terça-feira, 26 de junho de 2007

sebastopol

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Eu me virava, sonolenta, procurando os comprimidos. Da varanda, na poltrona de palha, nenhuma luz, nem dos barcos, nada, só o clarão da sala, as risadas, os meninos jogando tranca. A dor começou há três semanas. Acordei o Digo no meio da noite, estávamos no sítio, e disse que achava melhor a gente voltar. Ele ficou aborrecido (não conseguiu disfarçar), tinha reservado o sábado pra fazer de bicicleta a trilha do morro, e agora isso. Colocamos as malas no carro e saímos. Na estrada, ele me mandava relaxar, dizia que no fundo aquilo era minha culpa: você precisa se alimentar melhor, praticar ioga, fazer do corpo um instrumento para expansão da alma etc. Ligou o som e procurava um CD quando uma mancha escura se acendeu no pára-brisa; dei um grito e ele freou (cobri o rosto), o carro travou as rodas e se arrastou até parar, a dois palmos do bicho, que nos encarava, os olhos fundos. As crinas. Um relincho e os cascos; o cavalo retomou o passo, lento — e sumiu.

O resto da viagem foi tenso, como se muita coisa tivesse acontecido depressa demais. Quando entramos na cidade, os olhos fundos do bicho ainda voltavam, um par de túneis sob um viaduto, a madrugada de São Paulo: fui internada com uma infecção no rim. Precisei operar e dois dias depois, por causa de complicações, sofri outra cirurgia. Passei uma semana triste, no apartamento, sem poder andar, até que a Mari teve a idéia de reunir os amigos na casa da praia. Disse que seria bom pra mim, o verão está chegando, as noites têm um vento doce.

Os outros acordam perto das dez. O Digo, basta o sol entrar, ele se mexe, não consegue ficar na cama. Levanta, põe a bermuda e sai pro mar. Enrolada no lençol, eu tento me espreguiçar, mas a cicatriz estica, como se me abrisse um buraco. Tomo um chá, caminho até a varanda e a casa vai ficando vazia. A Lóli e a Ju acenam da escadinha; a Mari passa de biquíni, óculos escuros, levando uma toalha. O pai da Mari é arquiteto. Foi ele quem projetou a casa — o jardim na frente, com uma árvore grande, as samambaias, os canteiros bem-cuidados. A varanda é de tábuas brancas, metodicamente descascadas. Tudo o que parece casual, aqui, é resultado de minuciosas operações: o ar de velho dos móveis, a ferrugem dos remos que decoram a entrada, as lâmpadas sem lustre. Passo a tarde na poltrona de palha, olhando o jardim, tentando ler (um livro sem graça que a Lóli disse que era o máximo, sobre a importância do sono para uma vida feliz) e penso que no mar, lá na frente, nunca acontece nada — quando muito, barcos, mulheres gordas, os catadores de marisco. As ondas são todas iguais, nem fracas nem fortes. Me programo pra não esquecer o horário dos antibióticos, os comprimidos pra febre, mas quase sempre me distraio e o alarme do celular vem me encontrar sozinha num parque, às quatro da manhã, depois de me despedir do Digo e das meninas, me sentindo protegida da vida que tinha nos escolhido e que talvez pudesse ser outra. Mas que não seria. Os bares, o parque à noite. Chegava uma hora que isso tudo envelhecia também.

Lá pelas três, o Cao entra — é assim todos os dias, desde que chegamos — e começa a preparar o almoço. Ele some pra cozinha, depois volta (trazendo os copos), some, depois volta (a pilha de pratos). Quando eu penso “garfo”, ele surge com um pote de açúcar. Os olhos fechados, eu me concentro: “guardanapo, salada de tomate”, e a mesa da varanda se cobre de pão, colher, jarra de suco. Eu nunca adivinho (salmão com gengibre, me diz o Cao), e os outros começam a chegar. Primeiro o Alê, que estende a bermuda numa pedra, depois a Lóli, com o biquíni de zebrinha, segurando os chinelos cor-de-rosa, morta de fome. Os dois se revezam na ducha do jardim, rindo, falando alto — que o mar estava ótimo, que as gaivotas ficam na parte deserta, do outro lado, que a Mari era louca, ficar torrando daquele jeito, naquele sol, que a ducha está quente, que a ducha está fria, que lá na ponta, no costão, o Pedro tinha juntado um monte de tralhas. O Digo encostou, com o maior cuidado, a prancha num canto; a última a chegar foi a Mari. Largou no degrau as raquetes de sebastopol e pediu pro Alê passar hidratante nos ombros dela. Só faltava o Pedro. Um monte de fios, tábuas. Lataria velha, de máquina de lavar. Umas roldanas — a fome cresceu e resolvemos começar sem ele. Ninguém sabia explicar.

