quarta-feira, 11 de agosto de 2010

meu programa de tevê favorito

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Cooking with dog, narrado pelo cão, Francis.
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sexta-feira, 23 de julho de 2010

vida secreta

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Texto para o Outlook do fim de semana.
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Todos nós, em maior ou menor grau, experimentamos (e alimentamos) aquilo que pode ser chamado de “a vida secreta”. O termo se refere aqui a coisas ínfimas que perderiam a graça e/ou soariam ridículas e sem sentido se fossem contadas (porque as palavras as diminuem).

Exemplos:

No caminho para o trabalho, seguir por trajeto alternativo (mais longo) só para passar sob uma marquise que, por algum motivo, achamos bonita;

Idas solitárias à papelaria para escolha e compra de canetas;

Tentativa de pisar sempre na parte branca do segundo degrau da entrada do prédio;

Choro em posição fetal durante o banho (água fria);

Passar as compras única e exclusivamente no caixa 8, mesmo com fila maior, porque é o da atendente ruiva e de covinhas;

Etc.

Uma das características da vida secreta, talvez a mais marcante, é o não-utilitarismo de seus atos. E um dos seus exemplos mais bem-acabados talvez esteja no diário argentino de Witold Gombrovicz.

O escritor polonês, que por muitos anos viveu em Buenos Aires, conta que certa vez entrou no banheiro de um café da Calle Callao e viu as paredes cobertas de escritos e desenhos. Depois de algum tempo fechado ali, sozinho, “em uma espécie de intimidade”, decidiu contribuir com o work in progress local; sacou do bolso um lápis, molhou a ponta com saliva e rabiscou algo, “na parte de cima, para que fosse mais difícil apagar, algo completamente idiota”.

Então guardou o lápis. Abriu a porta e saiu. Atravessou o café e se misturou à multidão da rua. “Aquilo ficou lá, escrito”, conta o autor de Ferdydurke. “E desde então”, diz, “vivo com a consciência de que o que escrevi está lá.”

Essa história da vida secreta de Gombrovicz (lembrança frequente de que, por alguma razão, escreveu algo idiota na parede daquele banheiro) me veio à cabeça agora quando estampou os jornais a notícia de que durante escavações no Marco Zero, onde ficava o World Trade Center, em Nova York, operários encontraram a carcaça de uma embarcação de 9,75 metros de comprimento. Segundo arqueólogos, o navio pode ter afundado no século dezoito. Uma âncora de 45 quilos também foi encontrada no local.

Ou seja, do início dos anos 70, quando as torres ficaram prontas, até 2001, quando foram destruídas nos ataques de 11 de setembro, o World Trade Center manteve no seu subsolo um barco.

Se os lugares (praças, parques, prédios) tivessem vidas secretas – e eu aposto que sim –, essa sem dúvida seria uma das mais perturbadoras. Um barco no porão. Um prédio tão grande e asseado, com empresas e escritórios. Um lugar em que tudo converge para a eficiência. E um barco, velho e imundo, enterrado no porão. Contado assim, as pessoas olhariam de lado, disfarçando. Ninguém entenderia.
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quarta-feira, 14 de julho de 2010

buscar o estilo

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"Lembro-me da forte impressão que o estilo de Damon Runyon, tão singular, produzia em mim quando eu era jovem. Era um estilo que saltava aos olhos e dizia: 'Olhe bem para mim! Isto aqui é um estilo!' E Hemingway também tinha um estilo. São dois notáveis estilistas. Mas aí fui ler Graham Greene e não encontrei estilo nenhum. E me perguntei por que ele não tinha estilo. Eu gostava imensamente dos seus contos e dos seus romances, mas como era o estilo de Greene? E é claro que ele tinha um estilo extraordinário para contar suas histórias, com grande economia e inteligência. E é óbvio que eu tinha um entendimento adolescente do que fosse estilo, valorizando apenas as maneiras que os escritores encontravam de ser originais. Eu admirava os jornalistas cheios de estilo, como Red Smith e Mencken. O que eles escreviam era inconfundível. E o que procurei fazer bem no início, ainda estudante, foi moldar um estilo para mim, mas logo percebi que este era um esforço em vão. Eu não conseguia fazer mais do que de imitar Red Smith, ou Hemingway, ou Runyon, ou quem quer que fosse, e acabei desistindo. E percebi que aquela busca era fatal. Toda vez que eu relia os meus textos, eu pensava que o autor não era eu, era outra pessoa. E então quando me tornei jornalista sempre tentei dizer as coisas de um modo que nem era cheio de clichês e nem banal — engraçado quando possível, ou dramático se possível. Comecei a expandir minha linguagem: as frases foram ficando mais complicadas, o vocabulário mais obscuro (uma vez, usei a palavra “eclético” numa reportagem e, no jornal, saiu “elétrico”). Era um esforço deliberado para escrever de uma forma artística, mas acabei desistindo disso também. Então comecei a escrever do único modo que eu conseguia, o que me vinha à cabeça, da maneira mais natural possível. E foi a partir daí que comecei a evoluir e acabei encontrando um caminho." (William Kennedy, na Paris Review, 1989.)
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domingo, 27 de junho de 2010

