segunda-feira, 8 de julho de 2019

a lebre dourada

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"No coração da tarde, o sol a iluminava como um holocausto nas lâminas da história sagrada. As lebres não são todas iguais, Jacinto, e não era sua pelagem, acredite, que a distinguia das outras lebres, não eram seus olhos de tártaro nem a forma caprichosa de suas orelhas; era algo que ia muito além do que nós, humanos, chamamos de personalidade.

As inumeráveis transmigrações que sua alma tinha sofrido lhe ensinaram a se tornar invisível ou visível nos momentos indicados, para haver cumplicidade com Deus ou com alguns anjos intrépidos. Durante cinco minutos, ao meio-dia, ela detinha-se sempre no mesmo lugar da campina; com as orelhas erguidas, escutava algo.

O ruído ensurdecedor de uma cachoeira capaz de afugentar os pássaros e a crepitação do incêndio de um bosque, que aterroriza as feras mais temerárias, não teriam dilatado tanto seus olhos; o pressentido murmúrio do mundo do qual se lembrava, povoado de animais pré‑históricos, de templos que pareciam árvores ressecadas, de guerras cujos objetivos eram alcançados pelos guerreiros quando os objetivos já eram outros, deixavam‑na mais dona de si e mais sagaz. Um dia parou, como de costume, na hora em que o sol cai vertiginosamente sobre as árvores, sem lhes permitir fazer sombra, e ouviu latidos, não de um cachorro, e sim de muitos, que corriam enlouquecidos pela campina.

Com um salto seco, a lebre cruzou o caminho e começou a correr; os cachorros correram atrás dela confusamente.

— Para onde vamos? — gritava a lebre com a voz trêmula, apressada.

— Até o fim da sua vida — berravam os cães com vozes de cães.

Esta não é uma história para crianças, Jacinto; talvez influenciada por Jorge Alberto Orellana, que tem sete anos e sempre me pede que lhe conte histórias, é que cito as palavras dos cães e da lebre, que o deixam encantado. Sabemos que uma lebre pode ser cúmplice de Deus e dos anjos, se permanecer muda diante de interlocutores mudos.

Os cachorros não eram maus, mas tinham jurado alcançar a lebre com a única intenção de matá‑la. A lebre adentrou um bosque, onde as folhas estalavam estrepitosamente; cruzou um prado em que o pasto ondulava com suavidade; cruzou um jardim, onde havia quatro estátuas das estações do ano, e um pátio coberto de flores, onde algumas pessoas ao redor de uma mesa tomavam café. As senhoras pousaram as xícaras para ver a carreira desenfreada que, em suas passagens, derrubava a toalha, as laranjas, os cachos de uva, as ameixas, as garrafas de vinho. Na primeira posição estava a lebre, ligeira como uma flecha; na segunda, o cão pila; na terceira, o dinamarquês preto; na quarta, o tigrado grande; na quinta, o pastor; na última, o galgo. Por cinco vezes, a matilha, correndo atrás da lebre, cruzou o pátio e pisou as flores. Na segunda volta, a lebre ocupava a segunda posição e o galgo, sempre em último. Na terceira volta, a lebre ocupava a terceira posição. A carreira seguiu através do pátio; cruzou‑o outras duas vezes, até que a lebre ocupou a última colocação. Os cães corriam com a língua de fora e os olhos entreabertos. Nesse momento começaram a desenhar círculos, maiores ou menores à medida que aceleravam ou diminuíam a marcha. O dinamarquês preto teve tempo de afanar um alfajor ou algo parecido, que manteve na boca até o fim da corrida.

A lebre berrava:

— Não corram tanto, não corram assim. Estamos passeando.

Mas nenhum deles a escutava, porque sua voz era como a voz do vento.

Os cachorros correram tanto que, afinal, caíram desfalecidos, a ponto de morrer, com a língua de fora feito um trapo comprido e vermelho. A lebre, com sua doçura cintilante, aproximou‑se deles levando no focinho trevos úmidos, que pôs sobre a testa de cada um dos cães. Eles voltaram a si.

— Quem colocou água fria em nossa testa? — perguntou o maior deles.

— E por que não nos deu de beber?

— Quem nos acariciou com os bigodes? — disse o menor. — Achei que eram moscas.

— Quem nos lambeu a orelha? — interrogou o mais magro, tremendo.

— Quem salvou nossa vida? — bradou a lebre, olhando para todos os lados.

— Tem algo estranho aqui — disse o cão tigrado, mordendo com minúcia uma das patas.

— Parece que éramos em maior número.

— Será porque estamos cheirando a lebre? — disse o cão pila coçando a orelha. — Não seria a primeira vez.

A lebre estava sentada entre seus inimigos.

Tinha assumido uma postura de cachorro. Em certo momento, até ela duvidou se era um cachorro ou uma lebre.

— Quem será este que está olhando para nós? — perguntou o dinamarquês preto, movendo uma só orelha.

— Nenhum de nós — disse o cão pila, bocejando.

— Seja lá quem for, estou muito cansado para olhar para ele — suspirou o dinamarquês tigrado.

De súbito, ouviram‑se vozes, que chamavam:

— Dragão, Sombra, Ayax, Lurón, Senhor, Ayax.

Os cachorros saíram correndo e a lebre ficou imóvel por um momento, sozinha, em meio à campina. Mexeu o focinho três ou quatro vezes, como se estivesse farejando um objeto afrodisíaco.

Deus, ou algo parecido a Deus, a estava chamando, e a lebre, talvez revelando sua imortalidade, fugiu num salto."

Silvina Ocampo, "A lebre dourada", em A fúria (tradução Livia Deorsola)
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domingo, 2 de junho de 2019

tudo é uma coisa só

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No Rascunho, texto do crítico Ricardo Silva sobre o Sebastopol.

 
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Em 1855 foi publicado o trabalho que seria a base do clássico Guerra e paz, de Liev Tolstói: Contos de Sebastopol. Em três narrativas curtas, o escritor russo destrincha episódios sobre a Guerra da Crimeia em contos cujos títulos eram nominados através dos meses do ano. Esse exercício de abreviada extensão serviu como estrutura fundamental para erigir o volumoso colosso responsável por consagrar seu nome na história da literatura.

Num exercício semelhante, surge Sebastopol, estreia solo do jornalista e escritor Emilio Fraia. Como na obra de Tolstói, o trabalho de Fraia também se divide em três contos cujos títulos são meses do ano.

Três histórias que ecoam entre si, num encontro e desencontro de pontos em comum, e que funcionam como uma sala de espelhos cujos reflexos são sempre indiretos e por vezes distorcidos.

No primeiro relato, "Dezembro", a jovem montanhista Lena conta sua história em tom quase epistolar. A protagonista almeja escalar o topo do mundo, o monte Everest. Este objetivo vira uma obsessão para a jovem e, no decorrer da história, essa obsessão é responsável por transformar sua jornada existencial por completo.

No seu relato aparece a figura de Gino, um cinegrafista que quer alcançar a glória de encontrar as imagens perfeitas. A relação de ambos é retratada por Lena como se esta escrevesse uma carta, num exercício de memória estimulado por um filme de uma estranha e misteriosa realizadora belga, no qual a narradora vê ecos da história de sua vida.

Lena recorda, então, o trágico acidente que lhe acomete na tentativa de vencer seu Moby Dick pessoal. Tudo isso num relato sóbrio e melancólico.

Em "Maio", segunda narrativa, Sebastopol apresenta a história do desaparecimento de Adán, um peruano-brasileiro que some no seio da floresta amazônica brasileira depois de hospedar-se numa pousada semiabandonada.

Este conto, dos três, é o que mais se aproxima da perspectiva fantástica de uma narrativa permeada de mistérios que não precisam ser solucionados. Sua condução é onírica, alucinatória e expõe um escritor que quer brincar com a ideia de memória e do passado, que quando “é esvaziado, quando nos livramos dele, podemos viver outras vidas, encontrar a nossa história nas outras vidas, como se houvesse uma continuidade dos corpos, das consciências”.

O conto termina sem um final definido e tudo fica solto no ar, a espera de uma solução que apenas o leitor pode encontrar (ou não).

Em "Agosto", uma jovem chamada Nadia embarca na produção de uma peça sobre a cidade de Sebastopol e um pintor russo que retratava os soldados da Guerra da Crimeia. Seu parceiro nesta empreitada é Klaus, um dramaturgo notório pelos fracassos de todas as peças que tentou lançar.

Nadia quer poder escrever, desenvolver essa sua expertise. Klaus quer poder apresentar ao mundo uma peça teatral de impacto. O resultado, como esperado para algo lançado num mês de mau agouro como agosto, é que a peça se mostra um fracasso completo e desemboca numa enorme frustração para os protagonistas.

As histórias de Fraia se imiscuem na potência do acaso. A vida não está preocupada em ensinar lições, afinal “ninguém aprende nada com história nenhuma”. Ela é este fluxo contínuo de acontecimentos que ora se aproximam, ora se distanciam, sem maiores explicações, sem a necessidade de explicações.

Sebastopol é um livro carregado de uma sutil tensão melancólica. A condução de Fraia das suas narrativas é madura e tece reflexões poderosas sobre a memória e como as linhas da existência se entrelaçam sem que as compreendamos.

Cada conto mostra-se como a busca de uma nova saída para os dilemas de seus protagonistas. Todos eles, no entanto, desenham e estruturam um cenário maior. Mesmo que diversos, e ainda que levemente divergentes entre si, eles são contados pela mesma voz, como se um narrador onipotente estivesse conduzindo cada narrativa dentro do mesmo tom e ele fosse o real vetor desta macro-história.

A desilusão que aparentemente permeia cada narrativa é sintomática desse pensamento que entremeia, numa fina costura, a ideia de acaso puro e simples, que desemboca em conexões inesperadas. A tentativa de aprender com o passado ou mesmo esvaziá-lo é tentar aprender com o acaso da vida, mas “os acasos da vida não explicam nada, meu irmãozinho, absolutamente nada”. Mas no final de tudo, da vida e desta obra tão potente, é inescapável a sensação de que tudo é uma coisa só. De que tudo vai e retorna com a mesma intensidade, seja nos meandros incognoscíveis da existência ou nas imagens que remontamos incessantemente nos painéis da memória.

O livro de Fraia é um exercício holístico de narrativa literária, desse jogo nietzschiano do eterno retorno que faz malabares com possibilidade da repetição, da ressonância constante das lembranças, das outras existências que passam uma dentro da outra e de como essas passagens desembocam na matéria daquilo que pensamos ser. Tudo está no mesmo universo e integra o mesmo cenário, afinal “as histórias dos homens são uma só”.