O Alê disse que de longe aquele amontoado de ferro-velho parecia uma torre, um negócio alto mesmo. “Ele trouxe tudo do terreno baldio que fica perto da estradinha”, falou. A Lóli jurava que tinha visto uma panela. A Mari e a Ju tinham ficado do lado de cá, tomando sol (o rosto escondido entre os cotovelos), e não sabiam de nada, não tinham visto ninguém. Bem cedo, o Cao foi visitar um amigo que trabalhava na cozinha do Bucaneiro Inglês, lá nas pedras. No caminho, viu o Pedro agachado, na frente das tralhas — latas de tinta vazias, enferrujadas, vigas de madeira. “Ele olhou pra mim daquele jeito dele, nunca dá pra saber quando o Pedro tá brincando ou não.” A Lóli jurava: vi uma panela. O Alê, com a boca cheia de melancia, perguntou se não era melhor a gente ir até a praia, ver a coisa de perto. A Mari e a Ju se entreolharam, o Cao bocejou.

Passei o resto da tarde pensando naquilo: as quinquilharias na praia, os fios ligando a areia e o alto da torre, cabos de transmissão, muros de lata. Sozinha (os outros tinham entrado, estavam dormindo), eu quase podia ver o amontoado de tralhas. Imaginava o Pedro no meio das carcaças, concentrado no menor dos barulhos, a ameaça de um caranguejo, o desenho das gaivotas. Se as pontadas fossem um pouquinho mais fracas, se a dor não incomodasse tanto... Pensei em levantar, atravessar o jardim, ir até a praia. De longe, a fortaleza grosseira se reduziria a uma velha caixa de ferramentas. Mas eu poderia acenar, um aceno breve. Olhei o céu. O vento tinha mudado e as nuvens pendiam escuras, chegavam com as náuseas, o frio, a testa úmida, um breu de tentáculos, peixes, arraias sangrentas. O corte não estava completamente fechado e de tempos em tempos afundava em uma mistura de sangue e água turva. Cortei a gaze, as fitas adesivas. A primeira pancada de chuva sacudiu as vidraças. No branco do curativo eu via o Pedro, entrincheirado, se apoiando nas ripas de ferro, a água entrando pelos sapatos. O abrigo tremendo.

Gritei o nome do Digo — o quarto fica bem atrás da varanda. Gritei de novo, mais uma vez. Ele apareceu na porta, esfregando o rosto, com cara de sono. O Pedro ainda não chegou, eu disse, já é tarde. O Digo sentou, olhou pro jardim: “Ele deve ter parado no bar do meio, deve estar esperando a chuva passar.” Caía um temporal. Os trovões apagavam o mar, colocavam as ondas numa caixinha de música, dentro de um bolso, dentro de um capote. Tem razão, pensei, o Pedro deve estar no bar do meio, esperando a chuva passar, só isso. Brilharam relâmpagos verdes e frios, claros demais. Na mesa, o Digo cortava o baralho, tirava uma carta de cima, outra de baixo, embaralhava, tirava uma carta de cima, outra de baixo, sem vontade. Passava das oito e ficamos assim não sei por quanto tempo, carta de cima, carta de baixo, em silêncio, esquecidos um do outro, o Digo e as cartas, eu e a noite do jardim, ouvindo a água descer pela calha, bater no telhado. Pensei que o repelente estava no fim e que talvez fosse prudente comprar outro, que o Cao tinha prometido preparar arroz com mariscos, que minhas unhas estavam horríveis, que quando isso tudo acabasse, eu me internaria num spa, com cremes, banhos, massagens.

Até que o barulho veio enorme, inesperado, descomunal.

A casa tremeu. Na poltrona, enroscada num calafrio, tentando escapar, vi as cartas caírem e o Digo de pé, congelado, olhando pra cima; o céu banhado em fogo. Os outros chegaram correndo, escorregando. Ficamos ali, como se uma onda gigante tivesse nos engolido. Na praia, a chuva pateava, dura e lamacenta, ouvíamos um comboio barulhento de vozes, cascos, ordens numa língua estranha. As nuvens flamejaram — depois, as explosões. Aviões cortaram o céu, descarregando luzes sobre as montanhas. Na água, um clarão de faróis. A Mari começou a chorar, correu e nos abraçamos num canto. Do meio do jardim, uma sombra avançou, trêmula, ofegava e se arrastava, quase sem forças. É o Pedro!, gritou a Lóli, é o Pedro! Ele mancava, o sangue sujo escorrendo pela cabeça. Gemia e sangrava. Não dizia nada, tinha as roupas esfarrapadas, a boca e os olhos pendiam moles. Atrás dele, os homens a cavalo abriam caminho pisoteando os canteiros.

(Conto publicado na piauí de junho)
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