a fila de wimbledon

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Texto para o Outlook desta semana.
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Para os britânicos, o tênis é um esporte empolgante, imprevisível e maravilhoso, principalmente quando se está do lado de fora do estádio, acampado, numa fila de vinte quilômetros. É por isso que o torneio de Wimbledon, cuja edição 2010 começou há alguns dias em Londres, é responsável pelo maior orgulho do país: a fila de Wimbledon.


Trata-se de um lugar para destemidos. Cerca de três mil pessoas ingressam na fila todos os dias até o fim da competição. O objetivo é apenas um: conseguir entradas para assistir aos jogos da quadra principal. Senhas são distribuídas e é proibido guardar lugar. Furar a fila é crime (punido com cerimônia de empalamento comandada por Roger Federer). Enquanto avança-se em marcha lenta (em 2005, houve espera de 36 horas para ver Tim Henman), é possível pedir pizza, cachorro-quente, comida chinesa do Mr. Chow ou fish and chips. Tudo delivery. Basta informar coordenadas como árvore mais próxima ou gorro vermelho do amigo da frente e voilà.

Grupos carregam caixas de cerveja. Jovens do Greenpeace pedem contribuições para salvar os galgos da Indonésia. Apostas são feitas -- segundo meu amigo Bernie, a família inglesa média gasta semanalmente mais com apostas (£3,60) do que com a compra de legumes (£3,40) ou frutas frescas (£2,80) -- e adesivos com a inscrição "Eu fiquei na fila em Wimbledon" são distribuídos e prontamente colados em bonés, bochechas, bebês e camisetas.

Além dos vendedores de guarda-chuva (estamos em Londres) e chaveiros de bola de tênis, representantes das mais diversas marcas oferecem amostras grátis de iogurte, água sabor pêssego, choco crispys etc. Duas moças passam distribuindo pequenas colheres -- embora ninguém saiba muito bem o que fazer com elas --, e o homem que se veste como Sr. Hulot anuncia que vai pintar o cabelo de loiro e participar do concurso de sósias do Boris Becker.

Aos poucos, a fila caminha, até a catraca, deixando para trás sua própria multidão em ziguezague, o pessoal de pé e o pessoal sentado, os com travesseiros e os sem travesseiros, os com cobertor e a turma da vuvuzela. Logo, com alguma sorte, a quadra principal surge, radiosa. Mas quem alcança o objetivo e coloca os pés no verde e púrpura de Wimbledon vai perceber que dali para a frente tudo acaba muito rápido (um set, dois), e é da fila que vai lembrar depois.

Em São Paulo, nesses dias de Copa, acontece parecido: o trabalho pára, a fila de carros cresce, nas ruas as pessoas brandem corneta, apito e bandeira. Então parece que são 36 horas assim, fila, as camisas da Seleção, até todo mundo conseguir entrar nas casas, nos bares, no churrasco do irmão, do primo. O hino. Depois, o jogo mesmo, é rápido, plof. Tudo acaba, e a gente volta pra casa pensando no trabalho do dia seguinte, em toda vizinhança que gritou gol muito antes, quando o nosso atacante ainda se preparava pra chutar (o delay que vem atacando as transmissões da Copa), e a gente volta pra casa, como se voltasse para o fim da fila.
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terça-feira, 8 de junho de 2010