Essa sensação, constante do decorrer da leitura, de que as histórias que compõem Sebastopol no final das contas são as narrativas de apenas uma existência, é sempre reforçada pelos sinais espalhados entre os três enredos que indicam essa noção de unidade, de um bloco maciço com três pontos de contato. Afinal, “acho que as pessoas contam sempre as mesmas histórias, mesmo quando tentam contar outras histórias. As histórias são dispostas na nossa frente, como objetos, e vamos percebendo que são feitas da mesma matéria, detritos espaciais, uma massa sólida de pedra e metal”.

Sebastopol é esta escalada que engana com sua aparência de fácil execução, mas que, quando se chega perto do topo, o ar fica rarefeito, um frio percorre a espinha e nos congela. Ao chegar no cume, nos damos por aliviados de ter atravessado aquela jornada, escalado aquela montanha melancólica e solitária sem perceber que, ao fechar o livro, teremos uma tarefa ainda mais árdua e salutar: descer a montanha com aquelas três histórias martelando na nossa mente, sem nos permitir o espaço de fuga. Livros que nos permitem essa experiência nos engrandecem como leitores. Emilio Fraia guarda na sua prosa a energia de um artífice maduro no ofício da escrita. O burilamento do texto, sua necessidade de dizer sem falar, as frases concisas, sem a busca por grandes e eloquentes metáforas, mostram-se ao leitor como elementos de um escritor que tem consciência da responsabilidade que possui com a literatura. Nesta fina costura dos acidentes da memória e do acaso, as ações da vida ressoam e terminam no mais sólido dos silêncios. Sebastopol serve como um manual para saber viver esse momento, pois “as ações na vida não são tantas. E um dia tudo acaba”.
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terça-feira, 26 de março de 2019

ar de chumbo

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Texto do Ruan de Sousa Gabriel, na revista Época.


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O pintor russo Bogdan Trúnov viveu em Sebastopol, cidade portuária da Crimeia naqueles anos turbulentos, entre 1853 e 1856, quando ingleses, franceses, sardos, otomanos e súditos do czar Alexandre II se digladiavam pelo controle da península. Diferentemente de Tolstói , que foi segundo-tenente num regimento de artilharia na Crimeia e escreveu os Contos de Sebastopol, Trúnov não pintava soldados valentes em ação ou cavalarias com bandeiras em riste. “Trúnov sempre esteve assim, respirando o ar de chumbo da guerra, envolvido com isto até o pescoço, mas a guerra, a guerra mesmo, nunca aparecia nos seus quadros”, diz Nadia, a narradora de “Agosto”, o último dos três contos que compõem Sebastopol, livro de Emilio Fraia publicado pela Alfaguara em outubro passado. Os títulos das três narrativas do livro aludem aos Contos de Sebastopol, que também são três. Tolstói escreveu “Sebastopol no mês de dezembro”, “Sebastopol em maio” e “Sebastopol em agosto de 1855”. Os contos de Fraia são “Dezembro”, “Maio” e “Agosto” e, embora não descrevam trincheiras, exprimem a angústia muda dos que cismam na derrota incomparável.

Mas voltemos a Trúnov, que só existiu na Sebastopol metafórica criada por Fraia, bem longe das águas do Mar Negro. No conto, Nadia, uma universitária da província que vive sozinha em São Paulo, ajuda Klaus, um diretor de teatro meio maldito, a escrever uma peça sobre o pintor russo. Nadia atravessa noites entorpecidas no apartamento de Klaus a pesquisar a vida e a obra de Trúnov. Ela se impressiona por não encontrar, nas telas do russo, campos de batalha, generais altivos e soldados ensanguentados. “Seu foco era a vida comum dos soldados quando não estavam no front, os intervalos, os tempos mortos quando nada estava acontecendo, soldados perdidos pelo caminho enquanto aguardavam informações sobre onde se encontram as bateria de seu Exército, soldados com o rosto empoeirado, jogando cartas numa estação de muda de cavalos qualquer à espera do regimento.” Mas pintar soldados jogando cartas nos intervalos das batalhas também não é pintar a guerra? O “ar de chumbo” não aparece nos rostos empoeirados nos soldados a descansar? Quem quer pintar um retrato potente da guerra precisa de fato pintar “a massa de soldados em ação”?

E se alguém quiser escrever um livro sobre a perplexidade, o desespero e a melancolia que tomaram o Brasil depois das Jornadas de Junho? Precisará necessariamente descrever multidões marchando por avenidas, black blocs quebrando vidraças, intelectuais falando besteira e tias compartilhando fake news no WhatsApp? Sebastopol responde a essa questão mostrando que a literatura política não é aquela se pretende uma tradução exaustiva da realidade, uma descrição fidelíssima e explicativa dos fatos, mas aquela que interroga a realidade ao prestar atenção aos lapsos, aos sintomas mal disfarçados, ao que se esconde no fundo das cenas. Os três contos de Sebastopol exprimem o desnorteio pós-junho de 2013 ao narrar histórias fragmentárias, quase banais, sem a preocupação de formular conclusões e sem receio de confundir o leitor, de desarmá-lo.

O conto do meio, “Maio”, narra a passagem de um enigmático peruano-brasileiro por uma pousada decadente no Centro-Oeste. Esse homem, Adán, conta pedaços de sua história a Nilo, o dono da pousada, e depois desaparece. “Uma coisa explicando a outra, uma coisa dando sentido à outra, que é como funciona a nossa cabeça, não é mesmo?”, diz Adán. Mas, em “Maio”, uma coisa não dá sentido à outra, nada é explicado, fios vão sendo desatados e o leitor chega às últimas linhas confuso, como quem tentou acompanhar o noticiário brasileiro nos últimos tempos. As descrições sóbrias e atentas do narrador onisciente tencionam o conto, que ainda brinca com conceitos caros a Jorge Luis Borges , como a repetição e o eterno retorno: “Nilo pensa que as histórias dos homens são uma só”. Sabe aqueles pesadelos históricos que sempre ameaçam se repetir? As referências sutis às ditaduras latino-americanas inseridas no conto não parecem gratuitas.

“Dezembro”, o primeiro conto de Sebastopol, traz referências sutis a outros fatos políticos – às Jornadas de Junho. O conto é narrado por Lena, uma moça rica que escala montanhas e sonha em ser a primeira brasileira a alcançar o topo do Everest. Um acidente nas alturas força Lena a abandonar o alpinismo e se reinventar como palestrante, dessas que contam histórias lacrimosas de superação para plateias corporativas. Um dia, ela depara, numa exposição, com um vídeo que parecia contar sua história. Lena estranha o vídeo, rejeita-o, mas também se reconhece nele. Ela havia falseado sua história para adequá-la aos clichês de autoajuda ou foi só quando a viu, ali na sua frente, transformada num experimento artístico é que conseguiu enfim enxergá-la, caótica, pulsante como as ruas de junho, livre das amarras corporativas (ideológicas?) que tentavam lhe impor um sentido? O acidente de Lena aconteceu em 13 de junho de 2013. O leitor atento há de lembrar que esse foi o dia em que a Polícia Militar reprimiu com covardia brutal a manifestação que acontecia em São Paulo contra o aumento das tarifas de transporte público. Foi ali que junho mudou de rumo. A população repudiou a violência policial e os protestos engrossaram, vieram as pautas verde-amarelas. “Sei que estamos em 2018, mas a minha impressão é ter vivido esses anos todos sem ter vivido nada”, diz Lena, ao rememorar o que aconteceu em 2013. Ela não menciona os protestos uma única vez.

Trúnov, o pintor russo, foi uma vez convidado a pintar uma cena bélica. Civis e soldados, com armas e cavalos, encenariam uma batalha num pátio, e Trúnov registraria tudo com a fidelidade das tintas. “Pensei que no fim Trúnov seguiria sem pintar a guerra, a guerra mesmo, já que o que havia decidido fazer era aquela encenação idiota”, diz Nadia. Nos contos de Sebastopol, Fraia recusa o convite para pintar uma encenação. Ele se mantém fiel ao método de Trúnov: pintar os rostos empoeirados e perdidos que permanecem longe das avenidas largas e movimentadas da história, onde marcham soldados e block blocs. E pinta com uma linguagem concisa, dura, sem nenhuma pretensão explicativa, mas capaz de exprimir “o ar de chumbo” que pesa sobre o país.

Numa das primeiras páginas de Sebastopol, Lena diz que os acontecimentos são como ataduras que precisamos enrolar e desenrolar com o maior cuidado possível. É isso que os narradores vão fazendo ao longo dos três contos, até o resumo final, enunciado por Nadia como quem arranca um esparadrapo: “Voltei a pensar no estado geral das coisas, na minha geração, que seria esmagada por mais dez, quinze anos de paralisia”.
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sexta-feira, 8 de março de 2019

ligeiramente irreal

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Sobre o Sebastopol, na capa do caderno Pensar do Estado de Minas. Texto e entrevista do escritor Carlos Marcelo Carvalho.







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Longe é um lugar que não existe. Ao menos na literatura. Por meio das três histórias reunidas por Emilio Fraia em Sebastopol, é possível vislumbrar a cidade russa que batiza o livro, compreender o fascínio despertado pela escalada do Everest, voltar à década de 1970 para dar uma volta de carro em Lima, “cidade coberta de pó e de pessoas que para mim mais pareciam mortos-vivos que brotavam da secura dos horizontes borrados e cor de terra e ficavam indo de um lado para o outro, sem destino”. Viradas bruscas de personagens errantes, entre incidentes e acidentes. Histórias vivenciadas, comentadas, inventadas. Os contos de Sebastopol oferecem caminhos bifurcados que, como num caleidoscópio, se multiplicam a partir da imaginação do autor – e do leitor.

Nascido em 1982, o paulistano Emilio Fraia foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura em 2008 com o romance O verão do Chibo, que escreveu com Vanessa Barbara. Também lançou a graphic novel Campo em branco (parceria com DW Ribastki) e foi um dos 20 incluídos na coletânea Os melhores jovens escritores brasileiros, da revista Granta. Trabalha como editor no grupo Companhia das Letras. Em um dos contos, uma personagem defende a praticidade profissional: “As coisas simples levam a soluções simples, as coisas complicadas nos levam à loucura”. Ao ser perguntado pelo Estado de Minas se a fórmula se aplica ao seu trabalho de edição, Fraia responde: “Acho que sim. Mas se aplica, sem dúvida, a escrever um livro.” Confira, a seguir, a entrevista do escritor.

