato geral de adolescentes. As histórias se passam no verão, mas o tempo nem sempre ajuda: os impávidos céus azul-celeste são a exceção, não a regra, e os veranistas rohmerianos devem se contentar amiúde com o duvidoso encanto das manhãs ventosas, a nebulosidade tenaz e um sol metálico que enfeia cruelmente os corpos e obriga a seduzir ou a ser seduzido entrecerrando os olhos. No entanto, nunca o cinema de Rohmer parece tocar tanto o coração do desejo como quando se instala nesses balneários de meia tigela, que preferem a funcionalidade do banal a qualquer forma de beleza natural. Antes de seus atrativos visuais, Rohmer escolhe a praia porque seu sistema, altamente dependente da meteorologia, ao mesmo tempo regular (estações, ciclos, biorritmos, fases naturais: mais de uma vez o cineasta declarou que o único roteiro que usou em O raio verde foram as tábuas de marés) e caprichoso (imprevistos, variáveis difíceis de controlar, acontecimentos excepcionais), parece reproduzir numa escala atmosférica o jogo de mecânica e acaso, maquiavelismo construtivo e aleatoriedade, que ocupa o centro da arte rohmeriana. A praia, além do mais, é o território das férias, do ócio, da disponibilidade: estados de potência frágeis e ao mesmo tempo promissores que prolongam e preparam os pequenos grandes incidentes (encontros, coincidências, encadeamentos, equívocos) de que são feitas as histórias de Rohmer. Mas principalmente porque a praia é o espaço hipercondutor por excelência, e, portanto, o tipo de território ideal para que o desejo, força nunca conforme, sempre distraída, desdobre toda sua mobilidade e descreva suas trajetórias mais caprichosas. Segundo o idioma rohmeriano, a praia só é permeável ao erotismo na medida em que impede que o desejo se fixe numa posição sedentária e o condena a não ceder, a seguir sempre adiante, a peregrinar sem descanso. Assim, reduzida a uma espécie de princípio conceitual, a praia aparece como esvaziada, puro espaço de circulação onde nascem os ímpetos eróticos e os marivaudages do coração que depois terão lugar em outra parte. Porque “a praia”, segundo Rohmer, é basicamente essa “outra parte”: não a areia, nem o mar, nem os guarda-sóis, e sim os passeios adjacentes, os bares, os calçadões, as creperias, as discotecas, os quartos de hotel, as casas de veraneio. Quando Rohmer a surpreende tomando sol na praia de Dinard, o bronzeado de Margot, a protagonista de Conto de verão, passa quase despercebido. É só ao vê-la atendendo à mesa de Gaspard na creperia onde trabalha, ou caminhando a seu lado entre árvores, ou empreendendo uma excursão ao refúgio de um velho marinheiro — ou seja: naqueles momentos em que a marca que a praia deixou nela reaparece num contexto heterogêneo —, que notamos a cor que suas faces adquiriram, esse rubor tênue, mas paulatino, que se intensifica à medida que o filme avança (Rohmer costuma filmar suas ficções estivais em ordem cronológica, do princípio ao fim), em que se confundem a influência do sol e a excitação, a natureza e o pudor, e que termina por torná-la desejável. Ao contrário, a praia, contexto forte, introduz tamanho contraste com a vida que as percepções da identidade podem se alterar: no dia seguinte, depois de ter comido na creperia onde Margot o atendeu, Gaspard topa com ela na praia, mas não a reconhece; é ela quem o interpela e o faz lembrar que se conheceram. Além de postular uma sutil defasagem social — os clientes nunca se lembram dos garçons; os garçons sempre dos clientes —, a cena descreve bem o efeito de vida dupla que a praia institui: vestidos não somos os mesmos que de maiô, e quem nos vir entrando no mar provavelmente não nos reconhecerá à noite tomando sorvete na calçada ou dançando na discoteca."
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terça-feira, 8 de janeiro de 2013

vida descalço

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Caraíva, novembro 2012
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sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

multiplicação e batatas

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Dois trechos de O sentido de um fim, do Julian Barnes.

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"Será que o caráter se desenvolve com o tempo? Nos romances, é claro que sim: senão não haveria muita história para contar. Mas e na vida? Eu às vezes tenho dúvidas. Nossas atitudes e opiniões mudam, nós desenvolvemos novos hábitos e excentricidades; mas isso é uma coisa diferente, mais como uma decoração. Talvez o caráter se pareça com a inteligência, só que o caráter alcança o seu ápice um pouco mais tarde: entre os vinte e os trinta, digamos. Depois disso, somos obrigados a nos contentar com o que temos. Estamos por nossa conta. Se for assim, isso explicaria um bocado de vidas, não é? [...] A questão da acumulação. Você põe dinheiro num cavalo, ele vence, e seus lucros vão para o próximo cavalo na próxima corrida, e assim por diante. Seus lucros se acumulam. Mas o mesmo acontece com as suas perdas? Não em corridas de cavalos — nelas, você simplesmente perde a sua aposta original. Mas e na vida? Talvez aqui se apliquem regras diferentes. Você aposta num relacionamento, ele fracassa; você passa para outro relacionamento, ele fracassa também: e, talvez, o que você perca não sejam duas simples somas de números negativos, mas a multiplicação do que você apostou. Pelo menos, essa é a impressão. A vida não é feita só de adição e subtração. Há também a acumulação, a multiplicação de perdas e fracassos."

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"Um dia, eu disse ao barman:
—Você acha que poderia me preparar batatas fritas finas para variar?
— Como assim?
— Você sabe, como na França, aquelas fininhas.
— Não, aqui não fazemos desse tipo.
— Mas no cardápio diz que elas são cortadas à mão.
— Sim.
— Bem, não dá para cortá-las mais finas?
A costumeira afabilidade do barman fez uma pausa. Ele me olhou como se não soubesse ao certo se eu era um pedante ou um idiota, ou talvez as duas coisas.
— Batatas cortadas à mão significa batatas grossas.
— Mas se você corta batatas à mão, não poderia cortá-las mais finas?
— Nós não as cortamos. Elas vem assim.
— Elas não são cortadas aqui?
— Foi o que eu disse.
— Então o que vocês chamam de "batatas cortadas à mão" são na verdade batatas cortadas em outro lugar, e muito provavelmente por uma máquina?
— O senhor é fiscal da prefeitura, ou algo assim?
— De jeito nenhum. Eu só estou intrigado. Eu nunca me dei conta de que "cortada à mão" significava "grossa" e não "necessariamente cortada à mão".
— Bem, agora o senhor sabe."
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terça-feira, 18 de dezembro de 2012

mudou a minha vida

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“I had long worried that I was incapable of having a profound experience of art and I had trouble believing that anyone had, at least anyone I knew. I was intensely suspicious of people who claimed a poem or painting or piece of music “changed their life,” especially since I had often known these people before and after their experience and could register no change.

Although I claimed to be a poet, although my supposed talent as a writer had earned me my fellowship in Spain, I tended to find lines of poetry beautiful only when I encountered them quoted in prose, in the essays my professors had assigned in college, where the line breaks were replaced with slashes, so that what was communicated was less a particular poem than the echo of poetic possibility. Insofar as I was interested in the arts, I was interested in the disconnect between my experience of actual artworks and the claims made on their behalf; the closest I’d come to having a profound experience of art was probably the experience of this distance, a profound experience of the absence of profundity.”

Ben Lerner, Leaving the Atocha Station, 2011 (via Nesky)
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