história do azul

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Com o mestre DW, trabalhando na graphic novel (ainda sem título, mas azul) que deve ser publicada no próximo ano, pela Cia das Letras.
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segunda-feira, 31 de maio de 2010

ameixas, ame-as ou deixe-as

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Texto para o Outlook do fim de semana. Sobre coisas deixadas por aí.
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Na última terça-feira, duas novas estações foram inauguradas no metrô de São Paulo, Faria Lima e Paulista. Mas elas ainda não existem. Para que uma estação de metrô – rodoviária ou aeroporto – passe a existir de fato, é necessário que alguém, em algum momento, perca um objeto. Guarda-chuva esquecido no banco, título de eleitor que caiu no trilho, casaco na escada rolante. O “achados e perdidos” é a quintessência da estação de metrô e, cada vez mais, estilo de vida.

(Sobe vinheta)

Em abril, no Festival Internacional de Cinema Independente de Buenos Aires, uma seção foi dedicada ao que a comunidade do cinema chama de “found footage” (gravações achadas), filmes feitos exclusivamente com material filmado por outros e encontrados por aí. Quando um turista esquece a câmera numa estação do metrô, crescem exponencialmente as chances que um “footage finder” (descobridor de gravação) encontre a fita e transforme tudo em filme experimental de quatro horas com a chamada "narrativa não-linear”.

Nos Estados Unidos, a moda chegou antes.

(Imagem de populares nas ruas de Michigan)

Desde 2001, os amigos Davy Rothbart e Jason Bitner editam a Found Magazine. A ideia da revista (toda feita de bilhetes extraviados, cartões postais achados no meio de livros, fotos perdidas, poesia em lenço de papel, post-it com dedicatória, lição de casa de algum sobrinho descuidado) surgiu quando, numa noite de neve, em Chicago, Davy encontrou um guardanapo no pára-brisa de seu carro. O recado dizia:

“Mario,

Eu te odeio.

Você disse que estaria no trabalho e por que diabos o seu carro está AQUI, nesse lugar? Você é um maldito MENTIROSO. Eu te odeio. Eu te odeio pra valer.

Amber.

Ps: Me liga mais tarde”

(Corta. Metrô de São Paulo)

As coisas perdidas podem ser de natureza diversa. Armação de óculos, clipes, receita médica, chave da casa. Um dia, o poeta Francis Ponge foi convidado por uma amiga a dar uma palestra numa faculdade. Tímido, sem saber muito bem por onde começar, achou que seria interessante dizer que “não estamos sozinhos aqui”. E então pediu um minuto de silêncio em homenagem às coisas da sala, “estas coisas cujo silêncio, uma vez mais, estamos roubando”: as paredes, as tábuas do assoalho, as chaves nos bolsos de cada um; “todos objetos que nos acompanharam, e que estão aqui conosco e devem se calar à força – talvez a contragosto –, e dos quais não tomamos conhecimento nunca”.

Certa vez, outro poeta, William Carlos Williams, deixou um recado para a esposa, certamente escrito com esferográfica em papel de pão:

“Só pra avisar

Comi as ameixas
que estavam
na geladeira

aquelas
que você provavelmente
guardou
para o café-da-manhã

Me desculpe
estavam ótimas
tão doces
e tão frias”

Até o fim desta reportagem, todavia, não houve registro de nenhum objeto ou bilhete esquecido nas novas estações do metrô paulistano.

(Sobe vinheta)
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sexta-feira, 28 de maio de 2010

assistência técnica marcel mauss

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Marcel Mauss, em Sociologia e antropologia:

"Técnicas do tossir e do cuspir. Uma garotinha não sabia cuspir, o que agravava seus resfriados. Fui informado de que na aldeia de seu pai e particularmente na família de seu pai, no Berry [província da França], ninguém sabia cuspir. Ensinei-lhe a fazer isso. Dava-lhe uma moeda por cuspida. Como ela queria muito ter uma bicicleta, aprendeu a cuspir. Foi a primeira da família a saber cuspir."

"Técnicas da atividade: descida. Nada mais vertiginoso do que ver num declive um Kabyla com seus chinelos. Como ele consegue firmar-se, e sem perder os chinelos? Tentei fazer o mesmo, não compreendo."