Chico Buarque escreveu Budapeste sem ter conhecido a capital da Hungria. Você também não foi a Sebastopol (tampouco, imagino, tentou escalar o Everest). Como criar uma narrativa de deslocamento sem ter visitado os lugares citados? O que atraiu sua imaginação para lugares tão distantes? Sim, nunca fui a Sebastopol, nunca estive na Rússia. Também nunca fui ao Everest, que é onde se passa parte da primeira história. Já fui a Lima, é verdade, mas, para o tipo de ficção do livro, isso não quer dizer muita coisa, não muda o jeito de compor. O que mais me atrai neste caso são as representações desses lugares, ou melhor, como essas representações podem conter o real em si — como elas podem, como a ficção, falar mais ao real do que o próprio real. Não por acaso, no livro, Sebastopol é apresentada primeiro como um cartão-postal, depois como uma cidade num mapa. As montanhas do Everest surgem em meio a uma filmagem (de um vídeo publicitário), em que não é possível distinguir muito bem o que é real ou não. A Lima dos anos 1980 é mais uma alucinação, uma premonição. A São Paulo atual, na história que encerra o livro, também. Tudo ligeiramente irreal e, portanto, mais real.

Contos de Sebastopol é um dos livros de Tolstói. Qual a conexão por você estabelecida, além do título e do formato? Por que a literatura dos grandes mestres russos ainda ecoa com tanta força no século 21? Tolstói, Bábel e Tchékhov parecem ter inventado tudo. Sobre Tolstói, o crítico Lionel Trilling escreveu: “A esperança de toda pessoa é ser julgada à luz da representação da natureza humana criada por Tolstói. Talvez o que Tolstói tenha feito seja instituir como realidade o julgamento que toda pessoa digna e razoavelmente honesta provavelmente faz de si mesma — alguém nem totalmente bom, nem totalmente ruim; nem heroico, nem destituído de heroísmo; nem esplêndido, nem privado de momentos luminosos; alguém que não pode ser entendido mediante nenhuma fórmula, mas que tem seu princípio de vida, e que de algum modo, e a despeito de ideias convencionais, consegue manter uma inesperada dignidade”. Acho que seguimos aprendendo e dialogando com ideias assim.

Uma das críticas publicadas a respeito do livro, assinada por Sérgio de Sá na coluna Gosto de ler, aponta que Sebastopol é “sobre modos de narrar. Ou melhor, sobre como narramos nossas próprias vidas e sobre quem escolhemos para dividirmos a narração da nossa trajetória”. Como encontrou as formas diferentes de narrar os três contos? Eu queria escrever histórias que funcionassem por si só, cada uma com seu universo, mas que ao mesmo tempo quando colocadas lado a lado pudessem estar conectadas por relações sutis, por um andamento comum. Como se para além da voz da narração de cada um dos contos houvesse uma outra subjetividade, difusa, pairando sobre tudo, e isso criasse um efeito. Uma sensação de diferença (afinal, as histórias são independentes), mas também de proximidade (temas que voltam, um tom comum, uma certa progressão). Queria que o leitor chegasse ao final e pudesse repassar as histórias em busca destes pontos de contato. Por exemplo: no livro, há sempre alguém que conta, imagina, recorda. E a história contada, imaginada, inventada toma a frente e acaba funcionando como uma espécie de comentário à história principal — e ao livro também. São histórias simples que começam, no conjunto, a ficar complexas.

“A beleza da escalada é que não serve para nada.” E a beleza da literatura? Quem diz essa frase no livro é Gino, um personagem um pouco pedante, dono de uma produtora de vídeo, com aspirações artísticas. Um dos poderes da literatura está justamente em se afastar do discurso utilitário, é verdade. Mas se pararmos por aí vamos repetir apenas um clichê sobre a inutilidade da arte (ou da escalada, no caso do Gino). O que penso é que a literatura é enganosamente inútil. Ao nos colocar em contato com realidades, situações e visões de mundo diferentes das nossas (e ao mesmo tempo que nos dizem tanto respeito), a literatura é uma espécie de máquina de sensibilização. A beleza está nisso: ela não serve para nada e serve para tudo.

“Desde pequena, meu sonho era escalar o Everest.” Qual o maior desafio ao optar por uma voz feminina como narradora? A primeira e a terceira histórias do livro são narradas por mulheres. Nos dois casos, essas narradoras se relacionam muito de perto com personagens masculinos (Lena e Gino em uma; Nadia e Klaus na outra). Mais do que a verossimilhança (que eu acho que se alcança de maneira mais efetiva quando não se quer soar “feminino” ou “masculino”), o que busquei foi tematizar as tensões entre as narradoras e estes personagens masculinos. O primeiro conto, no fim, é sobre isso: o olhar de um homem sobre a narradora, sobre como ela está presa a isso a ponto de não sabermos mais quem está no controle. Ela vê o que acredita ser a sua história sendo contada num vídeo e pensa se foi ele quem fez aquilo, se foi ele quem se apropriou de algo íntimo dela, como se alguém houvesse lhe roubado um segredo. Como retomar o controle das nossas histórias? Mas o que significa estar no controle? A história será mais verdadeira assim? O fotógrafo canadense Jeff Wall tem uma foto de que gosto muito, Picture for women. Numa cena, dividida em três partes, estão uma mulher (que olha para a frente), uma câmera no centro e o fotógrafo à direita. É um comentário cheio de ambiguidades sobre a representação feminina a partir do olhar masculino.

Na sua opinião, quais foram os escritores, nacionais e estrangeiros, clássicos ou contemporâneos, que conseguiram chegar ao topo do Everest? Os mesmos culpados de sempre: Tchékhov, Poe, Tolstói, Machado, Flaubert, os contos da Flannery O’Connor. Faulkner, Kafka, Beckett, Drummond. Borges, Onetti, Stevenson, Bolaño. Hemingway, Cheever, Bataille. Walser, Bernhard, Coetzee.

“As pessoas se identificavam, e logo entendi que a identificação era a chave, uma chave que podia abrir todas as portas.” A identificação também pode abrir a porta para mais leitores? “As pessoas estão interessadas em histórias reais. Você só precisa formular de um jeito que inspire.” E, no caso da ficção, como despertar um interesse tão grande quanto o despertado pelas histórias reais? As frases são ditas por uma personagem, Lena, num momento em que ela se torna uma palestrante motivacional. São clichês contemporâneos. Lena é uma escaladora, sofre um acidente grave e passa então a contar sua história para plateias em empresas, vídeos na internet, algo nos moldes dos TED Talks (que vêm formatando um certo tipo de narrativa hoje em dia). Aos poucos, ela descobre estratégias de como emocionar, mobilizar seu público — e transforma sua história, sua experiência íntima num formato, num tipo de “narrativa” (e em dinheiro). Lena percebe que o sucesso está diretamente ligado à identificação das pessoas com o que ela tem a contar/mostrar. O segredo, ela diz, é inspirar, ser “verdadeira” e, assim, agradar, conseguir elogios, seguidores etc. Todos nós conhecemos isso. As redes sociais funcionam assim. A má política também. E esse é exatamente o oposto da boa ficção, da arte — e da verdade. A identificação é uma das grandes moedas do nosso tempo, mas precisamos começar a duvidar dela. Ela não é algo absoluto. É preciso duvidar desse tipo de discurso, das formas que temos facilmente à mão para transmitir (e dar sentido) às nossas experiências.

“A gente conta e repete as histórias porque tem medo delas”, afirma o narrador do segundo conto. E no seu caso, por que contar as três histórias de Sebastopol? Boa pergunta. Foi o que tentei descobrir. O ponto de partida sem dúvida é este: uma imagem que nos dá algum tipo de medo, algo que gostaríamos de entender melhor, chegar mais perto do lugar onde o nosso segredo está escondido. Claro que no fim não há uma resposta, mas acabamos articulando um pouco melhor as perguntas.

Você já escreveu um romance a quatro mãos, uma graphic novel, agora lança um livro de contos. Qual o próximo passo? Um romance assinado apenas por você, um novo volume de contos ou pretende retomar as parcerias? Ou, antes do próximo projeto, conhecer Sebastopol? Comecei a escrever um romance, mas só de pensar no trabalho todo pela frente acho que fugir para a Rússia seria mais negócio.
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quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

em si todos os outros, passados e futuros

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O crítico Kelvin Falcão Klein sobre Sebastopol:

Sebastopol: a palavra evoca as estepes russas, o frio inclemente, a fuligem, os portos nos quais é normal escutar nove idiomas em um mesmo dia, o desamparo e a solidão do artista, entre Anton Tchékhov e Isaac Bábel. É mais um exemplo dessa peculiar capacidade da linguagem de tornar presente a materialidade do espaço e, ao mesmo tempo, torná-la supérflua: Sebastopol elimina seu referente no momento em que se torna Sebastopol – tudo no mundo existe para chegar a um livro, dizia Mallarmé.

A primeira das três histórias de Sebastopol, de Emilio Fraia, é sobre o fascínio exercido por um monstro, espécie de feitiço que se espalha no tempo e no espaço, abarcando gerações e, como diz o texto, deixando dezenas de mortos por temporada. O monstro se chama Everest e a vítima, que conta sua vida, Lena. A narradora divide o protagonismo do conto (intitulado “Dezembro”) com Gino, artista visual, cinegrafista e publicitário, espécie de Oliviero Toscani redivivo. São dois os fios narrativos que vão entrelaçados na história, a busca de Lena pelo cume do Everest – e sua resolução trágica e, por isso, inevitável –, e a busca de Gino pela “imagem”, pelo “registro”. O primeiro fio é o tema da busca maníaca, é a história de Moby Dick, a busca das Índias, a errância em torno do Castelo. O segundo fio é o tema do sonho que inverte a realidade e se confunde com ela, como a Comédia de Dante ou o contato da borboleta com o sábio Chuang-Tsê, de que fala Italo Calvino em uma de suas propostas para o próximo milênio.

O segundo conto, “Maio”, ao contar a história de Adán, um peruano-brasileiro que desaparece, se mostra como um comentário sub-reptício à obra de Roberto Bolaño. Em “Maio” encontramos um desdobramento da célebre frase “A América Latina foi o manicômio da Europa assim como os Estados Unidos foi sua fábrica” (“Los mitos de Cthulhu”, El gaucho insufrible) e uma deriva em direção à ideia da América Latina como “alucinação”, presente em Estrela distante, por exemplo. O aparecimentode sacrifícios humanos dos incas e da relação entre o porco e o porquinho-da-índia intensifica o caráter alucinatório de “Maio”, até a frase final, na qual tudo é abandonado, entre o enigma e a resolução. A aproximação arbitrária entre um sacerdote inca e um taxista nas ruas de Lima na década de 1980 faz pensar na repetição da história, no eterno retorno, algo que “Maio” leva à superfície quando enfileira a recorrência dos destinos: um pai que desaparece gera um filho que desaparece e assim por diante.

O último conto, “Agosto”, condensa as obsessões de Sebastopol, dando ao seu encerramento um ar de incontornável necessidade. Se os temas da duplicação inquietante, da porosidade das fronteiras entre vivos e mortos e da impotência da vontade já apareciam antes, em “Agosto” ganham em amplitude. Isso porque o conto é sobre o teatro – sobre a criação e apresentação de uma peça de teatro sobre Sebastopol, sobre um pintor e a Guerra da Crimeia –, e o teatro é a metáfora perfeita para a concepção da vida como artifício e performance (o Jardim do Éden, Santo Agostinho, Shakespeare, Calderón de la Barca).

Sebastopol, o livro, é já por si só um retorno, um espelhamento do eterno retorno, da ideia de que todos os autores são um e que um autor certamente reúne em si todos os outros, passados e futuros. Faz retornar o livro de Tolstói, Contos de Sebastopol, três relatos escritos durante a Guerra da Crimeia (1854-1855), repetindo também o uso dos meses nos títulos dos contos. Nota-se aí a própria repetição da natureza, das estações, dos meses, o esgotamento seguido da reinvenção, mostrando que uma das tarefas subterrâneas da literatura, como dizia Montaigne, é ensinar a morrer.
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sábado, 5 de janeiro de 2019

luzes evasivas

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O escritor Cadão Volpato sobre Sebastopol no Valor Econômico:

A rigor este é o primeiro livro 100% escrito por Emilio Fraia, um paulistano de 36 anos que antes havia publicado um romance a quatro mãos com Vanessa Barbara, O Verão do Chibo (2008), e a graphic novel Campo em Branco (2013), com o quadrinista DW Ribatski.

Em 2012, a revista britânica "Granta", em seu número sobre os melhores jovens escritores brasileiros, havia selecionado um conto do escritor. E foi tudo, até este Sebastopol, breve coleção de três histórias que levam títulos de alguns meses do ano. Pela ordem: "Dezembro", "Maio" e "Agosto".

Tais títulos são apenas guias discretos e passam quase batidos caso não se preste muita atenção neles. O que vale são as narrativas. Nelas, há uma contenção fora do comum, uma simplicidade que bane os adereços, embora a literatura esteja presente em toda parte. Talvez, mais do que a literatura, a importância da transcendência em nossas vidas.

Os personagens de Sebastopol são misteriosos, nunca definitivos, aparecem e desaparecem cheios de dúvidas. Suas questões, no entanto, nunca são respondidas. Como em geral acontece com os seres humanos, a vida não tem respostas claras: ela se move por veredas obscuras, e o mistério de viver só é iluminado de vez quando, a começar pelo fato de que hoje podemos estar aqui, mas daqui a pouco, quem sabe? Nos contos de Sebastopol, em que duas vozes femininas abrem e fecham o livro, enquanto uma terceira, de aparência mais neutra, tateia em busca de soluções existenciais que desaparecem no ar, o irremediável mistério de viver é o motor de tudo.

E não adianta ir do Everest para a Crimeia ou o Peru em busca de respostas, é o que o livro parece dizer em sua grande contenção narrativa.

A jovem escaladora que narra o primeiro conto é vítima de um acidente terrível. Ao ver sua história contada no vídeo de uma artista que também é misteriosa, ela resolve por conta própria narrar a sua versão. Não que isso ilumine as coisas de verdade. O travo de uma não solução fica na cabeça do leitor, do jeito que os escritores mais interessantes costumam fazer, já que a vida real não é agarrável como pode parecer.

No segundo conto, estamos às voltas com uma pousada decadente e seu dono fracassado. Um hóspede a contragosto desaparece, e tudo se complica. Quer dizer, na verdade parece inevitável que tudo se complique, e essa segunda história, não menos evasiva que as outras, recorre a um certo humor discreto, ao pintar o tipo peruano que está a fim de mudar de vida nem que seja na base da simples evaporação. Ele briga com a mulher que o acompanha, compra um fusca velho e uma casa modesta na cidadezinha próxima e, como se não bastasse, some do mapa. Temos um estranho porco descomunal para não esclarecer os fatos.

Chegamos por fim ao terceiro conto, o mais próximo talvez daquilo que o título sugere. Um velho dramaturgo meio conformado com o circuito alternativo em que vive pretende montar uma peça sobre um pintor russo que viveu durante o cerco de Sebastopol (1854-1855), o principal combate da Guerra da Crimeia, que mobilizou algumas potências ocidentais contra a Rússia czarista no século XIX.

O tal pintor está no olho do furacão, mas prefere tratar o conflito em estúdio, talvez para ter um controle total sobre o desastre - como se isso fosse possível. Quando um jovem soldado lhe pede para pintá-lo no campo de batalha, ele o retrata numa cena montada em um pátio de oficina. Tudo grandioso, mas falso.

Esse distanciamento diante dos mistérios que envolvem os personagens é um fator constante no livro. Só não dá para dizer que ele os aprisiona porque o ritmo da narrativa não se deixa levar por nenhum aparato. O que Emilio Fraia escreve é de grande naturalidade e correção. O gosto que fica no fim é o de um mistério ainda maior, e também o de uma tristeza anexada naturalmente ao fracasso de tentar entender o que nos cerca.

É com a maturidade de um escritor mais experiente do que a sua obra escassa pode apontar que Fraia abre um caminho para si na literatura jovem que foi coroada pela "Granta" e que vem chegando à tona, de verdade, nos últimos anos. Como os colegas daquelas páginas da revista,  o autor de Sebastopol começa a construir um caminho próprio, em que as sutilezas da imaginação não querem necessariamente explicar o mundo, mas contê-lo em um ambiente exposto à incidência de luzes evasivas.
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quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

cinco livros breves & estranhos para se ler numa tarde

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Indiquei cinco livros para o Nexo:

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Carmen, Prosper Mérimée — Publicada em 1845, esta novela são duas histórias, uma dentro da outra. A que ocupa o miolo do livro (narrada por dom José, um ex-militar de carreira promissora, que desce ao inferno por conta da sua paixão por Carmen) é a que se tornou famosa em filmes, musicais da Broadway, séries de tevê, quadrinhos, comercial de lingerie, canecas, chaveiros, camisetas e na ópera de Bizet. A outra, que serve de moldura à primeira, é narrada por um arqueólogo francês, culto e algo pedante, que erra pela Andaluzia. É na relação entre as duas histórias, entre essas duas vozes, que está o trunfo das 80 páginas estranhas e geniais de Carmen. Dom José se deixará levar pelo mundo fascinante e perigoso da cigana e pagará o preço. A uma distância segura, o outro narrador, anônimo, apenas escutará a história e desfrutará, burguesamente, sem se arriscar, das aventuras do outro. Bom momento: quando dom José sugere que Carmen e ele abandonem a Espanha para “viver honestamente no Novo Mundo”. Carmen ri e diz que “não fomos feitos para plantar couves”.

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La casa de cartón, Martín Adán — Depois de se encontrarem no balcão do bar Cordano, no centro de Lima, em abril de 1960, Allen Ginsberg dedicou um poema a Martín Adán. Em “Para um velho poeta no Peru”, escreveu: “Enquanto minha sombra visitava Lima/ e seu fantasma estava morrendo em Lima”. Desde 1928, quando publicou La casa de cartón, com apenas 28 anos, o fantasma de Adán morre e nasce todos os dias nos malecones da capital peruana. Junto com o argentino Macedonio Fernández, é o mais destemido dos modernistas latino-americanos. La casa de cartón é e não é um romance, parece mais um poema em prosa. Sem trama nem desenlace, formado por 39 fragmentos que se relacionam de forma surpreendente, o livro narra as aventuras de um jovem de 15 anos durante suas férias escolares. Destaque para o trecho em que o narrador faz uma lista com as descrições de seus cinco primeiros amores, que começa com “meu primeiro amor tinha 12 anos e as unhas negras” e termina com uma garota “que cheirava a cachorro molhado, roupa íntima e pão quente”, “uma garota suja com quem pequei quase na noite, quase no mar”.

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Autobiography of red, Anne Carson — Outro livro estranho, em versos, e que a autora canadense chama de romance. Nele, Carson reconta o mito de Gerião, o gigante vermelho morto por Hércules nos Doze Trabalhos. De olho num modelo clássico (um poema escrito pelo grego Estesícoro no século 5 a.C), Carson transforma Gerião num personagem contemporâneo, e o que lemos é a sua autobiografia. Publicado em 1998, o livro acompanha sua infância e adolescência. Gerião é um jovem sensível, que gosta de ler e anda com uma máquina fotográfica a tiracolo. Foi abusado pelo irmão mais velho e é apaixonado por Hércules, que a autora descreve como uma espécie de beatnik alucinado, dirigindo pelas estradas da América do Sul, continente que no livro “brilha feito um abacate”. Entre vulcões, lava e sentimentos profundos, Carson cria uma história de amor como nenhuma outra. Os capítulos finais, passados entre Buenos Aires e Lima, são os mais bonitos.

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Cosmos, Witold Gombrowicz — Este livro é um bom presente. Mas só pode ser dado a alguém capaz de entender a solidão cósmica. Afinal, a vida quer dizer algo ou não faz sentido nenhum? “Vou contar-lhes uma outra aventura ainda mais estranha...”, Gombrowicz abre assim sua novela. Os exames escolares se aproximam e, depois de uma briga familiar jamais explicada, o estudante narrador busca abrigo no campo. Junto com um amigo, se hospedam numa pensão. Vagueiam pelos arredores e, de repente, encontram um pássaro enforcado num arame preso a um galho. Quem o enforcou e por quê? Qual teria sido o motivo? As respostas estarão nas manchas que parecem formar constelações no teto do quarto? A aleatoriedade do universo e a juventude são os temas aqui. Juventude, aliás, grande tema do autor polonês. “Sempre tive inclinações a buscar na juventude, na própria ou na alheia, um refúgio frente aos ‘valores’, ou melhor, frente à cultura”, escreveu. Contra a maturidade presunçosa, o “bom gosto” vazio e a retidão orgulhosa de si, Cosmos faz uma defesa furiosa do imperfeito, do inesperado, do caos e da impossibilidade de entender.