"Técnicas de repouso. O repouso pode ser repouso completo ou simples pausa: deitado, sentado, agachado etc. (...) A maneira de sentar-se é fundamental. Podeis distinguir a humanidade de cócoras e a humanidade sentada. E, nesta última, os povos com bancos e os sem bancos e estrados, os povos com assentos e os sem assentos."

"Técnicas do sono. Há os povos com travesseiros e os sem travesseiros. Há o uso do cobertor. Povos que dormem cobertos e os que dormem não cobertos. Há, enfim, o sono em pé."
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sábado, 15 de maio de 2010

casa nova

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Girls, "Lust for life" (e no Don't look down, da Pitchfork. Oi, anos 90)
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sábado, 8 de maio de 2010

nem parece banca

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Texto do mês para o Outlook, do Fred Melo Paiva. Sobre figurinha.
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Desde a última semana, quando o roubo de figurinhas da Copa (135 mil pacotes; 675 mil cromos) substituiu o assalto a banco, o dinheiro como conhecemos perdeu a graça. O beija-flor, a onça-pintada e o mico-leão-dourado (notas de cem, cinquenta e vinte reais, respectivamente) deram lugar a expressões faciais como a do norte-coreano Mun In-Guk (feliz) e do sul-africano Siphiwe Tshabalala (aflito), ao corte de cabelo de Charles Puyol e ao Ronaldinho Gaúcho.

Os cromos circulam, se desvalorizam, se entesouram; há inflação, há escassez. Na feira, o maço de brócolis já custa dois atletas de Honduras. O quilo do feijão, no supermercado, não sai por menos que um escudo australiano. As promoções anunciam televisores por dez cromos de meio-campistas de Gana. Há, no fim do mês, as contas a pagar: de luz (“Lionel Messi”), água (“mascote e estádio Nelson Mandela”), telefone, internet e tevê a cabo (“por mais cinco chilenos e duas brilhantes, você leva o pacote premium, senhor”). E muitos dependem do salário mínimo, que terá reajuste de Gilberto Silva, para desespero geral.

Se na Copa de 2006, meu amigo Antonio quase chorou sangue quando, num churrasco da família, um garoto se aproximou de seu escudo brilhante do Togo com as mãos sujas de sanduíche de linguiça vazando vinagrete, a situação agora ganha contornos ainda mais dramáticos. O sucesso das figurinhas da Copa (espera-se que até agosto 150 milhões de envelopes sejam vendidos) fez com que elas deixassem de ser apenas mania, para se tornarem a gloriosa moeda de um país. Basta olhar a sua volta – ou, claro, no próprio bolso.

Há, naturalmente, os obcecados pela usura. Sob elásticos equivalentes a caixas-fortes, senhas e contas na Suíça, se amontoam pilhas e pilhas de cromos autocolantes. Entre os usurários, existe aquele que se aproveita do poder (cinquenta Julio Cesar repetidos) para fazer amigos e sentir-se querido e admirado; o que não aceita que ninguém o ultrapasse na quantidade de escudos brilhantes; o que não se desfaz, em hipótese alguma, de sua coleção de Samuel Eto’o.

Do outro lado, no time dos que esbanjam, é conhecida a história de que James Joyce estabelecia uma conexão entre sua escrita e o desperdício de dinheiro (cromos). Famoso por distribuir generosas gorjetas (mesmo quando estava na pior), Joyce costumava dizer, frente às críticas da esposa, que o fluxo de dinheiro estava secretamente ligado a sua criatividade. E há a especulação, os empréstimos, o crédito, o lucro.

O jogo de bafo, prática outrora comum entre crianças, foi proibido, mas sobrevive na clandestinidade. Nas ruas em que piscam letreiros de peep show, segunda porta à esquerda, desce escada, fim do corredor, parede falsa: o jogo de bafo movimenta milhões de cromos. Isso sem falar nas operações de lavagem de figurinhas, figurinha na meia, na cueca.

Na nossa nova realidade monetária, a dos cromos autocolantes, é preciso investigar nossas relações com escudos reluzentes, David Beckham repetidos e a produtividade (geradora de figurinhas). Só assim poderemos nos posicionar diante de tal lógica econômica.
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