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Noturno indiano, Antonio Tabucchi — Em menos de 80 páginas, uma obra-prima. As frases aqui fazem com que seja possível ouvir os silêncios entre elas. Um narrador procura um amigo desaparecido na Índia — e nenhum tema pode ser melhor do que pessoas que desaparecem. Publicado em 1984 e travestido de narrativa de viagem, este livro é sobre uma longa noite insone. Na verdade, são 12 noites, uma para cada capítulo. Conversas desconexas, hotéis e mais hotéis, guias de turismo, ônibus e trens nas madrugadas, o peso dos sonhos. Como numa história de detetive em miniatura, contada elegantemente em voz baixa, o narrador segue pistas, vai de Bombaim a Madras, de Mangalore a Goa. Sobre Tabucchi, Enrique Vila-Matas escreveu: “admiro nele sua imaginação e também sua capacidade para investigar a realidade e terminar chegando a uma realidade paralela, mais profunda, essa realidade que às vezes acompanha a realidade visível”. A impressão é que por trás do texto há um outro, a que não temos acesso.
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domingo, 25 de novembro de 2018

cartões-postais

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Schneider Carpeggiani sobre Sebastopol, no Suplemento Pernambuco:

Tal qual Sísifo, os personagens dos 3 contos a compor Sebastopol (Alfaguara), de Emilio Fraia, tentam levar o rochedo da vida até o alto da montanha, para depois vê-lo rolar precipício abaixo. Se vivências concretas não fazem sentido, a sobrevivência se ganha a partir de um processo de ficcionalização compulsório, do encontro com possíveis “duplos” e da evocação de fantasmas. Sebastopol é uma obra sobre a criação de artifícios. A sobrevivência como exercício atrelado à criação de artifícios.

Faz todo o sentido, assim, que a cidade russa que nomeia o livro apareça não como acidente geográfico propriamente dito, e, sim, como um fajuto cartão-postal – mas um cartão-postal daqueles que enviamos para nós mesmos, por falta de destinatário ou de viagens reais.

O importante é recriar e assim ir seguindo.

No primeiro conto, uma garota reconta o acidente que sofreu ao tentar ser a esportista mais jovem a escalar o Everest – “porque escalar dá sentido à sua vida, e é disso que no fundo as pessoas precisam, Lena, eu sempre me digo isso, as pessoas precisam acreditar em alguma coisa”, lembra a narradora, Lena, de um conselho ouvido de uma amiga sobre o banal da sua motivação esportiva. O trauma da escalada, no entanto, é ressignificado quando ela assiste ao vídeo de uma artista gringa que parece contar a história da sua tragédia com a precisão do avesso do avesso típica dos espelhos, mas ainda assim sua história. No segundo, o dono de uma pousada decadente no meio do nada procura um hóspede desaparecido, mas o procura sabidamente em vão pelo fundo de uma piscina cheia de lodo que já viveu dias melhores – lembremos que piscinas são o “cartão-postal” das águas, mais um lembrete da coleção de artifícios que o livro se propõe a compilar. No último dos contos, a frustração dos primeiros anos no mercado de trabalho leva uma garota a se aproximar de um diretor de teatro, que divide seu tempo entre espetáculos que jamais irão para frente e o tesão em stalkear desconhecidos pelas ruas, colando neles suas fantasias escapistas. Cada uma dessas ficções recebeu o nome de um mês do ano, começando pelo fim, "Dezembro", passando pela metade, "Maio", e encerrando por algo como um "lugar-nenhum", "Agosto" – o mês que persistimos em acreditar como o dos maus presságios, talvez pela falta de uma definição melhor diante de sua localização "perdida" na divisão precária dos calendários.

Sebastopol é o primeiro livro solo de Fraia, que já havia feito O verão do Chibo (em parceria com Vanessa Barbara), e a graphic novel Campo em branco (com DW Ritbatski). Em sua nova estreia, mostra-se exímio na criação de uma atmosfera de mistério que toma as rédeas da atenção do leitor. O mistério do qual falamos não necessariamente implica resolução de algum caso ou de um grande segredo a ser revelado. Os mistérios aqui são os fios soltos e desconectados, que insistimos em amarrar diante de fatos que nada teriam de especiais por si só. É que precisamos criar uma mística qualquer, para lidar com o banal de corpos que se quebram, de memórias que acreditamos apenas como nossas de tão intensas e do súbito de pessoas que entram na nossa vida e, puf!, se vão.

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Igor Zahir, na revista Bravo!:

Em 2014, quando eu era um jovem jornalista perambulando pelos bares underground de São Paulo, achava que era aquele clima melancólico das noites no Centro que me fazia lembrar de situações (nem sempre agradáveis) que me levaram até ali. Hoje, ainda jornalista, — mas não tão jovem — , me dividindo entre uma cidade de 26 mil habitantes em cima de uma serra e a famosa Caruaru que fica ao lado, a mesma sensação ainda bate com frequência desconfortante. Certos arrependimentos de atitudes do passado; a vontade de ter feito diferente. Memórias que não podem ser desfeitas ou apagadas, e que desenharam meu destino desde a capital paulista, passando pelo período sabático, até o retorno para minha terra natal.

Ao ler Sebastopol, livro que marca a estreia solo de Emilio Fraia (coautor do romance O verão do Chibo, com Vanessa Barbara, e da graphic novel Campo em branco, com DW Ribatski), percebi que os personagens dele passam pela mesma coisa. Cada um em estágio diferente, com sua história pessoal, nos três contos narrados na obra.

No primeiro conto, "Dezembro", Lena almeja se tornar a mais jovem brasileira a “alcançar o cume dos montes mais altos de cada um dos sete continentes”, mas sofre um acidente no Everest. Tendo que lidar com as consequências (físicas e mentais) daquele trauma, ela tenta refazer sua vida. Até que, anos depois, ela dá de cara com um vídeo que reativa todas aquelas cenas, desde muito antes do acidente, até o fatídico dia. Como recomeçar após ter tantas lembranças dolorosas novamente latentes na cabeça?

No segundo conto, "Maio", Nilo é o proprietário de uma pousada rural caindo aos pedaços entre a fértil vegetação da fazenda ao lado; mas a pacata rotina do anfitrião perde o sossego quando um hóspede desaparece após discutir com sua esposa. Passado e presente da vida de ambos se entrelaçam para dar algum sentido ao enredo.

Em "Agosto", o último conto, Nadia deixa o emprego frustrante num museu para ser aprendiz de um dramaturgo aparentemente fracassado. Juntos, eles vão escrever uma peça sobre o pintor Bogdan Trúnov na cidade russa de Sebastopol. Paralelo a isso, Nadia cria uma outra história e faz seus próprios julgamentos sobre sua jornada e a vida de Klaus, o dramaturgo que enxerga possíveis protagonistas em garotos sarados duvidosos.

Nadia é, evidentemente, um retrato de muitas pessoas da sua geração. Vários pontos provocam uma identificação, como a crise existencial num emprego que não tem perspectiva de carreira; a necessidade de fazer algo que tenha um propósito, mesmo que para isso vá ganhar bem menos financeiramente no trabalho com um artista decadente; o escapismo por vezes tão inevitável pra quem vive — ou se refugia — na selva de pedras. Como uma ode à Sampa de Caetano, que fala sobre a dura poesia concreta das esquinas. “E quem vem de outro sonho feliz de cidade, aprende depressa a chamar-te de realidade”.

Entretanto, vale ressaltar o que foi falado no início: os contos de Sebastopol poderiam se passar em qualquer lugar. Na metrópole que cheira a capitalismo. Na zona rural de uma casa em ruínas. Na própria cidade russa que inspirou o nome ao autor. É um livro sobre os traumas da trajetória humana, e como eles influenciam no nosso presente e futuro. Sobre o passado que todos adoraríamos não ter vivido, e como precisamos lidar com ele (muitas vezes com humor e sarcasmo) para dar conta do destino sem entrar em paranoia. E isso, definitivamente, acontece com qualquer pessoa, nos mais diversos cenários do mundo.
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quarta-feira, 14 de novembro de 2018

a lua de sebastopol

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Na Folha de S.Paulo, texto da Fernanda Torres:

Os três contos de Sebastopol, livro de Emilio Fraia lançado pela Alfaguara, contam histórias distintas, unidas, estranhamente, pela mesma sensação de hiato; a promessa de uma vida plena, que se torna insólita, vaga e melancólica. A escaladora que, antes da queda, atinge o topo do mundo; o proprietário rural arruinado que sonhou construir Xangrilá; o diretor de vanguarda que se conformou com o ostracismo; personagens que transitam num limbo chamado presente, cujo passado não lhes pertence mais e o futuro sequer chega a ser ambicionado.

Com uma narrativa impressionista, formada por grandes vazios e fragmentos falhos de memória, Sebastopol traduz a sensação de desencanto, de que algo se perdeu no caminho.

A data do acidente da atleta, mesma da primeira passeata de 2013, dá a pista de que a insidiosa escrita de Fraia aborda, sim, nosso fracasso recente.. Existe uma ligação curiosa entre essa pequena joia literária e O Primeiro Homem, superprodução hollywoodiana sobre a vida de Neil Armstrong, o primeiro astronauta a pisar na Lua.

Assisti ao filme no dia da votação do segundo turno. Exausta da angústia eleitoral, sentei-me na sala de cinema para esquecer. Achei que veria mais uma trama ufanista sobre o triunfo americano, no estilo de Apollo 13 e do superficialíssimo Perdido em Marte. Mas não.

O Primeiro Homem é tão casmurro quanto Sebastopol. Um filme intimista, composto de closes claustrofóbicos e grandes paisagens espaciais.

 Armstrong também vive o seu limbo. Lacônico, o piloto nem se esforça para traduzir em palavras a dor pela perda da filha e o peso da missão impossível imposta pelo destino.

Não há nem gritos nem choros, nem fucks nem fights. A mudez do herói, sua obstinação de engenheiro, a dor de pai -- bem como a solidão da esposa Penélope --, a espera do eterno retorno de Ulisses; tudo se ancora numa atuação sem dós de peito ou ambições de Oscar, vício frequente no cinema americano. O olhar abismado de Gosling para o horizonte curvo da Terra é o mesmo de Claire Foy diante da loucura da vizinha viúva. Seja no espaço sideral ou na vila militar, na cozinha de casa ou na clausura do módulo lunar, o desespero é sempre contido, seco, abafado.

No auge da Guerra Fria e com o mundo em convulsão, o astro da corrida espacial crava a sua pegada na lua graças à capacidade de manter a frieza diante do medo e da morte. A autocontenção é o seu trunfo.

O Primeiro Homem narra a história de um luto. O caráter científico, metódico, americano do herói, transforma em êxito o funeral. O mesmo não ocorre com os brasileiros de Sebastopol. Não há ciência ou método que lhes reparem as perdas, não há sociedade ou cultura capaz de dar ordem ao caos.

Saí do cinema com o novo presidente eleito, sob gritos e rojões de vitória.

Respeito a alegria dos que votaram na crença da retidão e da ética. Temo os meios, mas compreendo o alívio e a raiva. Foi uma escolha consciente, embora envolta em irracionalidade.

Espero que o país se acalme. Que a serenidade de Armstrong sirva de exemplo aos eleitos. Que a sensatez e a moderação que Moro viu em Messias guiem, como que por um milagre do Deus tão presente nessa eleição, a turba atiçada pelo ressentimento, pelo ódio e pelas paixões.

É isso ou a desorientação terminal dos anti-heróis de Sebastopol.
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quarta-feira, 7 de novembro de 2018

uma história esquisita em que não acontece nada

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Na Quatro cinco um deste mês, texto da Marcella Franco:









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Um No mapa, a cidade de Sebastopol se equilibra na ponta de uma península, abraçada pela Ucrânia, Rússia e Crimeia. Tem pouco mais de 300 mil habitantes, e já foi foco de disputa entre soviéticos e alemães nos anos 1940. Agora, Sebastopol dá nome à terceira publicação do escritor paulistano Emilio Fraia, que, pela primeira vez, assina um livro sozinho.

São três partes, com histórias aparentemente independentes e nomeadas com meses do ano. Lena, uma alpinista que sofre um acidente na descida de sua escalada ao Everest, em meados de 2012, é quem abre Sebastopol com “Dezembro”, narrando em primeira pessoa sua relação com o videomaker italiano Gino.

Por ter superado a amputação das pernas, depois de quinze cirurgias e um longo período sem conseguir se olhar no espelho, a atleta se transforma em uma palestrante de sucesso, o que ajuda, de certo modo, a aplacar seu isolamento social – Lena é uma mulher solitária, com poucos amigos, e uma mãe com câncer terminal.

Esta existência segregada parece ser o principal motivo que a leva a entregar não só ela própria, mas também suas valiosas memórias, aos cuidados de Gino, que ganha o poder de usá-las como bem entender. “Fiz o que as pessoas fazem o tempo todo. Contar as histórias, recontá-las, congelá-las, dar sentido a elas”, confessa a si mesma.

Chega “Maio”, e com ele vem Nilo, dono de um sítio onde funcionava uma pousada agora desativada. A exemplo de outros desavisados, o peruano Adán e sua mulher vão parar na propriedade, e, depois do pernoite improvisado, ela parte e ele permanece, estabelecendo uma relação com Nilo. Enquanto de um mal se sabe a história -- em uma tentativa de esquecer o passado, já há anos Nilo escondeu todas as fotografias em uma caixa no porão --, do outro se descobrem nós primitivos que envolvem exílios, sacrifícios e mortes.

É só quando desaparece que Adán, finalmente, ganha acesso às profundezas do amigo -- mas aí já é tarde demais. Enquanto esvazia a água da piscina logo na abertura do conto, o empregado Walter “sacode a cabeça e diz que aquilo não faz o menor sentido”.

“Agosto” é o conto e o mês de Klaus, um diretor de teatro que convida a jovem Nadia para criar uma peça que fala da vida de um famoso pintor russo, morador de uma cidade vizinha a Sebastopol, e que gostava de retratar soldados. A certa altura, enquanto planejam o roteiro do espetáculo, Nadia questiona o autor sobre a decisão de escrever sobre aquela figura.

“Você gosta das pinturas desse cara (...), mas é apenas uma história esquisita em que não acontece nada”, argumenta, enquanto Klaus responde que, no fundo, todas as histórias são esquisitas e também nada acontece. E esta reflexão, sobre o tênue limiar entre a banalidade e o relevante, permeia Sebastopol da primeira à última página, colocando o leitor na posição de advogado da importância dos relatos dos outros e da própria biografia.

Embora até apresentem reviravoltas, os contos de Fraia seguem sempre sem grandes sobressaltos, cultivando uma atmosfera ansiosa, que serve perfeitamente à ideia de envolver, mas sem que para isso sejam necessários quaisquer artifícios exceto o pleno domínio da linguagem e do manejo dos deslocamentos no tempo, bem como de uma cuidadosa narrativa descritiva.

Ao relatar sua vida pregressa, o peruano Adán traça um paralelo entre o papel das ondas como o elemento que serve para sacodir o mar e as tragédias, que vêm para sacodir a vida. Hábil como seu criador, o personagem sabe conduzir mais de uma trama ao mesmo tempo, e, como talvez Fraia também imagine, Adán pensa que “as histórias correm paralelas, sem nunca se encontrar”.

Contudo, ao menos em Sebastopol, as vidas se resvalam, sim, ainda que de modo sutil e quase misterioso. A intersecção pode estar na renúncia do self à qual todos os protagonistas se submetem, ou nas montanhas da escaladora Lena, que, segundo Nilo, são a tentativa humana de estar mais perto dos deuses, algo parecido com o que fazem o teatro e a pintura quando ousam retratar a guerra. Esteja onde estiver o cruzamento, sorte do leitor que se dispuser a galgar o universo de Fraia e tirar sua própria conclusão.
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domingo, 4 de novembro de 2018

nitidez impressionista

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Três leituras de Sebastopol:

“São três narrativas longas que se podem definir pelo paradoxo da ‘nitidez impressionista’: a lembrança fragmentada de um acidente terrível numa escalada do Everest, a busca de um desaparecido numa fazenda decadente e o projeto de uma peça de teatro malograda que une um velho diretor e uma jovem são histórias em que a notação realista precisa serve a um inacabamento de essência; o laço final de sentido sempre nos assombra e sempre nos escapa. Mais ou menos como o Brasil.”

Cristovão Tezza, na Folha

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"São três meses, três contos, três lugares, três ou mais personagens à deriva, três ou mais histórias que precisam ser contadas, três ou mais tempos que se confundem, iluminam-se e perdem-se. ‘Dezembro’ circula entre dois tempos que só na aparência são separados: antes e depois do acidente. A narradora lê a própria história numa história alheia e, para compreender o que há de verdade e de mentira no que vê e naquilo de que lembra, revisita o passado. Se tudo que recordamos, porém, é nublado, como saber qual tempo veio antes, que história foi de fato vivida?. ‘Maio’ insinua uma história, a de Nilo, e em seguida a troca por outra, a de Adán, para, no final, conciliá-las na idêntica tragédia, na idêntica paródia de desfecho incerto e derrota iminente. ‘Agosto’ é costurado pela voz de uma narradora que escreve uma história, participa da escrita de outra e, finalmente, tem que dar conta da vida que vive. Nenhuma escrita ou reescrita a resume e o futuro, tal qual o presente, é um tempo em suspensão. Sebastopol, nome do livro, é uma cidade no mapa, um porto feio, uma miragem, o lugar que deveria nos orientar, mas que não sabemos bem onde fica e qual relação temos ele. É assim com os personagens deste livro. Prosseguem em seus universos íntimos, que aos poucos se desagregam; miram o ponto a que querem chegar, mas, como todo destino, ele é esfumaçado e a memória não oferece maior proteção. Um belo livro, de escrita cuidada e construção delicada."

Julio Pimentel Pinto, Paisagens da crítica

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"A narradora de 'Agosto', último conto deste Sebastopol, está ajudando um diretor decadente a montar uma peça de teatro. Explicando o contexto de existência de Trúnov, pintor russo e objeto da peça, Klaus diz a ela que Sebastopol é um porto no Mar Negro, que por sua vez é como se fosse o ralo do mundo. Olhando numa espécie de quadro geral, talvez seja a melhor imagem para definir o novo livro de Emilio Fraia: escrever os ralos do mundo. Misturando realidade e ficção enquanto recorre a uma narrativa que acolhe, envolve e aperta, porém sem nunca deixar o leitor de fato ir, Emilio Fraia construiu em Sebastopol uma série de fotogramas literários. Como numa filmagem de velocidades distintas, os focos vão se alternando em fluxos nada aleatórios que amplificam zonas de desconforto. A impressão é que Sebastopol dialoga com as frestas. Sejam os travestis do Arouche ou os xerpas nos acampamentos nevados, esquadrinhar o mundo invisível a partir de protagonistas lacônicos é um trunfo. Aqui, ação quase sempre dá lugar à lentidão de personagens maleáveis que se potencializam no contexto em que estão inseridos. Lena, narradora de 'Dezembro', perdeu as pernas num acidente. Sua história se sobrepõe a um vídeo que revela mais do que deveria. Nilo, em 'Maio', está buscando Adán numa piscina no centro-oeste brasileiro. Desaparecido, o estrangeiro assume controle da história e eclipsa a dureza esperada no habitual homens-duros-fazendo-tarefas-duras. Por fim, a Nadia de 'Agosto' embarca numa jornada de autoconhecimento pelas fronteiras de São Paulo. Variando de intensidade, estas três histórias se cruzam no limite da experiência – física e intelectual – daquilo que é ser humano, quase como Fraia puxando o leitor e dizendo: não se preocupe, a coleira está comigo, eles não vão muito longe. Diante da impossibilidade de ajudar quem está condenado a somente existir, resta passear pelas páginas e aproveitar – ainda se fazem bons livros."

Mateus Baldi, Resenha de bolso
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sábado, 3 de novembro de 2018

dormir por anos, acordar de repente

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No Estado, texto da Maria Fernanda Rodrigues + quatro perguntas:







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Um livro de personagens em situações difíceis, de forasteiros, de gente deslocada e de terras estrangeiras e estranhas. Assim Emilio Fraia define Sebastopol, seu terceiro livro – e o primeiro que escreve sozinho – com lançamento nesta terça, 23.

Fraia estreou na literatura em 2008 com O Verão do Chibo, escrito com Vanessa Barbara. Pouco depois, em 2012, ele figurou na Granta – Os 20 Melhores Jovens Autores Brasileiros. Um ano mais tarde, lançou Campo em Branco, graphic novel assinada com DW Ribatski.

Sebastopol traz três contos independentes, mas com temas em comum. "Dezembro" é narrado por Lena, que queria se tornar a mais jovem mulher brasileira a “alcançar o cume dos montes mais altos de cada um dos sete continentes”, ela nos conta. Algo, claro, dá errado. "Maio" é narrado em terceira pessoa e retrata o encontro e o desencontro entre Nilo, dono de uma pousada desativada, e Adán, que pede abrigo no local. "Agosto" volta a ser narrado por uma mulher, Nadia, que deixa o emprego num museu para ajudar um dramaturgo decadente a escrever uma peça sobre um pintor russo enquanto ela mesma tenta escrever uma história.

São personagens às voltas com traumas, tentando dar conta da vida, recordando histórias que preferiam esquecer – que preferiam não ter vivido. Dor física e psíquica, o não dito, o que não está mais lá. “Este é um dos grandes temas: lidar com o invisível. O Roberto Piva dizia, citando o Lorca, que ele era um pulso ferido sondando as coisas do outro lado. Acho uma boa definição para a literatura”, diz Fraia.

Outra questão, comenta o autor, tem a ver com o jeito que contamos as histórias das nossas vidas – para nós mesmos e para os outros. “E como estas histórias tomam o lugar do acontecido, fazendo com que as fronteiras entre o que aconteceu e o que se conta fiquem borradas e, no limite, desapareçam.”

E há também, ressalta, uma desfiguração do tempo nas histórias. “Porque o trauma é uma espécie de tempo que não passa. Não existe um antes e depois. Há um clima melancólico, de falta de esperança, de histórias interrompidas e deixadas pelo caminho. Alguns episódios são apenas aludidos, e os personagens parecem ter dormido por anos e acordado de repente. Algo meio história de terror ou de uma aventura que não se realiza”, comenta.

Sebastopol, o título do livro, remete à maior cidade da Crimeia, palco de um dos mais sangrentos episódios da Guerra da Crimeia no século 19 e anexada à Rússia em 2014, que aparece como um postal no terceiro conto. É um nome estranho que combina com o livro, diz Fraia, que cita ainda obra de Tolstoi. “Contos de Sebastopol narra três momentos distintos desta guerra. Tolstoi esteve lá, viu tudo de perto. Uma história de gente mutilada e de resistência e, de certa forma, isso tem a ver com o livro – e com um sentimento que estamos experimentando agora no Brasil.”

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Como surgiram os contos do livro? O livro surgiu de uma vontade de escrever histórias que funcionassem por si só, cada uma com seu universo, mas que ao mesmo tempo quando colocadas lado a lado pudessem estar conectadas por relações sutis, por um andamento comum. Como se para além da voz da narração de cada um dos contos houvesse uma outra subjetividade, difusa, pairando sobre tudo, e isso criasse um efeito. Uma sensação de diferença (afinal, as histórias são independentes), mas também de proximidade (temas que voltam, um tom comum). Queria que o leitor chegasse ao final e pudesse repassar as histórias em busca destes pontos de contato. Por exemplo: no livro, há sempre alguém que conta, imagina, recorda. E a história contada, imaginada, inventada toma a frente e acaba funcionando como uma espécie de comentário à história principal -- e ao livro também. São histórias simples que começam a ficar complexas.

Por que Sebastopol? É um nome estranho, que combina com o livro. Eu nunca fui a esta cidade, nunca estive na Rússia -- também nunca fui ao Everest, que é onde se passa parte da primeira história. Sebastopol aparece como uma cidade num mapa, uma representação, como um lugar num daqueles jogos de tabuleiro tipo War. As montanhas do Everest surgem quase como um cenário de isopor e papelão. Tudo bastante artificial. Tem algo de irônico nessa escolha também, há muitos livros com nomes de cidades, Berlim, do Joseph Roth, Austerlitz, do Sebald, Budapeste, do Chico Buarque. Sebastopol é uma cidade portuária do Mar Negro, a maior da península da Crimeia. É uma cidade meio híbrida, ucraniana, que em 2014 foi anexada à Rússia. Foi palco na metade do século dezenove de um dos episódios mais sangrentos da Guerra da Crimeia. O primeiro livro do Tolstói, Contos de Sebastopol, narra três momentos desta guerra. O Tolstói esteve lá, viu tudo de perto. É uma história de gente mutilada, de resistência e, de certa forma, isso tem a ver com o livro -- e com um sentimento que estamos experimentando agora no Brasil.

Gino dizia que o que o interessava em suas filmagens era encontrar maneiras novas de mostrar o de sempre. Isso diz respeito também à literatura? Sim, mas a narradora está apaixonada por Gino, então qualquer frase que ele diga soa como algo muito sério e verdadeiro. Ele é uma figura meio pedante, dono de uma produtora, com aspirações artísticas. E a narradora está presa a este cara. Então acho que é verdade e mentira que precisamos encontrar maneiras novas de mostrar o de sempre. Penso nisso também como uma reflexão sobre algumas verdades que volta e meia surgem: é preciso escrever sem muitos advérbios, adjetivos são ruins, não se pode escrever de maneira bonita, é preciso encontrar maneiras novas de contar o de sempre. Tudo verdade. Tudo mentira.

Nadia diz que as pessoas contam sempre as mesmas histórias, mesmo quando tentam contar outras histórias. Adán, que contamos e repetimos as histórias porque temos medo delas, porque este é o nosso pedido de ajuda. Você concorda? Que história é essa que você está tentando contar? Nadia é a personagem mais jovem do livro. Ela está ajudando um diretor de teatro mais velho e meio decadente a escrever uma peça de teatro e ao mesmo tempo tentando escrever uma história dela e, finalmente, precisando dar conta da própria vida -- ela terminou um namoro, isso só se insinua na trama, mas ao mesmo tempo parece estar em tudo o que ela faz. No outro conto, Adán conta a Nilo sua história, seu passado como motorista de táxi em Lima, sua relação com o pai e com o filho. É uma história que ele não gosta de lembrar, mas parece que precisa contar e lembrar. Acho que uma possível questão do livro pode ter a ver com o jeito que contamos as histórias das nossas vidas -- para nós mesmos e para os outros. E como estas histórias tomam o lugar do acontecido, fazendo com que as fronteiras entre o que aconteceu e o que se conta fiquem borradas e, no limite, desapareçam.
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segunda-feira, 29 de outubro de 2018

velhos esqueletos

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Texto na revista Época da semana











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Na parte da cidade aonde não podíamos ir, descobriram o esqueleto do governador Geraldo Alckmin.

Isso foi o que ouvimos falar, o que se espalhou. Nenhum de nós pisava na zona proibida. Éramos muitos, e todos os dias, se corrêssemos feito almas penadas pela avenida dos Índios Mortos, chegávamos na hora da distribuição de comida e água.

Depois da guerra que se seguiu ao Dia da Revolução, o chamado Dia da Revolução, fomos divididos. O satélite de gerenciamento de batalhas cruza o céu. A guerra se arrasta há anos. Há um sentimento de que está emperrada, esgotada. Alguns acreditam que a guerra acabou, só decidiram nos manter ligados a ela através dos informes que não param de chegar. Outros, os Homens do Esgoto, falam baixo, pelos cantos, que a guerra na verdade nunca existiu, a não ser para nós, que ficamos presos aqui.

Na parte proibida, os que encontraram o esqueleto disseram que parecia ter sido mastigado. Clandestinamente, contrabandearam um osso, um osso do tornozelo do governador Geraldo Alckmin. Passamos de mão em mão. Era de um branco tão branco, uma cor que não existia; tínhamos certeza de que se tornaria escuro em minutos, porque os nossos dedos tremiam, eram sujos e mansos, como o rio Real, no interior do Piauí, forte Estado da Nação Soberana – repetir todos os dias, com a mão em riste na altura do peito.

O que nos contaram, a informação que nos foi levada nas sombras, é que havia um grupo que foi dizimado. Dele, fazia parte o governador Geraldo Alckmin. Pessoas que outrora tomavam banhos longuíssimos nas banheiras de louça chinesa de suas casas antigas do bairro alto. Homens que seguiam as regras. Sorrateiros, não havia nada fora das regras. Mas, nós ouvimos falar, as regras haviam sido também inventadas por eles. Quando tudo veio à tona, a raiva cresceu. Foi canalizada pela Nova Ordem, que prometeu louvar Deus e a Nação acima de todas as coisas, reestabelecer a ordem e, principalmente, atirar para matar.

É por isso que estamos aqui agora, de um lado para o outro, pela avenida dos Índios Mortos, atrás de água e comida. Ainda não entendemos muito bem. O governador Geraldo Alckmin – dizem os que viram seu esqueleto –, ele não esteve do nosso lado. Nem quando mais precisamos. Ficou em silêncio. Ele poderia nos salvar? Enxergaria o rio da história o governador Geraldo Alckmin? Não sabemos. No fim, acabou como um montículo de ossos à beira do caminho. Ele e seu grupo. Acabaremos todos, é verdade. Mas poderia ter sido diferente? Os Homens do Esgoto, contempladores do fogo e das estrelas, repetem em surdina: acabaremos todos.

Espirais de tempestades, oceanos brilhantes, caldeiras vulcânicas, fótons, mésons. Olhamos as nuvens se formando, partículas carregadas. Examinamos nosso kit de mapas. As emoções mudaram. Nossa visão está mudando neste exato momento, e projetamos nosso fracasso e desespero. Será que projetamos nosso desespero de agora na madrugada infinita?

Esta noite, dormiremos abraçados ao esqueleto do governador Geraldo Alckmin. Nos sonhos, receberemos sua alma. Ela é doce e vem trazer a notícia de que na América Latina mais um general maquina um golpe. Quando acordarmos, um de nós tomará nas mãos uma pedra e com ela quebrará o osso do tornozelo do governador Geraldo Alckmin. O osso será espatifado. Ficará apenas o pó branco grudado na terra suja. Estávamos em busca de comida, vamos dizer. Dentro do osso, pode haver alguma coisa, afinal. Água, talvez. Mas não haverá nada.

Viramos as chaves. Fazemos a contagem regressiva. No alto-falante, uma voz diz: Agora vocês estão em modo de disparo. Ficamos esperando. Nenhuma outra ordem é dada. Acabamos cansados. Sob a pele da treva, nada cresce, dizem as vozes sorrateiras, todas elas, esta noite, penduradas no esqueleto do governador Geraldo Alckmin.
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quinta-feira, 25 de outubro de 2018

tempo que não passa

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Na Folha de S.Paulo, texto do João Perassolo:







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“Percebi que Klaus era uma pessoa sozinha. Ele não tinha dinheiro nem amigos e não podia contar com muita gente. Dizia que um dia ainda seria morto por um michê. Falava que, como eu gostava de escrever, então agora eu teria uma missão: a de escrever o seu obituário quando ele morresse”, relata Nadia, a certa altura do conto “Agosto”.

Ela é uma das personagens levemente tristes de Sebastopol, livro de contos de Emilio Fraia que será lançado nesta terça (23), na livraria Tapera Taperá, em São Paulo.

Nadia é uma arte-educadora que acaba de pedir demissão do museu no qual trabalhava para se dedicar ao teatro e à sua paixão por escrever; Klaus, um diretor de teatro sessentão com “um aspecto de penúria geral”, informa o narrador da história. No decorrer das páginas, o encontro dos dois vai gerar uma peça de teatro sobre um pintor que retratava os soldados da batalha de Sebastopol, na Rússia, em situações melancólicas: nos intervalos dos combates e em momentos de ócio.

“O livro tem uma leve melancolia, um humor trágico, embora não seja dramático. É como o riso que você dá em situações tristes”, compara Fraia. Para o escritor, Sebastopol é sobre “como contamos as nossas histórias para a gente e para os outros”.

Nos três contos que compõem o terceiro livro do paulistano — sua estreia solo após o romance O verão do Chibo, em coautoria com Vanessa Barbara, e da graphic novel Campo em branco, em colaboração com DW Ribatski —, a narrativa está sempre associada a tragédias pessoais dos personagens.

No primeiro conto, “Dezembro”, uma jovem escaladora tenta reconstruir a vida após perder as pernas na descida do monte Everest.

No segundo, “Maio”, o proprietário de uma pousada decadente à beira da estrada vê seu negócio ameaçado pela próspera plantação de eucaliptos situada na propriedade vizinha. No último, “Agosto”, a peça de teatro de Nadia e Klaus é repleta de atuações ruins e acaba sendo um fracasso de público.

O autor usa o conceito de trauma para descrever os personagens do livro, que ruminam sobre como suas atitudes passadas os trouxeram até um presente relativamente morto, não promissor. “É um tempo que não passa, não existe antes e depois”, afirma Fraia.

Há também mais um elemento que interliga as histórias: o andamento.

O narrador parece ser o mesmo em todos os contos, imprimindo um ritmo comum a três narrativas completamente diferentes. As frases são sóbrias e quase sempre curtas, sem malabarismos de sintaxe ou vocabulário complicado; os diálogos estão inseridos no texto, e não destacados por aspas, emprestando fluidez à leitura.

Fraia, eleito um dos melhores jovens autores brasileiros pela revista Granta, em 2012, conta que a ideia para Sebastopol surgiu há dez anos, mas que só colocou as palavras no papel nos últimos dois. O período de escrita coincidiu com o cenário de crise política e econômica no Brasil, mas, apesar disso, ele diz que inserir o “real” de forma direta nas suas histórias não estava necessariamente nos planos. Ele vê sua literatura “não como um espelho, mas sim como um comentário” do mundo lá fora.
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quarta-feira, 24 de outubro de 2018

histórias dentro de histórias

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Embora apresentem enredos totalmente distintos, os três contos que constituem Sebastopol, de Emilio Fraia, estabelecem um sentido de unidade através da maneira como são estruturados. Em seu primeiro livro solo (Fraia já publicou o romance O verão do Chibo, escrito com Vanessa Barbara, e a HQ Campo em branco, ilustrada por DW Ribatski), o autor paulistano articula sua escrita a partir de níveis e desníveis, alternando linhas narrativas e temporais, de modo que a forma breve adquira o aspecto e a densidade do romance.

É uma técnica que demanda domínio e criatividade, e Fraia se sai muito bem, por trabalhar em duas frentes: a manutenção permanente da tensão e a mecânica do mistério. Seus textos guardam segredos que, diante de um andamento compassado, de frases precisas e bem ordenadas, surgem com alto poder de surpresa, em função de estarem em camadas profundas, feito histórias que se encontram dentro de histórias.

O primeiro conto, “Dezembro”, é narrado por Lena, uma alpinista cujo projeto era ser a brasileira mais jovem a chegar ao topo dos montes mais altos do planeta, até se acidentar na subida do Everest. Anos depois, ela se depara com um vídeo exibido numa exposição que parece contar sua história, e é arremessada de volta ao passado. Um período que envolve não apenas seus dias de escalada, mas toda uma construção afetiva e identitária que parecia apagada.

A tessitura se conforma no entrelaçamento de fios de memórias, que vão conduzir a personagem a repassar momentos que não tem certeza se viveu ou se foram sacados involuntariamente do filme, no trânsito por um terreno movediço que pode resultar em (auto)descobertas dolorosas ou conceder uma ilusão reconfortante.

Fraia lança mão de uma ambiguidade que ativa possibilidades discursivas, movimentos de fala nos quais seus narradores avançam por caminhos que, supostamente, parecem sem saída, mas que são acessos secretos para desvendar suas relações interpessoais e com o próprio mundo. Não é raro também servirem para introduzir e acompanhar outros agentes da trama, saindo do que era considerado o eixo central para, adiante, retomar esse mesmo ponto e redirecioná-lo.

É o caso de “Maio”, o segundo conto, ambientado numa decadente pousada rural, na qual Nilo, o dono, e um empregado esvaziam uma piscina à procura de um cadáver. À medida que a narrativa recua, sabe-se que um casal se hospedou ali faz pouco tempo. Que a mulher foi embora e o homem ficou, até sumir.

O enigma é posto, a princípio, como um elemento de conjunção entre presente e passado, para, aos poucos, tomar as rédeas do texto e transformar a história inicial, que deveria se desenhar nos desdobramentos do caso, na contemplação desse homem desaparecido, suas escolhas, uma biografia quase acidental.

O autor traz esse mesmo mecanismo para o último conto, “Agosto”, no qual uma aprendiz e um fracassado diretor de teatro se unem para escrever uma peça passada durante o cerco à cidade russa de Sebastopol, nos anos 1800, tendo como protagonista o pintor Bogdan Trúnov. Três linhas narrativas se cruzam: a história em curso, a biografia de Trúnov e os acontecimentos da peça. Embora seja o conto mais fechado em si, é aquele que ilustra o conceito do livro de se engendrar por meio de uma multiplicidade de segmentos que se confluem quando uma experiência decisiva muda a visão de mundo de um personagem.

Dos argumentos usados para depreciar o conto, há aquele de que o gênero não tem a mesma força do romance. Sebastopol desmonta esse equívoco, ao dar forma a narrativas que conseguem oferecer um intenso grau de imersão e alcançar a propriedade magnética inerentes às grandes obras romanescas.
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segunda-feira, 8 de outubro de 2018

este mês

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Lançamento em São Paulo, dia 23 de outubro, a partir das 19h30.
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sábado, 29 de setembro de 2018

eu direi as palavras mais terríveis esta noite

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"Esse é tempo de partido,/ tempo de homens partidos./ Em vão percorremos volumes,/ viajamos e nos colorimos./ A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua./ Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos./ As leis não bastam. Os lírios não nascem/ da lei. Meu nome é tumulto, e escreve-se/ na pedra./ Visito os fatos, não te encontro./ Onde te ocultas, precária síntese,/ penhor de meu sono, luz/ dormindo acesa na varanda?/ Miúdas certezas de empréstimos, nenhum beijo/ sobe ao ombro para contar-me/ a cidade dos homens completos./ Calo-me, espero, decifro./ As coisas talvez melhorem./ São tão fortes as coisas!/ Mas eu não sou as coisas e me revolto./ Tenho palavras em mim buscando canal,/ são roucas e duras,/ irritadas, enérgicas,/ comprimidas há tanto tempo,/ perderam o sentido, apenas querem explodir./ Esse é tempo de divisas,/ tempo de gente cortada./ De mãos viajando sem braços,/ obscenos gestos avulsos./ Mudou-se a rua da infância./ E o vestido vermelho/ vermelho/ cobre a nudez do amor,/ ao relento, no vale./ Símbolos obscuros se multiplicam./ Guerra, verdade, flores?/ Dos laboratórios platônicos mobilizados/ vem um sopro que cresta as faces/ e dissipa, na praia, as palavras./ A escuridão estende-se mas não elimina/ o sucedâneo da estrela nas mãos./ Certas partes de nós como brilham! São unhas,/ anéis, pérolas, cigarros, lanternas,/ são partes mais íntimas,/ e pulsação, o ofego,/ e o ar da noite é o estritamente necessário/ para continuar, e continuamos." 

"Nosso Tempo", Drummond, A rosa do povo, 1945

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"Eu direi as palavras mais terríveis esta noite/ enquanto os ponteiros se dissolvem/ contra o meu poder/ contra o meu amor/ no sobressalto da minha mente/ meus olhos dançam/ no alto da Lapa os mosquitos me sufocam/ que me importa saber se as mulheres são/ férteis se Deus caiu no mar se/ Kierkegaard pede socorro numa montanha/ da Dinamarca?/ os telefones gritam/ isoladas criaturas caem no nada/ os órgãos de carne falam morte/ morte doce carnaval de rua do/ fim do mundo/ eu não quero elegias mas sim os lírios/ de ferro dos recintos/ há uma epopéia nas roupas penduradas contra/ o céu cinza/ e os luminosos me fitam do espaço alucinado/ quantos lindos garotos eu não vi sob esta luz?/ eu urrava meio louco meio estarrado meio fendido/ narcóticos santos ó gato azul da minha mente!/ eu não posso deter nunca mais meus Delírios/ Oh Antonin Artaud/ Oh Garcia Lorca/ com seus olhos de aborto reduzidos/ a retratos/ almas/ almas/ como icebergs/ como velas/ como manequins mecânicos/ e o clímax fraudulento dos sanduíches almoços/ sorvetes controles ansiedades/ eu preciso cortar os cabelos da minha alma/ eu preciso tomar colheradas de/ Morte Absoluta/ eu não enxergo mais nada/ meu crânio diz que estou embriagado/ suplícios genuflexões neuroses/ psicanalistas espetando meu pobre/ esqueleto em férias/ eu apertava uma árvore contra meu peito/ como se fosse um anjo/ meus amores começam crescer/ passam cadillacs sem sangue os helicópteros/ mugem/ minha alma minha canção bolsos abertos/ da minha mente/ eu sou uma alucinação na ponta de teus olhos."

"Meteoro", Roberto Piva, Paranoia, 1963
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quarta-feira, 12 de setembro de 2018

conto russo

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Livro novo, em outubro, capa da Elaine Ramos.
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sábado, 8 de setembro de 2018

um, dois, três

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Jeff WallPicture for Women, 1979
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domingo, 19 de agosto de 2018

porque algo nos passou

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Uma mulher está
deitada
na rede lendo um livro
na verdade, os olhos dela
pairam em algum lugar
à frente, acima, fora do livro

ela estava lendo até
bem pouco tempo atrás e
agora provavelmente
reflete
sobre o que leu,
isso acontece com frequência,
eu digo, estamos lendo
e então desviamos os olhos
para além da página,
porque algo nos passou

ou porque lembramos
de algo que aconteceu
conosco,
ou nos comparamos
à heroína e pensamos
no ar misterioso
do personagem que pegou
o trem para Girona,
ou no porquê de o homem que
atravessa as piscinas
ter aceitado mais um drinque

mas o que a impressionava
não era por exemplo
que alguém fosse morto
mas que no momento da morte
estivesse tentando
acender um cigarro
e que este cigarro
lhe escapasse por entre os dedos
e que a última coisa
no mundo
em que estivesse pensando
fosse na morte

é por isso que
de tempos em tempos nós vamos
e ela desvia para fora do livro
a comparação entre
o rosto
e a cara de uma estátua
que dorme de olhos fechados
debaixo da chuva
é mesmo uma coisa maluca,
ela diz, e agora quer
ir até o fim.

Poema sobre livro para o "Livro Livro", da Feira Plana,
organizado pela Bia Bittencourt, 2017
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